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Vamos cercar os defensores de estupradores

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Vamos cercar os defensores de estupradores
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Por Moisés Mendes* O ministro Paulo Pimenta disse na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, na terça-feira, que não teme disseminadores de fake news, bandidos e milicianos. Dá para acrescentar que todos os que estão com ele também não temem defensores de estupradores. É o que o Brasil precisa dizer diante da proteção da extrema direita, em especial do fascismo dito religioso no Congresso, a quem estupra crianças. Não dá para ficar na conversa fofa com bandidos, milicianos e protetores de estupradores. Vamos entrar no ‘modo Paulo Pimenta’, porque o bolsonarismo está colocando de novo as unhas de fora, para remarcar territórios às vésperas das eleições municipais. É do que trataremos hoje na live com Maria Fernanda Passos, o OiOiOi com Mafê, na TV do Instituto Cultiva. Vamos lembrar que a turma defensora do enquadramento do aborto como homicídio é a mesma turma do sujeito que defendia publicamente o estupro de uma colega deputada. O mesmo sujeito que um dia, ainda na presidência da República, saiu atrás de uma menina venezuelana de 14 anos em Brasília, porque sentiu que havia pintado um clima. E admitiu depois que foi conferir se a menina era prostituta. Vamos lembrar que todas as iniciativas dessa turma são sempre na direção da proteção da bandidagem. Como informa O Sensacionalista em manchete: o próximo passo será substituir a pena dos estupradores por um mandato de deputado. Claro que da bancada bem religiosa. A live começa às 10h30min, e o link está logo abaixo. https://www.youtube.com/live/qAAOSchN-Ek *Jornalista **Foto: Laura Benvenuti - https://www.istockphoto.com/br/portfolio/LBatelier?mediatype=photography Os artigos expressam o pensamento de seus autores e não necessariamente a posição editorial da RED. Se você concorda ou tem um ponto de vista diferente, mande seu texto para redacaositered@gmail.com . Ele poderá ser publicado se atender aos critérios de defesa da democracia.

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Diante da ascensão da extrema direita, qual caminho para a esquerda francesa?

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Diante da ascensão da extrema direita, qual caminho para a esquerda francesa?
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De ALEXANDRE CRUZ* A recente derrota do presidente Emmanuel Macron nas eleições para o Parlamento Europeu trouxe à tona uma série de desafios políticos e estratégicos para a França. Com o avanço expressivo do partido de extrema-direita Reunião Nacional (RN), liderado por Marine Le Pen, e o desempenho sólido do partido de esquerda France Insoumise de Jean-Luc Mélenchon, o cenário político francês está mais polarizado do que nunca. Neste contexto, a esquerda francesa enfrenta um dilema crucial: deve formar uma unidade contra Macron e a extrema-direita ou buscar alianças estratégicas com o centro-direitista Emmanuel Macron? A performance avassaladora do RN nas eleições europeias, com 31,5% dos votos, mais que o dobro da aliança de Emmanuel Macron que obteve 15,2%, é um reflexo do descontentamento popular com o governo atual. Esta vitória não apenas reforça a posição de Le Pen, mas também sinaliza um possível rearranjo nas futuras eleições legislativas convocadas para o final de junho e início de julho. A ascensão da extrema-direita não é um fenômeno isolado na França. Observamos uma tendência similar em várias partes da Europa, onde partidos eurocéticos e populistas ganham terreno em meio ao desencanto com as políticas econômicas neoliberais e a gestão da crise migratória. A esquerda francesa, particularmente o partido France Insoumise, de Mélenchon, conseguiu manter uma base de apoio significativa. No entanto, a fragmentação interna e a falta de uma estratégia unificada têm limitado sua capacidade de se posicionar como uma alternativa viável tanto os ultras quanto a Macron. Para a esquerda, a questão central é como reagir a esse cenário político polarizado. Alianças eleitorais com Emmanuel Macron podem ser vistas como uma traição aos princípios fundamentais da esquerda, especialmente considerando as políticas econômicas neoliberais do atual presidente e seu papel na aliança ocidental com Zelenski e a defesa da Ucrânia. Por outro lado, uma unidade da frente progressista frente a Macron e Marine Le Pen pode representar uma esperança para muitos eleitores que se sentem abandonados tanto pela esquerda tradicional quanto pela centro-direita. A formação de uma unidade de esquerda é imperativa para enfrentar os desafios políticos atuais. Isso requer não apenas um alinhamento estratégico entre os diversos partidos do campo, mas também uma reconexão com a base histórica da classe trabalhadora. A esquerda precisa voltar a ser a voz daqueles que se sentem marginalizados pela globalização neoliberal e pelas políticas econômicas que beneficiam principalmente as elites urbanas educadas. A questão da Ucrânia também complicou ainda mais o cenário. Emmanuel Macron, como um dos principais articuladores da defesa ocidental da Ucrânia contra a Rússia, representa uma postura firme contra a agressão de Putin. No entanto, o apoio a essa política de sanções e alianças militares também alienou uma parte significativa da população que vê essas ações como submissão aos interesses dos Estados Unidos e uma política externa agressiva que não atende aos interesses nacionais franceses. A esquerda francesa está em uma encruzilhada histórica. Formar uma unidade robusta e coerente contra Macron e a extrema-direita é essencial não apenas para sua sobrevivência política, mas também para oferecer uma alternativa verdadeira ao povo francês. A reconquista da confiança dos eleitores, especialmente os jovens da classe trabalhadora que se sentem abandonados e sem esperança, deve ser a prioridade. A luta contra os ultras não pode ser travada isoladamente; é necessário um esforço conjunto que transcenda diferenças ideológicas e se foque na defesa dos direitos sociais, da justiça social e da inclusão. Se a esquerda francesa falhar em se unir e oferecer uma visão convincente para o futuro, arrisca-se a ser irrelevante no cenário político, deixando o campo aberto para a extrema-direita moldar o futuro da França. Foto: AFP Os artigos expressam o pensamento de seus autores e não necessariamente a posição editorial da RED. Se você concorda ou tem um ponto de vista diferente, mande seu texto para redacaositered@gmail.com . Ele poderá ser publicado se atender aos critérios de defesa da democracia.    

