Há filmes que nascem para disputar o Oscar. Outros, para o Festival de Cannes. E há Dark Horse, a cinebiografia de Jair Bolsonaro, que aparentemente decidiu concorrer mesmo é ao Troféu Delcídio de Melhor Trama Financeira com Elementos de Suspense Internacional.
O curioso é que o título talvez seja a única coisa honestamente precisa em toda a operação. “Azarão”. Nunca um nome descreveu tão bem uma família política capaz de transformar um filme patriótico em algo que oscila entre thriller bancário, faroeste texano e tutorial avançado de desgaste eleitoral.
O roteiro ganhou novos capítulos ontem e hoje com as revelações sobre as negociações de Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcaro, banqueiro do Banco Master, para financiar o longa sobre o velho Bolsonaro. Os valores impressionam até para os padrões de Brasília, cidade onde bilhões evaporam com a naturalidade de cubos de gelo no Cerrado.
Segundo as informações divulgadas, a negociação envolvia US$ 24 milhões — cerca de R$ 134 milhões. E não ficou apenas na promessa patriótica de WhatsApp. Cerca de US$ 10,6 milhões, aproximadamente R$ 61 milhões, já teriam sido transferidos. O detalhe cinematográfico é que o dinheiro não teria ido diretamente para a produtora do filme, mas para um fundo de investimentos no Texas, EUA, ligado ao entorno de Eduardo Bolsonaro.
A produtora, por sua vez, soltou nota afirmando que nunca recebeu “um único centavo” de Vorcaro ou empresas associadas.
Enquanto isso, o produtor do filme, Tiago Miranda, afirmou que o nome de Vorcaro “não ficaria exposto”, mas que ele entendia as “doações” como “investimento” e que “haveria retorno”. Se essas afirmações são verídicas, resta uma pergunta: que retorno seria esse de um investimento “não exposto”?
O Brasil alcançou um novo patamar de sofisticação política: o financiamento metafísico. O dinheiro existe, viaja, aparece em registros, atravessa fronteiras, mas ninguém recebeu nada. É o capitalismo quântico do bolsonarismo.
A direita que odeia Lei Rouanet — dos outros
A ironia talvez seja a única forma racional de narrar o caso.
Durante anos, o bolsonarismo transformou artistas, cineastas e projetos culturais em inimigos nacionais. Lei Rouanet virou palavrão. Cinema brasileiro virou “mamata”. Ator era tratado como ameaça à civilização ocidental cristã.
Agora, surge uma superprodução internacional sobre Jair Bolsonaro cercada por cifras milionárias, operações financeiras internacionais, recursos públicos indiretos, emendas parlamentares e um banqueiro investigado no meio do caminho.
É quase poético.
Eduardo Bolsonaro primeiro negou o envolvimento. Depois admitiu tratativas, mas garantiu que era tudo privado. Nenhum tostão público, assegurou. Uma declaração admirável de coragem retórica para quem convive com um projeto já associado a cerca de R$ 100 milhões da Prefeitura de São Paulo, além de outros milhões em emendas parlamentares e incentivos ligados à produção audiovisual.
No bolsonarismo, o dinheiro público parece lactose: oficialmente ninguém consome, mas misteriosamente ele aparece em todas as receitas.
Caiado e Zema mandam flores
Mas o aspecto mais interessante talvez esteja fora do filme.
Enquanto o núcleo bolsonarista tenta explicar por que milhões cruzaram oceanos rumo ao Texas sem aparentemente chegar ao filme, Ronaldo Caiado e Romeu Zema provavelmente vivem seus melhores dias políticos em meses.
E com razão.
Porque cada novo escândalo envolvendo a famiglia Bolsonaro ajuda a abrir espaço para uma extrema-direita sem sobrenome tóxico, sem joias sauditas, sem minuta golpista e, sobretudo, sem o peso radioativo acumulado pelo clã desde 2019.
Caiado e Zema entendem algo que parte da esquerda ainda se recusa a enxergar: o bolsonarismo não desaparece necessariamente com o enfraquecimento dos Bolsonaro. Ele pode apenas trocar de embalagem.
Talvez até fique mais competitivo.
As pesquisas vêm mostrando há meses que qualquer candidato forte contra Lula tende a reunir no segundo turno praticamente todo o eleitorado antipetista. O desgaste de Flávio Bolsonaro — e da própria família — não representa automaticamente tranquilidade para o governo. Dependendo da reorganização da direita, pode até eliminar o principal “telhado de vidro” da oposição.
Em política, às vezes o radical barulhento presta um serviço involuntário aos adversários. Remove-se o personagem excessivamente tóxico, e sobra uma versão mais palatável do mesmo projeto conservador.

O Texas sempre esteve no roteiro
Há algo deliciosamente simbólico no fato de parte dessa história desembocar no Texas.
Claro que desemboca.
Não poderia terminar em Taubaté, Guarulhos ou Passo Fundo. Precisava ser no Texas. O imaginário do velho oeste conservador, da pátria armamentista, do capitalismo sem freios e da estética trumpista perfeita para o universo bolsonarista.
O problema é que o “cowboy patriota” brasileiro anda parecendo menos Clint Eastwood e mais personagem secundário de série cancelada por excesso de escândalos financeiros.
No fim, Dark Horse talvez entre para a história não como o filme que reabilitou Bolsonaro internacionalmente, mas como a obra que ajudou a empurrar o bolsonarismo familiar para sua crise mais constrangedora desde a derrota de 2022.
E, nesse caso, Caiado e Zema realmente têm motivos para agradecer.
O azarão agora parece ser outro.
Ilustração da capa: Dark Horse (O azarão) – Foto composição gerada por IA.





