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CAPACETAÇO CONTRA FACADA: como a insegurança jurídica pode levar à violência

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CAPACETAÇO CONTRA FACADA: como a insegurança jurídica pode levar à violência
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Por LUIZ ALBERTO DE VARGAS* Os jornais dos últimos dias relatam dramático conflito entre três membros de uma família e um motoboy que resultou em ferimentos graves por arma branca no motociclista que, perseguido e atacado por supostas ofensas, defendeu-se aos ataques à faca esgrimindo o próprio capacete da moto, que, assim manejado, transformou-se também em arma branca. Por certo, especialistas em direito penal, sociólogos e psicólogos terão muito a dizer, mas reservo-me um espaço pequeno para tratar da questão por um ângulo inusitado: o de quanto a insegurança jurídica a respeito do vínculo de trabalho do motoboy pode ter contribuído para o lamentável episódio. Por certo, se poderia também encarar o problema da insegurança jurídica por outro lado, o da (i) responsabilidade da empresa com quem a família contratou o serviço de entrega (tema de direito do consumidor) ou, mesmo, colocar o tema em uma perspectiva ainda mais ampla, como pode ser o das incertezas em mundo cada vez mais imprevisível e o que teria isso a ver com as conhecidas ideias de Baumann sobre o chamado “mundo líquido’. Sendo da área do direito do trabalho, conformo-me a ver a vida da minha janela e, aqui, de partida, tenho de constatar que a vida dos trabalhadores motoclistas não tem sido das mais fáceis ultimamente. Jornadas de trabalho desumanas sem pagamento de horas extras, remuneração por tarefa condicionada ao pagamento pelo cliente, exigências de entrega em tempo exíguo sob pena de não-pagamento da comissão, não-cobertura dos riscos de acidente no trânsito, não assinatura da CTPS e não-reconhecimento dos direitos celetistas e previdenciários. Sem falar, é claro, do pagamento de uma exígua “taxa de entrega” que, calculada de forma contabilmente rigorosa, sequer cobre os custos do aluguel e da manutenção da motocicleta alugada. Mais: a própria imagem do entregador motociclista já está sendo irremediavelmente comprometida por um seriado cômico de televisão que, semanalmente, a pretexto de “homenagear” os motoboys, apresenta-os como ociosos que passam os dias nas calçadas, criando confusões de todo tipo. Talvez esse trabalhador esteja desmotivado, extenuado, sobrecarregado e, por falta de treinamento, não tenha mesmo desenvolvido a paciência e cortesia que, em geral, se espera de todos que trabalham no ramo do comércio. Claro que nada disso justifica que um motoboy ofenda quem quer que seja, muito menos o cliente que teria se recusado a pagar a mercadoria já entregue. Em mundo civilizado (menos líquido), dívidas contraídas com as empresas são pelas mesmas cobradas na justiça e não exigidas aos berros na frente da casa do devedor pelo empregado.  Também num mundo de maior “segurança jurídica”, ofendidos verbalmente não tomam a justiça nas próprias mãos e perseguem o ofensor de faca na mão. Em outros tempos, tudo se resolveria com um telefonema para a empresa, queixando-se da conduta do empregado. Ah! Pois é!  Ele não era empregado e a empresa sustenta não ter qualquer responsabilidade pelas condutas eventualmente lesivas aos seus clientes por seus “colaboradores”. Triste mundo em que, ao invés de procurar a Justiça, as pessoas buscam, cada vez mais, “meios alternativos para solução dos conflitos”, no caso concreto a golpes de facada e capacetaço. *Luiz Alberto de Vargas é Desembargador do Trabalho e membro da Associação de Juízes e Juízes para a Democracia Foto da capa: Motoboys durante manifestação no Rio de Janeiro - Reprodução/Redes Sociais

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Maria da Conceição Tavares

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Maria da Conceição Tavares