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Autonomia Universitária em perigo na Alemanha. E outros perigos.

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Autonomia Universitária em perigo na Alemanha. E outros perigos.
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De FLÁVIO AGUIAR*, de Berlim Na Alemanha há um verdadeiro torcicolo político doloroso e implacável, além do crescimento da intolerância e d militarização “Querer o bem com demais força, de incerto jeito, pode já estar sendo se querer o mal, por principiar.” (O ex-jagunço Riobaldo, em Grande sertão: veredas). Prólogo Tudo começou com a guerra na Ucrânia. Mesmo provocada — e o foi — quem invadiu outro país foi a Rússia. Houve a justa condenação da invasora na Assembleia Geral da ONU. Junto com este gesto, outro começou a se avolumar em vários quadrantes da Europa, inclusive e muito intensamente na Alemanha. Cresceram os dedos em riste — ainda que simbólicos — apontando “russófilos” e “putinistas” onde não havia. A atitude da mídia alemã foi uníssona, desde o começo da guerra: a Ucrânia não só deveria ganhar a guerra, ela estava ganhando a guerra, chegassem que notícias chegassem da frente de batalha. E este era um discurso que alimentava e se alimentava de um sentimento difuso de russofobia que vinha do século XIX, para dizer o mínimo, de anti- vietismo mais recente mas não menos vigoroso. Criou-se uma espécie de think tank coletivo e disperso apontando: se você critica os Estados Unidos, a OTAN, Kiev, Zelensky, a presença tolerada de símbolos nazistas nas fardas ucranianas, é porque, automaticamente, você é pró-Rússia, próPutin, pró-invasão. Como corolário, naturalizou-se a guerra, a volta do militarismo europeu como solução defensiva e agressiva ao mesmo tempo. O militarismo Na Alemanha a crise econômica recessiva que se seguiu ao corte no suprimento do gás russo intensificou o militarismo. A indústria alemã alterou sua espinha dorsal, apoiando-se de novo na militarização. E a Alemanha não é exceção: França, Polônia e outros países passaram a se armar mais do que já estavam armados. A coalizão governamental alemã, neste ponto liderada pelo tom beligerante do Partido Verde transformado em verdeoliva, foi dando todos os passos na direção do maior envolvimento militar com o confronto, chegando ao ponto atual – dos mais perigosos – a autorização de que as Forças Armadas ucranianas possam atacar o território russo com armas alemãs. Para bom entendedor, isto é sinal maior de que a Ucrânia, de fato, está perdendo a guerra em que desempenha o papel de utilidade nada inocente para a guerra do Ocidente contra Moscou. Mas para o caldo de cultura gerado pelo destravar do sentimento beligerante isto nada mais é do que uma obrigação e defender a democracia contra o autoritarismo agora sinorusso, desde que Moscou colocou-se debaixo da asa protetora de Pequim. A névoa desviante Uma espécie de névoa desviante espalhou-se, no dia a dia, pelas conversas deste mesmo dia a dia. Amigos que antes falavam sobre tudo passaram a evitar o assunto complicado: Ucrânia. O mal estar condensou-se e virou a norma consentida do ocultamento. Ao mesmo tempo, falar em “paz” e em “negociação” tornou-se sinônimo, para este sentimento beligerante, de “fazer o jogo russo”, de “defender a invasão” da Ucrânia, e assim por diante. Os dedos, na mídia e fora dela, continuavam duros e em riste. A posição neutra do governo brasileiro, não permitindo o uso de munição produzida no país pelos tanques alemães Leopard, cedidos à Ucrânia, foi bastante críticada como pró-Putin. O protetorado militar Enquanto isto, a União Europeia foi se tornando cada vez mais um protetorado militar dos Estados Unidos, via OTAN. Criticar ambos virou um anátema. Cheguei a ouvir de viva voz o comentário de que que nós, latino-americanos, cometíamos o “erro” de considerar os Estados Unidos “um país imperialista”. Em outro comentário, ouvi no rádio um professor de história afirmar que os Estados Unidos nada tiveram a ver com a preparação do golpe de estado no Chile em 1973… Que os chilenos tinham condição de dar um golpe por eles mesmos… E por aí afora e a dentro… Entra em cena o Hamas Foi nesta moldura de crescente intolerância que explodiu a notícia do ataque terrorista promovido pelo Hamas em 7 de outubro, contra militares e civis em Israel. Seguiu-se imediata e justa solidariedade com as vítimas do ataque. Na sequência, começou a se desenhar a absurda desproporção da resposta por parte do governo israelense de extrema-direita, promovendo a destruição da Faixa de Gaza e uma verdadeira carnificina da população civil palestina, atingindo um sem número de mulheres e crianças. Além disto, a repressão contra os palestinos aumentou na Cisjordânia ocupada, junto com os ataques promovidos pelos colonos israelenses ocupantes de vastas áreas desta região tomada aos palestinos, contrariando resoluções da ONU. E ficou cada vez mais claro que o governo israelense não se deteria em violar as resoluções da ONU e as normas do direito internacional, sob a alegação de “defender-se” contra o ataque que sofrera. A reação do governo israelense No fundo, o governo de Benjamin Netanyahu e de seus aliados dentre o que há de mais reacionário em Israel, passou a exacerbar o já existente clima de discriminação contra a população palestina. Seguiram-se denúncias veementes de que ele estaria promovendo um genocídio contra os palestinos na Faixa de Gaza. A discussão se instalou