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Ela se chama Rodolfo – rastros de vias-crúcis

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Ela se chama Rodolfo – rastros de vias-crúcis
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De CÁTIA CASTILHO SIMON* “Quantos Murilos já terão morrido  desde que Murilo nasceu?” Julia Dantas Ela se chama Rodolfo é o segundo romance de Julia Dantas. Com ele, a escritora conquistou dois prêmios no RS, o melhor romance – livro do ano AGES/2023 e o Alcides Maya, da Academia Rio-Grandense de Letras. Ruína y leveza, primeira narrativa longa, foi finalista do Prêmio São Paulo, em 2016, quando tinha 31 anos de idade. A partir dessas considerações é correto supor que estamos lidando com uma romancista experiente e que sabe a que veio, mesmo antes de iniciar a leitura de seus livros.  Carola Saavedra apresenta o livro chamando a atenção para a frase que lhe dá início – “Era uma vez homem”, dizendo que talvez esse seja o fio que o alinhava. Pouco a pouco desvela-se um processo que nos desafia a seguir em frente e, qual o canto de sereia, nos atrai para águas profundas. Não há retorno possível. Moema Vilela, na contracapa do livro, nos fala da maestria de Julia em compor personagens e criar cenas perfeitas. Personagens de um cotidiano simples, que podem muito bem vizinhar conosco. A possível extinção das portarias com a presença física dos porteiros é um projeto em ampla difusão. Inclusive, vivo essa experiência sob protesto. Prédios substituem, na velocidade da luz, os porteiros pela portaria virtual. Pensam que estão economizando e aumentando a segurança, quando na verdade praticam o velho conceito de descarte do humano pela tecnologia. Ainda bem que eles ainda existem e Julia soube trazer um universo interior rico e verossímil, capaz de derrubar preconceitos quanto a capacidade humana das pessoas simples. Mas vamos ao livro. Murilo consegue alugar um apartamento diretamente com a proprietária Francesca, sem conhecê-la. Ao chegar no apartamento teve de fazer malabarismos para que a chave funcionasse. O incidente vai construindo uma expectativa que leva o leitor a pensar que o rapaz havia sido enganado. O próprio personagem cogita ter sido passado para trás. Salvo pela vizinha da porta ao lado, consegue adentrar na nova casa. Nela, encontra uma tartaruga e logo descobre ser macho e que se chama Rodolfo. Além de Murilo, Gabbriela, sua namorada que o abandonou para buscar experiências místicas, sua irmã Lídia, Rodolfo, Francesca e Camilo compõem a trama novelesca. Uma via-crúcis se impõe para Murilo que não quer ter sob sua responsabilidade o bicho de estimação da antiga moradora. Através de e-mails trocados, Francesca o orienta a buscar possíveis lugares e pessoas para cuidarem de Rodolfo. Através dessa intensa correspondência virtual inicia uma amizade entre eles. Suas conversas vão além da questão objetiva de encontrar um lar para a tartaruga, questões filosóficas e existenciais se desdobram. Murilo tem um prazo para alcançar seu objetivo, o de encontrar novos cuidadores para Rodolfo. Ele entrará em férias e irá ao encontro de Gabbriela para trazê-la de volta. Há muitos desdobramentos nessa missão e transformações irreversíveis na vida de Murilo e de todas as personagens. A via-crúcis para encontrar um protetor para Rodolfo em tempo hábil sendo orientado por Francesca através de e-mails aprofundam os laços entre eles. Desenreda mortes e vidas que se revezam. Descortina outras vias-crúcis. Desfaz-se o homem das inúmeras camadas construídas em sua formação. Um livro com grandes surpresas e revelações; coloca em xeque máscaras e armaduras, flagrando calcanhares de Aquiles íntimos e sociais. *Doutora em estudos de literatura brasileira, portuguesa e luso-africanas; Escritora e poeta. Os artigos expressam o pensamento de seus autores e não necessariamente a posição editorial da RED. Se você concorda ou tem um ponto de vista diferente, mande seu texto para redacaositered@gmail.com. Ele poderá ser publicado se atender aos critérios de defesa da democracia. 