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Por PAULO NOGUEIRA BATISTA JR.* A comoção provocada pela morte de Maria da Conceição Tavares é mais uma demonstração da força incontrastável da sua personalidade vulcânica. Ela impressionava não só pelo seu conhecimento e inteligência, mas também – e nisso era insuperável – pela verve e eloquência. O Brasil teve dois grandes oradores nas décadas recentes – ela e Brizola. Quando Conceição pegava a palavra – e especialmente quando conseguia conter um pouco seus rompantes – ela brilhava intensamente e deixava marcas inesquecíveis. Ainda me lembro dela num evento em Buenos Aires, nos anos 1980, irritada com o radicalismo dos argentinos, exclamando: “Vocês são uns românticos alemães!” para depois desenvolver toda uma argumentação em favor da moderação e do equilíbrio. Observação agudamente perspicaz a dela. Quem conhece a Argentina e o romantismo alemão há de concordar que existe, sim, um parentesco que ajuda a entender a atração pelo abismo dos nossos queridos vizinhos. Em outra ocasião, presenciei um debate dela com estudantes da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Pressionada por intervenções hiper esquerdistas da plateia, ela explodiu: “A ideologia é uma plataforma precária!”. Advertência fundamental. Conceição não deixava de ser ela mesma uma ideóloga, como é natural, mas nos ensinava que sem estudo, conhecimento e ciência não se chega nem na esquina. Esses dois episódios são reveladores de um traço do seu caráter. Conceição era um paradoxo ambulante – defendia a cautela com o máximo de exaltação, pregava a moderação aos berros. Só quem a conhecia um pouco mais de perto sabia que a sua fúria retórica escondia uma personalidade essencialmente moderada. Conto mais um episódio revelador. Em 1987, eu fazia parte de uma pequena equipe de assessores do ministro da Fazenda, Dilson Funaro – outro gigante, diga-se de passagem – que preparava no maior sigilo a moratória da dívida externa. Apesar dos nossos cuidados, à medida que se aproximava a data marcada para a suspensão dos pagamentos, começaram a ocorrer alguns vazamentos. Os rumores chegaram aos ouvidos dela, que na época assessorava o ministro do Planejamento, João Sayad, deixando-a preocupada, para não dizer alarmada. Conceição saiu em busca de informações. Chegando no Ministério da Fazenda, ela topa comigo no corredor que levava à sala do ministro Funaro. Ela agarra meu braço com força, quase me derrubando, e dispara: “Paulinho, vocês não pensam que vão fazer a moratória, não é mesmo?”. E me olhava fixamente, cravando os olhos nos meus. Eu não queria mentir, fiz cara de paisagem e desconversei, dizendo algo como: “Fique tranquila, a questão da dívida está sendo tratada com todo cuidado”. Ela bufou e seguiu em frente, passo firme, a caminho talvez de interpelar o próprio Dilson Funaro. Era assim Conceição Tavares: trovejava e relampejava, parecia uma alucinada às vezes, mas se mostrava cuidadosa e ponderada nos momentos críticos. Por isso sempre digo: cuidado com os mansos, os discretos, os que raramente levantam a voz. Esses é que tomam as Bastilhas de assalto. Destaco mais um aspecto notável da trajetória dela. Lembre-se, leitor ou leitora, que duas circunstâncias limitaram muito a sua repercussão pública. Primeira: nunca teve cargos de relevo no governo federal. Em determinado momento, nos anos 1990, creio que Conceição teve a pretensão de tornar-se presidente do Banco Central. “Temos que tirar o Banco Central das mãos dos bandidos”, bradava. Não conseguiu. Desde então, esse cargo foi ocupado quase sempre por figurinhas carimbadas do mercado financeiro. Conceição ficou de fora e nunca teve a projeção automaticamente conferida por funções de destaque na área econômica do governo. Outra circunstância adversa: ela foi mandada para a “Sibéria” pela mídia tradicional. E para sempre. Sofreu uma espécie de exilo interno. Nunca voltou das estepes geladas. Raramente era entrevistada, os seus artigos quase nunca chegavam às páginas dos jornais, a sua voz não chegava à rádio e muito menos à televisão. Apesar disso, apesar da censura sistemática, apesar de não galgar posições no governo, a voz de Conceição ecoava forte por todo o país. Era admirada, respeitada e temida. Ai de quem se descuidasse na presença dela! Qualquer deslize ou inconsistência suscitava reações fulminantes. Eu mesmo, quando a encontrava, tomava o máximo de cuidado para não dizer nada de remotamente controvertido e desencadear alguma explosão. Com o surgimento das redes sociais, a sua projeção se ampliou. A mídia convencional perdeu o seu monopólio e pessoas como Conceição puderam participar mais do debate público. Muitos que ainda não a conheciam ficaram deslumbrados com o seu brilho, capacidade polêmica e vasto conhecimento – não só de economia, mas de política, história e cultura. Viram o seu compromisso inabalável com o Brasil. E, ao mesmo, tempo as sua indignação