e enveredou pelo campo jurídico, sobre se o uso da palavra “genocídio” seria adequado. Não vou entrar em argumentações jurídicas. O que é mais do que claro é que as forças armadas israelenses vêm promovendo um massacre da população civil palestina brandindo a luta para “exterminar” o Hamas como pretexto. E destróem tudo em Gaza: eletrcidade, água, medicamentos, hospitais, escolas, universidades. E a vida. E vieram as denúncias As denúncias contra tal massacre pipocaram em vários locais do mundo, e seguiram-se manifestações de grande porte em favor dos direitos da população palestina e da solução dos dois estados prevista nas resoluções da ONU, que Netanyahu e seus governos do passado e do presente sabotaram e sabotam sem parar. É sabido, inclusive, que no passado o governo de Benjamin Netanyahu ajudou a promover o Hamas para enfraquecer a influência da Autoridade Palestina, que defende a proposta dos dois estados, reconhecendo, portanto, o de Israel. O torcicolo político Na Alemanha seguiu-se um verdadeiro torcicolo político doloroso e implacável. Ocorre que no passado a existência de Israel foi proclamada oficialmente como uma “Razão de Estado” do país. Diante desta proclamação fazer qualquer coisa que possa ser considerada como pondo em risco a existência de Israel é algo ilegal. E no clima de intolerância que já prevalecia na mídia e fora dela abriram-se as comportas para uma enxurrada de sofismas da pior espécie. Criticar Benjamin Netanyahu, seu governo, condenar o massacre de civis na Faixa de Gaza, defender o direito do povo palestino à auto-determinação passou a ser sinônimo de “antissemitismo”, de “grave ameaça” contra o Estado Israelense. Os dedos, que já estavam em riste por causa da Ucrânia, se enrijeceram mais ainda e viraram metralhadoras giratórias, atirando contra tudo e contra todos que fossem alvos da mais leve suspeita deste “antissemitismo” de conveniência. O antissemitismo existe, mas… Não se põe aqui em dúvida a existência de antissemitismo na Alemanha e no mundo, muito menos a necessidade de combatêlo também. O que se levanta como denúncia é que por um acúmulo de culpa histórica misturada com defesa de um governo discricionário como o que hoje governa Israel, passou-se a promover uma histeria macarthista contra quem defenda os palestinos e seus direitos. Tal defesa passou a ser sinônimo automático de antissemitismo, as denúncias se avolumaram e passaram a ser aceitas sem maior exame de sua pertinência. Primeiro, as metralhadoras voltaram-se contra artistas e intelectuais, muitos destes e destas judias e judeus que defendem ou alguma vez defenderam os palestinos. Prêmios foram anulados, convites foram cancelados, seminários foram suspensos, cursos programados foram desprogramados porque os artistas e intelectuais envolvidas e envolvidos alguma vez na vida assinaram alguma coisa em favor dos palestinos. Esquadrinhou-se a vida pregressa das pessoas, em busca de assinaturas suspeitas ou declarações consideradas “perigosas”. As dependências perigosas Explique-se que todo o setor cultural na Alemanha depende de financiamentos por parte dos poderes públicos. E qualquer suspeita de favorecimento ou tolerância de algum tipo de antissemitismo é motivo suficiente para o corte destes financiamentos. Ainda mais num clima em que qualquer suspeita transforma-se automaticamente em acusação e passa em julgado com a condenação do réu desta verdadeira lei de Lynch. A vez da polícia Entretanto, como em outras partes do mundo, avolumaram-se manifestações pró-palestinos, nas ruas e… nas universidades. Aí a polícia entrou em ação. E o caldo, já grosso, engrossou mais ainda, com amplo apoio entre políticos e também na mídia em favor da repressão contra aquele “antissemitismo” fantasmagórico. Com frequência manifestações pró-palestinos foram proibidas ou reprimidas, sob a alegação que defendiam o terrorismo. Os estudantes envolvidos passaram, como nos Estados Unidos, a ocupar espaços dentro das universidades. E a repressão, em resposta, passou a invadir os campus das universidades, com aplauso de políticos e na mídia. Estes aplausos passaram a exigir das autoridades universitárias que reprimissem também os estudantes que protestassem. A prefeitura da cidade — Berlim é uma cidade-estado — passou a fazer o mesmo. Houve o agravante de que estudantes judeus passaram a dizer que se sentiam “ameaçados” dentro das universidades – até mesmo por olhares de manifestantes. O incidente Um incidente fora da Universidade Livre de Berlim, em que um estudante palestino desta esmurrou outro estudantes judeu, foi o estopim para que na prefeitura da cidade se levantassem vozes pedindo a expulsão daquele. As autoridades universitárias alegaram que o estatuto da universidade ão permitiria tal pena máxima no caso, sendo possível a aplicação de outras medidas disciplinares, uma vez devidamente averiguadas as circunstâncias do fato. As mesmas vozes passaram a exigir que os legisladores da cidade modificassem o estatuto da universidade, à revelia desta. O estatuto da universidade virou moeda política. A autonomia universitária no brejo O resultado deste clima de pressão foi que o princípio da autonomia universitária – se é que era reconhecido – passou a ser questionado e neutralizado, com consequências funestas. Conversei com uma pessoa que participou de manifestações própalestinos em duas das universidades berlinenses: a Livre de Berlim e a Humboldt. Pedi-lhe que me contasse o que acontecera