Por Solon Saldanha *
Em parecer favorável, o senador Weverton Rocha (PDT-MA) exalta a trajetória do atual Advogado-Geral da União, enfatizando sua interlocução com setores conservadores e a ausência de impedimentos éticos, pavimentando a sabatina decisiva na CCJ.
O processo de renovação do Supremo Tribunal Federal (STF) deu um passo institucional significativo nesta terça-feira (14). O senador Weverton Rocha (PDT-MA), relator da indicação de Jorge Messias para a Corte, apresentou um parecer técnico de sete páginas recomendando a aprovação do atual Advogado-Geral da União (AGU). O documento, que será lido oficialmente na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) nesta quarta-feira (15), projeta um cenário de relativa estabilidade para a sabatina marcada para o dia 29 de abril.
Estratégia de Aproximação e a “Bancada do Amém e do Canhão”
Um dos pontos mais estratégicos do relatório de Rocha é a ênfase dada às honrarias recebidas por Messias. Ao destacar o Diploma da Medalha Ordem do Mérito Cristão, concedido pela Frente Parlamentar Evangélica, e as Ordens do Mérito Naval e Aeronáutico, o relator busca quebrar resistências na ala mais à direita do Senado.
Jorge Messias, que é evangélico, tem utilizado sua identidade religiosa e sua postura institucional discreta para construir pontes com a bancada conservadora e com as Forças Armadas. Essa tática visa desassociar sua imagem da polarização política estrita e apresentá-lo como um nome de diálogo, capaz de transitar entre diferentes esferas de poder sem as arestas típicas de indicações puramente ideológicas.
Currículo e a Blindagem contra o “Efeito Master”
O parecer detalha a extensa folha de serviços de Messias no setor público, citando passagens pelo Banco Central, Procuradoria da Fazenda Nacional e assessorias estratégicas no Legislativo e Executivo. Entretanto, o que mais chama a atenção no momento atual é o foco dado à transparência ética.
Em um trecho que funciona como resposta indireta às recentes polêmicas envolvendo outros ministros do STF e o Banco Master, Weverton Rocha fez questão de registrar que Messias apresentou declarações negativas de nepotismo e detalhou sua ausência de vínculos societários ou gerenciais em empresas privadas. A medida tenta blindar o indicado contra questionamentos sobre conflitos de interesse, tema que tem desgastado a imagem da Corte devido a elos entre familiares de magistrados e o setor financeiro.
O Estigma de “Bessias” e a Reabilitação Política
O relatório não ignora, embora mencione de forma sucinta, a atuação de Messias na Casa Civil durante a gestão Dilma Rousseff. Há dez anos, ele foi alçado ao centro do debate nacional devido a um áudio interceptado pela Operação Lava Jato, no qual a então presidente se referia a ele como “Bessias” ao tratar da posse do presidente Lula como ministro.
A indicação atual, portanto, carrega uma carga de simbolismo político: trata-se da reabilitação definitiva de um quadro técnico de confiança do PT, agora sob a chancela de “conciliador”. Rocha cita como exemplo dessa postura a repactuação do Acordo do Rio Doce (desastre de Mariana) e a gestão eficiente do pagamento de precatórios, marcos que Messias ostenta como provas de sua capacidade de gerar segurança jurídica por meio de acordos, e não apenas de litígios.
O Xadrez no Plenário
Para vestir a toga, Jorge Messias precisa do voto favorável de, no mínimo, 41 dos 81 senadores. Embora a votação seja secreta, o que sempre impõe cautela ao Palácio do Planalto, interlocutores próximos ao AGU trabalham com uma margem de segurança considerável, estimando cerca de 48 votos garantidos. O impacto do relatório favorável e o tom moderado adotado por Weverton Rocha devem facilitar a tramitação, isolando eventuais focos de oposição radical antes mesmo da sabatina presencial.
* Solon Saldanha, jornalista e escritor
Foto: Senador Weverton Rocha (PDT-MA). Crédito: divulgação Senado




