Artigo

Lula acerta na economia?

Destaque

Lula acerta na economia?
RED

De PAULO NOGUEIRA BATISTA JR* Nas primeiras semanas de governo, o Presidente da República agiu com rapidez na área econômica. Autorizou diversas medidas e emitiu opiniões sobre a política econômica, dando sequência ao que fez na campanha eleitoral. Se ele vem acertando ou não, é objeto de intensa controvérsia. A ortodoxia econômica, inclusive e destacadamente a turma da bufunfa e seus numerosos porta-vozes na mídia, parece cada vez mais inquieta. Esperavam um Lula mais dócil, mais parecido com o Lula 1 do tempo da dupla Antônio Palocci/Henrique Meirelles – período em que os economistas desenvolvimentistas, por sua vez, estavam furiosos, criticando publicamente o governo. Eu mesmo mandava ver, até com certo exagero, diria em retrospecto. O Lula 3 se configura agora como independente e assertivo na área econômica, e mesmo mais do que o Lula 2, do período Guido Mantega, que já causava certos arrepios. O barulho é atualmente bem intenso. Fazer o quê? A insatisfação nas hostes mercadistas deve ser enfrentada com paciência e tranquilidade. Com diálogo e medidas consistentes, essas reações talvez possam ser mitigadas. Não acredito muito, confesso, mas manifesto a esperança. Se fosse economista, o Lula atual seria um desenvolvimentista, keynesiano e heterodoxo. Não é à toa que a turma da bufunfa dá “arrancos triunfais de cachorro atropelado”, como diria Nelson Rodrigues. Não sendo economista, é natural que o Presidente dê escorregões quando entra na seara econômica com mais especificidade. Trato de alguns deles na sequência. No fundamental, porém, ele está acertando. A controvérsia suscitada pelos primeiros passos do governo é vasta. Vou tratar apenas de certas questões relacionadas ao Banco Central (BC), à política monetária e à política fiscal. Causou celeuma, por exemplo, a opinião do Presidente sobre a sacrossanta autonomia do Banco Central. Lula lembrou que no Brasil “se brigou muito para ter um BC independente”, mas que, com sua experiência, pode dizer que é “uma bobagem achar que um BC independente vai fazer mais do que do que quando era o Presidente da República quem indicava”. E acrescentou: “Duvido que o atual presidente do BC seja mais independente do que foi Meirelles’’, observando ainda que o BC, embora independente, não tem cumprido as metas de inflação nos anos recentes. Está certo o Presidente? Basicamente, sim, ainda que não em alguns pontos mais específicos. O BC brasileiro se tornou autônomo, não independente. Na literatura acadêmica – que presidente nenhum tem obrigação de conhecer – “independente” é o BC que fixa as próprias metas de inflação; “autônomo” o que busca as metas fixadas pelo governo. No Brasil, é o Conselho Monetário Nacional (CMN) que fixa as metas e o intervalo em torno do centro das metas. Mas isso é, em parte ficção, o que dá razão a Lula. A influência do BC no CMN é grande, pois tem um dos três votos e exerce a secretaria. Na prática, o BC fixa as metas para si mesmo, pelo menos em certos períodos. Já escrevi sobre isso (Conselho Monetário e Banco Central – uma revisão necessária, 30 de maio de 2022). Agora, pelo que sei, o CMN será integrado pelo ministro Fernando Haddad, que o preside, pela ministra Simone Tebet e pelo presidente do BC, Roberto Campos Neto. Admitindo-se que a Tebet siga uma linha mais conservadora, Haddad será minoria no CMN. E o BC talvez tenha condições, na prática, de continuar fixando as próprias metas. Outro ponto é que, diferentemente do que sugere a fala de Lula, o presidente e os diretores do BC continuam sendo indicados pelo Presidente da República. O que mudou? Com a lei de autonomia, aprovada durante o governo Bolsonaro, o comando da autoridade monetária tem mandatos fixos, não coincidentes com o do Presidente da República. Lula sabe disso, com certeza. O