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“Um caos crescente que ameaça toda a vida”

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“Um caos crescente que ameaça toda a vida”
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Por César Benjamin (do Facebook do autor) Todos estamos acompanhando a evolução da crise política americana, que teve ontem um novo evento grave, com o atentado contra Donald Trump. O candidato ficou levemente ferido, mas correu risco de vida, pois um dos disparos transpassou sua orelha, a um centímetro do cérebro. Duas pessoas morreram – uma delas, o próprio atirador – e uma está gravemente ferida. Especula-se, cada vez mais, sobre o crescimento de movimentos separatistas e até mesmo sobre a possibilidade de uma guerra civil nos Estados Unidos, dado o grau de deterioração de sua sociedade e de suas instituições. Espero que esta última hipótese não se concretize, numa sociedade cada vez mais polarizada, dividida em seitas, inundada pelo ódio, o racismo e a ignorância, em que dezenas de milhões de pessoas guardam arsenais de guerra nas despensas de suas cozinhas. Seria uma tragédia. Seja como for, o sonho americano acabou. Dali, não vem mais nenhuma veleidade civilizatória, nem como farsa. Para manter girando uma economia assentada em uma pirâmide financeira, com um endividamento galopante e impagável, os Estados Unidos dependem, cada vez mais, de fomentar guerras e tensões pelo mundo. Quando lemos que eles (ou seus capachos europeus) vão enviar mais dezenas de bilhões de dólares para a Ucrânia, devemos entender que vão injetar esses bilhões na sua própria indústria de armamentos, fornecedora dos uranianos. A guerra na Ucrânia já perdeu todo o sentido. O plano americano – de usar o país como ponta de lança de uma desestabilização profunda da Rússia, necessária para desafiar a China em seguida – deu errado. A Federação Russa soube se defender. Resta uma fulminante escalada da confrontação, em direção ao apocalipse. Os defensores desta alternativa existem e podem prevalecer. Passou o tempo em que os Estados Unidos redesenhavam soberanamente o mapa-múndi, desagregando sociedades, fabricando vilões universais, criando e desmontando países em nome da liberdade. Para a potência em declínio, trata-se agora, apenas, de prolongar um morticínio muito lucrativo e, se possível, criar outros. Tudo acobertado, no Ocidente, por um controle absoluto dos meios de comunicação, que criam a cobertura ideológica necessária para a marcha da insensatez. Uma economia decadente, uma sociedade cada vez mais fraturada e um sistema político podre – mas ainda muito poderosos – estão projetando, no mundo, um caos crescente que ameaça toda a vida. *César Benjamin, via Facebook: cientista político, editor e político. Foto: Atentado contra Donald Trump / AP Os artigos expressam o pensamento de seus autores e não necessariamente a posição editorial da RED. Se você concorda ou tem um ponto de vista diferente, mande seu texto para redacaositered@gmail.com . Ele poderá ser publicado se atender aos critérios de defesa da democracia.  