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Isocracia – A sociedade democrática do Poder Popular

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Isocracia – A sociedade democrática do Poder Popular
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De LINCOLN PENNA* O vocábulo isegoria significa igualdade absoluta. Serve para definir direitos de toda espécie. De origem grega ela deriva de uma necessidade, a de dar conteúdo às várias descrições e maneiras de se fazer alusão à democracia. O mesmo ocorre em nossos dias, quando as inúmeras adjetivações, tais como democracia representativa, social, liberal, e tantas outras acabam por reduzir a democracia a um papel que retira o seu aspecto mais importante, qual seja, o do protagonismo do povo na direção das decisões que devem ser de seu interesse. Dela surgiu o termo isocracia ou o poder desse povo de fazer valer sua vontade coletiva, que nos tempos em que era possível reunir o povo para deliberar nem sempre tal expediente era possível. Hoje muito menos ainda, mas há como pensar nessa democracia direta. Alguns exemplos têm se multiplicado, embora sejam ainda bem isolados. A construção de uma sociedade isocrática, ou seja, de uma comunidade social em que a totalidade de seus indivíduos desfrute direitos efetivamente iguais, tenha acesso aos meios de decisão, e na qual a exclusão social inexista, talvez leve muito tempo. Não se encontra em nosso horizonte próximo. Mas, não é um devaneio nesses tempos de eventos extremos no instante em que só se pensa nos piores cenários para a nossa casa, a Terra. Tampouco configura uma utopia clássica, aquela do não-vir-a-ser. Ao contrário, estamos a assistir os primeiros resultados dos escombros do velho modo de vida, embora a gestação do novo não aconteça por completo senão daqui a algumas gerações. Os primeiros sintomas dessa nova ordem que deve vir à tona pela via da solidariedade entre os seres humanos, começam a dar seus sinais nas comunidades mais desassistidas das várias formações econômicas e sociais, sobretudo naquelas que se encontram no hemisfério Sul e que padecem da pobreza crônica quando não de condições de miserabilidade. Esse movimento de comunhão de verdadeiros cidadãos, não obstante não terem sua condição de cidadania plena em razão dos descasos dos poderes públicos exercidos por grupos econômicos e políticos das tão decantadas democracias representativas, que não as representam, exibem a força crescente movida ainda exclusivamente pela indignação. Há os que procuram no passado encontrar similitudes para que elas possam nortear os movimentos sociais e políticos a se baterem contra o poder que independentemente de suas representações partidárias acabam reforçando o estigma e as mesmas políticas ineficazes quanto à emancipação de inúmeros contingentes sociais à margem dos direitos básicos indispensáveis à vida. Os valores, as necessidades e as práticas sociais em geral são de outra natureza porque decorrem de novas e diversas conjunturas políticas ainda que fundadas em formações culturais sedimentadas faz tempo, razão pela qual este aspecto não pode ser desprezado. Assim, todas as teorias da história e as suas chaves explicativas em relação aos fatos e fatores que movem as sociedades humanas estão devidamente contextualizadas, dentre elas o marxismo, do qual eu e muitos historiadores e estudiosos de diferentes ramos do conhecimento lançam mão em suas análises. Conhecer o universo no qual foram produzidas essas leituras do mundo é de fundamental importância para que saibamos entender a necessidade de atualizar essas interpretações e não as tomar como ortodoxias a serem empregadas mecanicamente em realidades tão distintas. E quando cito o marxismo é para demonstrar que embora tenha surgido na contramão dos sistemas políticos vigentes, no exame do modo de produção capitalista, seus autores, Marx e Engels, não escaparam totalmente dessas culturas políticas muitas das quais de caráter autoritárias, a despeito da modernização em que se encontrava o mundo. A ideia de um poder centralizado a cargo de uma classe oriunda do mundo do trabalho, a classe operária, mesmo tendo a missão