com as injustiças sociais e a extrema desigualdade na distribuição da renda e da riqueza no nosso país. Gravações das suas aulas, palestras e entrevistas viralizaram. Ela vem sendo intensa e merecidamente homenageada nos últimos dias. Porém, muitos dos que falam elogiosamente sobre Conceição, postam fotos com ela e lamentam a sua morte pouco ou nada têm a ver com o seu pensamento e a sua pregação. Lágrimas de crocodilo. Ela teria recebido essas homenagens a patadas. Machado de Assis dizia de um recém-falecido, pela boca de um dos seus personagens: “Está morto, podemos homenageá-lo à vontade”. Só lamento que Conceição não tenha sido ainda mais reconhecida e homenageada em vida. *** Uma versão resumida deste texto foi publicada na revista Carta Capital. *O autor é economista, foi vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento, estabelecido pelos BRICS em Xangai, de 2015 a 2017, e diretor executivo no FMI pelo Brasil e mais dez países em Washington, de 2007 a 2015. Publicou pela editora LeYa o livro O Brasil não cabe no quintal de ninguém, segunda edição, 2021. E-mail: paulonbjr@hotmail.com  - X: @paulonbjr - Canal YouTube: youtube.nogueirabatista.com.br - Portal: www.nogueirabatista.com.br Foto: A economista Maria da Conceição Tavares - Fernando Frazão/Agência Brasil

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Existe um “Centrão” na Europa, mas diferente do brasileiro

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Existe um “Centrão” na Europa, mas diferente do brasileiro
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FLÁVIO AGUIAR*, analista político, de Berlim O que existe na Europa é um agrupamento de partidos e blocos designados na mídia como centro-direita, centro e centro-esquerda, que, de eleição em eleição, domina o cenário político em diferentes combinações e coalizões. Fazem parte do “Centrão Europeu” partidos considerados conservadores, como o Renaissance de Emmanuel Macron na França ou a União Democrata Cristã na Alemanha, liberais, como o FDP (de Freie Demokratische Partei) na Alemanha, os partidos social-democratas ou até alguns socialistas. Eles governam de acordo com uma cartilha liberal na economia, cultuam uma austeridade fiscal ao lado de programas sociais mais ou menos moderados, manifestam preocupações ambientais, ao lado de um protecionismo agrário em alguns casos, guardam uma fidelidade à OTAN e, mais recentemente, manifestam uma vigorosa hostilidade à Rússia, apoiando vigorosamente o governo de Kiev na guerra contra Moscou. Este bloco central da política europeia sofreu alguns abalos, sobretudo na França e na Alemanha. Do lado francês, o partido do presidente Emmanuel Macron amargou uma derrota contundente para a extrema-direita de Marine Le Pen na eleição para o Parlamento Europeu em junho passado, coisa que fez o chefe do executivo dissolver a Assembleia Nacional, convocando novas eleições. Neste pleito, seu partido demonstrou uma certa recuperação, mas ficou em segundo lugar diante da Nova Frente Popular dos partidos de esquerda, que desta vez atraíram o Partido Socialista. Do lado alemão sucedeu algo semelhante, com o Partido Social Democrata do chanceler Olaf Scholz sendo superado pelo  alternative für Deutschland (AfD), de extrema-direita, embora o partido mais votado, na realidade, tenha sido a tradicional e conservadora União Democrata Cristã. Grande parte da mídia apontou o crescimento da extrema-direita como o fato mais marcante daquelas eleições. Ao mesmo tempo o costume da rotatividade na presidência no Conselho Europeu, órgão que reúne os chefes de estado da União Europeia, fez que ela coubesse agora ao chefe do governo húngaro Viktor Orbán, de extrema-direita. O primeiro-ministro provocou alguns abalos sísmicos na União, fazendo visitas inesperadas a Vladimir Putin (embora precedida por uma ida a Kiev), à China e a Donald Trump nos Estados Unidos. Aquelas balizas consensuais dos blocos dominantes no continente pareciam correr o risco de desmoronar. Mas a reação do que chamamos metaforicamente de “Centrão europeu” não tardou, capitaneada por partidos da direita ou centro-direita convencional. Na semana passada ela propiciou duas vitórias importantes para este grande bloco que, apesar dos pesares, continua hegemônico na União Europeia. A primeira vitória veio com a eleição de Yaël Braun-Pivet para a presidência da Assembleia Nacional francesa. Do mesmo partido do presidente Emmanuel Macron, com 