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Machismo e ignorância ganham aplausos em igrejas

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Machismo e ignorância ganham aplausos em igrejas
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Por Edelberto Behs* O Brasil tem figuras que simplesmente cabem melhor nos séculos XVIII ou XIX, mas estão longe do século XXI. Dizem cada bobagem e defendem heresias de fazer corar Jesus junto ao poço com a mulher samaritana. E tem, inclusive, representação no Congresso com uma bancada forte, a evangélica, que defende castigo maior para a mulher estuprada do que pena ao estuprador.   Em pleno 2024, o pastor André Valadão, da Igreja Batista da Lagoinha, a mesma da ex-ministra e senadora Damares Alves, que via Jesus na goiabeira, disse, em culto, alertando pais, e ainda por cima aplaudido, que não enviassem seus filhos à universidade. “Vai vender picolé na garagem” que é melhor, recomendou. Filha, então, é criada para ser mulher santa, família, cheia de Deus, mas jamais para “virar vagabunda”, o que vai acontecer se ela for universitária.   Numa toada um pouco diferente, mas machista como Valadão, referida em outro período, foi a recomendação do bispo Edir Macedo, da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD). Ao apresentar sua família, num culto, defendeu que nenhuma mulher deveria estudar mais que o marido, porque a mulher não pode ser a cabeça da família. Onde isso acontece, o casamento está fadado ao fracasso e à infelicidade. Mulher nessas condições serve a si mesma e não a Deus.   A IURD está relacionada, inclusive, a partido político, o Republicano, liderado pelo bispo Marcos Pereira, e tem 565,3 mil filiados. No Congresso Nacional, conta com uma bancada de 41 deputados e quatro senadores. Integra, evidentemente, a bancada evangélica, aquela que condena a mulher que engravida de um estupro, mas que fecha os olhos para o estupro de meninas, adolescentes, praticado por pastores. [caption id="attachment_15182" align="aligncenter" width="1200"] Deputados evangélicos em culto na Câmara Federal. Foto: David Ribeiro/Agência Câmara.[/caption]   É surrealismo em demasia, que busca embasamento em passagens bíblicas, escolhidas de modo a sustentar o seu fundamentalismo, sem qualquer correlação com o contexto da época em que foram colhidas e os tempos atuais. Esses pastores deveriam, de forma coerente, deixar de usar energia elétrica e recorrer a lampiões, esquecer seus carrões, ou até mesmo aviões, e recorrer a mulas e cavalos. *Jornalista, Coordenador do Curso de Jornalismo da Unisinos durante o período de 2003 a 2020. Foi editor assistente de Geral no Diário do Sul, de Porto Alegre, assessor de imprensa da IECLB, assessor de imprensa do Consulado Geral da República Federal da Alemanha, em Porto Alegre, e editor do serviço em português da Agência Latino-Americana e Caribenha de Comunicação (ALC).  Charge: danibado.tumblr.com Os artigos expressam o pensamento de seus autores e não necessariamente a posição editorial da RED. Se você concorda ou tem um ponto de vista diferente, mande seu texto para redacaositered@gmail.com . Ele poderá ser publicado se atender aos critérios de defesa da democracia.

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Eleições para consertar a confusão

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Eleições para consertar a confusão
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Sobre quem é Keir Starmer, o novo primeiro-ministro, um amigo me enviou um texto esclarecedor escrito pelo cineasta Ken Loach e que diz a certa altura: " o que não está claro para quem não mora na Inglaterra é que hoje o Partido Trabalhista não é o partido dos trabalhadores, mas o das grandes empresas. É o partido dos grandes negócios. O seu líder, Keir Starmer, é um oportunista. Por Celso Japiassu* As eleições gerais no Reino Unido em 2024 marcaram uma virada na política britânica. O Partido Trabalhista liderado por Keir Starmer, um líder sem carisma, segundo os cronistas da imprensa, advogado especializado em assuntos ligados aos direitos humanos, conquistou uma vitória esmagadora e elegeu 408 dos 650 deputados, alcançando a maioria absoluta no Parlamento após 14 anos fora do poder. O Brexit foi um tema central durante a campanha, com os conservadores enfatizando suas ações para lidar com a crise econômica