que ele quis dizer? A meu juízo, que o atual presidente do BC não será mais independente do que foi Henrique Meirelles, presidente do BC durante o Lula 1 e o Lula 2. Lei de autonomia ou não, Roberto Campos Neto terá de coordenar a política monetária com a política fiscal e outros aspectos da política econômica, como ocorre, aliás, em todos ou quase todos os países. Espero que isso aconteça realmente. Veremos. Lula declarou, ainda, que uma meta de inflação excessivamente ambiciosa atrapalha o crescimento econômico. “Por que não estabelecer 4,5%, como fizemos nos meus mandatos anteriores?”, indagou. A controvérsia a esse respeito é internacional e ocorre também nos países desenvolvidos, onde também se questiona se os bancos centrais não fixaram metas de inflação excessivamente ambiciosas. A opinião do Presidente da República é defensável – conta com apoio de muitos especialistas tanto aqui como no exterior. No Brasil, as metas atuais são de 3,25% para 2023 e de 3% para 2024. Este é o centro das metas, que têm um intervalo de 1,5 ponto percentual para cima e para baixo em torno desse centro. Seria perfeitamente razoável, na próxima ocasião em que o CMN se reunir para tratar do tema, aumentar um pouco o centro da meta de 2024 e 2025, digamos para 3,25% e o intervalo para 2 pontos percentuais. O teto da meta ficaria assim em 5,25%. Um ajuste minimalista que, entretanto, reduziria a pressão para que o BC mantivesse juros altos demais, prejudicando o crescimento, o emprego e as finanças públicas. Repare, leitor(a), que a taxa básica de juro fixada pelo BC afeta as finanças públicas direta e indiretamente, por pelo menos dois canais: diretamente, via custo da dívida pública interna; indiretamente, via produto e emprego. No campo fiscal, o governo Lula tem tomado decisões importantes. Destaco duas. Primeira: no conjunto de iniciativas fiscais anunciadas pelo ministro Fernando Haddad em janeiro, foram propostas, por Medida Provisória, mudanças o âmbito do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF), que corrigem distorções gritantes. A mudança mais significativa foi a volta do chamado voto de qualidade, isto é, voto de desempate da União. Durante o governo Bolsonaro, havia sido aprovada no Congresso uma medida que suprimia o voto de qualidade e dava ganho de causa ao contribuinte em caso de empate no CARF. Num Conselho paritário, com número igual de membros da Fazenda e dos contribuintes, essa medida vinha levando a derrotas sucessivas da União. A Medida Provisória de Haddad suscitou protestos das grandes empresas e dos advogados tributaristas que ganham fortunas defendendo essas empresas. Bom sinal? Ou ótimo? Segunda decisão: a manobra inteligente e habilidosa de eliminar o famigerado teto de gastos, criado no governo Temer, já na PEC de transição. Ficou estabelecido que nova regra ou âncora fiscal, definida em lei complementar, substituirá o teto constitucional de gastos. Ponto. De 2024 em diante, o teto Temer deixa de existir. Um drible sensacional, daqueles de deixar o adversário no chão. Em resumo, Lula está batendo um bolão como economista. *Economista, foi vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento, estabelecido pelos BRICS em Xangai, de 2015 a 2017, e diretor executivo no FMI pelo Brasil e mais dez países em Washington, de 2007 a 2015. Lançou no final de 2019, pela editora LeYa, o livro O Brasil não cabe no quintal de ninguém: bastidores da vida de um economista brasileiro no FMI e nos BRICS e outros textos sobre nacionalismo e nosso complexo de vira-lata. A segunda edição, atualizada e ampliada, começou a circular em março de 2021. Uma versão resumida deste artigo foi publicada na revista Carta Capital. Imagem em Pixabay. As opiniões emitidas nos artigos expressam o pensamento de seus autores e não necessariamente a posição editorial da Rede Estação Democracia.