220 votos ela derrotou o comunista André Chassaigne, da Nova Frente Popular, e Sébastien Chenu, do Reunião Nacional de Marine Le Pen, que tiveram, respectivamente, 207 e 141 votos. O partido de Macron conseguiu fazer uma aliança com os conservadores do partido Os Republicanos, preocupados estes em impedir a ascensão das esquerdas ao governo. A segunda vitória veio com a reeleição, no Parlamento Europeu, de Ursula von der Leyen, da União Democrata Cristã alemã, para a presidência da Comissão Europeia, órgão executivo da União. Inicialmente a política alemã ensaiou uma aproximação com a primeira-ministra italiana, Georgia Meloni, de um dos blocos de extrema-direita no Parlamento Europeu. A iniciativa pegou mal. O chanceler alemão, Olaf Scholz, ameaçou retirar seu apoio a ela, caso a aproximação com Meloni prosseguisse. Ursula von der Leyen recuou, e passou a procurar os outros blocos, considerados “democráticos”, incluindo os Verdes, ao lado dos socialistas e social-democratas e os liberais. Ela conseguiu um apoio maciço, se reelegendo com 401 votos favoráveis, bem mais do que os 383 votos que obteve quando de sua primeira eleição, em 2019. Desta vez houve 284 votos contrários a ela, além de 22 votos nulos ou em branco. Mas ela garantiu, portanto, mais cinco anos como presidenta da Comissão Europeia. Entretanto deve-se assinalar que o cenário político da União Europeia está passando por rearranjos significativos. Viktor Orbán está rearticulando a extrema-direita no Parlamento Europeu, demonstrando a pretensão de se tornar uma liderança europeia e mundial. Na França, depois da derrota na disputa pela presidência da Assembleia Nacional, o bloco de esquerda, a Nova Frente Popular, reagiu e na eleição subsequente, para a Mesa Diretora, conseguiu 12 dos 21 postos em disputa. Ou seja, tanto von der Leyen quanto Emmanuel Macron terão de agir com muita cautela e habilidade para continuar seus mandatos com sucesso. *Jornalista, professor universitário e autor. Foto: Parlamento Europeu - Flickr  

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Rafael Guimarães e o debate sobre a escolha do patrono da Feira do Livro

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Rafael Guimarães e o debate sobre a escolha do patrono da Feira do Livro
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ALEXANDRE CRUZ* Hoje, gostaria de expressar minha defesa pela escolha do escritor Rafael Guimarães como patrono da Feira do Livro em Porto Alegre. Para isso, farei uma analogia com a recente vitória eleitoral da professora Márcia Barbosa na reitoria da UFRGS. O baile e a celebração que marcaram a eleição dela são mais do que meras festividades; eles carregam um profundo simbolismo que também pode iluminar a escolha de Guimarães para esse papel honorário. O baile de Márcia representa uma expressão de conquista e superação. Assim como a celebração de sua vitória marca um momento de triunfo coletivo e a superação de desafios eleitorais, a escolha de Rafael Guimarães como patrono da feira é uma maneira de reconhecer e celebrar suas contribuições significativas para a literatura e para a compreensão da história de Porto Alegre. Rafael, com seu trabalho profundo sobre a enchente de 1941 na capital gaúcha e sua vivência direta com os eventos atuais que também o afetaram, oferece uma perspectiva única que enriquece nossa compreensão e memória coletiva. Além disso, a dança simboliza unidade e comunhão, refletindo a ligação entre a candidata eleita e a comunidade acadêmica. Da mesma forma, o patrono da feira, ao ser escolhido, promove uma conexão entre o público e o mundo literário, reforçando laços e fortalecendo a identidade cultural de Porto Alegre. A presença de Rafael Guimarães na feira não só celebraria seu impacto como autor, mas também promoveria uma sensação de pertencimento e união entre leitores e escritores. A festa também representa o início de um novo ciclo, uma nova fase de desafios e oportunidades. A escolha de Rafael como patrono da feira poderia ser vista como o começo de um ciclo de reflexão e celebração da literatura e da história local, assim como o baile de Márcia Barbosa simboliza o início de sua nova administração como reitora e a esperança de um futuro promissor. * Jornalista político Foto de capa: Rafael Guimarães - Fotógrafa: Aline More

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Macron acusado de negar a democracia

