Porto alegre, 31 de março de 2018

Última edição em abril 13, 2026, 11:32

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 Sobre a banalidade da banalidade do mal

Nestes tempos em que a serpente do mal começa a “botar a cabecinha para fora” recordo das conversas sobre o assunto com meu saudoso amigo Victor Douglas Nuñes. Ele era um excelente contador de histórias que foi a principal inspiração para a feitura do meu livro de contos Conversas de Livraria& Avulsas, decano dos advogados trabalhistas portoalegrense e dono de escritório de advocacia onde tiveram inicio na carreira nomes como Tarso Genro e Caio Lustosa, chargista, radioator e estudioso da imigração alemã e do nazismo, por extensão.

Confesso que, interessado em outras histórias locais contadas por ele, pouco falei acerca sobre nazismo que o interessava muito. Sua biblioteca sobre o assunto era vasta e qualificada. Mesmo assim em uma desta poucas vezes em que conversei sobre o assunto lembro que ele falou que Eichmann enganou Hannah Arendt ao posar de mero burocrata a cumprir ordens do Führer. 

Na busca recente que empreendi para entendimento do assunto deparei-me com as mais diversas opiniões acerca do assunto. De Hannah Arendt li, além de Eichmann em Jerusalém Um Relato Sobre a Banalidade do Mal, seu livro Origens do Totalitarismo que me pareceu uma análise interessante apesar de como diz Newton Bignotto no artigo Arendt e o Totalitarismo da revista Cult, número 9, “É certo que Arendt não conhecia as entranhas do poder soviético, o que do ponto de vista da historiografia só se tornou possível depois do fim da União Soviética. Por isso, algumas de suas observações carecem de precisão, assim como é possível encontrar problemas em alguns de seus estudos referentes a acontecimentos anteriores à segunda guerra mundial. Ela nunca pretendeu escrever um livro de história tradicional e era consciente do desequilíbrio entre as partes de sua obra.”   

Mais recentemente li um artigo acadêmico intitulado “Banalização da Banalidade do Mal de Hannah Arendt, escrito por José Francisco Lopes Xarão. Nele o autor começa defendendo a tese de que “ela não faz nenhuma concessão aos derrotados ou aos vitoriosos na II Guerra Mundial, propondo, ao contrário, esclarecer os fatos apontando as responsabilidades políticas dos algozes e das vítimas. Uns por agressão e outros por não terem oferecido resistência suficiente. Seu problema metodológico, portanto, foi ter aplicado esse critério indistintamente.” E conclui “Portanto, se podemos, com alguma boa vontade, considerando o contexto, desculpar o equívoco de Arendt, este não se aplica àqueles que usam indiscriminadamente, de forma banal, o termo banalidade do mal. Para estes, seria prudente seguir o conselho que a própria Hannah Arendt (1997, p. 12) parece ter esquecido no caso Eichmann:

Compreender não significa negar nos fatos o chocante, eliminar deles o inaudito, ou, ao explicar fenômenos, utilizar-se de analogias e generalidades que diminuam o impacto da realidade e o choque da experiência. Significa, examinar e suportar conscientemente o fardo que o nosso século colocou sobre nós – sem negar sua existência, nem vergar humildemente ao seu peso.

Assim, jamais podemos tomar o inaudito como banal.”

Como desejo focar no aspecto levantado pelo Victor de que Eichmann enganou Hannah Arendt pinço no interior do artigo em pauta algo relativo a isso quando o autor aborda o dito na obra Eichmann Before Jerusalem, Stangneth (2014) “que apresenta, pela primeira vez, uma versão integral das famosas entrevistas de Sassem com Eichmann e outros nazistas de seu círculo na Argentina. Arendt teve acesso a fragmentos destas entrevistas que foram publicadas na revista Life em novembro e dezembro de 1960 (BERKOWITZ, 2014), quando pairavam dúvidas sobre sua autenticidade, dado que foram colhidas por um notório nazista mais interessado em salvar a própria pele do que revelar verdades. Este é um dos grandes méritos do trabalho de Stangneth (2014), porque confronta dados das entrevistas com os de outros historiadores e recupera áudios autênticos dos quais se tinham apenas transcrições divulgadas por Sassem. Em Eichmann Before Jerusalem, a autora sublinha como traço principal do caráter de Eichmann sua capacidade de se adaptar às situações para garantir seus próprios interesses. Assim, durante a guerra, ele encenou o personagem malvado, o amigo fiel, o bom soldado e o nazista que sofria por ter que enviar judeus para a morte. O traço marcante da sua personalidade, descrito por Stangneth (2014, p. 33 et seq.), era a capacidade de manipulação dos sentimentos das pessoas. E ele usava isso tanto para comover seus superiores quanto para fazer com que as vítimas aceitassem seu destino. Em síntese, na visão de Stangneth (2014), Eichmann pode ser descrito como um símbolo da ideologia nazista.”

São citadas outras obras e autores importantes no artigo de Lopes Xarão que criticaram com tão ou maior profundidade e pertinência que Stangneth, mas nenhum com igual clareza e pontaria como este de  Bettina Stangneth. Daí que fico a elucubrar se o Victor chegou a uma conclusão igual a de Bettina Stangneth por ter lido seu livro ou outros com igual teor ou se foi pura intuição.  O importante é que mais uma vez o olhar instigante e nada raso do meu amigo Victor me inspirou com sua conclusão acerca de tão polêmico assunto dita “em passant” para mim ao resultar em uma peregrinação que ao fim e ao cabo levou-me a melhor compreender o passado, mas os  nossos conturbados  tempos onde, novamente, surgem personagens sombrias carregando bandeiras que embora pareçam diferentes das empunhadas pelo nazismo e fascismo guardam semelhanças preocupantes e assustadoras com eles.


Foto de capa:  Reprodução/Google

Sobre o autor

Jorge Alberto Benitz
Poeta de Internet.

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