1. Como o senhor avalia o momento atual das relações comerciais entre o Brasil e a Romênia?
As relações comerciais entre Brasil e Romênia atravessam um momento de estabilidade e, ao mesmo tempo, de claro potencial de expansão. Em 2025, o intercâmbio comercial total entre os dois países alcançou US$ 714,2 milhões. O Brasil importou da Romênia aproximadamente US$ 422,8 milhões e exportou para o mercado romeno cerca de US$ 291,4 milhões, registrando um déficit comercial de aproximadamente US$ 131,4 milhões.
Em comparação, em 2024, o Brasil havia importado da Romênia US$ 407,7 milhões e exportado US$ 159,7 milhões. Isso demonstra uma recuperação importante das exportações brasileiras em 2025, embora ainda exista espaço significativo para ampliar a presença do Brasil no mercado romeno.
Entre os principais produtos exportados pelo Brasil para a Romênia estão a soja, os óleos brutos de petróleo e o café. Já entre os principais produtos importados pelo Brasil da Romênia destacam-se as autopeças, setor no qual a Romênia possui uma indústria consolidada e competitiva.
Observa-se, ainda, uma diferença importante no perfil dos produtos comercializados entre os dois países. As exportações brasileiras para a Romênia concentram-se majoritariamente em produtos de base, geralmente associados a menor valor agregado. Em contrapartida, as importações brasileiras provenientes da Romênia incluem produtos industriais e manufaturados de maior sofisticação técnica e tecnológica, especialmente no setor automotivo, caracterizados por maior valor agregado. Esse cenário evidencia a importância de ampliar a participação brasileira em segmentos mais inovadores e tecnologicamente intensivos no mercado romeno.
Nos primeiros quatro meses de 2026, o intercâmbio comercial bilateral já somou US$ 198,1 milhões, sendo US$ 144 milhões em importações brasileiras da Romênia e US$ 54 milhões em exportações brasileiras para a Romênia. Esses números indicam que a relação comercial é consistente, mas também revelam a necessidade de diversificar a pauta exportadora brasileira e de estimular maior presença empresarial brasileira no mercado romeno.
2. Quais setores estratégicos o senhor enxerga como prioritários na cooperação entre Brasil e Romênia?
Vejo grande potencial em setores como agricultura, pesquisa agropecuária, indústria farmacêutica, autopeças, equipamentos elétricos, tecnologia da informação e economia criativa.
No setor farmacêutico, já identificamos interesse concreto de empresas romenas em ampliar sua relação com o Brasil. A Fiterman Pharma, por exemplo, tem demonstrado interesse em importar matérias-primas brasileiras para a produção de medicamentos. Ao mesmo tempo, empresas romenas também buscam oportunidades para exportar medicamentos ao mercado brasileiro. A Antibiotice SA Iași, uma das empresas farmacêuticas mais importantes da Romênia, já exporta nistatina para o Brasil.
No setor agrícola, a cooperação também é extremamente promissora. A Romênia possui terras férteis e uma tradição agrícola relevante, além de competências em pesquisa genética e genômica. Por outro lado, ainda há espaço para maior incorporação de inovação, tecnologia agrícola e soluções avançadas de produtividade. Nesse sentido, o Brasil, com sua experiência em agricultura tropical, biotecnologia, mecanização e pesquisa agropecuária, pode contribuir de maneira significativa.
A soja continua sendo um dos principais produtos agrícolas brasileiros demandados pelo mercado romeno. Além disso, a Embaixada tem interesse em estimular, no futuro, a assinatura de um Memorando de Entendimento entre a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), uma das instituições de pesquisa agrícola mais respeitadas do mundo, e uma instituição ou academia agrícola romena.
Também vejo potencial relevante nos setores de autopeças e equipamentos elétricos, que já ocupam posição importante na pauta comercial bilateral.
3. O que motivou a realização pioneira do I Fórum de Economia Criativa, Inovação e Tecnologia Brasil-Romênia?
A realização do I Fórum Brasil–Romênia de Economia Criativa, Inovação e Tecnologia nasceu de uma percepção muito clara: era necessário inovar também na forma de promover o Brasil no exterior.
Tradicionalmente, os fóruns econômicos concentram-se em setores clássicos da economia, como agricultura, indústria, energia ou infraestrutura. Esses setores continuam sendo fundamentais, mas observamos, ao longo do último ano, um interesse crescente por áreas ligadas à economia criativa, à tecnologia, à inovação, à literatura, ao audiovisual e às artes visuais.