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Macron acusado de negar a democracia
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Presidente faz aliança com adversários de direita para obter maioria e formar novo governo Por LENEIDE DUARTE-PLON*, de Paris Narcisista, arrogante, distante. É como a maioria dos franceses vê o presidente Macron que, segundo seus adversários, detesta o povo. Ao dissolver a Assemblée Nationale (Câmara dos Deputados) dia 9 de junho, após um resultado pífio para seu partido e extraordinário para o partido de extrema-direita de Marine Le Pen, dirigido por Jordan Bardella (Rassemblement National), nas eleições para o Parlamento Europeu, o presidente deixou a classe política em estado de choque e está mais impopular que nunca. Eleições antecipadas para deputados se impuseram no tempo previsto na Constituição e a campanha começou. Mesmo sem ter a maioria absoluta, a esquerda unida (Nouveau Front Populaire) elegeu o maior número de deputados. Mas, apesar de vencido nas eleições legislativas de 30 de junho e 7 de julho, o presidente continua a manobrar para não aceitar uma indicação de primeiro-ministro da coalizão de esquerda (socialistas, comunistas, ecologistas e La France Insoumise) que fez o maior número de deputados (193), mas ficou longe da maioria absoluta de 289 deputados dos 577 que compõem a câmara. « O verdadeiro perigo para Emmanuel Macron é que a esquerda governe o país », disse ao « Le Monde » Gaspard Gantzer, ex-assessor de François Hollande. Virando o jogo Macron se mostrou capaz de surpreender para virar o jogo. Seu grupo Ensemble se uniu à direita republicana (DR, ex-LR) – que fazia oposição ao presidente – para eleger a presidente da Assemblée Nationale e vai continuar a manobrar para formar um novo governo com um novo primeiro-ministro de direita, que substituirá Gabriel Attal logo depois dos Jogos Olímpicos. A coalizão presidencial, Ensemble, fez apenas 163 deputados (ele tinha 245 antes da dissolução, uma maioria relativa) e vai ter que se equilibrar entre os 143 deputados do Rassemblement National (extrema-direita, que passou de 89 a 143) e os 193 deputados do Nouveau Front Populaire, a aliança de esquerda. A direita republicana fez 66 deputados (tinha 62 antes da dissolução). Mesmo contra a evidência dos números, Macron escreveu uma carta aos franceses para dizer que « ninguém ganhou », ignorando o fato que a esquerda unida fez mais deputados que a sua formação e que a extrema-direita. E como não tem sozinho a maioria absoluta, o presidente foi tricotar uma aliança com a direita (que sempre se afirmou oposição a ele) para impedir a esquerda de governar, como seria normal. Mas essa união ainda está longe da maioria absoluta. Como denunciaram jornais de esquerda como « Le Monde » e « Libération », o presidente resolveu ignorar a vitória da coalizão de esquerda e se aproximar da direita tradicional. Mudar para continuar o mesmo  A possibilidade de uma coabitação (presidente de direita e primeiro-ministro e ministros de esquerda) é o pesadelo que Macron quer afastar se aproximando da direita republicana, que governou a França com Sarkozy e com Chirac, quando o partido se chamava UMP. Desta forma, a presidência da Assemblée Nationale acabou caindo no colo da deputada macronista Yaël Braun-Pivet, que já ocupava a função antes da dissolução. « Tudo mudou para continuar tudo igual », intitulou o jornal « Libération ». Com essa nova coalizão oportunista, a direita tradicional e o macronismo ignoram a maioria de votos do Nouveau Front Populaire e fazem um « déni de démocratie » (uma negação da democracia), segundo os deputados de esquerda da frente vencedora. Até mesmo o « Le Monde » em editorial acusou o presidente de tentar negar o resultado das eleições. Sem o voto dos 17 ministros – visto pela esquerda como ilegal – que participam do poder executivo e puderam votar para a presidência do parlamento, o candidato comunista do Nouveau Front Populaire, André Chassaigne, teria sido eleito. Sem contar que nenhum cargo de vice-presidente (são seis) ou presidentes de comissão foi atribuído ao partido de extrema-direita, que elegeu o maior número de deputados isoladamente e teve mais de 10 milhões de eleitores. Macron e seus aliados combateram a extrema-direita em duas eleições para presidente mas agora resolveram diabolizar a esquerda unida, chamando-a de « extrema-esquerda ». « Precisamos evitar os extremos », repetem acrescentando que ambos representam um perigo para o país.  