histórica de pôr fim a existência das classes de modo a preparar o caminho para o advento de uma sociedade sem classes, nos argumentos do raciocínio dos autores do materialismo histórico se encontrava a ideia do exercício do poder destinado a fazer com que todos tivessem acesso aos bens produzidos socialmente. É evidente que a ditadura do proletariado seria na concepção de Marx e Engels uma etapa de um processo findo o qual e suprimido o modo de vida então existente sob o poder das burguesias se iniciaria uma outra etapa. Esta se encarregaria de construir um modo no qual a produção seria comunitária e na qual a propriedade voltaria como nos tempos bem anteriores ao surgimento das sociedades de classes, a pertencer a todos. A volta à propriedade comunitária regida pelas necessidades que se fizessem presentes, num intercâmbio de produtos e ideias partilhadas em comum daria nascimento à verdadeira história da humanidade superando a sua pré-história. Nos nossos tempos e com o surgimento de uma tecnologia que coloca cada ser humano em imediato contato com os seus semelhantes não importam as distâncias, graças aos meios eletrônicos, tecnologia essa que deriva do avanço de uma revolução científica das mais velozes dos últimos tempos, a perspectiva de um modo de vida mais equânime longe de ter ficado mais distante tem favorecido as comunicações e uma intensa circulação de ideias e desejos. É nesse novo e assombros tempos da inteligência artificial que precisamos nos inteirar para dar impulso à necessidade maior, que consiste na integração de mudanças sociais que favoreçam os marginalizados articulada à luta pela preservação do meio-ambiente, dado que a questão ambiental é hoje em dia tão importante quanto a revolução social cada vez mais necessária. Permanece, não obstante, a questão central diante desse desafio de fazer unir o social e o ambiental em um só processo de modo a eliminar o mal que o modo de produção capitalista tem produzido na humanidade. A questão prevalecente é a contradição entre capital e trabalho. Por isso, no que diz respeito à revolução social ela precisa contemplar a emancipação do trabalho sem o que não poderemos conjugar essa unidade do social com o ambiental. A razão dessa impossibilidade é que não bastam reformas que mantenham o domínio do grande capital, responsável pela destruição das condições preservacionistas a afetarem a natureza. Logo, ou nos voltemos para essa dupla tarefa histórica ou nenhuma delas isoladamente será possível realizar. Pelo menos amplamente. Afinal, uma revolução social tal como Marx pontuou em sua obra implica na superação das lutas de classes. Mantê-las no esforço de debelar o aquecimento global, por exemplo, só é assim considerado pelos que entendem que o antropoceno aliado ao capitoloceno, não são os fatores responsáveis pelas mutações atmosféricas. É coisa da natureza, dizem. Na verdade, o modo pelo qual o ser humano age na destruição da natureza (antropoceno) em busca de vantagens imediatas é extremamente nocivo ao bem-estar humano, Da mesma forma que o capitalismo e sua lógica destrutiva (capitoloceno) opera na obsessiva corrida continuada da mais-valia ampliada. A continuar assim a humanidade não poderá garantir futuro para as próximas gerações. A tomada de consciência torna-se um fator indispensável para que ela venha a ser socializada de maneira a permitir a multiplicação de comunidades em condições de se organizar em seus redutos e ser capaz de mobilizar na certeza de que é dever de cidadania crer na possibilidade de mudar o mundo enquanto é tempo. *Doutor em História Social; Conferencista Honorário do Real Gabinete Português de Leitura; Professor Aposentado da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ); Presidente do Movimento em Defesa da Economia Nacional (MODECON); Vice-presidente do IBEP (Instituto Brasileiro de Estudos Políticos). Imagem em Pixabay. Os artigos expressam o pensamento de seus autores e não necessariamente a posição editorial da RED. Se você concorda ou tem um ponto de vista diferente, mande seu texto para redacaositered@gmail.com . Ele poderá ser publicado se atender aos critérios de defesa da democracia.