É importante destacar que este é um formato pioneiro, pois o Ministério das Relações Exteriores do Brasil ainda não havia realizado um fórum com esse perfil específico, voltado para a economia criativa.
Um exemplo concreto desse interesse é a presença recorrente da senhora Izabelle Valladares, representante da Literarte, uma instituição cultural brasileira voltada à promoção da literatura, da arte e de escritores brasileiros, e da Editora Mágico de Oz, sua editora no Brasil. Nos últimos três anos, ela realizou quatro visitas à Romênia e, em sua visita mais recente, veio acompanhada por uma delegação de escritores brasileiros. Isso demonstra um interesse real do Brasil em aprofundar a cooperação com a Romênia no setor literário.
Também identificamos interesse crescente nos setores de artes visuais, audiovisual e tecnologia. Durante a preparação do Fórum, verificamos uma forte demanda por encontros na área de TI. Por isso, ao longo do programa, serão organizadas mais de dez reuniões virtuais entre empresas brasileiras e romenas dos setores de tecnologia e inovação, envolvendo instituições e empresas como Brasoftware, TexanGroup, ABRIA, Brasscom, Dadosfera e Tecsoft, entre outras.
Portanto, o Fórum nasceu da vontade de ampliar a agenda bilateral, trazendo para o centro da relação Brasil–Romênia setores criativos, inovadores e com grande potencial de crescimento.
4. Como o senhor vê o papel da economia criativa como vetor comercial entre os dois países?
A economia criativa pode desempenhar um papel muito importante como vetor comercial e cultural entre Brasil e Romênia. Trata-se de um setor que combina identidade, inovação, tecnologia, talento humano e capacidade de gerar valor econômico.
Existe potencial, mas é essencial que a Embaixada atue como facilitadora, aproximando instituições, empresas, artistas, produtores culturais e investidores dos dois países.
Um exemplo interessante é o interesse manifestado pela Art Safari, uma das principais plataformas de arte contemporânea e exposições culturais da Romênia, em desenvolver futuramente um projeto criativo relacionado ao Brasil. Uma das ideias discutidas foi a possibilidade de apresentar uma representação em miniatura do Cristo Redentor do Rio de Janeiro.
Esse símbolo é especialmente relevante para a relação Brasil–Romênia. Poucas pessoas sabem que o rosto do Cristo Redentor, um dos maiores ícones do Brasil, foi esculpido por Gheorghe Leonida, artista romeno nascido em Galați. A obra foi iniciada em 1926 e concluída em 1931. Portanto, o Cristo Redentor representa também uma ponte simbólica entre os dois países.
Esse tipo de conexão mostra como a economia criativa pode ir além da cultura: ela pode gerar turismo, negócios, exposições, cooperação institucional e maior conhecimento mútuo entre Brasil e Romênia.
5. A Romênia tem se destacado como hub tecnológico na Europa. Onde o Brasil pode se conectar de forma mais competitiva nesse ecossistema?
A Romênia tem se consolidado como um dos polos tecnológicos mais dinâmicos da Europa, especialmente no Leste Europeu. Cluj-Napoca, por exemplo, é frequentemente chamada de “Silicon Valley” da Romênia e, certamente, uma das principais referências tecnológicas da região.
O Brasil pode se conectar de forma competitiva nesse ecossistema em áreas como software, inteligência artificial, cibersegurança, marketing digital, transformação digital, plataformas de comércio eletrônico, soluções corporativas e tecnologia aplicada à indústria.
Já existem exemplos concretos dessa aproximação. Empresas brasileiras como Stefanini e VTEX já investiram na Romênia, demonstrando confiança no mercado local e no talento tecnológico romeno. Por outro lado, empresas com presença romena, como Bitdefender e Cognizant, também têm atuação relevante no Brasil.
Outro exemplo importante é a Agência JKR, empresa brasileira de marketing que tem consolidado progressivamente sua presença no mercado romeno. Isso mostra que a cooperação tecnológica e criativa não se limita ao software tradicional, mas também envolve marketing, comunicação, inovação e serviços digitais.
6. Existem oportunidades concretas para startups brasileiras acessarem o mercado europeu via Romênia?
Sim, existem oportunidades concretas. A Romênia oferece uma combinação muito interessante para startups brasileiras: acesso ao mercado da União Europeia, custos ainda competitivos em comparação com outros países europeus, mão de obra qualificada e um ecossistema tecnológico em expansão.