pós-Brexit, enquanto os trabalhistas propuseram investimentos em energias sustentáveis para impulsionar a economia. Os eleitores parecem ter expressado sua insatisfação com os efeitos do Brexit e optaram por uma mudança de rumo político. A derrota dos conservadores, que elegeram apenas 112 deputados, é considerada um "cataclismo na política britânica". Os jornais foram praticamente unânimes em chamar o resultado eleitoral de "landslide", que pode ser traduzido por avalanche. Os trabalhistas enfrentam agora a pressão eleitoral do Partido Reformista de Nigel Farage, de extrema direita, que elegeu deputados e pela primeira vez vai estar representado no Parlamento. Keir Starmer terá de resolver dilemas difíceis, entre eles a relação com a União Europeia pós-Brexit. As eleições também destacaram problemas como a economia pós-pandemia, a questão da imigração e os desafios no sistema de saúde, que já foi um dos orgulhos ingleses e hoje enfrenta uma crise. Com um novo primeiro-ministro, o Reino Unido se prepara para lidar com as consequências do Brexit e os desafios econômicos e sociais que o país enfrenta. As consequências do Brexit A falta de comida nos supermercados, restaurantes fechando as portas e as fábricas interrompendo a produção fizeram os mais velhos se recordarem dos anos da Segunda Guerra, quando os aviões alemães faziam blitzes aéreas e bombardeavam as cidades inglesas. Só faltavam as sirenes de alarme para a montagem de um cenário mais realista a reproduzir os dias de 1940 quando foi travada no céu de Londres a Batalha da Inglaterra. Era a ressaca do dia seguinte em contraste com as passeatas que comemoraram a saída do Reino Unido da União Europeia, depois de uma avassaladora campanha de opinião pública promovida pela direita e a extrema direita. Os problemas na cadeia de abastecimento depois do fechamento das fronteiras fizeram os empresários pedirem uma ação urgente do governo. A deliciosa "smoothie", uma bebida feita com morangos e banana, começou a faltar no McDonald's, bem como todas as bebidas engarrafadas nas 1.250 lojas da cadeia no Reino Unido. A rede Nando's fechou 50 dos seus restaurantes por falta de frango e os restaurantes de luxo Novikov avisou que estava ficando sem carne. Segundo a associação empresarial CBI-Confederation of British Industry,  os estoques no varejo chegaram ao menor nível dos últimos 40 anos. A falta de suprimentos para o consumo da época de Natal trouxe preocupação. O Reino Unido teve de lidar com as consequências da bem-sucedida campanha da direita em 2020. Sem contar os conflitos de interesse com a Irlanda e a Escócia, que são parte do Reino Unido. Problemas que afetaram negativamente a recuperação da economia. Os trabalhadores estrangeiros passaram a ter dificuldades para obterem visto de entrada. Eles são a principal força de trabalho da organização logística do país, pois os britânicos recusam os trabalhos de longa jornada e baixos salários. A escassez dessa mão de obra começou a provocar grande desorganização em toda a cadeia de abastecimento. O Brexit significou o fim da livre circulação de pessoas, a criação de controles aduaneiros e a limitação de serviços que antes fluíam de um lado para o outro sem grandes restrições. Os ingleses também reclamam que ficaram mais caras as compras feitas pela internet em países da União Europeia. Os empresários protestam contra o aumento da burocracia e da papelada que agora é exigida para os negócios com a Europa, além da queda de 41 por cento nas vendas de exportação. Trapalhadas Na origem de tudo esteve a descrença dos próprios ingleses na vitória do Brexit. Os defensores da saída da União Europeia não confiavam na própria campanha e David Cameron, primeiro-ministro na época e que convocou o plebiscito sobre a retirada, não preparou o país para essa possibilidade. Os ingleses sempre se sentiram superiores ao resto da Europa. Não se consideravam parte do que eles chamam até hoje, com uma certa displicência, de "o continente". Há uma anedota que ilustra esse sentimento. Num dia de pesado nevoeiro que cobria o Canal da Mancha, os jornais ingleses deram manchete em grande tipologia:  Nevoeiro no Canal: o continente isolado. Ancorada numa poderosa Marinha, a Inglaterra construiu um império que já no Século 18 lhe dava grande prestígio e força internacionais, mesmo depois de ter perdido sua rica colônia