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Garças na Praia de Belas

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Garças na Praia de Belas
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De NORA PRADO* Hoje amanheceu sem chuva, o que já é motivo de alegria para a gauchada louca para seguir com a limpeza das casas e o comercio enlameado. O vento forte balança as copas das árvores, trazendo o frio típico do inverno. Coragem, irmãos, vamos em frente para mais um dia nesta contagem regressiva para recuperarmos as nossas cidades. Porto Alegre ganhou mais um corredor humanitário por onde chegam mais caminhões com comida e donativos para os desabrigados. Facilita o trânsito pela zona norte da capital. Ontem, a base aérea de Canoas já começou a operar os vôos comerciais diminuindo a distância do estado com todos os outros da federação. Aleluia! Já se pode chegar aqui de avião, agora. Nosso aeroporto, Salgado Filho, submerso sob as águas, só dará o ar da graça novamente a partir de setembro. Sigamos pelos planos Bs. Meus gatos se acomodam, enroscados, cada qual na sua poltrona ou cama preferida, enquanto lá fora o frio gela tudo ao redor. Ouço uma máquina de cortar grama ao longe. Vizinhos trabalham nos jardins limpando galhos e folhas secas, cortando a grama. A vida precisa continuar. Penso no cardápio do almoço e lembro das centenas de cozinheiras que trabalham nos abrigos provendo café da manhã, almoço e janta para as vítimas da enchente. Quanto trabalho diário que segue enrodilhado na rotina que segue impávida. Repórteres do estado, e fora dele, seguem alinhando pautas e transmitindo imagens do nosso triste cenário. Reportam a nossa situação de extrema vulnerabilidade dando visibilidade e a real dimensão da destruição do estado. Eu, sigo escrevendo, compulsivamente, todas as manhãs sobre algum novo aspecto dos efeitos colaterais da tragédia. Impossível ficar imune ao que acontece. Como numa guerra, escrevo este diário, tristonho, na esperança de elaborar o luto e encontrar novas perspectivas de entendimento da calamidade. Descobrir sentidos e restaurar a confiança perdida e a fé de que logo voltaremos a uma nova normalidade. Por mais que me esforce, não há como acelerar o processo, quem dita o tempo são as águas. São os rios e a altura do nosso -rio Guaíba, que teima em boiar tranquilo pelo Centro Histórico, impedindo o retorno da antiga geografia. Nesta guerra contra as forças da Natureza, que veio buscar o que é seu por direito, precisamos ouvir as águas com mais atenção, perceber o que elas nos dizem, ouvir os seus gemidos, seus presságios, reclamações, seu acalanto noturno quando vamos, enfim, dormir. Sim, nosso suposto inimigo está nos ensinando sobre sobrevivência e convivência mais pacífica, mais justa entre nós e a Natureza. Se não reconhecermos o efeito didático desta catástrofe, não teremos aprendido nada sobre sustentabilidade e harmonia com o meio ambiente. É o que parece nos dizer as garças brancas que, em suave vôo, alcançam as águas podres da Praia de Belas com áreas, ainda, muito alagadas. Assim como se debruçam diariamente sobre o Arroio Dilúvio, na Av. Ipiranga, agora, elas encontram novo abrigo entre as águas e os edifícios da cidade. Uma cena poética em meio a tristeza que nos enche de ternura e esperança. Que a gente aprenda um pouco mais sobre leveza e convivência em grupo, com as garças bailarinas, a nos aproximar uns dos outros com cordialidade e respeito. Que a gente conviva com a Natureza como o rio abraça delicadamente as margens das matas, dos banhados e das matas ciliares. Que a gente reprenda a viver em paz nesta terra. Porto Alegre, 28 de maio de 2024.18. *Atriz, Coaching para Cinema e Televisão, Arte Educadora, Poeta e Fotógrafa. Foto: Jornal do Comércio Os artigos expressam o pensamento de seus autores e não necessariamente a posição editorial da RED. Se você concorda ou tem um ponto de vista diferente, mande seu texto para redacaositered@gmail.com . Ele poderá ser publicado se atender aos critérios de defesa da democracia.

