Artigo

Os desafios da esquerda

Destaque

Os desafios da esquerda
RED

De PAULO NOGUEIRA BATISTA JR* Decifra-me ou te devoro   Esfinge de Tebas Em vários países do Ocidente e do Sul Global, inclusive no Brasil, a esquerda se defronta nas décadas recentes com desafios talvez sem precedentes – e não está se saindo bem, de uma forma geral. Com o passar do tempo, os desafios se avolumam e esquerda se debate sem sucesso contra eles. O Brasil, com Lula, até constitui uma exceção, mas apenas parcial. Estou me referindo, na verdade, à centro-esquerda, à esquerda moderada. A extrema esquerda não desempenha papel relevante. Em contraste, no campo da direita, os extremistas, apesar de alguns reveses importantes (notadamente as derrotas eleitorais de Trump e Bolsonaro), continuam fortes, ameaçando os partidos tradicionais de centro-direita e centro-esquerda.  O pano de fundo desses movimentos políticos é a crise da globalização neoliberal, iniciada ou agravada com o quase-colapso dos sistemas financeiros dos EUA e da Europa em 2008-2009. Essa crise financeira trouxe à tona um mal-estar generalizado da população dos países desenvolvidos com a economia e o sistema político. Os bancos privados foram socorridos com grande mobilização de recursos públicos enquanto a população endividada foi basicamente deixada à própria sorte. Cresceu o ressentimento, alimentando a eleição de Trump em 2016 e de outros políticos do mesmo naipe na Europa.  Esse mal-estar com a globalização é mais antigo e mais amplo do que a crise financeira de 2008. O que aconteceu nos últimos 30 ou 40 anos nos EUA e na Europa foi uma dissociação crescente entre as elites e o resto da população. A renda e a riqueza se concentraram nas mãos de poucos, os ricos ficaram mais ricos, ao passo que o grosso da população viu a sua renda estagnar ou retroceder. A confiança no sistema político desabou. Espalhou-se a percepção de que não há democracia, mas plutocracia – o governo dos endinheirados. Pior: ficou patente que o que prevalece é uma caquistocracia – o governo dos piores. A baixa qualidade da maioria dos líderes políticos ocidentais está aí, à vista de todos.  Esse declínio das lideranças do Ocidente reflete algo maior: o declínio do establishment dessas nações, crescentemente dominado pelo rentismo e pelo capitalismo predatório. Especulação financeira, privatizações destrutivas, fusões e aquisições, manobras de mercado de todo tipo substituem a produção e a geração de empregos de qualidade. A decadência parece bem evidente. Versões anteriores do establishment dos EUA teriam permitido que o eleitorado ficasse reduzido a escolher em 2024, como tudo indica, entre um presidente senil e um bufão irresponsável?  Não por acaso, a China, que nunca seguiu o modelo neoliberal, tornou-se “a fábrica do mundo” às expensas das indústrias do Ocidente. O Brasil, infelizmente, também caiu na armadilha da globalização e ainda não conseguimos dela escapar. Era inteiramente previsível. As elites locais, em geral servis e medíocres, mimetizam as elites estado-unidenses, trazendo para cá o que há de pior. No plano político-partidário, quem foi prejudicado e quem foi beneficiado pela crise da globalização neoliberal? Entre os prejudicados se destacam, merecidamente, os partidos tradicionais de direita, identificados com a defesa do modelo concentrador. Note-se, entretanto, que o prejuízo recai não só sobre eles, como também sobre os da esquerda moderada – a social-democracia, os socialistas e outros semelhantes. Previsível: afinal, a centro-esquerda foi sócia das políticas econômicas excludentes. Em muitos países, governou em coalizões com a direita tradicional. Quando chegou ao poder como força hegemônica, pouco ou nada fez para mudar o rumo da economia e da sociedade. Assim, passaram a ser vistos, junto com a centro-direita, como parte de um mesmo “sistema”. Contra esse “sistema”, a extrema-direita se insurge, mesmo que muitas vezes apenas da boca para fora. Comandada por líderes carismáticos e espalhafatosos, como Trump, Bolsonaro e Milei, conseguiu vencer diversas eleições importantes. Despreparada e primitiva, contudo, a extrema-direita não governa de modo eficaz e promove mais confusão do que reformas. Mantém ou aprofunda a orientação conservadora em economia, disfarçando essa concessão com atitudes extremadas na pauta de costumes. Não passou no teste de fogo da pandemia da Covid-19, o que contribuiu de modo importante, como se sabe, para a não-reeleição de Trump e Bolsonaro. Recuperou-se, contudo, dessas derrotas, como se nota pela vitória de