americana. Era tão vasto o seu império que nele o sol nunca se punha, dizia-se. Sua estratégia geopolítica teve sempre como objetivo evitar que no continente europeu surgisse uma potência rival. A Inglaterra foi palco da revolução industrial que ampliou a sua influência e só com a chegada do século XX a Alemanha e os Estados Unidos vieram a fazer sombra ao seu poder. O esforço que lhe custou sair como uma das nações vencedoras da Segunda Guerra Mundial afetou a sua força e os movimentos de independência na Índia e na África enfraqueceram a espinha dorsal do grande e poderoso império. Na década dos anos 1950 os países da Europa ganharam a consciência de que a união entre eles poderia gerar uma escala capaz de competir com as duas superpotências que disputavam então a hegemonia mundial, os Estados Unidos e a União Soviética. A ideia não sensibilizou os ingleses e Churchill resumiu sua posição: "nós britânicos temos a nossa própria comunidade de nações", disse ele referindo-se à Commonwealth. Sobre quem é Keir Starmer, o novo primeiro-ministro, um amigo me enviou um texto esclarecedor escrito pelo cineasta Ken Loach e que diz a certa altura: " o que não está claro para quem não mora na Inglaterra é que hoje o Partido Trabalhista não é o partido dos trabalhadores, mas o das grandes empresas. É o partido dos grandes negócios. O seu líder, Keir Starmer, é um oportunista. Ganhou a liderança do partido prometendo água, ferrovias e correios públicos, mas uma vez obtida, desconsiderou essas promessas: mais de 200 mil membros se desfiliaram depois de algumas semanas, foi uma espécie de expurgo. A tarefa de Keir Starmer era convencer os meios de comunicação de direita e a BBC de que o país estava seguro, que nada mudaria: aproximou-se cada vez mais dos conservadores, no final das eleições quase não havia diferença entre eles." *Poeta, publicitário e jornalista. Foto: Keir Starmer: Who is Labour’s next leader? | Guernsey Press Os artigos expressam o pensamento de seus autores e não necessariamente a posição editorial da RED. Se você concorda ou tem um ponto de vista diferente, mande seu texto para redacaositered@gmail.com . Ele poderá ser publicado se atender aos critérios de defesa da democracia.

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Programas – De 11 A 19 DE Julho

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Programas – De 11 A 19 DE Julho
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Por Léa Maria Aarão Reis - Jornalista *O programa é rejeitar a naturalização da guerra genocida do estado de Israel contra a Palestina, na Faixa de Gaza e na Cisjordânia. Pelo menos 29 palestinos foram mortos e outras dezenas de pessoas estão feridas no mais recente ataque aéreo, esta semana, em um campo de abrigo da população deslocada e próximo aos portões da escola al-Awda, sul de Gaza. Informação das autoridades hospitalares locais à BBC. Segundo as mesmas fontes médicas, do hospital Nasser, onde os feridos foram atendidos, o número de mortos pode aumentar. *As forças israelenses patrulharam a estrada principal para o litoral, franco-atiradores ocuparam os telhados de alguns prédios altos que ainda estão de pé e tanques estavam estacionados dentro da sede da agência de refugiados palestinos da ONU, a UNRWA, disseram os moradores. Motivo segundo Israel: combatentes do Hamas e da Jihad Islâmica se encontravam no interior da sede da Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina (Unrwa) no município. *O exército israelense bombardeou a área em torno do hospital Shifa e a Organização Mundial da Saúde informa que os hospitais Al-Ahli e Asdiqaa Amarei estão fora de serviço e que 436 pacientes com câncer morreram devido ao cerco e à falta de cuidados desde o início da guerra, relata a Al-Jazeera. *Milícias de colonos israelenses com o apoio de soldados incendiaram campos agrícolas palestinos em Turmus Aya, na Cisjordânia ocupada. Os colonos também atacaram a aldeia de Burqa, a leste de Ramallah, e queimaram propriedades em Kafr Ni’ma, onde decepam oliveiras de agricultores palestinos próximo da montanha Al-Risan. *Em meio à intensificação do repúdio de populações ocidentais aos ataques israelenses à Palestina, o programa é pesquisar o ditado popular que fala de “quem não tem vergonha na cara”: os impudentes e os caraduras. Nota disponível no portal oficial do governo de Minas Gerais, esta