em ambas. O relato foi circunstanciado. No caso da Universidade Livre de Berlim os manifestantes organizaram um acampamento no espaço junto ao Restaurante Universitário – chamado de Mensa. Havia cartazes pró-Palestina. Perguntei se em algum momento esta pessoa viu ou ouviu qualquer manifestação pró-Hamas: a resposta foi negativa. O reitor — aqui chamado de presidente — da Universidade deu um prazo para que eles desfizessem o acampamento e saíssem. Como isto não aconteceu, ele chamou a polícia para que retirassem aqueles que se recusavam a sair. Assim aconteceu. Torções de braço A polícia chegou e ordenou a retirada. Ao mesmo tempo, outros estudantes, que não estavam no acampamento, começaram a se manifestar ao redor, a favor dos acampados. A polícia partiu para cima daqueles, ao mesmo tempo em que começavam a retirada destes, à força. Como forma de resistência, os manifestantes sentaram-se e cruzaram os braços uns com os outros, formando uma corrente. Seguiu-se uma série de empurrões, torções de braços, joelhos no peitos e pressões semelhantes para desfazer as correntes. A pessoa que entrevistei teve o braço torcido, ficou com um hematoma na região. A retirada processou-se, os manifestantes foram devidamente identificados e fichados, sendo informados que receberiam algum tipo de comunicado oficial sobre medidas legais que poderiam ser tomadas. Segunda investia da polícia Na Universidade Humboldt a ação foi mais violenta. Os estudantes em protesto ocuparam o prédio das Ciências Sociais, que fica fora do campus oficial, dando para a rua. Alguns deles foram até o quarto andar do prédio, erguendo barricadas com mesas, cadeiras e outros recursos junto às portas. Entre estes estava a pessoa que entrevistei. A presidenta da universidade dispôs-se a negociar com os ocupantes. Como a ocupação aconteceu à tarde, ela concordou que os ocupantes passassem a noite no prédio. A negociação seria retomada no dia seguinte. Ao mesmo tempo, outros manifestantes reuniram-se na rua em frente ao prédio, e a polícia passou a reprimi-los com violência. Questionada a respeito, a presidenta declarou que nada podia fazer, uma vez que os manifestantes estavam na rua, fora dos limites do campus universitário. A polícia atropela No dia seguinte, antes que a negociação fosse retomada, a mando da prefeitura a polícia atacou os manifestantes dentro do prédio, com violência maior do que na Universidade Livre. Houve espancamentos e sacaram-se algemas à vontade. Os e as policiais chegaram ao quarto andar ocupado, desfizeram as barricadas e começaram a levar à força os manifestantes para baixo. A pessoa que entrevistei disse-me que foi algemada com os braços nas costas e que em todo o trajeto pelas escadas até o térreo levou cacetadas na cabeça, no pescoço e na barriga. Relatou-me que viu gente sangrando, com o supercílio aberto. Embaixo esta pessoa teve um ataque de asma e precisou pedir várias vezes para que lhe tirassem as algemas a fim de que pudesse usar a bomba de ar. Seguiram-se as mesmas cenas de exame dos documentos, identificação, fichamento e declarações de que receberiam correspondência anunciando possíveis medidas legais. Novamente perguntei à pessoa se vira ou ouvira qualquer declaração, cartaz, palavra de ordem favorável ao Hamas. Disseme que não. Houvera cantos e falas de protesto, sim, mas relativas à causa dos Palestinos e à violência da repressão israelense na Faixa de Gaza e Cisjordânia. Entrevistei essa pessoa três dias depois dos acontecimentos na Universidade Humboldt. Na ocasião disse-me que ainda sofria de dores de cabeça e no pescoço devido às pancadas que sofrera. Na Universidade Técnica Alguns dias depois novo caso explodiu. Desta vez o cenário foi a Universidade Técnica. Alguém descobriu e divulgou que em algum momento anterior a presidenta da universidade dera um “like” em publicação na internet que protestava pela violência do governo de Israel contra os civis em Gaza. Acontece que nesta publicação havia uma montagem fotográfica em que aparecia o primeiro ministro israelense, Benjamin Netanyahu, com um avental coberto de manchas de sangue e uma suásticanazista num canto do mesmo. As mesmas vozes de sempre denunciaram a publicação e o “like” da presidenta como manifestações de antissemitismo. Exigiu-se a sua destituição ou renúncia. Ela se recusou a renunciar. A gritaria contra ela prosseguiu, e o caso foi levado à consideração do Conselho Universitário da instituição. Este dividiu-se: 13 membros votaram a favor da renúncia da presidenta e 12 contra. Diante disto e de um manifesto com muitas assinaturas em seu favor, a presidenta decidiu não renunciar. Abriu um processo disciplinar contra si mesmo, para que uma comissão disciplinar exame os fatos, comprometeu-se a combater o antissemitismo na universidade e declarou-se arrependida de ter dado aquele “like”. Afinal, uma defesa da autonomia O caso foi levado então ao Conselho de Curadores da universidade, de onze membros, que funciona como uma espécie de conselho fiscal da mesma. Na manhã de segunda-feira, 10 de junho, em reunião digital, segundo o jornal Tagesspiegel, o Conselho decidiu não pedir a renúncia da presidenta, dando-lhe um “apoio crítico”, embora considerasse a sua atitude do “like” como reprovável e ecomendasse a averiguação disciplinar do caso, como ela mesma pedira antes. A matéria deve voltar ao Conselho Universitário, onde uma proposta de destituição da presidenta precisa de uma maioria de dois terços