Artigo

Os esquecidos da luta ambiental

Destaque

Os esquecidos da luta ambiental
RED

De ADELI SELL* Como não se lembrar da bióloga Maria do Carmo Conceição Sanchotene? Pois então, todos os que trabalharam com ela ou privaram de sua convivência jamais vão esquecê-la. Mas quem sabe que foi ela quem articulou o Plano de Arborização da capital? Que ajudou a criar a Sociedade Brasileira de Arborização Urbana? Ela faleceu em 2021. Sua família doou centenas de livros para a Biblioteca da Secretaria do Meio Ambiente da PMPA, que o governo queria fechar. Vamos ter em breve uma Memória de sua vida e de sua luta para publicar. Há quase uma década a capital, a luta ambiental e a Sustentabilidade perdia Augusto Cesar Cunha Carneiro, fundador da Agapan com José Lutzemberger e outros. Como não sentir a sua falta na Feira Ecológica do Bom Fim vendendo livros, falando com as pessoas, incentivando a preservação ambiental? Merece como Maria do Carmo uma biografia. E a Maga Renner, nora de A.J.Renner, fundador da famosa Renner, integrante de um grupo chamado de Ação Democrática Feminina Gaúcha (ADFG), que articulava mulheres conservadoras e de direita? Sua luta ambiental foi essencial para que chegássemos aonde chegamos. E Giselda Esconsteguy Castro? Estão aí seu filho e neto, advogados trabalhistas de renome, para lembrar a história da mãe e avó. E Hilda Zimmermann? Este trio merece um estudo mais aprofundado. E Flávio Lewgoy? Como esquecer-se dele com José Lutzemberger na luta contra os problemas causados pela Borregard? A inauguração do Mural Lutz no prédio do Ipê, na Avenida Borges de Medeiros, mexeu com os antigos e deve mexer pela beleza e simbologia com os jovens. Mas é bom lembrar que ele foi um dos fundadores da Agapan, primeira entidade ambientalista do país. Quem se lembra do jornalista Roberto Eduardo Xavier? Em sua homenagem a Biblioteca da Secretaria do Meio Ambiente da capital leva seu nome. *Escritor, professor e bacharel em Direito. Foto: Matheus Lopes / Ascom IPE Saúde - Mural Lutz no prédio do Ipê, na Avenida Borges de Medeiros. As opiniões emitidas nos artigos expressam o pensamento de seus autores e não necessariamente a posição editorial da Rede Estação Democracia.

Geral

Morre Adriana Dias, uma das maiores pesquisadoras do neonazismo no país

Destaque

Morre Adriana Dias, uma das maiores pesquisadoras do neonazismo no país
RED

A antropóloga descobriu uma carta de Jair Bolsonaro publicada em sites neonazistas. Morreu neste domingo (29), a antropóloga Adriana Dias, uma das maiores referências em pesquisa sobre o neonazismo no Brasil. Ela também era militante pelos direitos das pessoas com deficiência. Dias foi responsável por encontrar, em 2021, uma carta assinada por Jair Bolsonaro em sites neonazistas, publicada em 2004. A descoberta, publicada originalmente no The Intercept Brasil, serviu para aprofundar o entendimento de que o bolsonarismo está atrelado à ideologia neonazista. "A partir da descoberta dessa carta, olho todos os finais de entrevista desse governo por outra ótica. Ele tem de fato um vínculo [com os neonazistas] desde 2004", afirmou Dias, em entrevista concedida em agosto de 2021. Seu trabalho de pesquisa também identificou mais de 300 células neonazistas espalhadas pelo país, que reúnem entre 4 mil e 5 mil pessoas. Em entrevista para a Deutsche Welle em 2019, ela deu o alarme para o problema. "A sociedade brasileira está nazificando-se. As pessoas que tinham a ideia de supremacia guardada em si viram o recrudescimento da direita e agora estão podendo falar do assunto com certa tranquilidade". Repercussão O Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania publicou nota de pesar pelo falecimento de Adriana. Com pesar, recebemos neste domingo (29) a notícia do falecimento da nossa companheira Adriana Dias. Colaboradora do grupo de transição do governo Lula, Adriana foi figura importante na composição da nova gestão.   Cientista, pesquisadora e doutora em Antropologia Social pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Adriana foi uma mulher com deficiência de referência para nós e nos estudos sobre neonazismo. Aguerrida ativista pelos direitos humanos, colaborou na efetiva denúncia de ações nazistas no Brasil. Feminista por ideologia, Adriana integrou a Frente Nacional de Mulheres com Deficiência. Foi também coordenadora da Associação Vida e Justiça de Apoio às Vítimas da Covid-19. Expressamos aqui nossa homenagem em agradecimento a essa grande mulher, e enviamos nossos sentimentos à família. Nas rede sociais, pesquisadores, militantes e políticos também lamentaram sua morte. Matéria publicada originalmente em Brasil de Fato. Foto: Reprodução/Instagram.