semana, registra uma movimentação governamental entre aquele estado e Israel, “declaração de cooperação entre Minas e Israel para fortalecer a relação” e “promover atividades em conjunto, com perspectivas de cooperação entre as partes”. *Sobre as complexas negociações que transcorrem em Paris, após o segundo turno das eleições francesas, domingo último, frase de autoria da ambientalista Marine Tondelier, líder do Partido Verde e participante do grupo vitorioso da Nova Frente Popular (NFP), sobre acordos possíveis entre o governo e as esquerdas: “Não vai ser simples, não vai ser fácil, e não, não vai ser confortável; vai levar um pouco de tempo”. *Lançamentos literários recentes para leitura de férias de meio de ano: José Genoino: Uma Vida Entrevista de Salvio Kotter e Nicodemos Sena; Lawfare Nunca Mais: a Voz das Vítimas (Volume 2) de Salvio Kotter e Henrique Pizzolato; Contra o Sionismo: Retrato de uma Doutrina Colonial e Racista de Breno Altman; e Por trás das chamas – Mortos e desaparecidos políticos – 60 anos do golpe de 1964, de Carlos Tiburcio e Nilmario Miranda. *O diretor Sylvio Tendler filmou a trajetória do ex-sindicalista e ex-diretor do Banco do Brasil Henrique Pizzolato. O título: O Caso Pizzolato – Por uma questão de Justiça. Consta que já há sessões especiais dessa produção. *Bonito-Cinesur – Festival de Cinema Sul-Americano se inicia no próximo dia 19 e vai até 27 deste mês, na cidade de Bonito, Mato Grosso do Sul. Abre o festival o clássico Selva Trágica, de 1963, de Roberto Farias, que denuncia as desigualdades sociais no campo e a exploração dos trabalhadores no cultivo da erva-mate. O ator Reginaldo Faria, no elenco, será homenageado, e Lucélia Santos e Johnny Massaro apresentam a cerimônia de abertura. *Já o Festival de Cinema de Vitória, Espírito Santo, começa dia 20 e vai até 25 deste mês com 78 filmes longas e curtas, debates e atividades de formação cinematográfica. Os homenageados são Lázaro Ramos e Suely Bispo. Confira a programação completa clicando aqui. Veja Também:  Eleições para consertar a confusão *Outra festa do cinema no horizonte: a homenagem ao Cinema Novo pela Academia Brasileira de Cinema, quando serão anunciados os finalistas do Prêmio Grande Otelo. Dia 28 de agosto na Cidade das Artes, no Rio de Janeiro. Os filmes com mais indicações são Mussum, o Filmis, de Silvio Guindane, e O Sequestro do Voo 375, de Marcus Baldini. Clique aqui para ver a lista completa de indicações. *E há também a animada 8 e meio/ Festa do Cinema Italiano Brasil em sua 11ª. edição que foi prorrogada e está entrando este mês adentro com seus dez filmes pipocando em várias cidades brasileiras: Rio de Janeiro, Brasília, São Paulo, Aracaju, Florianópolis, Niterói, Ribeirão Preto, Vitória, Maceió, Palmas são algumas delas. O festival coincide com a estreia, nos cinemas, do excepcional e imperdível filme de Marco Bellocchio, O sequestro do Papa, no próximo dia 18. *Na edição deste ano do Prêmio Jabuti Acadêmico, da Câmara Brasileira do Livro, há três trabalhos que concorrem como finalistas entre os cinco escolhidos. Na categoria Artes, Milton Nascimento nos Trilhos da América Latina, de Fernanda Paulo Marques, e Uma Hollywood brasileira, de Carlos Roberto de Souza. Na Categoria Filosofia, Hume, a justiça e o pensamento político moderno, de Maria Isabel Limongi. O nome Jabuti, escolhido em alusão à emblemática tartaruga da obra de Monteiro Lobato, simboliza a tenacidade e a capacidade de superação de obstáculos. *O Jabuti pretende reconhecer e homenagear autores, capistas, ilustradores, designers gráficos, tradutores, livreiros e editoras. Os cinco finalistas serão anunciados na próxima quinta-feira, dia 18, e as obras vencedoras em uma cerimônia no Teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo, dia 6 de agosto. *Alerta: a Universidade Indígena Pluriétnica Aldeia Marakanã, da UFRJ, localizada no bairro do Maracanã, Rio de Janeiro, comunica ser alvo de ataque injusto e ilegal por parte da Justiça Federal que decretou o despejo, até amanhã, dia 12, de todas e todos os indígenasque ali residem. Ou seja: 14 famílias de diversas etnias (com adultos, crianças e idosos), que desenvolvem o trabalho de resistência e manutenção das culturas indígenas. *Em comemoração aos 40 anos do movimento Diretas Já, o escritor e professor de Direitos Humanos Leonardo de Moraes lançou Tia