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Enchentes no Rio Grande do Sul: omissão imperdoável do Governador e do prefeito

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Enchentes no Rio Grande do Sul: omissão imperdoável do Governador e do prefeito
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De ALEXANDRE CRUZ* As recentes enchentes que devastaram Porto Alegre e diversas regiões do Rio Grande do Sul trouxeram à tona a negligência e a irresponsabilidade de nossos líderes políticos. Em uma entrevista à Folha de São Paulo, o Governador Eduardo Leite admitiu que estudos alertaram sobre a possibilidade de inundações. Apesar disso, ele escolheu focar em outras agendas. Paralelamente, o prefeito de Porto Alegre, Sebastião Melo, foi alertado pelo Departamento Municipal de Água e Esgotos (DMAE) sobre os riscos iminentes em bairros críticos como Centro, Menino Deus, Cidade Baixa e Sarandi. A resposta de ambos foi insuficiente, revelando um descaso inaceitável com a segurança da população. Os estudos que previram as inundações não foram apenas documentos técnicos; eram avisos claros sobre uma tragédia anunciada. A declaração de Leite de que “outras agendas” foram priorizadas soa como um insulto para aqueles que perderam tudo. Governar é sobre tomar decisões difíceis, mas a escolha de ignorar alertas de catástrofe em potencial é uma decisão que vai além da negligência – é um ato de irresponsabilidade. Melo, por sua vez, foi alertado pelo DMAE sobre os riscos em áreas específicas de Porto Alegre. Bairros como Menino Deus e Cidade Baixa, que sofreram com as enchentes, poderiam ter sido protegidos se medidas preventivas tivessem sido adotadas. A falta de ação do prefeito não pode ser justificada. Em tempos de crise, a inação é tão danosa quanto a má ação. A população esperava proteção e recebeu descaso. As consequências das enchentes foram catastróficas. Famílias desabrigadas, comércios destruídos, e vidas interrompidas. Histórias como a de Maria, uma residente do bairro Sarandi, que perdeu sua casa e todos os seus pertences, refletem o sofrimento de milhares de gaúchos. Essas pessoas não podem ser vistas apenas como estatísticas em um relatório de desastre. São vidas arruinadas pela negligência de quem deveria protegê-las. Não podemos aceitar que nossos líderes elejam outras agendas em detrimento da segurança da população. É hora de responsabilizar Eduardo Leite e Sebastião Melo por suas omissões. A sociedade precisa exigir políticas públicas eficazes, investimento em infraestrutura e um compromisso real com a prevenção de desastres. Não podemos permitir que essa tragédia se repita por causa da falta de ação de nossos governantes. As enchentes no Rio Grande do Sul expuseram falhas graves na gestão pública. A confissão de Leite sobre os alertas ignorados e a falta de ação de Melo mostram um desprezo alarmante pelas necessidades da população. É essencial que esses líderes sejam responsabilizados por suas omissões. A indignação da sociedade deve ser o motor para mudanças urgentes na forma como nossas cidades são administradas. Não podemos mais aceitar a negligência de nossos líderes políticos. É hora de exigir responsabilidade e compromisso com a segurança e o bem-estar de todos os cidadãos. *Jornalista político. Foto: Marcelocaumors/Instagram Os artigos expressam o pensamento de seus autores e não necessariamente a posição editorial da RED. Se você concorda ou tem um ponto de vista diferente, mande seu texto para redacaositered@gmail.com . Ele poderá ser publicado se atender aos critérios de defesa da democracia.