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Os bastidores da manifestação bolsonarista

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Os bastidores da manifestação bolsonarista
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O pastor Silas Malafia abriu o bolso para a realização do evento, mas quer discurso que preocupa defesa do ex-presidente Aos moldes dos preparativos que resultaram na invasão golpista de Brasília, caravanas espalhadas pelo país já se organizam com objetivo de chegar ao palco do espetáculo bolsonarista, na Avenida Paulista, em São Paulo, previsto para começar às 15h30, deste domingo (25).O ato convocado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) terá uma estrutura ímpar, bancada pelo idealizador do evento, o pastor Silas Lima Malafaia, que defende discursos inflamados. Confira os bastidores. Boca fechada? Desde a convocação da manifestação, Bolsonaro prometeu um ato distinto do que os seus apoiadores estão acostumados: sem ataques orais ou cartazes contra “quem quer que seja”, em referência às autoridades e instituições. Contudo, a lista de oradores do evento é uma ameaça a este compromisso. Segundo a jornalista Carla Araújo, no Uol, o nome que mais causa reservas é o do deputado Nikolas Ferreira (PL-MG). Os advogados de Bolsonaro temem as falas radicais, principalmente de Ferreira. Contudo, a escalação do parlamentar é considerada inquestionável na visão de Malafaia. Conforme já noticiado pelo GGN, ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) formaram consenso sobre a prisão em flagrante do ex-presidente, caso ele decida atacar a instituição ou qualquer um de seus magistrados. A estrutura Já a coluna de Mônica Bergamo, na Folha de S. Paulo, neste sábado, trouxe detalhes da estrutura do evento, que tem até um croqui feito pela organização de Malafaia. Não era pra menos, já que o pastor desembolsou no mínimo R$ 90 mil para a realização. Segundo a projeção, terá um carro de som específico para convidados, o trio Katrina. Já o carro de som em que Bolsonaro estará, apelidado de “Demolidor”, ficará localizado num ponto estratégico. Em frente o trio de Bolsonaro terá um espaço apelidado de “Pipoca”, onde ficarão os jornalistas, seguranças e assessores parlamentares que vão comparecer ao evento, mas que não conseguirão subir nos trios onde estarão as autoridades. De acordo com informações de Bergamo, o trio Demolidor, que leva o nome dado por seu dono, foi alugado por R$ 55 mil. Já o trio Katrina, custou R$ 19 mil. O carro de ambulância foi alugado por R$ 2 mil. E cada um dos seguranças que circulará no evento receberá diária de R$ 250. Publicado em GGN. Foto: Agência Brasil    

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Os desafios da esquerda

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Os desafios da esquerda
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De PAULO NOGUEIRA BATISTA JR* Decifra-me ou te devoro   Esfinge de Tebas Em vários países do Ocidente e do Sul Global, inclusive no Brasil, a esquerda se defronta nas décadas recentes com desafios talvez sem precedentes – e não está se saindo bem, de uma forma geral. Com o passar do tempo, os desafios se avolumam e esquerda se debate sem sucesso contra eles. O Brasil, com Lula, até constitui uma exceção, mas apenas parcial. Estou me referindo, na verdade, à centro-esquerda, à esquerda moderada. A extrema esquerda não desempenha papel relevante. Em contraste, no campo da direita, os extremistas, apesar de alguns reveses importantes (notadamente as derrotas eleitorais de Trump e Bolsonaro), continuam fortes, ameaçando os partidos tradicionais de centro-direita e centro-esquerda.  O pano de fundo desses movimentos políticos é a crise da globalização neoliberal, iniciada ou agravada com o quase-colapso dos sistemas financeiros dos EUA e da Europa em 2008-2009. Essa crise financeira trouxe à tona um mal-estar generalizado da população dos países desenvolvidos com a economia e o sistema político. Os bancos privados foram socorridos com grande mobilização de recursos públicos enquanto a população endividada foi basicamente deixada à própria sorte. Cresceu o ressentimento, alimentando a eleição de Trump em 2016 e de outros políticos do mesmo naipe na Europa.  