Geral

Genocídio yanomami não é exagero retórico, diz Pablo Ortellado

Curtas

Genocídio yanomami não é exagero retórico, diz Pablo Ortellado
RED

Com a instauração de inquérito pela Polícia Federal para apurar se houve crime de genocídio pela crise humanitária na Terra Indígena Yanomami, o colunista de O Globo, Pablo Ortellado, faz um apanhado das situações graves ocorridas nos últimos anos que demonstram se tratar, de fato, da ocorrência do crime. A crise envolve o descaso e a omissão do governo federal, que levaram a um grave surto de malária, subnutrição e contaminação dos rios por mercúrio, no contexto de grande avanço do garimpo ilegal. Trazendo a definição de genocídio, que é "a intenção de destruir, no todo ou em parte, grupo nacional, étnico, racial ou religioso” , por muitos considerado exagerado para aplicar neste caso, Ortellado sustenta que "as evidências mostram que a omissão no governo Bolsonaro foi generalizada e, se tiver também sido deliberada, caracterizará genocídio". Segundo a publicação, "foram registrados mais de 11 mil casos de malária entre os ianomâmis em 2022, e pelo menos 570 crianças morreram de subnutrição". O número representa nove por cento de todos os casos de malária no país em apenas um território habitado por 30 mil indígenas. A situação foi causada pela falta recorrente de médicos e profissionais da saúde, de remédios, vacinas e alimentos. Segundo o Ministério Público Federal, apenas 30% dos medicamentos de uma das empresas contratadas para fornecer 90 tipos de remédio foram entregues em 2022. O colunista explica o porquê da crise na saúde no TI: "A situação foi agravada pela ação de garimpeiros que atuam ilegalmente no território indígena. Eles se apropriaram de pistas de pouso, impedindo a chegada das equipes de saúde. As águas paradas do garimpo ampliaram a multiplicação dos mosquitos que transmitem a malária, e o uso de mercúrio contaminou os rios. Um estudo da Fiocruz, de 2019, mostrou que 56% dos ianomâmis tinham sido contaminados por mercúrio". Ainda é lembrado que a situação não foi desencadeada em pouco tempo e que o governo federal tinha ciência do que estava acontecendo em função dos inúmeros alertas e apelos foram feitos por representantes dos indígenas, ONGs e Ministério Público. "A Associação dos Povos Indígenas do Brasil e outras organizações indígenas denunciaram 21 vezes à Justiça a invasão de garimpeiros durante o governo Bolsonaro. Em novembro de 2021, uma reportagem do “Fantástico”, o programa de TV mais visto aos domingos, revelou o avanço da desnutrição infantil e a falta de atendimento médico entre os ianomâmis", relata a matéria. Outro ponto grave e que demonstra a omissão do governo foi o descarte do plano de ação preparado pelo IBAMA que, por meio de uma ofensiva de seis meses com aeronaves e barcos, poderia estrangular logisticamente o garimpo na região. E a possível omissão do Ministério da Defesa, acusado de não ter autorizado o Exército a conter a invasão de garimpeiros ou a apoiar ações da Polícia Federal. Também houve corte drástico nas verbas de fiscalização ambiental, redução das multas por crimes ambientais e um esforço do governo para liberar o garimpo em terras indígenas. Ortellado encerra sua coluna lembrando que "a omissão do governo Bolsonaro é compatível com a postura pessoal do presidente, que propôs em 1992 um Projeto de Lei que revogava a demarcação da Terra Indígena Yanomami, homologada pelo presidente Fernando Collor". Foto: Condisi-YY/Divulgação.