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Negacionismo, força destrutiva, inclusive negacionismo econômico

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Negacionismo, força destrutiva, inclusive negacionismo econômico
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De JOÃO CARLOS LOEBENS* A negação da vacina surgiu recentemente - os anti-vacina. Até 10 anos atrás, o normal era a preocupação com as vacinas em dia. A negação da vacina é um exemplo evidente e fácil de ser compreendido, e comprovado, em relação aos efeitos danosos e destrutivos, pois pode levar à morte. Infelizmente a negação da vacina é apenas um fato dentro de um contexto maior – o negacionismo. Nega-se praticamente tudo, é a negação da vacina, negação da ciência, negação da terra redonda (discípulos de Olavo de Carvalho diziam que a terra é plana), negação da arte, negação do Novo Testamento (que revogou o Antigo Testamento), negação da política como instrumento de solução de divergências, e inclusive negacionismo econômico. O negacionismo passou a ser uma pauta importante e seguida por várias pessoas, defendido muitas vezes de forma ferrenha por um grupo político, como sendo um valor fundamental. É uma força destrutiva que somente consegue prosperar na agitação e conflito permanente. Nas enchentes catastróficas do RS estamos vendo negacionistas espalhando desinformação, mentiras, Fake News. O negacionismo tem um objetivo: minar a confiança entre as pessoas. Os negacionistas, alguns sem se darem conta, são inimigos da democracia. Fica tão fácil de perceber o espírito anti-democrático dos negacionistas ao ver a defesa veemente ou velada que fazem das ditaduras militares, que torturaram e assassinaram pelo mundo afora. E o negacionismo econômico? O negacionismo econômico é defender e acreditar que um Estado Mínimo vai gerar prosperidade para todos. O que temos de fatos e evidências para avaliar? Qual o país que mas cresce hoje em dia? Qual modelo de Estado foi adotado pelos países que cresceram? Todos concordam que é preciso industrializar a cidade, o Estado, o País para gerar crescimento econômico. No caso do Brasil seria na verdade reindustrializar, porque o país já foi muito mais industrializado do que é hoje. Uma primeira questão seria avaliar por que o Brasil se desindustrializou a partir dos anos 1990. A partir de 90, foram os anos da abertura econômica, do dólar flutuante, do início das privatizações ... que nos levaram à desindustrialização. É o famoso Consenso de Whashington, as “10 leis econômicas” do neoliberalismo, que já demonstraram ser um retumbante fracasso. Como explicar o espetacular crescimento da China desde os anos 1990? Pois justamente, a China não adotou as políticas neoliberais do Consenso de Washington, não adotou a “lei maior” do Estado Mínimo, que no outro lado da moeda é o Mercado Máximo. O negacionismo econômico é continuar “apostando” e implementando uma política econômica (Consenso de Washington, Estado Mínimo, privatizações ...) que gerou desindustrialização. Também gerou meia dúzia de bilionários (concentração de renda e riqueza) e milhões de pobres. O negacionismo é uma força destrutiva, tanto na negação da vacina (morte), como na democracia (forças anti-democráticas), e inclusive na economia (desindustrialização). Mas por que tem ricos bilionários defendendo e financiando o negacionismo? Porque monetizam as mentiras, as Fake News, e ganham dinheiro com a desgraça alheia. No negacionismo econômico, os bilionários são os favorecidos. *Auditor Fiscal da Receita Estadual do Rio Grande do Sul, doutorando em economia pela Universidade de Alcalá e membro do Instituto Justiça Fiscal. Imagem em Foto: Monstera/Pexels Os artigos expressam o pensamento de seus autores e não necessariamente a posição editorial da RED. Se você concorda ou tem um ponto de vista diferente, mande seu texto para redacaositered@gmail.com . Ele poderá ser publicado se atender aos critérios de defesa da democracia.

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Minha entrevista não foi publicada porque me recusei a confirmar a pauta do repórter

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Minha entrevista não foi publicada porque me recusei a confirmar a pauta do repórter