Esse mal-estar com a globalização é mais antigo e mais amplo do que a crise financeira de 2008. O que aconteceu nos últimos 30 ou 40 anos nos EUA e na Europa foi uma dissociação crescente entre as elites e o resto da população. A renda e a riqueza se concentraram nas mãos de poucos, os ricos ficaram mais ricos, ao passo que o grosso da população viu a sua renda estagnar ou retroceder. A confiança no sistema político desabou. Espalhou-se a percepção de que não há democracia, mas plutocracia – o governo dos endinheirados. Pior: ficou patente que o que prevalece é uma caquistocracia – o governo dos piores. A baixa qualidade da maioria dos líderes políticos ocidentais está aí, à vista de todos.  Esse declínio das lideranças do Ocidente reflete algo maior: o declínio do establishment dessas nações, crescentemente dominado pelo rentismo e pelo capitalismo predatório. Especulação financeira, privatizações destrutivas, fusões e aquisições, manobras de mercado de todo tipo substituem a produção e a geração de empregos de qualidade. A decadência parece bem evidente. Versões anteriores do establishment dos EUA teriam permitido que o eleitorado ficasse reduzido a escolher em 2024, como tudo indica, entre um presidente senil e um bufão irresponsável?  Não por acaso, a China, que nunca seguiu o modelo neoliberal, tornou-se “a fábrica do mundo” às expensas das indústrias do Ocidente. O Brasil, infelizmente, também caiu na armadilha da globalização e ainda não conseguimos dela escapar. Era inteiramente previsível. As elites locais, em geral servis e medíocres, mimetizam as elites estado-unidenses, trazendo para cá o que há de pior. No plano político-partidário, quem foi prejudicado e quem foi beneficiado pela crise da globalização neoliberal? Entre os prejudicados se destacam, merecidamente, os partidos tradicionais de direita, identificados com a defesa do modelo concentrador. Note-se, entretanto, que o prejuízo recai não só sobre eles, como também sobre os da esquerda moderada – a social-democracia, os socialistas e outros semelhantes. Previsível: afinal, a centro-esquerda foi sócia das políticas econômicas excludentes. Em muitos países, governou em coalizões com a direita tradicional. Quando chegou ao poder como força hegemônica, pouco ou nada fez para mudar o rumo da economia e da sociedade. Assim, passaram a ser vistos, junto com a centro-direita, como parte de um mesmo “sistema”. Contra esse “sistema”, a extrema-direita se insurge, mesmo que muitas vezes apenas da boca para fora. Comandada por líderes carismáticos e espalhafatosos, como Trump, Bolsonaro e Milei, conseguiu vencer diversas eleições importantes. Despreparada e primitiva, contudo, a extrema-direita não governa de modo eficaz e promove mais confusão do que reformas. Mantém ou aprofunda a orientação conservadora em economia, disfarçando essa concessão com atitudes extremadas na pauta de costumes. Não passou no teste de fogo da pandemia da Covid-19, o que contribuiu de modo importante, como se sabe, para a não-reeleição de Trump e Bolsonaro. Recuperou-se, contudo, dessas derrotas, como se nota pela vitória de Mile, o prestígio de Trump e Bolsonaro, sobretudo do primeiro, e a ascensão de radicais de direita em alguns países da Europa. O que aconteceu com a centro-esquerda em outros países, talvez seja relevante para o governo Lula e os partidos que o apoiam. Parece intrigante, à primeira vista, que a centro-esquerda dos países desenvolvidos não tenha conseguido capitalizar para si a crise da globalização. Parte da explicação já foi mencionada acima: o condomínio de poder formado com a direita tradicional. Mas vamos tentar aprofundar a questão um pouco mais. O fato é que a centro-esquerda também se tornou tradicional e elitista, acomodou-se, perdeu contato com a população e mostra não compreender os seus problemas reais.  