Todas as sabedorias de Brizola

Última edição em abril 12, 2026, 11:13

translate

20220120090128_285681c73699529693ad9710525aaab4d30eb31e6065babb1ba1fdd9b859f994

Em nome de todo tipo de purismos e escrúpulos, tem gente dizendo que Brizola não faria isso e aquilo. E que a neta Juliana não o representa por ser instável e incoerente com a herança do avô e do trabalhismo.

Brizola era muito mais pragmático do que se pensa. Em 2002, acolheu Ciro Gomes (candidato a presidente) e Antônio Britto (candidato ao governo do Estado), ambos pelo PPS, como seus nomes preferenciais. O PPS (Partido Popular Socialista) era o antigo PCB e depois virou Cidadania.

Eu acompanhei o início da peregrinação dele com os dois candidatos, em visitas a São Borja, Itaqui e Uruguaiana, tudo num só dia. Ciro tinha forte apelo nacionalista. Mas a rejeição a Britto era grande.

Em São Borja, diante do túmulo de Getúlio, enquanto Brizola discursava, alguém gritou e saiu correndo: “É o enterro do trabalhismo”. Trabalhistas históricos não queriam saber da aliança que chamavam de Frente Trabalhista, do PPS com o PDT e o PTB.

Ciro, Britto e Brizola foram derrotados (Lula se elegeu presidente e Germano Rigotto, governador). Brizola morreria dois anos depois.

Muito antes, quando governou o Rio Grande do Sul (1959-1963), Brizola fez aliança com o PRP (Partido de Representação Popular) e, em nome desse acordo, o deputado Alberto Hoffmann foi seu secretário de Agricultura.

O PRP, com inspiração e raiz integralistas, era a expressão do ultraconservadorismo e da extrema direita, criado nos anos 40 e extinto depois do golpe de 64.

O PRP não era apenas anticomunista, era também a antecipação, com alguma sinceridade, a partir dessa base integralista, de tudo o que o bolsonarismo representa agora como mentira e farsa moralista: defesa da pátria, de Deus, da tradição, da família e da propriedade.

Plínio Salgado, o líder do integralismo e assim também maior líder direitista nacional naquela época, concorreu a presidente da República pelo PRP em 1955. Juscelino Kubitschek foi eleito e o PRP ficou em último lugar.

Quando Brizola teve Hoffmann como representante do PRP no seu secretariado no Piratini, fez um gesto que hoje seria, sem exagero, o mesmo que puxar um nome do PL para um governo de esquerda. Ele faria outras alianças com a direita.

Assim são os políticos e suas circunstâncias. Brizola faz falta, até para nos contar como engolir sapos com ou sem barba. Viva Brizola.


Foto de capa: Agência Brasil

Sobre o autor

moises-mendes_41f88eec7c51cfb411481aaa8b36e5e0044142b2
Moisés Mendes
Moisés Mendes é jornalista em Porto Alegre. Escreve também para os jornais Extra Classe, DCM e Brasil 247. É autor do livro de crônicas Todos querem ser Mujica (Editora Diadorim). Foi colunista e editor especial de Zero Hora.

Receba as novidades no seu email

* indica obrigatório

Intuit Mailchimp

Os artigos expressam o pensamento de seus autores e não necessariamente a posição editorial da RED. Se você concorda ou tem um ponto de vista diferente, mande seu texto para redacaoportalred@gmail.com . Ele poderá ser publicado se atender aos critérios de defesa da democracia..

Gostou do texto? Tem críticas, correções ou complementações a fazer? Quer elogiar?

Deixe aqui o seu comentário.

Os comentários não representam a opinião da RED. A responsabilidade é do comentador.

Uma resposta

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Gostou do Conteúdo?

Considere apoiar o trabalho da RED para que possamos continuar produzindo

Toda ajuda é bem vinda! Faça uma contribuição única ou doe um valor mensalmente

Informação, Análise e Diálogo no Campo Democrático

Faça Parte do Nosso Grupo de Whatsapp

Fique por dentro das notícias e do debate democrático