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De JURANDIR MALERBA* Sou Professor Titular de História da UFRGS e reporto a seguir um episódio revelador do modus operandi de certos veículos de imprensa brasileiros. Em meio à tragédia que vivemos no Rio Grande do Sul, semana passada um jornalista de veículos reacionários da grande imprensa entrou em contato pedindo uma entrevista sobre a recentetragédia climática no Rio Grande do Sul, quando choveu, em uma semana, dez vezes a média histórica para todo o mês de maio, causando mortes e destruição. As perguntas enviesadas já evidenciavam para onde o jornalista queria levar a matéria: uma crítica da atuação do Estado, louvando ações individuais da “sociedade civil”, reproduzindo a fake de que o “povo” salvou o povo. Em minha devolução, posicionei-me contra o viés inscrito no questionário, não obstante tenha me disposto a respondê-lo, até como um contraponto àqueles que atenderiam às expectativas do editorial. Segue a reprodução integral das perguntas e respostas: 1. Por que o brasileiro tem sido tão solidário com os gaúchos? Uma tragédia dessa dimensão, uma das maiores da história do Brasil, ao lado do rompimento da barragem em Brumadinho (2019) e da hecatombe da pandemia de Covid no Brasil (2020-2021) não há como passar incólume à população brasileira, que sempre foi majoritariamentesolidária, exceto uma fração, nada desprezível numericamente, de classe média. Por outro lado, não se pode desconsiderar o efeito “poderia ser comigo”, já que a incompetência e a má gestão pública, principalmente nos níveis municipal e estadual, é de conhecimento de todos. Pesquisa da Confederação Nacional de Municípios desta semana revelou que 8 em cada 10 prefeitos do país assumem despreparo para lidar com eventos climáticos extremos. E todos sabem, até os negacionistas, que os eventos vão se intensificar em número e potência. 2. Houve momentos parecidos na nossa história? Quando? Certamente, como a enchente histórica aqui mesmo em Porto Alegre em 1941. Desconsiderando o modelo de urbanização criminoso europeu de avançar a cidade sobre o rio, aquela enchente foi um fenômeno natural. Mas esta, de 2024, não! Entre 1950 e começo da década de 1970,Porto Alegre investiu na construção de um sofisticado sistema contra enchentes. O que acaba de acontecer é o resultado criminoso de sucessivas gestões que, além de não inovar o sistema, o sucatearam, sem investimento e manutenção. Os números estão disponíveis e há documentos que comprovam a negligência das últimas administrações estaduais e federais. Para ficar em outros três desastres recentes, com o mesmo caráter criminoso, basta lembrar os rompimentos de barragem em Mariana (2015) e Brumadinho (MG), o primeiro o maior em impacto ambiental e o segundo em número de vítimas; e os 700 mil brasileiros e brasileiras vítimas não só do vírus SARS-Cov-2, mas da gestão criminosa da crise de saúde pelo então governo negacionista. Com 2,7% da população mundial, o Brasil concentrou 13% das mortes porCovid no planeta. O relatório final CPI da Covid abunda em dados e a sociedade aguarda o indiciamento, pela Justiça, dos culpados. 3. Até então, falava-se muito da polarização política e do individualismo, coisas que estariam minando o nosso senso de comunidade e a união entre as pessoas. Por que essas coisas não atrapalharam tanto? A polarização política, como pessoas de boa-fé sabem, não existe, pois não há “polos”. Há uma extrema-direita fascista, globalmente articulada e muito ativa na disseminação de fake news inclusive nesta crise do Rio Grande do Sul, espalhando concertadamente que o Estado (em âmbito federal) está inativo, ou mesmo atrapalhando e que é o “povo” que está socorrendo o povo. Eu vivo em Viamão, na área metropolitana de Porto Alegre e estive na linha de frente da crise, voluntariando, e garanto que, sem suporte do Estado, a sociedade civil, sozinha, não teria conseguido salvar um décimo das vítimas, pessoas e animais. No entanto, vemos a proliferação de fakes, como bloqueio de estradas por polícias e Exército e assim por diante. As razões do ataque às FFAA pela extrema direita são de público conhecimento: retaliação pela não adesão ao golpe falido em 8 de janeiro de 2023. 4. Muita da ajuda foi prestada pela própria sociedade civil, e não pelo governo/Estado. Isso terá consequências para o futuro? Teremos uma população mais unida e mais cética com o Estado no futuro? Como eu disse, essa afirmação é falaciosa. Sem dúvida, o voluntariado foi importante no socorro imediato, durante aschuvas torrenciais e inundações. Mas o Estado (tanto no âmbito municipal, como Estadual e, principalmente, Federal) também foi decisivo no socorro às vítimas desde o primeiro momento. E o será na reconstrução do estado do RS. A “sociedade civil” não aportará centenas de bilhões necessários à reconstrução da infraestrutura logística, de socorro às empresas e às famílias. Neste ponto entra o problema central da comunicação. Se não houver um controle responsável das mídias digitais, estaremos todos sob o risco do enfraquecimento do Estado. 