Corre o risco de definhar por não entender as mudanças em curso. Como na mitologia, a esfinge de Tebas adverte: “Decifra-me ou te devoro”.  Um exemplo de uma estratégia problemática: abraçar a agenda identitária, que é uma agenda liberal, contribui para o isolamento da esquerda. Vamos nos entender: defender as mulheres, os negros, os indígenas, os homossexuais e outros grupos discriminados é indispensável. Porém, essa defesa não pode ser a plataforma central da esquerda. De um modo geral, o identitarismo não conta com a atenção ou a simpatia da grande maioria dos trabalhadores e dos setores de menor renda, geralmente às voltas com a luta pela sobrevivência. Os temas econômicos e sociais – emprego, renda, injustiça social – continuam prioritários para eles. A extrema direita tenta desviar a atenção desses temas com discursos religiosos e conservadores. A centro-esquerda acaba esquecendo-os ao focar nos temas identitários. Uma questão crucial na Europa e nos EUA, ainda não presente no Brasil, é a imigração. A extrema-direita vem se beneficiando amplamente da sua oposição virulenta à entrada de imigrantes – oriundos da África e do Oriente Médio na Europa; da América Latina nos EUA. A centro-esquerda não sabe o que fazer com o tema. As suas tradições iluministas e internacionalistas levam-na a rejeitar a resistência à imigração. Não percebe que ela tem fundamentos reais. A rejeição do imigrante não é apena diversionismo, como muitos imaginam. Os imigrantes trazem problemas significativos, não para as elites por suposto, que vivem à parte no seu mundo privilegiado, mas para os cidadãos comuns. A imigração em larga escala afeta o mercado de trabalho, pressionando para baixo os salários e levando à substituição de empregados locais por imigrantes. As firmas veem com bons olhos, claro, o barateamento da “mão-de-obra”, mas os trabalhadores sentem na pele e sofrem. Note-se que a imigração vem sobrecarregar um mercado de trabalho já adverso, em razão dos deslocamentos produzidos pelo rápido progresso tecnológico. Mas a questão não é só econômica. A imigração massiva do século 21 é muito diferente, por exemplo, da imigração europeia para as Américas em épocas anteriores. O imigrante hoje é essencialmente diverso das populações do país hospedeiro, em termos raciais ou étnicos, assim como em termos culturais ou religiosos. A sua presença numerosa ameaça descaracterizar as sociedades dos países desenvolvidos, trazendo insegurança e reações xenófobas. Em outras palavras, a questão é também nacional – tema com o qual grande parte da esquerda sempre lidou mal. Como reagirá a centro-esquerda a esses problemas? Continuará no rumo atual ou tentará se conectar com as novas realidades e as preocupações da maioria? Se ela optar por apegar-se às suas tradições, só nos resta desejar-lhe boa sorte. *Economista, foi vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento, estabelecido pelos BRICS em Xangai, de 2015 a 2017, e diretor executivo no FMI pelo Brasil e mais dez países em Washington, de 2007 a 2015. Lançou no final de 2019, pela editora LeYa, o livro O Brasil não cabe no quintal de ninguém: bastidores da vida de um economista brasileiro no FMI e nos BRICS e outros textos sobre nacionalismo e nosso complexo de vira-lata. A segunda edição, atualizada e ampliada, começou a circular em março de 2021. E-mail: paulonbjr@hotmail.com Twitter: @paulonbjr Canal YouTube: youtube.nogueirabatista.com.br Portal: www.nogueirabatista.com.br Uma versão resumida deste artigo foi publicada na revista Carta Capital. Imagem em Pixabay. Os artigos expressam o pensamento de seus autores e não necessariamente a posição editorial da RED. Se você concorda ou tem um ponto de vista diferente, mande seu texto para redacaositered@gmail.com . Ele poderá ser publicado se atender aos critérios de defesa da democracia.

