Por Solon Saldanha *
Em meio a uma inflação galopante que corrói o poder de compra e restringe o acesso à tradicional proteína bovina, consumidores argentinos buscam alternativas mais acessíveis, como a carne de burro, para garantir a alimentação básica sob a gestão de Javier Milei.
O cenário econômico severo da Argentina, caracterizado por uma das maiores taxas de inflação do mundo, está forçando uma mudança drástica na dieta de sua população. O mercado agropecuário do país registrou, recentemente, uma procura atípica e crescente pela carne de burro, um item antes marginalizado na mesa dos argentinos, mas que agora ganha espaço devido ao seu custo reduzido em comparação aos cortes bovinos tradicionais.
O fator preço e a regulamentação regional
A disparidade de preços é o principal motor dessa transição. Enquanto o quilo da carne de burro é comercializado por aproximadamente 7,5 mil pesos (cerca de R$ 27,28), a carne bovina de boa qualidade já ultrapassa a marca de 25 mil pesos (aproximadamente R$ 90,00) em diversos pontos de venda. Essa diferença de quase 70% no valor final torna a proteína de equídeos a única opção viável para famílias que viram seu orçamento ser devastado pelo aumento do custo de vida.
A viabilização comercial desse produto recebeu um respaldo institucional recente. O Ministério da Produção de Chubut, província localizada na região da Patagônia, autorizou formalmente a venda da carne de burro, estabelecendo normas para sua inserção no mercado. A medida visa tanto oferecer uma alternativa nutricional de baixo custo quanto regulamentar um comércio que já começava a ocorrer de forma informal diante do desespero das camadas mais vulneráveis.
Impacto no varejo e indicadores de crise
Em Buenos Aires, o impacto da crise nas gôndolas é visível. Gonzalo Moreira, proprietário de um açougue na capital argentina, relatou em entrevista à Rádio 750 que a comercialização de cortes bovinos sofreu uma retração de 20%. Segundo o comerciante, a clientela não apenas reduziu a quantidade comprada, mas migrou para opções de menor valor agregado, refletindo uma pressão inflacionária que não dá sinais de trégua.
De acordo com dados oficiais do Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec), o Índice de Preços ao Consumidor (IPC) apresentou uma alta de 3,4% apenas no mês de março. Embora o governo de Javier Milei tente implementar medidas de austeridade para estabilizar a macroeconomia, o acumulado inflacionário de 12 meses, que chega a 32,6% (em dados setoriais específicos e em rápida atualização), demonstra a dificuldade de controle dos preços internos.
A carne de burro, embora historicamente utilizada na produção de embutidos como o salame, passa agora a ser preparada como prato principal. Especialistas em economia doméstica apontam que o fenômeno é um “indicador de crise extrema”, assemelhando-se a períodos históricos anteriores de colapso financeiro no país, onde o consumo de proteínas alternativas se tornou uma estratégia de sobrevivência.
* Solon Saldanha, jornalista e escritor
Foto: Carne de burro à venda em açougue argentino. Crédito: reprodução Boca do Rio





Uma resposta
Outro extremista insano. Javier prejudica o povo sem o menor constrangimento. O povo, que votou mal, está agora pagando o preço de seu voto.