Mile, o prestígio de Trump e Bolsonaro, sobretudo do primeiro, e a ascensão de radicais de direita em alguns países da Europa. O que aconteceu com a centro-esquerda em outros países, talvez seja relevante para o governo Lula e os partidos que o apoiam. Parece intrigante, à primeira vista, que a centro-esquerda dos países desenvolvidos não tenha conseguido capitalizar para si a crise da globalização. Parte da explicação já foi mencionada acima: o condomínio de poder formado com a direita tradicional. Mas vamos tentar aprofundar a questão um pouco mais. O fato é que a centro-esquerda também se tornou tradicional e elitista, acomodou-se, perdeu contato com a população e mostra não compreender os seus problemas reais.  Corre o risco de definhar por não entender as mudanças em curso. Como na mitologia, a esfinge de Tebas adverte: “Decifra-me ou te devoro”.  Um exemplo de uma estratégia problemática: abraçar a agenda identitária, que é uma agenda liberal, contribui para o isolamento da esquerda. Vamos nos entender: defender as mulheres, os negros, os indígenas, os homossexuais e outros grupos discriminados é indispensável. Porém, essa defesa não pode ser a plataforma central da esquerda. De um modo geral, o identitarismo não conta com a atenção ou a simpatia da grande maioria dos trabalhadores e dos setores de menor renda, geralmente às voltas com a luta pela sobrevivência. Os temas econômicos e sociais – emprego, renda, injustiça social – continuam prioritários para eles. A extrema direita tenta desviar a atenção desses temas com discursos religiosos e conservadores. A centro-esquerda acaba esquecendo-os ao focar nos temas identitários. Uma questão crucial na Europa e nos EUA, ainda não presente no Brasil, é a imigração. A extrema-direita vem se beneficiando amplamente da sua oposição virulenta à entrada de imigrantes – oriundos da África e do Oriente Médio na Europa; da América Latina nos EUA. A centro-esquerda não sabe o que fazer com o tema. As suas tradições iluministas e internacionalistas levam-na a rejeitar a resistência à imigração. Não percebe que ela tem fundamentos reais. A rejeição do imigrante não é apena diversionismo, como muitos imaginam. Os imigrantes trazem problemas significativos, não para as elites por suposto, que vivem à parte no seu mundo privilegiado, mas para os cidadãos comuns. A imigração em larga escala afeta o mercado de trabalho, pressionando para baixo os salários e levando à substituição de empregados locais por imigrantes. As firmas veem com bons olhos, claro, o barateamento da “mão-de-obra”, mas os trabalhadores sentem na pele e sofrem. Note-se que a imigração vem sobrecarregar um mercado de trabalho já adverso, em razão dos deslocamentos produzidos pelo rápido progresso tecnológico. Mas a questão não é só econômica. A imigração massiva do século 21 é muito diferente, por exemplo, da imigração europeia para as Américas em épocas anteriores. O imigrante hoje é essencialmente diverso das populações do país hospedeiro, em termos raciais ou étnicos, assim como em termos culturais ou religiosos. A sua presença numerosa ameaça descaracterizar as sociedades dos países desenvolvidos, trazendo insegurança e reações xenófobas. Em outras palavras, a questão é também nacional – tema com o qual grande parte da esquerda sempre lidou mal. Como reagirá a centro-esquerda a esses problemas? Continuará no rumo atual ou tentará se conectar com as novas realidades e as preocupações da maioria? Se ela optar por apegar-se às suas tradições, só nos resta desejar-lhe boa sorte. *Economista, foi vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento, estabelecido pelos BRICS em Xangai, de 2015 a 2017, e diretor executivo no FMI pelo Brasil e mais dez países em Washington, de 2007 a 2015. Lançou no final de 2019, pela editora LeYa, o livro O Brasil não cabe no quintal de ninguém: bastidores da vida de um economista brasileiro no FMI e nos BRICS e outros textos sobre nacionalismo e nosso complexo de vira-lata. A segunda edição, atualizada e ampliada, começou a circular em março de 2021. E-mail: paulonbjr@hotmail.com Twitter: @paulonbjr Canal YouTube: youtube.nogueirabatista.com.br Portal: www.nogueirabatista.com.br Uma versão resumida deste artigo foi publicada na revista Carta Capital. Imagem em Pixabay. Os artigos expressam o pensamento de seus autores e não necessariamente a posição editorial da RED. Se você concorda ou tem um ponto de vista diferente, mande seu texto para redacaositered@gmail.com . Ele poderá ser publicado se atender aos critérios de defesa da democracia.