Cultura

Programação cultural – de 24 a 29 de fevereiro

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Programação cultural – de 24 a 29 de fevereiro
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Por LÉA MARIA AARÃO REIS** *Com o título As palavras apodrecem, o texto do escritor, cientista político, antropólogo e ex-secretário nacional de Segurança Pública, Luiz Eduardo Soares, sobre o massacre em Gaza, continua repercutindo com força, esta semana. Ele observa: “Temos o dever de nos postar como guardiões da inexpugnabilidade do sofrimento extremo, de sua incomparabilidade, de sua incomensurabilidade, de sua irredutibilidade à linguagem e a toda forma de neutralização. E temos também o dever de nomear os carniceiros. Os agentes das carnificinas, o governo de Israel e os nazistas cometeram crimes contra a humanidade e têm de responder perante a história. Seus crimes não são comparáveis. São um só”. *Sobre a tragédia dos palestinos em Gaza, episódios históricos devem ser relembrados. Hannah Arendt e Albert Einstein, entre outras figuras relevantes de intelectuais judeus residentes nos Estados Unidos, falaram sobre a visita de Menachem Begin, líder futuro da legenda do Likud, aos Estados Unidos, em 1948. Estavam apreensivos e advertiam em carta aberta enviada ao The New York Times no dia 4 de dezembro desse ano sobre a sua preocupação de um partido, em Israel, o Tnuat Haherut, com ideias similares às dos nazifascistas; o Partido da Liberdade. “Partido muito parecido na sua organização, com métodos, filosofia, política e apelo social dos partidos nazistas e fascistas”. *Do célebre neuropsiquiatra judeu austríaco Viktor Frankl, sobrevivente de Auschwitz e falecido em 1997, uma frase que vem sendo mencionada em diversos textos atuais sobre o massacre de Gaza: “No fundo, existem apenas duas raças: pessoas decentes e pessoas indecentes”. *Pessoas Decentes, aliás, é o título do mais recente livro do escritor cubano Leonardo Padura. *O autor do livro Estados Unidos no século XX, o professor da Unirio, Flavio Limoncic, apresenta diversas faces que compõem a história e cultura dos Estados Unidos e as contradições dessa nação. Professor de História da América, ele comenta essas contradições e divergências e faz o leitor mergulhar na fascinante história dos Estados Unidos buscando os momentos mais emblemáticos e as surpreendentes nuances que moldaram o país ao longo do século passado. De Hollywood à Missão Apollo, o livro pretende oferecer uma visão detalhada da história e cultura norte-americanas que se espalhou para todo o mundo. (Editora Contexto). *O escritor e teólogo Frei Betto participando, esta semana, de uma roda de conversa promovida pela embaixada brasileira na Alemanha durante o Festival Internacional de Cinema de Berlim, a Berlinale, que divulgava o longa-metragem Betto, dirigido pelo argentino Pablo Del Teso, com o ator Enrique Díaz no papel principal. O filme é parte do projeto A Cabeça Pensa onde os Pés Pisam, com docs sobre educação popular que serão lançados em março, gratuitamente, para celebrar o escritor mineiro que faz 80 anos no mês de agosto. O projeto é de Evanize e Américo Freire, autores de biografia sobre Frei Betto, de 2016, da Editora Civilização Brasileira *A Berlinale termina domingo próximo, dia 25. Faz parte do grupo dileto de três eventos europeus cinematográficos primordiais, os festivais de Cannes e de Veneza. Dois filmes brasileiros já ganharam o Urso de Ouro na Berlinale: Central do Brasil (1998) e Tropa de Elite (2008). Este ano, o diretor Martin Scorsese é o homenageado. *Este ano, o Brasil vem representado por quatro filmes: Betânia (Marcelo Botta) e Cidade; Campo, de Juliana Rojas e os curtas Lapso, de Caroline Cavalcanti e Quebrante, de Janaina Wagner. E mais: o Brasil marca presença com duas coproduções: Shikun, inspirado em Os rinocerontes, de Eugène Ionesco, e Dormir de Olhos Abertos, sobretrabalhadores chinesesexplorados em Recife. *Retratos da destruição – Flashes dos anos em que Jair Bolsonaro tentou acabar com o Brasil, do veterano jornalista Paulo Henrique Arantes, está à venda nas livrarias virtuais da Amazon, Submarino, Americanas e Shoptime. São 25 textos de Arantes interpretando o “negacionismo, as injúrias, as mentiras e os crimes de um governo guiado pelo espírito