para ser aprovada. A ver. A “faca de muitos gumes” Em conclusão, o que se pode dizer diante desta labiríntica a tortuosa trajetória de denúncias é que o caso é espinhoso, complicado, uma “faca de muitos gumes”, como dizia um amigo e colega de USP. O antissemitismo, como qualquer outra forma de discriminação racial, de gênero, etnia, religião, cultura, etc., e ponha-se etc. nisto, inclusive a contra o povo palestino, é condenável e deve ser combatido em todas as suas formas. Porém retomando a epígrafe deste artigo, de Guimarães Rosa em Grande sertão: veredas, citando provérbio sertanejo, “Viver é muito perigoso… Querer o bem, com demais força, de incerto jeito, pode já estar sendo se querer o mal, por principiar”. As manifestações em defesa do ato terrorista do Hamas em 7 de outubro do ano passado têm sido claramente minoritárias. A maioria dos protestos se refere ao direito do povo palestino ter seu próprio estado, de acordo com as resoluções da ONU, e ao massacre da população civil cometido pelo governo de extremadireita de Benjamin Netanyahu, sobretudo em Gaza e também na Cisjordânia. Além disto, pedem que os demais governos deixem de fornecer-lhe armas e apoio político. O clima histérico que vê como reação a tudo o que seja crítica à carnificina a que a população civil palestina sofre, entretanto, está levando a rumos demais de perigosos na direção de afrontar a defesa de direitos humanos, de liberdade de expressão dentro e fora das universidades, nas instituições culturais e fora delas, numa situação em que vejo serem as atitudes discricionárias e violentas do atual governo israelense as maiores promotoras de antissemitismo no mundo inteiro. Cria-se assim uma conjuntura em que qualquer um se vê autorizado a denunciar qualquer outro por qualquer coisa que julgue, em sua total subjetividade, como antissemitismo. É a promoção do linchamento. sto é demais assustador num momento em que partidos extremistas de direita, anti-democráticos, discricionários, muitas vezes querendo ocultar seu próprio passado antissemita através da islamofobia e outras formas de xenofobia, estão em ascensão na Europa e em outras partes do mundo. *Flávio Aguiar, jornalista e escritor, é professor aposentado de literatura brasileira na USP. Autor, entre outros livros, de Crônicas do mundo ao revés (Boitempo). [https://amzn.to/48UDikx]   *Jornalista, analista político e escritor, é professor aposentado de literatura brasileira na USP. Autor, entre outros livros, de Crônicas do mundo ao revés (Boitempo). Foto: DW / Deutsche Welle Os artigos expressam o pensamento de seus autores e não necessariamente a posição editorial da RED. Se você concorda ou tem um ponto de vista diferente, mande seu texto para redacaositered@gmail.com . Ele poderá ser publicado se atender aos critérios de defesa da democracia.

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Entrevista com Éric Hazan

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Entrevista com Éric Hazan
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Por LENEIDE DUARTE-PLON* ENTREVISTA  realizada em 2017 com o editor e escritor Eric Hazan, falecido em Paris em 6 de junho deste ano. De origem judaica e médico de formação, Hazan militava  pela autodeterminação do povo palestino e defendia o movimento BDS de Boicote, Desinvestimento e Sanção a Israel.  Estou convencido de que Arafat foi envenenado » Para Éric Hazan, o melhor meio de lutar contra o apartheid de Israel é através do boicote Éric Hazan é um subversivo, um concentrado do intelectual engajado sartreano. Comunista e anti-colonialista, sua trincheira é uma editora. Herdeiro da editora Hazan, criada pelo pai e depois vendida, o médico, escritor, editor e tradutor fundou sua própria editora « La Fabrique », uma referência na França para livros subversivos, que lutam contra o pensamento único do neoliberalismo galopante que se instalou no mundo. De origem judaica, o jovem Hazan participou da Frente de Libertação Nacional (FLN) durante a guerra da Argélia. Como cirurgião vascular foi membro fundador da Associação Médica Franco-Palestina e membro do comitê fundador do Tribunal Russell sobre a Palestina, que iniciou seus trabalhos em 2009 com o claro objetivo de pôr fim à impunidade do Estado de Israel e encontrar uma paz durável para o conflito Israel-Palestina. Em seus artigos políticos, reunidos em livro recém-lançado, « Á travers les lignes », Éric Hazan toma posições sem ambiguidades seja na política francesa e internacional seja na crítica ao mercantilismo na arte contemporânea. Nesta entrevista exclusiva, ele analisa o atual momento político francês, fala do Brasil e do BDS (Boycott, Desinvestissement, Sanctions), o movimento mundial que combate o apartheid em Israel pelo boicote a produtos israelenses mas sobretudo pelo boicote a qualquer cooperação acadêmica ou científica com o governo, que ele qualifica de « fascizante ». Sobre a falta de condenação do golpe no Brasil pelo governo francês ele diz : « Os interesses franceses podem ter tido um papel nessa reação passiva. Mas será que Hollande e seu ministro das Relações Exteriores, Laurent Fabius, gostavam realmente do governo de esquerda derrubado ? » CC : O que o novo presidente Emmanuel Macron representa ?  