5. Por que as narrativas políticas para tentar dividir a população durante esse momento parecem não ter prosperado? Essa proposição não é inteiramente verdadeira. A extrema-direita tem logrado algum êxito na propagação de mentiras. Por outro lado, é preciso uma percepção sociológica mais aguçada para pensar a “população”. Ela não é coesa. Bastará observar, conforme as estatísticas ficarem disponíveis, quem são proporcionalmente os segmentos mais afetados pelo desastre. São os pobres, os periféricos, das cidades-satélites de Eldorado do Sul e Guaíba, das periferias deSão Leopoldo e Canoas; dos bairros pobres de Porto Alegre como São Geraldo, dos baixadões do Humaitá e da Zonal Sul, onde se concentram muitas “vilas” (como aqui se chamam as favelas). E não será de egressos desses extratos que a produção de fake news acontecerá, mas das classes médias não atingidas. Imediatamente, sem emitir juízo algum sobre minhas respostas, o jornalista pediu para aprofundar a comparação àtragédia climática do RS com aCovidno Brasil, em relação a seu caráter histórico, questionando se as enchentes deste ano, aqui, poderiam mudar o modo de ver os eventos climáticos no Brasil. E assim me dei ao trabalho de responder: Vai depender de uma série de fatores. Os negacionismos são uma realidade deletéria nos últimos anos, potencializados e usados politicamente pelas/nas redes sociais. Foi assim na pandemia, e assim é em relação à ciência, à história, à política, às religiões. Então, em uma época em que pessoas acreditam que a terra é plana e tentam convencer outras pessoas disso, e em que setores criminosos manipulam essa ignorância, a coibição veemente dasfake news negacionistas por parte das autoridades judiciais será um elemento decisivo para que as pessoas entendam que estamos no ponto de não retorno em relação ao meio ambiente e ao clima. Depois de ter atendido ao jornalista, respondendo até pergunta extra, sua resposta foi a de que não incluiria minha contribuição no texto que produzia, que já estava quase finalizado, porque “Nós realmente estamos indo por caminhos muito distintos, uma pena” e que esperava que eu conseguisse “publicar suas reflexões em outro lugar”. Agradeço ao jornalista dos veículos reacionários a oportunidade de organizar minhas reflexões e publicá-las em outro lugar, ao mesmo tempo desnudando essa forma perniciosa de fazer imprensa, infelizmente, ainda corrente no Brasil. Ao confirmar que seguíamos por “caminhos muito distintos”, os veículos revelam que simplesmente procuravam por alguém, com alguma chancela institucional, que endossasse sua perspectiva liberal, anti-Estado, mercadófila, individualista e negacionista. Não se tratava de matéria jornalística, mas uma busca de material para apregação ideológica. Se não responder o que o veículo quer, não se publica. Esse tipo de “cobertura” é tragédia em cima de tragédia! *Historiador, Professor Titular Livre da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS. Foto: Divulgação As opiniões emitidas nos artigos expressam o pensamento de seus autores e não necessariamente a posição editorial da Rede Estação Democracia.

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Zero Hora e a tragédia como erro técnico

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Zero Hora e a tragédia como erro técnico
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De TARSO GENRO*   De repente uma boa parte da grande imprensa, especialmente abrigada na Zero Hora, começou a defender a tese de que seria errado discutir o que vem ocorrendo na cidade, do ponto de vista da posição política dos seus agentes públicos. As discussões devem ser sobre técnicas e gestão administrativa, alegam seus porta-vozes, sem explicar - todavia - como separar técnicas de controle climático e gestão do Estado, sem vincular esses temas às escolhas políticas dos agentes públicos. A sua visão ideológica, mais negacionista ou menos negacionista -nesta visão dos proeminentes jornalistas daquele órgão de imprensa - não tem importância para o que devemos construir no futuro. Até parece que o Prefeito da cidade não é um rematado bolsonarista-negacionista de primeira hora e que suas omissões nada tem a ver com a sua ideologia e com a dimensão da nossa tragédia.   A hecatombe de Porto Alegre tem revelado, não só a decadência das funções públicas do Estado provocada pela inércia e omissão deliberada de gestão dos "liberais" e negacionistas da cidade, mas também porque os resultados da tragédia serão expostos - ainda no cenário da nossa vida - de forma reiterada e previsível. A ofensiva nacional contra o poder público e contra os rituais da política democrática, contra o serviço público em particular - e até contra políticas compensatórias timidamente social-democratas - teve um momento bem marcado no ciclo democrático que começou em 88. Foi um momento simbólico e que, construído como foi, processualmente foi transformando o PSDB num partido palidamente centrista até fazê-lo um quase anexo do bolsonarismo em escala nacional.   