Do governo Hollande ao Eliseu, uma traição O jovem ministro da Economia de François Hollande, Emmanuel Macron, era um dos homens políticos franceses mais populares em 2015. Ele chefiou a economia entre 2014 e 2016 quando, num gesto calculado, fundou um movimento chamado En Marche(por acaso, as iniciais do próprio ministro). Em seguida, lançou sua candidatura à presidência da República de 2017, driblando seu mentor François Hollande, do Partido Socialista, que nem apresentou sua candidatura à reeleição pois o movimento de Macron tinha chance de lhe dar uma rasteira. Prudente, Hollande anunciou que não concorreria.         Definindo-se como um « liberal » Emmanuel Macron mostrou-se um grande equilibrista. Muito criticado pela ala esquerda do PS, o jovem ministro vinha do mundo das finanças (tinha sido executivo no Banco Rothschild) e nunca concorrera a nenhum cargo eletivo. Querendo agradar a todos, Macron se definia como « nem de direita nem de esquerda » ou então « de esquerda e de direita ». A arte do equilibrismo. Para se eleger em 2017 e 2022, Macron precisou dos votos da esquerda e da direita que tinham outros candidatos mas formaram a Frente Republicana no segundo turno para impedir que a segunda colocada, Marine Le Pen, fosse eleita. Não era certa a vitória do jovem Macron contra o terceiro colocado, François Fillon, de direita, (em 2017) e Jean-Luc Mélenchon, de esquerda, (em 2022). Depois de eleito com os votos dos eleitores de esquerda no segundo turno para impedir a vitória de Marine Le Pen, Macron governou sem nenhum ministro de esquerda nos dois mandatos. O orgulhoso e ingrato Macron não formou um governo de coalizão, como era de se esperar, ostracizando a esquerda, que o ajudara a se eleger contra a extrema-direita.  Hoje, Macron tenta ignorar a vitória da coalizão de partidos de esquerda do Nouveau Front Populaire. Por enquanto, mantém o primeiro-ministro demissionário, Gabriel Attal, que apresentou, como de praxe, sua demissão dia 8 de julho, dia seguinte ao segundo turno. Enquanto governam para poupar o país dos tremores e arranjos de bastidores durante os jogos olímpicos e nas férias de verão, os 17 ministros que foram reeleitos deputados puderam votar na Assemblée Nationale para garantir a reeleição da presidente, Yaël Braun-Pivet, que venceu o comunista André Chassaigne por apenas 13 votos. O deputado France Insoumise Eric Coquerel, do Nouveau Front Populaire, eleito presidente da Comissão de Finanças, que já presidia na legislatura passada, disse a Libération na segunda-feira, 22 de julho:  “A eleição de Braun-Pivet é um escândalo democrático.» *Leneide Duarte-Plon e jornalista e escritora Foto: Eleições na França 2024 - Emmanuel Dunand / AFP  

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Uma interpretação inicial da social-democracia brasileira

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Uma interpretação inicial da social-democracia brasileira
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Bruno Lima Rocha* Coluna Estratégia & Análise para a esquerda brasileira Vivemos um momento difícil, é verdade. Menos complicado do que nos governos de Temer e Bolsonaro, mas definitivamente com a dura tarefa de organizar, resistir, lutar e ainda garantir conquistas concretas em uma sociedade muito diferente da que existia no início do século XXI. Esta mesma sociedade brasileira era já radicalmente distinta da que havia no Brasil no último governo da ditadura com inflação galopante, crise de pagamentos externos e, contraditoriamente, pleno emprego industrial e possibilidades para mão de obra não qualificada. Foi esta sociedade que se torna madura e socialmente organizada em 1980 que deu base para o surgimento do maior partido político da América Latina, o Partido dos Trabalhadores (PT). A legenda, como todos sabemos, é uma junção dos chamados sindicalistas autênticos, agrupações trotsquistas, dissidências da antiga linha de Moscou (incluindo veteranos da luta armada), ativistas políticos no MDB e intelectuais em busca da organicidade possível com certa democracia intrapartidária. Nasceu como um partido com direito a tendências internas. Podemos afirmar com certa grandeza política e sem sectarismo, que foi a versão moderada brasileira das então frentes insurrecionais centro-americanas (FSLN na Nicarágua, FMLN em El Salvador e URNG na Guatemala). Qual a espinha dorsal do partido em sua primeira década? As