O Vazio das Ideias e a Urgência de um Projeto Soberano: A Política Além do Orçamento e do Mercado | Por Jairo Bolter

Em meio ao esvaziamento de projetos nacionais e à política reduzida ao confronto permanente, o texto defende a reconstrução de um projeto soberano de desenvolvimento baseado em planejamento estratégico, fortalecimento do Estado, reindustrialização, justiça social e compromisso democrático com o futuro do Brasil.
Última edição em maio 14, 2026, 05:02

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O debate público brasileiro atravessa hoje um deserto criativo sem precedentes, onde o desafio contemporâneo de discutir o desenvolvimento nacional não é apenas uma dificuldade técnica, mas uma crônica e perigosa falta de projetos. Vivemos uma era de projetos praticamente zero, em que a grande política, aquela capaz de desenhar o amanhã e estruturar o destino da nação, parece ter entrado em extinção quando os políticos deixaram de ser políticos para se tornarem meros combatentes de ocasião. Esse esvaziamento faz com que a militância, outrora o motor das transformações sociais, fique completamente sem rumo, perdida em um cotidiano consumido pelo fogo cruzado do ataque pelo ataque. Não se discute mais o que vamos fazer ou o que podemos construir juntos. A pauta é ditada pelo que os outros estão falando ou fizeram, transformando a arena pública em um ringue de desqualificação mútua.

Essa falta de horizonte político não é algo vago ou acidental; ela é deliberadamente plantada por interesses que se beneficiam da paralisia estatal. Quando os políticos abdicam de propostas reais para divagar sem rumo, o que sobra é a tentativa sistemática de deslegitimar o adversário, esvaziando os partidos de suas teses e concepções de mundo. As legendas, que eram centros de debate sobre o projeto de país (como se viu nas discussões do Plano de Metas, nas Reformas de Base ou na construção da Constituição de 1988), viraram instrumentos de aluguel para grupos de pressão e financiadores. O que temos hoje são movimentações em torno de pautas paroquiais que ignoram os problemas estruturantes, resultando em soluções paliativas que não resolvem as crises de curto e médio prazo. Exemplo disso é a reforma tributária, que embora necessária, poderia ter avançado muito mais se houvesse um compromisso real (por parte do Pior Congresso da Nossa História), com a justiça social e a eficiência produtiva em vez de apenas remendos técnicos.

Neste vácuo propositivo, avançou uma agenda de centro-direita focada na desidratação do Estado por meio de privatizações que, sob o falso pretexto de modernidade, acabam por precarizar o aparato estatal em detrimento dos interesses coletivos e em favor de grupos corporativos. É fundamental que as forças progressistas reajam a esse desmonte e voltem a fazer bons debates sobre os desafios futuros, defendendo de forma intransigente a utilização do orçamento público para a construção de um projeto de desenvolvimento que seja includente, sustentável e sustentado. Não podemos continuar assistindo à ciência, à tecnologia e à educação ficarem em segundo plano, forçando o Brasil a copiar modelos externos por falta de financiamento e atenção estratégica. Da mesma forma, a emergência climática exige projetos preventivos reais, e não apenas ações de socorro que aguardam a catástrofe para serem implementadas.

Para além da resistência, o projeto de desenvolvimento precisa encarar o desafio da reindustrialização em novas bases, conectando a preservação da nossa biodiversidade com a soberania tecnológica. O Brasil não pode aceitar o papel de eterno exportador de matéria-prima enquanto importa inteligência e inovação. Um projeto de país vitorioso exige que o Estado assuma o papel de indutor da economia, investindo em infraestrutura logística e energética que não esteja submetida ao humor do mercado financeiro, mas sim ao interesse da produção nacional e do consumo popular. A submissão do orçamento ao teto de gastos e à lógica do rentismo é uma algema que impede o país de saltar para o futuro, sacrificando o investimento social no altar de uma austeridade que só beneficia os detentores da dívida.

É necessário também discutir a democratização do poder e a comunicação direta com o povo, resgatando a política das mãos das oligarquias que operam o Estado como um balcão de negócios privados. A soberania brasileira passa, necessariamente, pela recuperação de empresas estratégicas que foram retalhadas, devolvendo ao povo o controle sobre recursos como o petróleo e a energia elétrica, essenciais para qualquer planejamento de longo prazo (nenhum país do mundo se desenvolveu sem um aparato de grandes empresas estatais ou mistas com poder de decisão para o Estado). Sem soberania energética e alimentar, o Brasil permanece vulnerável a crises externas, transferindo para a mesa do trabalhador a conta de uma economia que não prioriza quem produz. A valorização do salário, a garantia de direitos e o fortalecimento do mercado interno devem ser vistos como pilares de crescimento, e não como custos a serem cortados por gestões tecnocráticas.

A crise de liderança que enfrentamos demanda um alinhamento urgente das vozes comprometidas com o bem comum, capazes de apresentar um cronograma de ações que devolva a dignidade ao território nacional. Não há solução dentro da política do “emendismo” parlamentar, que fragmenta o orçamento em interesses locais e eleitoreiros, impedindo a execução de grandes obras de impacto nacional. O projeto soberano precisa ser um pacto com as futuras gerações, garantindo que o Estado seja o garantidor de direitos fundamentais e o escudo contra a exploração predatória das nossas riquezas naturais por conglomerados internacionais que não possuem compromisso com o solo brasileiro.

Diante deste cenário, torna-se urgente alinhar as vozes do bem que estão preocupadas com o futuro do povo brasileiro para que projetos soberanos sejam pensados, planejados e instituídos em curto espaço de tempo. Os partidos e as lideranças precisam se revisitar e abandonar a ilusão de que a mera distribuição de emendas parlamentares é o suficiente para construir uma nação independente. O Brasil possui riquezas imensas e um potencial humano extraordinário que, se colocados no centro de um projeto vitorioso de fortalecimento do país, certamente nos levarão a um lugar melhor para se viver. É hora de resgatar a esperança e a confiança nas lideranças através de um planejamento sério que valorize a nossa soberania e garanta dignidade ao nosso povo.

É preciso deixar claro, contudo, que este chamado não se trata de um clamor por um pacto genérico com todas as forças políticas, mas sim de uma convocação exclusiva ao campo progressista. Não há como esperar que partidos de aluguel, que jamais serviram aos interesses do país e do povo, participem da construção de um destino nacional. É impossível edificar um pacto com quem não possui propostas e limita seu cotidiano ao ataque rasteiro contra as ações alheias. Não existe margem de aproximação, muito menos de aliança, com o obscurantismo daqueles que rezam para pneus, clamam por intervenções extraterrestres ou se agarram em para-choques de caminhão. Não há diálogo com quem defendeu o uso de ivermectina para combater uma pandemia global ou que chega ao delírio de beber detergente para encenar perseguição política. Com o irracionalismo e com quem flerta com o abismo, não se pactua; contra eles, se constrói a alternativa de um Brasil sério, científico e verdadeiramente comprometido com a vida.


Foto de capa: IA

Sobre o autor

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Jairo Bolter
Professor universitário e sindicalista.

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