Lembro-me quando o ex-Presidente Fernando Henrique Cardoso, um intelectual renomado e um democrata comprovado disse - num momento de exaltação do seu Governo - que a "era Vargas" tinha terminado. Foi em 14 de fevereiro de 1995, por ocasião da sanção da Lei das Concessões, destinada "a separar a função regulatória e fiscalizadora, tarefa do Estado " -disse o Presidente - "da ação do investimento e da ação da competição". Fernando Henrique nunca foi um negacionista nem um Presidente autoritário ou mentiroso, mas ele revelava naquela solenidade uma mudança de direção dos ventos socialdemocratas no mundo, que levariam os partidos deste campo - de uma posição de "centro-esquerda" e de "centro" para a "centro-direita" ou mesmo para a direita clássica, em determinadas regiões. A mudança das funções públicas do Estado estava no centro deste movimento.   A vantagem da nova Lei, segundo FHC, estaria "no poder que as empresas" teriam de "explorar bens em benefício do público, lucrando com a cobrança de tarifas." Tal Lei estava baseada na reformulação da doutrina da "importância das estatais", que passariam a ser eliminadas para que o Estado pudesse atender "os anseios do mudo contemporâneo". Sem entrar neste momento - na discussão dos erros e furtos cometidos nas privatizações e concessões selvagens de lá para cá - o que se pode dizer é que até o presente não se confirmou, na maioria das privatizações e concessões, a delicadeza empresarial universal de compatibilizar a exploração de bens em benefício público, com cobrança de tarifas lucrativas para as empresas, fora do controle dos consumidores. O que se viu foi uma grande capacidade das empresas privatizadas ou concedidas de aparelhar o Estado, para proteger-se da sua fiscalização e do controle a que estariam submetidas.   Quando se revelava este processo de aparelhamento os privatistas de todas as latitudes diziam, rapidamente, que os partidos também aparelham, o que é verdade, mas com uma diferença substancial: estes podem ser retirados do poder nas eleições seguintes e assim punidos diretamente pelos consumidores. As empresas que "compram" (ou recebem de graça) as estatais, não serão derrotadas nas eleições nem terão a sua posse ou concessões subtraídas, já transformadas numa máquina de lucros para o setor privado. Seus prepostos políticos, todavia, podem, também, mudar de partido e acompanhá-las nos próximos governos, com todas as benesses legais e ilegais que isso possibilita. É que se tem visto em escala industrial, país a fora e America Latina a dentro   Refiro, neste texto, a privatizações de bens e serviços que não deveriam ser regulados pelas leis mercado e deveriam estar disponíveis para todos, sob direção e controle do Estado, como são a água, saneamento, energia elétrica, serviços de saúde pública, sistemas de proteção contra desastres naturais, instituições de pesquisa, indústria militar e órgãos de polícia eco-ambientais. O mundo mudou e a força coercitiva das grandes potências, para expandir os seus negócios, tornou-se um elemento central para compreender o que ocorre em escala global e local. Cada efeito da decomposição climática e dos problemas econômicos e sociais de qualquer lugar do mundo, cidade, região ou país, não podem ser mais pensados "por fora" das grandes questões políticas do mundo.   Acresce-se, nos dias de hoje, uma nova consideração que deveria servir de base, tanto para compormos uma política de defesa como de soberania nacional: o panorama geoeconômico global mostra que China e EUA - as duas potências que controlam a economia política mundial - tem os mesmos interesses em relação aos países periféricos e do segundo time, no concerto mundial. Este interesse é o de fortalecerem-se - econômica e militarmente - para defenderem suas ideias de nação dominante, não a nossa ideia de nação soberana. Esta contradição na disputa pela hegemonia - entre os dois gigantes - abre um novo e exíguo espaço para o exercício da nossa soberania e da nossa construção nacional, sem nos tornarmos marginais no cenário político do mundo. Não pensar, politicamente, o que ocorre na nossa cidade neste momento é o melhor caminho para nos tornarmos, todos, perfeitos idiotas negacionistas, ultraliberais latino-americanos. Esperando não Godot, como na peça de Samuel Beckett , mas um novo Síndico para um edifício arruinado.   *Advogado, professor universitário, ensaísta, poeta e político brasileiro filiado ao Partido dos Trabalhadores. Foi duas vezes prefeito de Porto Alegre e ministro da Educação, das Relações Institucionais e da Justiça durante o governo Lula. Foto: Prefeitura de Porto Alegre/Divulgação Os artigos expressam o pensamento de seus autores e não necessariamente a posição editorial da RED. Se você concorda ou tem um ponto de vista diferente, mande seu texto para redacaositered@gmail.com . Ele poderá ser publicado se atender aos critérios de defesa da democracia.  