Artigo

O futuro chegou depressa

Destaque

O futuro chegou depressa
RED

De BOAVENTURA DE SOUSA SANTOS* Dificilmente se encontrará na política internacional um começo tão turbulento de um mandato democrático como o que caracterizou o do presidente Lula. A democracia esteve por um fio e foi salva (por agora) devido a uma combinação contingente de fatores excepcionais: o talento de estadista do presidente, a atuação certa no momento certo de um ministro no lugar certo, Flávio Dino, logo secundado pelo apoio ativo do STF. As instituições especificamente encarregadas de defender a paz e a ordem pública estiveram ausentes, e algumas delas foram mesmo coniventes com a arruaça depredadora de bens públicos. Quando uma democracia prevalece nestas condições dá simultaneamente uma afirmação de força e de fraqueza. Mostra que tem mais ânimo para sobreviver do que para florescer. A verdade é que, a prazo, só sobreviverá se florescer e para isso são necessárias políticas com lógicas diferentes, suscetíveis de criarem conflitos entre si. E tudo tem de ser feito sob pressão. Ou seja, o futuro chegou depressa e com pressa. O Brasil não volta a ser o que era antes de Bolsonaro, pelo menos durante alguns anos. O Brasil tinha duas feridas históricas mal curadas: o colonialismo português e a ditadura. A ferida do colonialismo estava mal curada porque nem a questão da terra nem a do racismo antinegro, anti-indígena e anticigano (as duas heranças malditas) foram solucionadas. A última só com o primeiro governo de Lula começou a ser enfrentada (ações afirmativas, etc). A ferida da ditadura estava mal curada devido ao pacto com os militares antidemocráticos na transição democrática de que resultou a não punição dos crimes cometidos pelos militares. Estas duas feridas explodiram com toda a purulência na figura de Bolsonaro. O pus misturou-se no sangue das relações sociais por via das redes sociais e aí vai ficar por muito tempo por ação de um lúmpen-capitalismo legal e ilegal, racial e sexista, que persiste na base da economia, uma base ressentida em relação ao topo da pirâmide, o capital financeiro, devido à usura deste. Esta ferida mal curada e agora mais exposta vai envenenar toda política democrática nos próximos anos. A convivência democrática vai ter de viver em paralelo com uma pulsão antidemocrática sob a forma de um golpe de Estado continuado, ora dormente ora ativo. Assim será até 2024, data das eleições norte-americanas, devido ao pacto de sangue entre a extrema-direita brasileira e a norte-americana. A tentativa de golpe de 8 de janeiro alterou profundamente as prioridades do presidente Lula. Dado o agravamento da crise social, a agenda de Lula estava destinada a privilegiar a área social. De repente, a política de segurança impôs-se com total urgência. Prevejo que ela vá continuar a ocupar a atenção do Presidente durante todo o tempo em que o subterrâneo golpista mostrar ter aliados nas Forças Armadas, nas forças de segurança e no capital antiamazônico. Este capital está apostado na destruição da amazônia e na solução final dos povos indígenas. A fotos dos Yanomanis que circularam no mundo só têm paralelo com as fotos das vítimas do holocausto nazista dos anos de 1940. Como poderia eu imaginar que, oito anos depois de dar as boas-vindas na Universidade de Coimbra aos lideres indígenas de Roraima (comitiva em que se integrava a agora Ministra Sônia Guajajara) e de receber deles o cocar e o bastão da chuva – uma grande honra para mim – assistiria à conversão do seu território, por cuja demarcação lutamos, num campo de concentração, um Auschwitz tropical? O Brasil precisa da cooperação internacional para obter a condenação internacional por genocídio do ex-presidente e alguns dos seus ministros, nomeadamente Sérgio Moro e Damares Alves. Quando o futuro chega depressa faz exigências que frequentemente se atropelam. O drama midiático causado pela tentativa de golpe exige muita atenção e vigilância por parte dos dirigentes. Contudo, visto das populações marginalizadas a viver nas imensas periferias, o drama golpista é muito menor do que o de não poder dar comida aos filhos, ser assassinado pela polícia ou pelas milícias, ser estuprada pelo patrão ou assassinada pelo companheiro, ver a casa ser levada pela próxima enxurrada, sentir os tumores a crescer no corpo por excessiva exposição a inseticidas e pesticidas, mundialmente proibidos mas usados livremente no Brasil, ver a água do rio onde sempre se buscou o alimento contaminada ao ponto de os peixes serem veneno vivo, saber que o seu jovem filho negro ficará preso por tempo indefinido apesar de nunca ter sido condenado, temer que que o seu assentamento seja amanhã vandalizado por criminosos escoltados pela polícia. Estes são alguns dos dramas das populações que no futuro próximo, responderão às sondagens sobre a taxa de aprovação do Presidente Lula e seu governo. Quanto mais baixa for essa taxa mais champanhe será consumida pelos golpistas e pelas lideranças fascistas nacionais e estrangeiras. Confiemos no gênio político do presidente Lula, que sempre viveu intensamente estes dramas da população vulnerabilizada, para governar com uma mão pesada para conter e punir os golpistas presentes e futuros e para com uma mão solidária, amparar e devolver a esperança ao seu povo de sempre. Ao longo do século XX, os movimentos de libertação contra o colonialismo europeu e as lutas sociais contra o racismo conduziram à enorme expansão de estudos interdisciplinares pós-coloniais/descoloniais, que resultou em uma multiplicidade labiríntica de designações. Na primeira parte dessa obra Boaventura apresenta as diferenças teóricas entre essas denominações e segue com a apresentação de tarefas primordiais para o Brasil, assumidas por diferentes grupos sociais. Destaque para o fim da expropriação de terras indígenas, reforma agrária e trabalho com direitos, fim do sexismo enquanto degradação ontológica gêmea do racismo e mudança da condição de vítima dos grupos marginalizados à de resistente, e da condição de resistente à condição de protagonista da sua história. *Doutor em Sociologia do Direito pela Universidade de Yale (1973), além de professor catedrático jubilado da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra e distinguished legal scholar da Universidade de Wisconsin-Madison. Foi também global legal scholar da Universidade de Warwick e professor visitante do Birkbeck College da Universidade de Londres. Pela Boitempo, publicou Descolonizar: abrindo a história do presente (2022), A cruel pedagogia do vírus (2021), O futuro começa agora: da pandemia à utopia (2021), Esquerdas do mundo, uni-vos! (2018), A difícil democracia: reinventar as esquerdas (2016) e Renovar a teoria crítica e reinventar a emancipação social (2007). Artigo publicado originalmente no Blog da Boitempo. Foto: Ricardo Stuckert. As opiniões contidas nos materiais expressam o pensamento de seus autores e não necessariamente a posição editorial da Rede Estação Democracia.