pastorais sociais da Teologia da Libertação e o mundo do trabalho no setor privado. E o caminho percorrido, para o exercício da vocação de poder dentro do Estado burguês? Eleições municipais, filiação massiva no serviço público concursado e liderança carismática do ex-metalúrgico Luiz Inácio Lula da Silva. Hoje, no exercício do quinto mandato na Presidência, incluindo um golpe de Estado em 2016 e uma eleição fajuta em 2018 (com o favorito preso sem provas), o partido existe em função de seu líder e do exercício de um governo de coalizão. Qual a forma principal de incidir na sociedade brasileira? As políticas públicas. Logo, por essa opção evidente, a luta direta, a organização social, a incidência na base da sociedade, quase todas as iniciativas a não ser em setores muito combativos do campesinato e de sindicatos que na atualidade resistem mais do que nunca, terminam ficando em segundo lugar. Não nos iludamos, a hegemonia da esquerda é social-democracata, não prioriza a luta e sim a institucionalidade. Esta parecer ser a opção cada vez mais abrangente. Mas, atenção. A única esquerda existente no Brasil é a centro-esquerda eleitoral? Evidente que não. A diversidade de agrupações que constroem seus projetos dentro e fora da institucionalidade é enorme. O número de sujeitos sociais organizáveis, é gigantesco. O conjunto das esquerdas e centro-esquerdas dão conta de organizar em nível territorial, estudantil e sindical na atualidade? Não, óbvio que não. Somemos as lutas nos territórios do campo, a maioria afro-brasileira, a maior parte da população composta por mulheres e o desafio é enorme. Para complicar mais ainda, o principal vetor organizacional na base da pirâmide social brasileira são as denominações evangélicas (“igrejas”) e a fonte de informação (desinformação eu diria) de maior envergadura são os grupos de aplicativos de mensagem (“tá todo mundo no zap!”). Esta coluna tenta retomar – ou exercer - o saudável debate para a esquerda e também visando a centro-esquerda e talvez todo o “progressismo” em suas múltiplas interpretações. Para fazer um diálogo frutífero temos de ser sinceros, mas não sectários. Lacração e grandeza política não combinam em nada. A encruzilhada brasileira está não apenas na hegemonia social-democrata (sem nenhuma variável fora do já provado frágil republicanismo) mas na dependência de seu líder histórico. Tem projeto de poder para além do capitalismo periférico? E a formação de quadros? E a escola de militância? Como formar militantes sem o exercício da luta direta? Modestamente entendo que estamos diante de ao menos dois projetos: um, distante, no plano declarativo, que relaciona algo parecido com um ideário socialista, mas com democracia política. Outro, muito concreto, quase imediato eu diria, de elevar o nível do capitalismo periférico brasileiro e seu exercício de soberania diante de inimigos internos e as pressões dos países ocidentais. Para o primeiro falta ainda maturidade em assumir essas posições; já o segundo necessita de um acordo de elites nacionais (econômicas, intelectuais, midiáticas, na tecnocracia de Estado, nos altos mandos militares e demais setores-chave) e uma inserção soberana no Sistema Internacional. Neste sentido, é tão ou mais difícil do que o primeiro. Sejamos realistas, mesmo com o vento a favor no cenário mundial, da porteira para dentro, o colonialismo subalterno coloca as frações de classe dominante brasileiras mais leais a Miami e Washington do que a Brasília. As coisas como são. Qual projeto se torna concreto, para além dos discursos de legitimação? Quem organiza o primeiro acaba defendendo o segundo (ao menos no classismo e na luta antifascista). E o inverso, é verdadeiro? Vamos ao debate. *Bruno Lima Rocha (blimarocha@gmail.com / www.estrategiaeanalise.com.be) é jornalista, cientista político e professor de relações internacionais; é membro do ICCEP / O Coletivo e participa da lutab pela democracia na comunicação social. APOIE ESTA COLUNA E OS PRODUTOS JORNALÍSTICOS DO ICCEP (https://www.youtube.com/@OColetivo) – PIX sindaspi@gmail.com Foto: Greve dos Correios - Divulgação Os artigos expressam o pensamento de seus autores e não necessariamente a posição editorial da RED. Se você concorda ou tem um ponto de vista diferente, mande seu texto para redacaositered@gmail.com . Ele poderá ser publicado se atender aos critérios de defesa da democracia.

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