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As vozes da distopia

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As vozes da distopia
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De CELSO JAPIASSU * Os partidos neonazifascistas apresentam-se hoje com votações acima de 15 por cento em 19 países da Europa e só não possuem representantes nos parlamentos da Lituânia, Malta e Irlanda. Cada vez mais a atuar como aliada preferencial da direita tradicional, dita democrática, a extrema direita articula-se em frentes, elabora planos internacionais e confia no que acredita ser inevitável: a conquista do poder em todos os países. É o vislumbre de um mundo sombrio, distópico e miserável. Às vésperas das eleições para o Parlamento Europeu, que se realizam no próximo 12 de junho, os representantes da extrema direita internacional reuniram-se a 19 de maio em Madri. Discutiram a união contra o socialismo e a imigração, com destaque para Javier Milei, que chamou a esposa do primeiro-ministro espanhol de corrupta, provocando uma crise entre os governos da Espanha e da Argentina. O líder do partido português Chega, André Ventura, afirmou sua convicção de se tornar o próximo primeiro-ministro de Portugal. Palco privilegiado dos grandes acontecimentos que traçaram os destinos da Humanidade, a Europa viu e sofreu guerras infindáveis, ódio entre seus povos, doença, miséria e todas as danações de que a nossa espécie é capaz. Foi também o espaço humano onde floresceram a arte e as melhores criações do espírito humano. Na crença de ser possível o entendimento entre nações nascidas e criadas em conflito, este castigado continente inaugurou com a União Europeia uma experiência política em busca de finalmente garantir paz e cooperação em seu território. Mas as contradições humanas, como sempre, estão ativas e continuam a conspirar contra uma convivência harmônica e produtiva. A guerra da Ucrânia é fruto das concepções geopolíticas de dois governos de direita açulados pelos Estados Unidos e pela União Europeia. O projeto da União Europeia, por muitos definido como grande avanço no processo civilizatório, é por outros acusado de não passar de um projeto geopolítico de dominação do continente por um consórcio formado pela Alemanha em sociedade com a França. A maior ameaça à existência de uma Europa unida está presente no seu próprio interior e toma corpo nas teses e na ação da extrema direita, que tem cada vez mais fortalecido a sua presença no Parlamento Europeu, feito crescer seus partidos e conquistado o poder em alguns países enquanto se prepara para vencer as eleições em outros. O exacerbado nacionalismo da direita é eurocético. O assalto ao poder, que antes se dava através de revoluções, hoje ocorre em golpes dentro de um rito de aparência democrática. Os meios oferecidos pela tecnologia são capazes de conquistar os corações e o voto da classe média. A classe operária, desmanteladas as suas associações e sindicatos, deixou de fazer revoluções. Direita unida A extrema-direita com fortes características neofascistas governa a Hungria e a Polônia enquanto se fortalece na Itália, onde chegou ao poder, na França, Suécia e também na Alemanha, onde o neonazista AfD está em segundo lugar nas preferências de voto. Na Espanha, a direita do PP acaba de ser bem-sucedida nas eleições e o Vox, criado em 2013, apesar do fracasso em algumas eleições, continua seu movimento de unificação dos movimentos conservadores reacionários. Portugal viu surgir o Chega, seu primeiro partido claramente populista de extrema direita. O encontro entre esses partidos tem como objetivo a formação de uma aliança entre eles que fortaleça a sua influência no Parlamento Europeu e dê suporte à conquista dos governos nacionais onde a extrema direita tem visto crescer o número dos seus seguidores. Há algum tempo foi realizada uma outra reunião em Budapeste entre os líderes neofascistas da Itália, Matteo Salvini, da Polônia, Mateusz Morawiecki, e da Hungria, Viktor Orbán. Segundo um comunicado emitido depois daquela reunião, a pauta do encontro tratou da proteção das raízes da Europa contra o “multiculturalismo sem alma”, decorrente da imigração e a defesa da família tradicional. Essa frente única da extrema-direita pretende reunir