Politica

Lira e Pacheco apostam na defesa da democracia para a reeleição

Curtas

Lira e Pacheco apostam na defesa da democracia para a reeleição
RED

Rápido reconhecimento de vitória de Lula, acenos ao petista e reação a golpistas foram gestos dos presidentes das casas legislativas que concorrem à reeleição. A eleição do presidente do Senado e do presidente da Câmara pelos próximos dois anos ocorre no dia 1º de fevereiro, data em que os parlamentares eleitos no pleito de outubro tomam posse oficialmente. Mirando a reeleição,  o atual presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL), e o atual presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), apostam na defesa da democracia  para reunir os votos necessários para se manterem na posição de liderança das casas legislativas. Segundo a Folha de São Paulo, Lira "pavimentou sua candidatura" a partir de três ações: "o imediato reconhecimento público da vitória de Lula, a condução da aprovação da PEC que deu fôlego orçamentário ao novo governo e, por fim, a reação contra os vândalos golpistas do dia 8 de janeiro". Estes acenos ao novo presidente teriam garantido os votos dos petistas e de parte da ala de esquerda, assim como votos já consolidados de outros setores da câmara como líder do chamado centrão. Ainda segundo a publicação, o primeiro aceno de Lira ao presidente eleito se deu ainda na noite do segundo turno, em 30 de outubro: "Apesar de ter sido um aliado fiel e de ter comandado no Congresso a aprovação do pacote eleitoreiro que buscava vitaminar as chances de reeleição de Bolsonaro, Lira foi a público naquela noite parabenizar Lula, fazer a defesa do resultado das urnas e dizer que era hora de construir pontes", destaca a matéria. Já Pacheco, em entrevista também para a Folha, lembra que sempre adotou papel conciliador em defesa da democracia e "afirma que o conjunto de ações antidemocráticas, que teve como ápice o ato golpista de 8 de janeiro e a descoberta de uma minuta para decretar estado de defesa, mostra que houve preparação para uma ruptura institucional". O parlamentar ainda destaca considerar que "essa posição firme do Senado em defesa da democracia é o grande legado que o Senado deixa para essa quadra histórica e triste do Brasil, em que houve a pretensão concreta da ruptura institucional e da implantação de uma ditadura", e que, apesar de não querer ser leviano, afirma que "o ex-presidente estimulou a divisão da sociedade brasileira em diversos momentos e foi, no mínimo, incapaz de conter o extremismo de seus apoiadores". Questionado sobre a governabilidade na presidência do Senado, Pacheco diz esperar "uma relação de harmonia, de respeito, mas de independência entre os Poderes. O presidente buscará ter a base necessária no Senado para aprovação das matérias e, dentro dessa base, nós vamos construir as soluções para o país. Mas algo que é do meu perfil, que é do meu temperamento, que é o respeito a todos". Fotos: Marcelo Camargo e Wilson Dias / Agência Brasil.

Mostrando 6 de 1253 resultados
Carregar mais
X

Ouça nossa rádio ao vivo!

Ouça nossa
rádio ao vivo!

Ou baixe
nosso aplicativo!

X