Cultura

Programação cultural – de 24 a 29 de fevereiro

Destaque

Programação cultural – de 24 a 29 de fevereiro
RED

Por LÉA MARIA AARÃO REIS** *Com o título As palavras apodrecem, o texto do escritor, cientista político, antropólogo e ex-secretário nacional de Segurança Pública, Luiz Eduardo Soares, sobre o massacre em Gaza, continua repercutindo com força, esta semana. Ele observa: “Temos o dever de nos postar como guardiões da inexpugnabilidade do sofrimento extremo, de sua incomparabilidade, de sua incomensurabilidade, de sua irredutibilidade à linguagem e a toda forma de neutralização. E temos também o dever de nomear os carniceiros. Os agentes das carnificinas, o governo de Israel e os nazistas cometeram crimes contra a humanidade e têm de responder perante a história. Seus crimes não são comparáveis. São um só”. *Sobre a tragédia dos palestinos em Gaza, episódios históricos devem ser relembrados. Hannah Arendt e Albert Einstein, entre outras figuras relevantes de intelectuais judeus residentes nos Estados Unidos, falaram sobre a visita de Menachem Begin, líder futuro da legenda do Likud, aos Estados Unidos, em 1948. Estavam apreensivos e advertiam em carta aberta enviada ao The New York Times no dia 4 de dezembro desse ano sobre a sua preocupação de um partido, em Israel, o Tnuat Haherut, com ideias similares às dos nazifascistas; o Partido da Liberdade. “Partido muito parecido na sua organização, com métodos, filosofia, política e apelo social dos partidos nazistas e fascistas”. *Do célebre neuropsiquiatra judeu austríaco Viktor Frankl, sobrevivente de Auschwitz e falecido em 1997, uma frase que vem sendo mencionada em diversos textos atuais sobre o massacre de Gaza: “No fundo, existem apenas duas raças: pessoas decentes e pessoas indecentes”. *Pessoas Decentes, aliás, é o título do mais recente livro do escritor cubano Leonardo Padura. *O autor do livro Estados Unidos no século XX, o professor da Unirio, Flavio Limoncic, apresenta diversas faces que compõem a história e cultura dos Estados Unidos e as contradições dessa nação. Professor de História da América, ele comenta essas contradições e divergências e faz o leitor mergulhar na fascinante história dos Estados Unidos buscando os momentos mais emblemáticos e as surpreendentes nuances que moldaram o país ao longo do século passado. De Hollywood à Missão Apollo, o livro pretende oferecer uma visão detalhada da história e cultura norte-americanas que se espalhou para todo o mundo. (Editora Contexto). *O escritor e teólogo Frei Betto participando, esta semana, de uma roda de conversa promovida pela embaixada brasileira na Alemanha durante o Festival Internacional de Cinema de Berlim, a Berlinale, que divulgava o longa-metragem Betto, dirigido pelo argentino Pablo Del Teso, com o ator Enrique Díaz no papel principal. O filme é parte do projeto A Cabeça Pensa onde os Pés Pisam, com docs sobre educação popular que serão lançados em março, gratuitamente, para celebrar o escritor mineiro que faz 80 anos no mês de agosto. O projeto é de Evanize e Américo Freire, autores de biografia sobre Frei Betto, de 2016, da Editora Civilização Brasileira *A Berlinale termina domingo próximo, dia 25. Faz parte do grupo dileto de três eventos europeus cinematográficos primordiais, os festivais de Cannes e de Veneza. Dois filmes brasileiros já ganharam o Urso de Ouro na Berlinale: Central do Brasil (1998) e Tropa de Elite (2008). Este ano, o diretor Martin Scorsese é o homenageado. *Este ano, o Brasil vem representado por quatro filmes: Betânia (Marcelo Botta) e Cidade; Campo, de Juliana Rojas e os curtas Lapso, de Caroline Cavalcanti e Quebrante, de Janaina Wagner. E mais: o Brasil marca presença com duas coproduções: Shikun, inspirado em Os rinocerontes, de Eugène Ionesco, e Dormir de Olhos Abertos, sobretrabalhadores chinesesexplorados em Recife. *Retratos da destruição – Flashes dos anos em que Jair Bolsonaro tentou acabar com o Brasil, do veterano jornalista Paulo Henrique Arantes, está à venda nas livrarias virtuais da Amazon, Submarino, Americanas e Shoptime. São 25 textos de Arantes interpretando o “negacionismo, as injúrias, as mentiras e os crimes de um governo guiado pelo espírito arruaceiro do