arruaceiro do seu líder”. O comportamento da chamada imprensa ‘tradicional’ durante o governo do capitão está assinalado no volume (Editora Autografia). *José de Abreu criticando a extrema-direita ao comentar a ONG estrangeira Transparência Internacional, alvo de investigação por sua relação, no Brasil, com representantes da Operação Lava Jato: “A sorte da democracia brasileira é o alto nível de burrice da extrema-direita. Deixam rastros. A Transparência Internacional tem 30 posts anti-Lula divulgados por aí”, escreveu o ator. *Na Grã Bretanha, no Bafta (considerado o Oscar britânico) o filme Oppenheimer foi um grande sucesso. Levou sete prêmios, entre eles os de Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator e Melhor Coadjuvante. Atrás dele, Pobres Criaturas, com cinco prêmios e destaque de Melhor Atriz para a excelente Emma Stone. *Faz sucesso lá fora o livroBusting the Bankers’ Club: Finance for the Rest of Us, de Gerald Epstein, uma crítica ao atual sistema bancário e financeiro. Ele se refere ao chamado Clube dos Banqueiros, poderoso grupo de aliados políticos que a indústria financeira cultiva para sustentar e aumentar o seu poder econômico e político. *A exposição de 150 trabalhos do fotógrafo Sebastião Salgado, prorrogada no Sesi Lab, de Brasília, vai até 3 de março. Salgado, que está completando 80 anos agora, em 2024, apresenta Trabalhadores e é o primeiro artista a expor na galeria temporária do museu. A exposição começa com fotos realizadas em suas viagens entre 1986 e 1992. *O volume O humor frio e o filmeSábado, do diretor Ugo Giorgetti, está nas livrarias. “Nesta era do divertimento acelerado, o humor se firmou na base da extravagância gratuita e se tornou trivial pela embriaguez dos refletores ou pela ligeireza do slogan”, comenta o professor de Teoria da História, da USP, Elias Thomé Saliba. “Décadas atrás, o filósofo francês Gilles Lipovetsky já nos advertia: quanto mais humorísticas se tornam nossas sociedades mais elas manifestam o seu medo pela extinção do riso”. Em tempo: Lipovetsky é autor de A Era do Vazio, O luxo eterno, A terceira mulher, O império do efêmero e A felicidade paradoxal: Ensaios sobre a sociedade do hiperconsumo. *De autoria da pesquisadora Rosane Pavam, O humor frio e o filmeSábado se estende na análise do humor negro. Seu personagem central é o Edifício das Américas, em São Paulo, oscilando entre o cômico e o trágico. “O edifício de Giorgetti é uma metáfora microcósmica da história da cidade e do Brasil”, escreveSaliba. *Ney Matogrosso e a sua história narrada em filme. Homem com H é protagonizado pelo ator Jesuíta Barbosa, de Praia do Futuro, e começou a ser rodado em São Paulo e no Rio. A direção e o roteiro são de Esmir Filho e acompanha a trajetória de Ney Pereira da Silva e a sua transformação em Ney Matogrosso. Uma trajetória da forte personalidade de um artista que inspira libertação, independência e afeto. *Na Plataforma gratuita digital Sesc, antecedendo o fim do verão, dois filmes clássicos e imperdíveis: Fanny e Alexander, de Ingmar Bergman, de 1982, último longa-metragem do diretor sueco que recebeu quatro Oscars, e La Nave Va, de Federico Fellini, de 1983, que acompanha um cortejo fúnebre ao mar transformando o navio em um microcosmo europeu pouco antes da Primeira Guerra Mundial. **Jornalista carioca. Foi editora e redatora em programas da TV Globo e assessora de Comunicação da mesma emissora e da Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro. Foi também colaboradora de Carta Maior e atualmente escreve para o Fórum 21 sobre Cinema, Livros, faz eventuais entrevistas. É autora de vários livros, entre eles Novos velhos: Viver e envelhecer bem (2011), Manual Prático de Assessoria de Imprensa (Coautora Claudia Carvalho, 2008), Maturidade – Manual De Sobrevivência Da Mulher De Meia-Idade (2001), entre outros. As informações acima são fornecidas por editoras, produtoras e exibidoras. A imagem é uma montagem do site Fórum21. Os artigos expressam o pensamento de seus autores e não necessariamente a posição editorial da RED. Se você concorda ou tem um ponto de vista diferente, mande seu texto para redacaositered@gmail.com . Ele poderá ser publicado se atender aos critérios de defesa da democracia.

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