recursos e aumentar sua influência e importância no cenário da Europa. Unidos, estes movimentos serão capazes de representar o segundo maior grupo político no Parlamento Europeu, mais numeroso do que os tradicionais sociais-democratas. Não é a primeira vez que a extrema direita europeia ensaia uma aliança transnacional. Em 2017 o AfD (Alternative für Deutschland), neonazista alemão, promoveu uma convenção à qual estiveram presentes a francesa Marine Le Pen, o italiano Matteo Salvini e o holandês Geert Wilders. Em 2019 Salvini, liderando o neofascismo italiano, reuniu-se com Orbán, viajou até à Polônia e organizou um comício em Milão ao qual estiveram presentes outros onze líderes neofascistas. Ampliando para fora da Europa a sua articulação, Salvini cultivou estreitas relações com os também neofascistas Jair Bolsonaro do Brasil e o primeiro-ministro da Índia, Narenda Modri. Nessas articulações contou com o suporte do sinistro Steve Bannon, sua influência e seus contatos internacionais. Uma dificuldade que surgiu nessa ensaiada aliança reside nas diferentes posições desses movimentos em relação à Rússia. O polonês Lei e Justiça posiciona-se firmemente contrário à Rússia e seu governo enquanto cultiva relações estreitas com os países ocidentais, especialmente com os Estados Unidos. O italiano Liga, o francês Rassemblement National e o alemão AfD por sua vez opuseram-se às sanções americanas contra a Rússia e seus representantes já visitaram várias vezes a Crimeia anexada por Moscou. Delegações do AfD tiveram algumas reuniões com representantes do governo russo. Marine Le Pen encontrou-se pessoalmente com Vladimir Putin. Militares e política Um ponunciamento militar de feições subdesenvolvidas surpreendeu a França no dia 13 de maio de 2021. Como se copiassem um modelo das confusas repúblicas centro-americanas, mil e duzentos militares aposentados e muitos da ativa, entre eles 24 generais, ameaçaram o governo com uma intervenção se o presidente Emmanuel Macron não desenvolvesse ações para erradicar os perigos de desintegração e declínio do país. O manifesto militar, publicado na revista de extrema direita Valleurs Actuelles, culpou a imigração e as “hordas do subúrbio”, além da islamização da Europa, pelas ameaças à integridade da França. Marine Le Pen proclamou apoio à manifestação militar e falou dos perigos de uma guerra civil. A Ministra das Forças Armadas, Florence Parly, defendeu a punição dos militares que teriam desrespeitado o dever da reserva e qualificou o ato como uma irresponsabilidade. Sobre a declaração de Le Pen, disse que “querer politizar os militares é um insulto a sua missão”. O jornal liberal L’Opinion resumiu em sua manchete: Armée et extrême droite: militaires en retraite rêvent d’insurrection – Exército e extrema direita: militares da reserva sonham com uma insurreição. A carta dos militares endereçada ao presidente Macron, e que recebeu o apoio de Marine Le Pen, diz textualmente: “Estamos prontos para apoiar políticas que levem em consideração a salvaguarda da nação. Por outro lado, se nada for feito, a frouxidão continuará a se espalhar inexoravelmente na sociedade, acabando por causar uma explosão e a intervenção de nossos companheiros ativos em uma missão perigosa para proteger nossos valores civilizacionais. Contaremos milhares de mortos que estão sob sua responsabilidade.” Os militares que assinaram o manifesto na França enfrentaram algumas consequências. O Estado Maior das Forças Armadas anunciou punições contra os militares da reserva que assinaram o documento pregando a insurreição. O Chefe do Estado-Maior pediu que os militares por trás da carta pública deixassem as Forças Armadas, e a ministra da Defesa acusou os manifestos militares de "grosseira maquinação política". *É autor de Poente (Editora Glaciar, Lisboa, 2022), Dezessete Poemas Noturnos (Alhambra, 1992), O Último Número  (Alhambra, 1986), O Itinerário dos Emigrantes (Massao Ohno, 1980), A Região dos Mitos (Folhetim, 1975), A Legião dos Suicidas (Artenova, 1972), Processo Penal (Artenova, 1969) e Texto e a Palha (Edições MP, 1965). Foto: Parlamento Europeu Os artigos expressam o pensamento de seus autores e não necessariamente a posição editorial da RED. 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