seu líder”. O comportamento da chamada imprensa ‘tradicional’ durante o governo do capitão está assinalado no volume (Editora Autografia). *José de Abreu criticando a extrema-direita ao comentar a ONG estrangeira Transparência Internacional, alvo de investigação por sua relação, no Brasil, com representantes da Operação Lava Jato: “A sorte da democracia brasileira é o alto nível de burrice da extrema-direita. Deixam rastros. A Transparência Internacional tem 30 posts anti-Lula divulgados por aí”, escreveu o ator. *Na Grã Bretanha, no Bafta (considerado o Oscar britânico) o filme Oppenheimer foi um grande sucesso. Levou sete prêmios, entre eles os de Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator e Melhor Coadjuvante. Atrás dele, Pobres Criaturas, com cinco prêmios e destaque de Melhor Atriz para a excelente Emma Stone. *Faz sucesso lá fora o livroBusting the Bankers’ Club: Finance for the Rest of Us, de Gerald Epstein, uma crítica ao atual sistema bancário e financeiro. Ele se refere ao chamado Clube dos Banqueiros, poderoso grupo de aliados políticos que a indústria financeira cultiva para sustentar e aumentar o seu poder econômico e político. *A exposição de 150 trabalhos do fotógrafo Sebastião Salgado, prorrogada no Sesi Lab, de Brasília, vai até 3 de março. Salgado, que está completando 80 anos agora, em 2024, apresenta Trabalhadores e é o primeiro artista a expor na galeria temporária do museu. A exposição começa com fotos realizadas em suas viagens entre 1986 e 1992. *O volume O humor frio e o filmeSábado, do diretor Ugo Giorgetti, está nas livrarias. “Nesta era do divertimento acelerado, o humor se firmou na base da extravagância gratuita e se tornou trivial pela embriaguez dos refletores ou pela ligeireza do slogan”, comenta o professor de Teoria da História, da USP, Elias Thomé Saliba. “Décadas atrás, o filósofo francês Gilles Lipovetsky já nos advertia: quanto mais humorísticas se tornam nossas sociedades mais elas manifestam o seu medo pela extinção do riso”. Em tempo: Lipovetsky é autor de A Era do Vazio, O luxo eterno, A terceira mulher, O império do efêmero e A felicidade paradoxal: Ensaios sobre a sociedade do hiperconsumo. *De autoria da pesquisadora Rosane Pavam, O humor frio e o filmeSábado se estende na análise do humor negro. Seu personagem central é o Edifício das Américas, em São Paulo, oscilando entre o cômico e o trágico. “O edifício de Giorgetti é uma metáfora microcósmica da história da cidade e do Brasil”, escreveSaliba. *Ney Matogrosso e a sua história narrada em filme. Homem com H é protagonizado pelo ator Jesuíta Barbosa, de Praia do Futuro, e começou a ser rodado em São Paulo e no Rio. A direção e o roteiro são de Esmir Filho e acompanha a trajetória de Ney Pereira da Silva e a sua transformação em Ney Matogrosso. Uma trajetória da forte personalidade de um artista que inspira libertação, independência e afeto. *Na Plataforma gratuita digital Sesc, antecedendo o fim do verão, dois filmes clássicos e imperdíveis: Fanny e Alexander, de Ingmar Bergman, de 1982, último longa-metragem do diretor sueco que recebeu quatro Oscars, e La Nave Va, de Federico Fellini, de 1983, que acompanha um cortejo fúnebre ao mar transformando o navio em um microcosmo europeu pouco antes da Primeira Guerra Mundial. **Jornalista carioca. Foi editora e redatora em programas da TV Globo e assessora de Comunicação da mesma emissora e da Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro. Foi também colaboradora de Carta Maior e atualmente escreve para o Fórum 21 sobre Cinema, Livros, faz eventuais entrevistas. É autora de vários livros, entre eles Novos velhos: Viver e envelhecer bem (2011), Manual Prático de Assessoria de Imprensa (Coautora Claudia Carvalho, 2008), Maturidade – Manual De Sobrevivência Da Mulher De Meia-Idade (2001), entre outros. As informações acima são fornecidas por editoras, produtoras e exibidoras. A imagem é uma montagem do site Fórum21. Os artigos expressam o pensamento de seus autores e não necessariamente a posição editorial da RED. Se você concorda ou tem um ponto de vista diferente, mande seu texto para redacaositered@gmail.com . Ele poderá ser publicado se atender aos critérios de defesa da democracia.

