Da Redação*
A decisão dos Estados Unidos de incluir facções criminosas brasileiras em sua lista de organizações terroristas internacionais reacendeu o debate sobre os efeitos práticos dessa classificação. O precedente mais citado é o da Venezuela, onde a inclusão do grupo Tren de Aragua na lista americana foi seguida por uma escalada de medidas que ampliaram a atuação de órgãos de inteligência e segurança dos EUA contra alvos ligados ao regime de Nicolás Maduro.
Embora especialistas ressaltem que o cenário brasileiro é distinto e que não existe relação automática entre os casos, a experiência venezuelana demonstra como a classificação pode ampliar instrumentos de investigação, monitoramento financeiro e operações conduzidas por Washington. A medida anunciada pelo governo dos Estados Unidos deverá alcançar o PCC e o Comando Vermelho nos próximos dias.
O precedente da Venezuela
Segundo a legislação norte-americana, uma organização pode ser enquadrada como terrorista quando for estrangeira, se cumprir os critérios previstos em lei e representar ameaça à segurança nacional ou aos cidadãos dos Estados Unidos. Nos últimos anos, a lista passou a incluir, além de grupos armados tradicionais, organizações criminosas latino-americanas ligadas ao narcotráfico.
No caso venezuelano, a designação do Tren de Aragua foi seguida por uma ofensiva mais ampla dos EUA contra redes criminosas e autoridades acusadas de vínculos com o tráfico de drogas. Isso incluiu afundar barcos que considerava suspeitos, mesmo em águas internacionais, matando seus ocupantes. Posteriormente, o governo norte-americano também passou a associar Nicolás Maduro a estruturas investigadas por narcotráfico, ampliando a pressão sobre o regime de Caracas.
Reações distintas na América Latina
Além da Venezuela, grupos criminosos de México, Colômbia, Equador e El Salvador também passaram a integrar a lista de organizações terroristas desde o retorno de Donald Trump à Casa Branca. As consequências políticas, porém, variaram conforme o contexto de cada país.
Governos como os de Claudia Sheinbaum, no México, e Gustavo Petro, na Colômbia, reagiram enfatizando a defesa da soberania nacional e rejeitando qualquer possibilidade de ações extraterritoriais. Já Equador e El Salvador adotaram discursos mais alinhados à estratégia de combate ao narcotráfico defendida por Washington.
No Brasil, a principal preocupação levantada por integrantes do governo Lula é que a nova classificação possa servir de justificativa para ampliar o alcance de investigações e operações conduzidas por órgãos norte-americanos. Embora não determine automaticamente intervenções diretas, o precedente venezuelano é visto como um indicativo do potencial de expansão da influência dos EUA em temas de segurança regional.
* Redator: Solon Saldanha
Foto: Nicolas Maduro conduzido preso. Crédito: reprodução CNN