Eric Hazan : Ele representa uma camada da população muito particular, a burguesia tecnocrática, pragmática, inteligente que, ao mesmo tempo, despreza o povo e tem também uma espécie de desprezo irônico em relação à burguesia da direita tradicional. Ele representa uma camada importante de pessoas cada vez mais poderosas. Essas pessoas compreenderam que, no fundo, para manter o poder e o dinheiro a posição de direita clássica tinha que mudar. CC : Eles fazem mais concessões ao social ?  EH : Muito pouco. No discurso, sim, muitas concessões, mas na realidade, nenhuma. Ao contrário. São pessoas que compreenderam  como devem fazer hoje para transformar um país em uma « empresa que funciona ». CC : Thomas Piketty tinha razão quando escreveu que « Macron é um banqueiro que vai governar para os banqueiros » ?    EH : Sim, ele foi durante muito tempo banqueiro, foi onde ele aprendeu o que é o capitalismo. Mas é redutor dizer que ele trabalha para os banqueiros. Ele trabalha para uma camada muito mais larga, todos os que gostariam de transformar este país em uma « start-up », em uma empresa. CC : Suas posições e seus textos sobre o conflito Israel-Palestina levaram-no a escrever verdades que incomodam os sionistas. Por que a ocupação dos Territórios Palestinos persiste há 50 anos e o que restou do sonho de um Estado Palestino ? E.H. : Penso que é preciso parar de considerar que o Estado Palestino é um verdadeiro objetivo. Isso é um engodo. Pode-se fazer um falso Estado Palestino, isso não é complicado. Aliás, ele praticamente existe, um falso Estado que não é senhor de suas fronteiras, não controla sua economia, não tem acesso ao mar, não tem continuidade territorial, não tem meios de se defender. Um Estado assim pode-se dizer que já existe. A Palestina foi reconhecida na ONU como Estado convidado, mais ou menos nesses termos. E todos os que não conhecem a questão julgaram que era uma vitória. É uma piada. Enquanto disserem que existe uma Autoridade Palestina e que essa Autoridade trabalha pela criação de um Estado Palestino não se avançará nem um centímetro. Mas há muita gente que tem interesse em que isso não avance. Quase todo mundo tem interesse a manter o statu quo. CC : Quem ? Os Estados Unidos, a Europa, o Oriente Médio, os países árabes ? E.H. : Sim, todos eles. Os Estados árabes ditatoriais, corruptos, dizem a suas populações : « Nós lutamos por um Estado Palestino ». Mas todo mundo tem interesse em que as coisas não mudem, ou melhor, em que a judaização da Palestina histórica continue todos os dias. Todo mundo tem interesse. CC : A Europa fecha os olhos… E.H. : Claro. Eles dizem, « nós incentivamos a volta à mesa de negociações ». Mas nunca houve negociação, jamais, desde o início. Houve « diktats ». Para negociar, é preciso que haja qualquer coisa que se assemelhe vagamente a uma igualdade de forças. Se as forças são totalmente desiguais e que além disso a potência que serve de árbitro, os Estados Unidos, está abertamente do lado do mais forte, não há negociação. Há « diktats » que se aceita ou se recusa. Quando por acaso se recusa um « diktat » como fez Arafat em 2000, todo mundo diz, « Viram, ele recusou as ofertas generosas ». Essas « ofertas generosas » nunca existiram ! Nunca houve oferta generosa de Ehoud Barak. Mas eles disseram : « O que vocês querem, com os árabes não se pode fazer nada, fizemos as ofertas mais generosas e eles recusaram ». CC : Como sair dessa armadilha ? E.H. : É preciso parar de apresentar o Estado Palestino como um objetivo ideal. Não é um objetivo. CC : Por quê ? E.H. : Será que ele foi algum dia um objetivo ? Talvez, durante um momento… CC : No momento da partilha da Palestina sob mandato britânico, o Estado Palestino fosse um objetivo, não ? E.H. :  Era uma partilha na qual na Palestina supostamente judia havia metade de árabes e na Palestina supostamente árabe havia judeus. Mas aquilo é um só país. Basta pegar um carro e ir direto numa direção. Compreende-se que é um só país., geograficamente, historicamente, humanamente. Há uma unidade nesse país. Se se tenta fragmentá-lo, um pedaço para fazer um triângulo aqui, tira-se gente de lá para pôr acolá. Não, não, não. Não é possível. E tudo aquilo é minúsculo, do tamanho de uma pequena região francesa. É minúsculo. Querem dividir em dois esse território minúsculo onde as coisas são entrelaçadas há anos, séculos. É simplesmente impossível. CC : Para onde vai Israel ? No livro « Como foi inventado o povo judeu », o historiador Shlomo Sand desconstroi o mito que diz que a diáspora nasceu da expulsão dos hebreus da Palestina e não de conversões sucessivas na África do Norte, na Europa do Sul e no Oriente Próximo. Isso faz desmoronar os fundamentos do pensamento sionista que afirma que os judeus são descendentes do reino de Davi e não os herdeiros de guerreiros bérberes ou de cavaleiros kazares. Shlomo Sand diz que há pesquisadores em Israel que procuram o gene judeu. O que o senhor pensa disso ? E.H. : Acho muito bom esse livro. Nunca acreditei que existisse um povo judeu. Mas no livro ele demonstra de uma forma muito interessante. A ideia de base é verdadeira. Não há povo judeu, há uma cultura, uma cozinha. CC : E como base há uma religião revelada. Shlomo Sand diz isso no seu livro « Como deixei de ser judeu » (Comment j’ai cessé d’être juif), ele diz que um judeu laico não existe. Voltemos a Arafat. Por que o senhor concorda com Edward Saïd que disse que « Arafat era mais próximo de Petain que de Mandela » ? E.H. : Logo antes dos acordos de Oslo (1993-1994), houve a Conferência de Madri (1991) para onde foram convocados muitos representantes da sociedade árabe israelense e palestina. Havia encontros informais com responsáveis israelenses. Arafat viu o perigo que isso representava para a autoridade que não se chamava ainda Autoridade Palestina. Mas ele viu ameaça a ele, à sua instituição. E foi por isso que aceitou assinar rapidamente os acordos de Oslo que são a origem do desastre atual. Mas muitas pessoas acreditaram nesses acordos. Edward Saïd não acreditou, pediu demissão do Conselho Nacional Palestino do qual fazia parte e que era uma espécie de instância semi-representativa. Depois da assinatura dos acordos de Oslo, Arafat colaborou com o Estado de Israel… CC : Por isso ele foi mais um Pétain que um Mandela ?  