Artigo

O holocausto e o massacre de crianças em Gaza

Destaque

O holocausto e o massacre de crianças em Gaza
RED

De ALDO FORNAZIERI* O termo “holocausto” é de origem grega e conata algo assemelhado a “queimado” ou “oferenda totalmente queimada”. O termo podia se referir também aos castigos que os exércitos impunham aos inimigos derrotados e aprisionados, queimando-os em fogueiras numa oferenda aos Deuses. Em Israel antigo usava-se a palavra olah (Shoá), significando holocausto, em referência as oferendas a Deus que eram queimadas no fogo. Em Levítico existem as instruções para a realização do holocausto: “As vísceras e as pernas serão lavadas com água. E o sacerdote queimará tudo isso no altar. É um holocausto, oferta preparada no fogo, de aroma agradável ao Senhor” (Lv 1:9). De modo geral, o termo holocausto significa também sacrifício, oferenda, desastre, destruição, catástrofe e genocídio. Os palestinos atuais, por exemplo, usam a palavra “catástrofe” (Nakba) para relatar a história de suas vicissitudes, massacres, deslocamentos e desterros que vêm sofrendo desde 1948, quando foi criado o Estado de Israel. Quer dizer: eles têm o seu holocausto e um dos mais violentos e terríveis é este que está acontecendo agora em Gaza, onde o Estado de Israel promove uma guerra contra as crianças. “Holocausto”, conotando massacres populacionais, portanto, não foi criado no contexto da Segunda Guerra. Existia antes. Durante séculos a palavra “holocausto” (holocaustum) se referia a grandes massacres. Os próprios judeus sofreram um massacre na Inglaterra em 1190 e o episódio foi classificado como um holocaustum. Nas últimas décadas do século XX, porém, a palavra holocausto passou a se referir de forma mais restrita aos massacres que os judeus sofreram sob o regime nazista de Hitler. Os especialistas se dividem acerca do uso restrito ou ampliado do termo. Em regra, ninguém é obrigado a usar um conceito que existe há séculos num sentido estrito, referido a um terrível evento singular da história humana. Lato sensu, o termo pode ser referido a vários acontecimentos, inclusive ao que os palestinos estão sofrendo em Gaza nos nossos dias. Mas, sem dúvida, o que os judeus sofreram sob Hitler é incomparável em termos de brutalidade e magnitude. Isto não significa que existam similitudes em menor escala e similitudes morais. A magnitude da brutalidade sofrida pelos judeus não pode nem anular e nem diminuir o repúdio e a repugnância que se deve sentir em relação outros massacres, como esse de Gaza. A história registra que seis milhões de judeus foram massacrados no holocausto hitlerista. De acordo com o Museu do Holocausto, um milhão eram crianças, o que corresponde a 6%. Até agora, morreram em Gaza 29.100 pessoas, sendo que 12.400 são crianças e 7.870 são mulheres. Isto é: cerca de 43% são crianças massacradas. Os nazistas jogavam crianças judias vivas nas fornalhas. Outras morriam de inanição nos guetos e nos campos de concentração. Quem assiste a cenas que vêm de Gaza vê corpos de crianças despedaçados, queimados. Vê crianças tendo pés, pernas, mãos e braços amputados no chão da terra, sem anestesia e sem remédios. Rios de sangue escorrem pelas ruas e estradas das cidades de Gaza. O governo de Israel, os políticos, os militares, os funcionários civis e todas as pessoas bem informadas sabem que as maiores vítimas do tipo de guerra que Israel promove em Gaza são e serão crianças e mulheres. Então há uma ação deliberada e consciente na condução de uma guerra contra crianças e mulheres. Diante disso é