Da Redação*
O ex-ministro da Justiça, ex-governador do Rio Grande do Sul e ex-prefeito de Porto Alegre, Tarso Genro, criticou duramente a decisão do governo dos Estados Unidos de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas. Em entrevista concedida nesta quinta-feira (29) à RádioCom Pelotas, Tarso afirmou que a medida faz parte de uma estratégia mais ampla da política externa norte-americana e pode trazer consequências negativas para a soberania brasileira.
Segundo ele, a iniciativa não representa apenas uma mudança na forma de combater o crime organizado, mas uma alteração do próprio enquadramento político dessas organizações.
“O combate ao crime organizado deve ser feito pelos Estados nacionais, dentro dos marcos da legalidade, da cooperação internacional e da soberania dos países. Quando se transfere essa questão para o terreno do terrorismo, abre-se espaço para outras formas de intervenção”, argumentou.
Política externa e intervenção
Durante a entrevista, Tarso relacionou a medida à tradição intervencionista da política externa dos Estados Unidos. Segundo ele, historicamente Washington tem utilizado diferentes justificativas para ampliar sua influência sobre países considerados estratégicos.
O ex-ministro afirmou que a política externa do presidente Donald Trump combina pressão diplomática, negociação e tensionamento permanente das soberanias nacionais, criando condições para formas de tutela ou interferência política em países da América Latina.
Na avaliação de Tarso, a classificação de facções criminosas brasileiras como organizações terroristas não pode ser analisada isoladamente, mas deve ser compreendida dentro desse contexto geopolítico mais amplo.
“Classificar como terroristas é promovê-las”
Horas após a entrevista, Tarso reforçou seu posicionamento em uma postagem publicada na rede social X.
Segundo ele, a medida norte-americana pode produzir um efeito contrário ao anunciado.
“Na verdade, classificar estas duas organizações criminosas como ‘terroristas’ é promovê-las — no cenário global — como grupos que podem ser vistos como ‘grupos políticos’, transferindo o combate a elas para o âmbito secreto e incontrolável das estruturas de inteligência e de poder clandestino do próprio Estado americano”, escreveu.
Para Tarso, ao deixar de tratar essas organizações exclusivamente como grupos criminosos e inseri-las na categoria do terrorismo internacional, os Estados Unidos criam uma nova dimensão política para sua atuação. Na sua avaliação, isso desloca o enfrentamento do crime organizado do campo policial e judicial para o terreno das operações de inteligência e das disputas geopolíticas.
O ex-governador sustenta ainda que esse tipo de enquadramento pode abrir espaço para a instrumentalização política dessas organizações por grandes potências, conforme seus interesses estratégicos.
“Até o momento que seja interessante, para a política colonial-imperial, levá-las a governar um território. Já aconteceu no Afeganistão”, afirmou.
A referência remete ao apoio dado pelos Estados Unidos, durante a Guerra Fria, a grupos armados que combatiam a ocupação soviética no Afeganistão, experiência frequentemente apontada por analistas como um dos exemplos das consequências imprevisíveis de intervenções geopolíticas realizadas por potências estrangeiras.
Crítica ao uso político do combate ao crime
Na postagem, Tarso também afirma que a política adotada por Washington acaba produzindo efeitos políticos em países como o Brasil.
“É uma política externa que só favorece, como se vê aqui no Brasil, a promoção de alianças ‘políticas’ do extremismo de direita com o crime organizado já instalado”, escreveu.
Sem citar nomes, ele encerra sua manifestação com uma provocação direta:
“Localizem os personagens.”
As declarações ocorrem em meio ao intenso debate provocado pela decisão do governo norte-americano de enquadrar PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas, medida que gerou reações de especialistas em segurança pública, diplomatas e integrantes do governo brasileiro preocupados com seus possíveis impactos sobre a soberania nacional e as relações bilaterais entre Brasil e Estados Unidos.
Ouça a íntegra da entrevista
A entrevista completa concedida por Tarso Genro à RádioCom Pelotas está disponível abaixo:
*Redator: BTC
Foto da capa: Ex-governador, ex-prefeito e ex-ministro Tarso Genro (PT) – Crédito: Divulgação