E.H. : Sim, Mandela estava na prisão no mesmo estágio das coisas… Mas o fim de Arafat fez muito por sua imagem histórica. Ele também estava quase preso no seu refúgio em Ramallah. Era um fim triste e, finalmente, ele foi assassinado. O senhor acredita na tese do assassinato ? E.H. : Sim. Como médico, tenho certeza. O diagnóstico dos médicos franceses que o trataram era « coagulação intravascular disseminada ». Ora, isso não é um diagnóstico.  Constata-se isso quando se morre de uma picada mortal de serpente. Fratura do antebraço é um diagnóstico. Câncer do pâncreas é um diagnóstico. « Coagulação intravascular disseminada » não é um diagnóstico, é uma perturbação e ela é consequência dos envenenamentos do tipo veneno de serpente. Penso que ele foi envenenado. CC : Por quem ? E.H. : Difícil saber mas provavelmente por uma pessoa próxima dele a soldo dos israelenses. A imagem do velho líder prisioneiro na sua « moukata » era muito incômodo aos olhos da opinião pública internacional. CC : Yitzhak Rabin, que a posteridade descreve como um homem de esquerda, mandava quebrar as mãos dos palestinos que jogavam pedras para se defender. A esquerda israelense que defende a criação de um Estado Palestino é hoje inaudível. Como o senhor vê o futuro do Estado de Israel que marginaliza a população árabe israelense, que representa quase um quarto da população do país ? Pode-se falar de apartheid ? Para onde vai Israel ? E.H. : Claro que se pode falar de apartheid, ele é flagrante, evidente. Quando alguns juristas sul-africanos visitaram Israel alguém perguntou se o que viram lhes lembrava o apartheid na África do Sul. Eles responderam : « Sim, mas o governo sul-africano de então nunca enviou aviões para bombardear sua população ». No ponto em que estamos, a saída só pode vir do exterior do país. Creio que mergulhados num processo fascizante eles não podem sair sozinhos. É preciso que num determinado momento os inconvenientes dessa política pesem dramaticamente mais que as vantagens. E para chegar a isso a melhor arma é o boicote. Mas não apenas o boicote de tangerinas e abacates. CC : Que boicote pode ser eficaz ?  E.H. : O boicote intelectual, acadêmico, universitário. Para eles, esse boicote é extremamente grave. Israel pretende tirar toda sua legitimidade da inteligência, da criatividade. Se a gente diz, « sinto muito mas não quero », as coisas mudam. Publicamos um livro sobre o boicote intelectual de Israel, escrito por Eyal Sivan e Armelle Laborie, « Un boycott légitime ». O livro mostra como eles têm medo desse boicote e os milhares de dólares que gastam para tentar barrar o boicote intelectual. O boicote das frutas vindas de Israel não tem peso econômico, o comércio externo deles é forte, exportam armas ao mundo inteiro. CC : Até mesmo ao Brasil…. E.H. : O boicote intelectual e acadêmico pesa, eles o temem. Este boicote não diz respeito a pessoas. Não se boicota um cantor, um escritor. Boicota-se apenas se a atividade é sustentada, apoiada e apresentada oficialmente pelo Estado de Israel. CC : Esse boicote é eficaz ? E.H. : Sim, claro. No mundo inteiro, mesmo nos Estados Unidos ele é feito. Os sindicatos britânicos tomaram posição pelo boicote de Israel, muitas universidades americanas, muitos bancos americanos. A França é o pior país, provavelmente com a Alemanha. Aqui é muito difícil fazer o boicote avançar. CC : Por quê ? E.H. : Porque as forças que defendem cegamente o Estado de Israel são muito poderosas na França. Elas estão muito próximas do poder. CC : Em que país da Europa o boicote é mais ativo ? E.H. : Nos países escandinavos ele é extremamente importante. Devemos lembrar que a África do Sul capitulou por causa do boicote. CC : No livro « Comprendre l’Islam politique », François Burgat nos leva a um mergulho na história colonial do Ocidente que quis esmagar a cultura dos vencidos. Ele pensa que a radicalização sectária não é o fator que desencadeia a violência política. O Estado Islâmico é a consequência do colonialismo ?  E.H. : Se o cretino do George Bush não tivesse invadido o Iraque a situação do Oriente Médio e do Oriente Próximo não seria a mesma. Ele fez tudo mudar. Claro que Saddam Hussein não era um democrata, Kadafi também não. Mas eles eliminaram Saddam e veio o caos. Eliminaram Kadafi e veio o caos. Não se pode eliminar um líder, mesmo detestável, com tanques e bombardeiros e pensar que tudo está resolvido. Nesse « affaire » Iraque-Síria não se trata nem mais de colonialismo mas da profunda burrice de Bush. CC : Em suas crônicas políticas permeadas de ironia, humor e num tom sempre justo, o senhor não poupa Jeff Koons, entre outros. O senhor diz que com « sua experiência de ex-operador de matérias primas de Wall Street » ele convence « ricos amadores entre os quais Bernard Madoff, que seus coelhos infláveis e seus porcos de