preciso perguntar: qual a diferença moral entre um nazista que joga uma criança judia dentro de uma fornalha e os pilotos judeus que massacram crianças e mulheres com tiros e bombas? Estas perguntas terríveis precisam ser respondidas pelos comentaristas, analistas, jornalistas e falsos humanistas que desencadearam uma tempestade de críticas contra o presidente Lula. Estão discutindo as palavras de Lula, mas muitos deles nunca abriram a boca e nunca escreveram uma linha contra a brutalidade que o Estado de Israel está patrocinando em Gaza. Não é possível separar o governo de Israel do Estado de Israel, assim como não é possível separar Hitler do Estado alemão das décadas de 1930-40. O governo e o Estado de Israel então promovendo crimes de guerra, crimes brutais contra palestinos inocentes, contra crianças e mulheres. Não resta dúvida que o Hamas promoveu um ato terrorista. Se Israel quisesse punir o Hamas deveria ter promovido outro tipo de guerra. Mas prefere patrocinar uma guerra de vingança, uma guerra de genocídio, uma guerra de deslocamentos. Cerca de 85% da população de Gaza foi deslocada, submetida ao terror dos bombardeios, da fome, das doenças, das misérias e da maldade do Exército de Israel. A guerra de Gaza não é mais uma guerra contra o Hamas. É uma guerra contra a pulação civil, contra crianças e mulheres. Nenhuma guerra moderna deslocou, proporcionalmente, tantas pessoas como essa que Israel promove em Gaza. Nenhuma guerra moderna promoveu tanta destruição de cidades como essa que Israel está promovendo em Gaza. Os falsos humanistas precisam falar sobre isso Se há alguém que ofende a memória das vítimas do holocausto esse alguém é o governo de Israel, é o Exército de Israel. A memória das vítimas do holocausto aponta para uma única direção: para a Paz. O governo de Israel é um governo de morte, de destruição, de massacre de crianças e de inocentes. O povo judeu tem uma admirável história de sofrimento, resiliência e abnegação. Essa história não legitima o que Israel e seus aliados vêm fazendo com os palestinos desde 1948. Os mortos do holocausto não legitimam os crimes dos vivos de hoje que estão deixando uma história de mortos. Nenhum povo tem um estatuto especial acima dos outros. O povo judeu não é o “santo dos santos”. O sacerdote Arão disse a Moisés: “então, não sabes o quanto este povo é propenso ao pecado?”. Quantas advertências os profetas emitiram contra os pecados de Israel, de Judá, de Jerusalém? De acordo com a religião antiga, as destruições, desterros e diásporas que os judeus sofreram foram para purgar os seus pecados. A resignação e a resiliência fazem parte dessa purgação. Agora Israel está praticando pecados terríveis, contra os palestinos e contra a humanidade. Lula nada mais fez do que desnudar esses pecados. Não há que pedir desculpas a um governo criminoso. Um governo que precisa ser levado aos tribunais pelos seus crimes brutais. Um governo que assassina mulheres e crianças para permanecer no poder. Lula teve a coragem de fazer o que nenhum outro governante fez: tirou a máscara vergonhosa de um governo que massacra crianças e inocentes. *Professor da Escola de Sociologia e Política de São Paulo e autor de Liderança e Poder (Editora Contracorrente, 2022). Imagem em Pixabay. Os artigos expressam o pensamento de seus autores e não necessariamente a posição editorial da RED. Se você concorda ou tem um ponto de vista diferente, mande seu texto para redacaositered@gmail.com . Ele poderá ser publicado se atender aos critérios de defesa da democracia.

