A crítica que venceu e o sistema que ela pariu

Última edição em abril 9, 2026, 03:10

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Como a Crítica de Lucas derrubou os modelos keynesianos ortodoxos e ajudou a construir uma nova forma de ignorar a instabilidade do mundo.

Há ideias que fincam. Moldam, e por vezes limitam, a forma como passamos a enxergar o mundo.

A chamada Crítica de Lucas foi uma dessas ideias.

Discreta na forma. Demolidora no efeito.

Disse algo simples. Não se pode prever o comportamento de uma economia projetando o passado. Quando a política muda, as pessoas reagem. Quando as pessoas reagem, os parâmetros deixam de obedecer.

Foi o suficiente.

Modelos ruíram. Confianças também. E, por um momento, a macroeconomia pareceu confrontada com algo que raramente aceita: a instabilidade do próprio objeto que pretende descrever.

Hoje, meio século depois, celebra-se essa crítica.

Mas há detalhes que costumam escapar.

Lucas não fragilizou Keynes. Seu projétil acertou outro alvo: os modelos da síntese neoclássica, no jargão de Paul Samuelson, uma construção elegante que combinava elementos keynesianos com a disciplina da acroeconomia clássica.

O que ruiu foi a crença na estabilidade dos parâmetros dos modelos econométricos.

A resposta veio rápida e sofisticada.

Se os parâmetros empíricos não são confiáveis, é preciso buscar algo mais profundo: preferências, tecnologia, restrições.

Ali nasce a promessa dos modelos DSGE.

Um mundo coerente. Internamente consistente. Fundado em decisões racionais ao longo do tempo.

Mas há um preço.

As preferências tornam-se verdadeiras por construção. E, uma vez fixadas, não se movem. O indivíduo não muda, mesmo quando o presente desaba. É como se o Robinson de 20 anos pensasse e reagisse como o de 40.

O mundo se move. Esse parâmetro não.

Para escapar à Crítica de Lucas, o problema foi reorganizado.

Separaram-se os parâmetros. Alguns poderiam variar. Outros foram elevados à condição de núcleo estável, estrutural. Ali, supõe-se, o comportamento não oscila. Apenas responde.

Mas essa solução talvez diga menos sobre o mundo do que sobre a necessidade de estabilizá-lo.

Se políticas alteram incentivos, e incentivos reorganizam práticas, não é evidente que preferências, hábitos e formas de projetar o futuro permaneçam intactos. O que se convencionou chamar de estrutural pode até ser mais lento, mas não imune.

Nesse caso, a Crítica de Lucas não desaparece.

Desloca-se.

Já não incide sobre os parâmetros visíveis, mas sobre aqueles que foram tornados invisíveis pela própria construção do modelo.

A inquietação permanece. Mudou de lugar.

Porque, no limite, para que o modelo continue funcionando, algo precisa não reagir.

E é justamente ali, onde nada deveria mudar, que a crítica insiste.

Então veio 2008.

A crise chegou como chegam as coisas que não cabem nos modelos. Sem bater na porta.

E houve uma pausa.

Enquanto isso, abordagens baseadas na consistência entre estoques e fluxos, os modelos stock-flow consistent, já apontavam fragilidades: endividamento crescente, estruturas tensionadas, equilíbrios que dependiam de continuar sendo o que já não eram. Não era previsão elegante. Era leitura estrutural.

E ela estava lá.

Robert Solow já havia alertado para o risco de uma macroeconomia elegante demais para um mundo que não se comporta assim. Na mesma direção, David Romer percebeu o desconforto crescente: uma disciplina dividida entre modelos que funcionam no papel e evidências que insistem em não caber neles.

Há uma fratura.

De um lado, a coerência exuberante para os convertidos.
De outro, o mundo.

Se os parâmetros mudam quando a política muda, isso ainda não é o mais importante.

O mais importante é que o sistema se transforma.

E essa transformação não ocorre apenas no plano das expectativas. Ela atravessa o jogo entre demanda e oferta e toda a estrutura produtiva. A oferta expande quando há investimento, mas o investimento depende da demanda; a demanda cresce com renda, que depende da produção, que responde à própria expectativa de demanda.

Um circuito imperfeito.

Por vezes virtuoso. Por vezes travado.

Nesse mundo, a Crítica de Lucas é correta? Talvez. Mas é insuficiente.

Ela diz que os parâmetros mudam.

Mas há momentos em que é a própria economia que muda de forma mais profunda do que os modelos conseguem acompanhar.

E, quando isso acontece, o modelo não erra apenas.
Ele fica para trás.

Há ainda algo mais incômodo.

Enquanto a macroeconomia dominante aperfeiçoava seus mecanismos de antecipação, foi esvaziando aquilo que, em Keynes, era central: a demanda.

Nos modelos, a economia tende a gravitar.

Na realidade, ela oscila, avança, regride, e, não raro, permanece aquém.

Sem força automática. Sem garantia de convergência.

Apenas funcionando, às vezes por muito tempo, em um equilíbrio que não equilibra nada.

No fim, resta uma ironia estrutural.

A crítica de Lucas venceu. Talvez, por enquanto.

Mas, ao vencer, ajudou a parir um sistema que precisou reconstruir a estabilidade em outro lugar.

Sai a rigidez dos dados encapsulados nos parâmetros econométricos.

Entra a rigidez das preferências.

Sai a instabilidade observada.

Entra a estabilidade suposta.

Seguimos assim.

Celebramos a crítica e contornamos suas consequências.

Enquanto, com técnica e elegância, tentamos fazer caber em modelos bem alinhados um sistema que insiste em escapar.

No fim, talvez nada seja infalível em economia.

Nem mesmo a crítica que prometeu corrigir o mundo.


Foto de capa: Reprodução

Sobre o autor

Homem de barba sorrindo ao ar livre
Henrique Morrone
Professor UFRGS.

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