Beth, livro que trata, de forma ficcional, do desaparecimento do cantor e poeta Tavinho, filho de tia Beth, durante a ditadura civil-militar. A história relata como sua mãe revive a tragédia familiar, anos depois. Apesar de a protagonista ser ficcional, a obra traz relatos de familiares e amigos próximos de pessoas vítimas do regime militar (Editora Insígnia Editorial). *O programa é acompanhar a realização da F21, importante reunião dos grupos organizados nas favelas do Rio de Janeiro que participarão, com propostas e demandas, do G20 Social, dias 18 e 19 de novembro próximo. A primeira reunião foi na Casa Voz Vidigal, com o painel A Favela no Debate Global. “Todos os temas e discussões do G20 passam de alguma forma pelas favelas; alguns temas mais próximos da Maré, outros do Alemão, da Cidade de Deus, dos morros, das encostas. Assim a gente consegue entender a potência da favela e como somos capazes de fazer esse tipo de discussão”, destacou Rene Silva, idealizador do F21 e fundador da ONG Voz das Comunidades. *O programa é festejar a França que não se submete. Dia 14 de julho, Vive La Republique. **Ilustração de Marcos Diniz Os artigos expressam o pensamento de seus autores e não necessariamente a posição editorial da RED. Se você concorda ou tem um ponto de vista diferente, mande seu texto para redacaositered@gmail.com . Ele poderá ser publicado se atender aos critérios de defesa da democracia.

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Nossas casas, nossas vidas

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Nossas casas, nossas vidas
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Jagna Stefani dos Santos* A pandemia de COVID-19 e as enchentes no Rio Grande do Sul produziram comportamentos sociais distintos. Durante a pandemia, o isolamento social foi o mecanismo adotado para evitar a contaminação. As adaptações das casas aumentaram o fechamento das residências dentro de si mesmas, transformando-as em fortalezas impenetráveis e excludentes. Pessoas passaram a morar cada vez mais sozinhas e as coisas da casa, progressivamente, passaram a ocupar o lugar dos moradores. A casa tornou-se uma máquina hermética que comporta tudo que é necessário para uma vida sem precisar sair de dentro dela. Espaços projetados para uso comum passaram a ser usados solitariamente. O pouco que existia de coletivo se tornou mais rarefeito. Quanto mais as casas foram sendo preenchidas com equipamentos, agora comprados digitalmente, mais cresce o receio do externo e o estranhamento em relação ao próximo. A busca incansável por manter a casa segura com grandes e trancas reflete o medo social da perda dos bens. Blindar a moradia passou a ser a melhor estratégia para uma vida resguardada dos perigos externos. No entanto, o que acontece quando o perigo deixa de ser o outro e passa a ser a natureza violentada? O que acontece quando o crescimento exagerado de construções e consumo desperta forças contra as quais não temos como nos proteger? A calamidade climática expulsou as pessoas do enclausuramento e da segurança de suas moradias.  De um momento para o outro, populações inteiras de áreas alagadas foram desabrigadas e acolhidas por coletivos que se organizaram com uma rapidez impressionante. A pressão da água obstruiu portas, casas gradeadas se transformaram em jaulas e os tetos as únicas saídas. O outro, antes visto como inoportuno passa a ser bem vindo. Ir ao encontro do próximo e o salvamento de pessoas em apuros são exibidos como atos de heroísmo. Na casa isolada pela pandemia prevalecia o escondimento, na calamidade climática os atingidos precisaram ser vistos nas janelas, nos tetos, nas ruas e nos espaços de acolhimento. Nos abrigos a convivência coletiva foi levada ao extremo. Em espaços coletivizados, separados apenas por um colchão e poucos pertences, a intimidade e a privacidade foram relativizadas. A enchente retomou com muita intensidade o comportamento solidário, a ajuda mútua, o acolhimento e a junção de forças. As pessoas abrigadas, longe de seus bairros e comunidades, passaram a perceber seus territórios de modo diferente. Não foi só a minha casa que foi alagada, o bairro inteiro, a casa do vizinho, a minha cidade, a minha região. O retorno aos locais de origem está sendo acompanhado pelo sentimento de insegurança. O trauma da perda e a incerteza sobre o futuro marcaram a vida de