Artigo

GLO: Golpe contra a lei e a ordem

Destaque

GLO: Golpe contra a lei e a ordem
RED

De EDELBERTO BEHS* Um dos instrumentos que tem se mostrado tóxico para a democracia brasileira tem amparo constitucional: é a ação “provisória” das Forças Armadas para o restabelecimento da lei e da ordem pública, a tal da GLO. Em tempos recentes, ela foi quase acionada por duas vezes: uma, em dezembro de 2022 e outra em janeiro de 2023, por ocasião do episódio do 8 de janeiro e que, se assinada, seria uma armadilha para Lula. Em documentário produzido pela GloboNews, Lula revelou que foi a primeira-dama Rosângela da Silva, uma socióloga, quem o aconselhou a não assinar a GLO. “É tudo o que eles querem”, argumentou Janja. Eles, no caso, os de farda que arquitetavam um golpe desde junho de 2022. A GLO também pode ser lida, depois desses episódios, como Golpe contra Lei e a Ordem. Em dezembro, o ex-chefe do Comando de Operações Terrestres do Exército, general Estevam Theóphilo, disse a Bolsonaro que colocaria a tropa na rua assim que ele o autorizasse para tal. A medida seria, ao que tudo indica, o recurso à GLO. No caso, as Forças Especiais do Exército, os chamados Kids Pretos, sob o comando do Theóphilo, teriam a missão de prender o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, e tomar conta do poder. Bolsonaro disse que nunca viu qualquer minuta do golpe. Mas, ao que a imprensa divulgou, ele aliviaria a tarefa dos Kids Pretos, porque o mentiroso pediu para excluir da minuta a prisão de outro ministro do STF e do presidente do Senado. O STF sempre foi a pedra no sapato do ex-presidente que, nos quatro anos do seu (des)governo, sempre investiu contra a instituição. Ainda em 2018, o deputado federal Eduardo Bolsonaro declarou que bastaria “um soldado e um cabo” para fechar o STF. Mesmo com toda a programação do golpe, já pensada, analisada, avaliada, em pelo menos três meses antes das eleições presidenciais de outubro, ele acabou não acontecendo, apesar do ataque de bolsonaristas à sede da Polícia Federal em 12 de dezembro de 2022, depois da diplomação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a tentativa de explosão daquele caminhão tanque próximo ao aeroporto de Brasília, e a intentona de 8 de janeiro de 2023. Há várias razões, internas e externas, que frustraram o golpe tanto esperado pelos patridiotas plantados em frente ao quartel-general do Exército, em Brasília. Dos Estados Unidos e da Europa vieram os alertas de que não apoiariam qualquer virada de mesa do resultado das eleições presidenciais. A covardia de Bolsonaro, uma característica tão marcante desse macho alfa, frustrou o golpe: ele não assinou a medida para colocar a tropa na rua! Como bom soldado que não abandona a luta, Bolsonaro viajou aos Estados Unidos para, alega-se, não passar a faixa presidencial a Lula. Mas não só isso: como bom covarde, deixou a tropa de deslumbrados parados diante dos quartéis, não só em Brasília, e passou a assistir de fora toda a movimentação pró-golpe, para poder dizer, agora, que não participou da “intentonta”! Ele estava longe, não tem nada a ver com o que rolou no país depois de sua viagem estratégica! Não sou versado em Direito, em interpretações legais, mas o que não entendo, assim como, infiro, milhões de brasileiros e brasileiras, por que um mentiroso contumaz, golpista, péssimo militar (na avaliação do ex-presidente Ernesto Geisel), que deixou de socorrer o povo yanomami e hesitou em comprar vacinas para combater a covid-19, ainda não está atrás das grades. Também fica difícil entender o apoio que ele ainda tem de parcela da cidadania brasileira. No domingo, 25 de fevereiro, teremos uma noção dessa parcela. Talvez seja a oportunidade que a Justiça brasileira espera para mandá-lo à Papuda. Desde a proclamação da República, as Forças Armadas têm investido contra a nação brasileira em diferentes momentos. Como disse o jornalista Bob Fernandes, os militares brasileiros sofrem do “vício do golpismo”. Com ou sem GLO. *Professor, teólogo e jornalista. Imagem em Pixabay. Os artigos expressam o pensamento de seus autores e não necessariamente a posição editorial da RED. Se você concorda ou tem um ponto de vista diferente, mande seu texto para redacaositered@gmail.com. Ele poderá ser publicado se atender aos critérios de defesa da democracia. 

Mostrando 6 de 4373 resultados
Carregar mais