açúcar representam o que há de mais vanguardista ». O senhor é um crítico severo da arte contemporânea ? EH : Não sou dos que detestam a arte contemporânea. Mas Jeff Koons é uma piada que funciona de maneira incrível, é Jeff Koons em Versailles, Jeff Koons no Louvre, Jeff Koons o artista mais caro do mundo… Mas ele não é uma exceção, há outros como o inglês Damien Hirst. Felizmente, a arte contemporânea não se limita a esses personagens. Mas isso mostra também como ela se tornou um grande objeto de especulação financeira. Grandes « marchands » de arte – antigamente a gente dizia « marchands de tableaux » - enriqueceram com esse comércio, desde o século XVIII. Mas eram verdadeiros « connaisseurs », penso em Vollard e outros. Hoje, esse tipo de pessoa não existe mais. As grandes galerias são administradas como organizações financeiras e disso brota Jeff Koons. CC : O senhor diz que foi graças a colegas comunistas que pôde sair do mundo burguês normal. O senhor é ou foi comunista ? Por que o comunismo soviético deixou esse gosto amargo de ilusão perdida em todos os que pensam que outro mundo é possível e que a expressão de Margaret Thatcher « There Is No Alternative-TINA » é falsa ?  EH : Fui comunista até 1956, o ano de Budapeste. Mas Budapeste eu engoli com dificuldade. A gente dizia « OK, foi uma contra-revolução ». O que não engoli foi a posição do Partido Comunista Francês no momento crucial da guerra da Argélia, em 1956 também. Naquele ano, os comunistas votaram pelos plenos poderes do representante francês na Argélia e pelo envio do contingente de recrutas. Enquanto eram tropas do Exército de métier era uma coisa, enviar toda a juventude para a guerra da Argélia era outra. E os comunistas votaram a favor. Tenho amigos que faziam parte, como eu, de redes de ajuda à Frente de Libertação Nacional argelina, na França. Uma dessas organizações caiu e nela havia uns camaradas do Partido Comunista. Eles faziam parte dessas organizações, em desacordo com a diretiva do Partido. Ora, não apenas o Partido não os defendeu mas ainda os excluiu. A historia nos ensina que não nos arriscamos muito mas na época não sabíamos o que podia nos acontecer. Lembro-me que o motivo oficial da acusação não era « inteligência com o inimigo » porque o conflito não era reconhecido como uma guerra, mas aquilo podia levar a graves consequências, que felizmente não houve. Mas excluir pessoas presas era uma infâmia e por isso me afastei do Partido Comunista. Os comunistas franceses tiveram uma atitude claramente anticolonialista na guerra do Rif, em 1921, ou no combate do secretário-geral das juventudes comunistas, Jacques Doriot. Os deputados comunistas foram contra a guerra da Indochina, mas depois foi o que já mencionei. A descida ao inferno do Partido Comunista Francês, que passou de 25% aos atuais 2% a 3% de votos teve três causas. A primeira foi a guerra da Argélia, a segunda foi a chegada de De Gaulle ao poder no golpe militar de 1958, quando os comunistas não tiveram coragem de declarar greve geral, uma formidável maneira de barrar o golpe. Eles nem tentaram, apenas gritaram « o fascismo não passará ». A terceira foi Maio de 68. Naquele momento, a conivência dos comunistas com o poder ficou clara para quem sabia ver. CC : O senhor se afastou mas se considera sempre um marxista ? Como o senhor se define ? E.H. : Penso que há coisas boas, nesses últimos anos muitas coisas boas aconteceram. Hoje pode-se dizer « Sou comunista » sem ser obrigado a dizer « Sim, mas não sou comunista como… » CC : Pode-se, então, reivindicar uma afinidade com as ideias do comunismo, como faz claramente o filósofo Alain Badiou ? E.H. : Sim, pode-se dizer « sou comunista » sem ser obrigado a se desculpar, explicar durante meia hora que não se é Brejeneviano. Mas isso é recente. CC : Por que os grandes jornais franceses de esquerda cobrem tão mal o que se passa no Brasil onde uma extrema-direita neoliberal tomou o poder num golpe de Estado dissimulado em impeachment e apoiado pela imprensa oligárquica?   E.H. : Concordo que é muito mal coberto. Para que seja bem coberto é preciso que o jornal tenha um verdadeiro correspondente e creio que os jornais são pobres demais para isso. CC : Le Monde e Libération têm correspondentes no Brasil…  E.H. : Atualmente, é preciso ter olho crítico para entender o que se passa, procurar se informa rem outras mídias, francesas ou não. CC : Logo depois da tomada do poder pela direita mais corrupta próxima dos fundamentalistas evangélicos, a Total e outras multinacionais do petróleo já tinham recebido a parte do bolo das jazidas descobertas durante o governo Lula. O novo governo instalado no Brasil privatiza agora empresas estratégicas, vende a Amazônia em pedaços, programa exercícios militares conjuntos com os Estados Unidos, autoriza bases militares na nossa fronteira com a Argentina mas isso não parece interessar à mídia francesa. Por quê ? E.H. : Acho que é porque eles não fazem bom jornalismo e porque são politicamente mais à direita. CC : Por que o golpe de Estado no Brasil não foi condenado pelo Quai d’Orsay durante o governo Hollande ? E.H. : Os interesses franceses podem ter tido um papel nessa reação passiva. Mas será que Hollande e seu ministro das Relações Exteriores, Laurent Fabius, gostavam realmente do governo de esquerda derrubado ? *Jornalista Foto: (ULF ANDERSEN/VIA AFP)     ResponderEncaminhar Adicionar reação

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