pessoas que terão que se reerguer. Como consumir e acumular coisas se agora tudo pode ser arruinado outra vez? O medo de reconstruir, de restabelecer vínculos e de acumular bens é uma realidade para uma parcela expressiva da população gaúcha. Quais respostas a arquitetura pode oferecer neste momento de incertezas? Optaremos pelo retorno ao encapsulamento ou por visões mais compartilhadas, coletivas, comunitárias e sustentáveis? Os projetos arquitetônicos das grandes empreiteiras não se interessam pelos valores comunitários, prevalece edificações que distanciam e que aprisionam em caixas empilhadas, onde nada de verdadeiramente coletivo emerge. Recentemente o professor de urbanismo e arquitetura da UFRGS, Fernando Freitas Fuão demonstrou um certo ceticismo com a possibilidade de um perfil mais sustentável de reconstrução, para ele “certamente o modelo habitacional definitivo para as novas casas será o de sempre: casas grudadas umas às outras, porta e janela, para maximizar o custo do terreno e infraestrutura; ou em bloco de apartamentos de quatro pavimentos isolados um dos outros. Nenhum deles deu certo e somente estimularam mais violência.” De fato, esse modelo habitacional está sendo disputado por empreiteiras e grandes construtoras, as mesmas que financiam os nossos governantes. É o retorno da normalidade das construções verticalizadas, destituídas de senso de coletividade e despersonalizadas que será imposto. Neste momento é necessário que as forças progressistas reconstruam um novo sentido de moradia e de cidade. Precisamos combater a lógica do não sustentável. Estamos sendo desafiados a estabelecer moradias mais orgânicas com o meio ambiente. Precisamos retomar a lógica de bairro, de comunidade e de pensamento coletivo, isso é essencial para transformarmos as nossas moradias e cidades em lugares mais saudáveis. O senso de coletividade e a solidariedade despertadas pela calamidade se aplicado nas novas edificações minimizará as diferenças sociais e contribuirá para uma cidade mais segura. A enchente mobilizou uma cadeia de solidariedade que precisa ser retomada pelos movimentos sociais para produzir propostas de moradia mais sustentáveis ambientalmente. É crucial para o nosso futuro a construção coletiva que relativiza o individualismo do meu e do seu e que valorize as nossas casas e as nossas vidas. Encontramos nas cidades gaúchas experiências de moradias cooperativadas, organizadas por movimentos de luta pela moradia que disputam uma concepção mais humanizada de morar. As cooperativas habitacionais, formadas por grupos de pessoas que se unem com o objetivo comum de construir suas moradias, permite que os futuros moradores participem ativamente de todo o processo, desde o planejamento até a execução das obras, o que fortalece os laços comunitários e assegura que as moradias atendam às necessidades específicas dos cooperados, promovendo a partilha de espaços. Além das cooperativas habitacionais existe também as experiências de ocupações de prédios em desuso, geralmente em regiões vazias e desvalorizadas. Sempre conectadas com movimentos sociais, as ocupações desmembram o conceito de abandono e transformam prédios desabitados em novas soluções habitacionais. A ocupação de um edifício abandonado reconfigura as relações sociais dentro da cidade, transformando o entorno da edificação num lugar mais seguro e habitável. Moradias dignas, com um tamanho adequado para a realidade familiar, que não descaracterize as particularidades da comunidade, que promovam a sustentabilidade e que incentivem o senso de coletividade é fundamental para a criação de bairros seguros e condizentes com a realidade gaúcha. Aceitar a construção de grandes lotes com pequenas habitações que reproduzem plantas melnicknizadas desconectadas da realidade social dos moradores, acaba favorecendo a guetização, a desigualdade social e a exacerbação de uma sociedade fria e individualista, onde a dor do outro passa despercebida. * Arquiteta e Urbanista Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil Os artigos expressam o pensamento de seus autores e não necessariamente a posição editorial da RED. Se você concorda ou tem um ponto de vista diferente, mande seu texto para redacaositered@gmail.com . Ele poderá ser publicado se atender aos critérios de defesa da democracia.

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