Além disso, a Romênia possui uma das infraestruturas de internet mais rápidas da Europa, o que favorece empresas digitais, startups e negócios baseados em tecnologia. O país também tem uma localização estratégica, com acesso ao Mar Negro e ao Porto de Constanța, que representa uma importante porta comercial no flanco oriental da Europa.
A Romênia é também um mercado com consumidores em evolução, cada vez mais abertos a inovação, tecnologia e novos modelos de negócios. Para startups brasileiras que desejam acessar a União Europeia e, ao mesmo tempo, explorar oportunidades no Leste Europeu, a Romênia pode funcionar como uma base estratégica muito interessante.
7. Quais são os principais desafios que empresas brasileiras enfrentam para entrar no mercado romeno e europeu? De que forma a Embaixada tem atuado para reduzir essas barreiras e facilitar o ambiente de negócios?
Os principais desafios estão relacionados à adaptação regulatória, à burocracia, às exigências sanitárias e fitossanitárias, à necessidade de compreender as normas da União Europeia e à construção de redes locais de confiança.
É importante lembrar que, no caso da Romênia, muitos acordos comerciais e regras de acesso ao mercado são definidos no âmbito da União Europeia. Isso significa que, para diversos setores, não basta apenas a relação bilateral Brasil–Romênia; é necessário considerar também o marco regulatório europeu.
Nesse contexto, diversos produtos brasileiros enfrentam dificuldades para ingressar no mercado romeno devido a barreiras sanitárias e fitossanitárias estabelecidas pela União Europeia, o que pode limitar ou retardar o acesso de determinados produtos ao mercado europeu.
Também tenho promovido o debate sobre o Acordo Mercosul–União Europeia no mercado romeno, por meio de entrevistas e artigos publicados na imprensa, destacando os potenciais benefícios do acordo para o fortalecimento das relações econômicas e comerciais entre Brasil e Romênia. Uma vez implementado, o acordo poderá facilitar significativamente o comércio bilateral, reduzindo barreiras e criando novas oportunidades para empresas dos dois lados.
8. Em setembro do ano passado, a Embaixada realizou o II Fórum Comercial Brasil-Romênia. O senhor acredita que os Fóruns podem acelerar investimentos bilaterais? Já há sinais concretos nesse sentido?
Sim, acredito que os fóruns têm um papel muito importante na aceleração da agenda econômica bilateral. O II Fórum de Negócios Brasil–Romênia 2025 foi um verdadeiro sucesso, reunindo mais de 30 empresários brasileiros e promovendo discussões relevantes sobre parcerias, especialmente no setor agrícola.
É importante, no entanto, compreender que os resultados de um fórum econômico nem sempre aparecem imediatamente. Muitas vezes, os contatos estabelecidos hoje se transformam em parcerias, investimentos ou contratos apenas depois de alguns anos. A construção de confiança exige tempo, continuidade e acompanhamento institucional.
Ainda assim, a tendência é claramente positiva. Observamos maior interesse de empresas brasileiras pelo mercado romeno, maior abertura de instituições romenas para cooperar com o Brasil e um crescimento gradual da visibilidade do Brasil como parceiro econômico estratégico na região.
9. Em um cenário global de reconfiguração de cadeias produtivas, qual o papel do Brasil como parceiro confiável para a Europa?
O Brasil tem todas as condições para se consolidar como um parceiro confiável da Europa em um cenário global de reconfiguração das cadeias produtivas. O país possui uma economia diversificada, grande capacidade agrícola, recursos naturais abundantes, matriz energética relativamente limpa e um setor industrial relevante.
Para a Europa, o Brasil pode ser parceiro estratégico em áreas como segurança alimentar, energia renovável, biocombustíveis, minerais críticos, proteína vegetal e animal, tecnologia agrícola e sustentabilidade.
Além disso, o Brasil é uma democracia de grandes dimensões, com tradição diplomática, estabilidade institucional e forte presença em fóruns multilaterais. Em um mundo marcado por instabilidade geopolítica, conflitos regionais e necessidade de diversificação de fornecedores, o Brasil oferece previsibilidade, escala e capacidade produtiva.
10. Como o senhor enxerga o posicionamento do Brasil frente às novas dinâmicas tecnológicas globais, como inteligência artificial e transformação digital?
O Brasil tem avançado de maneira significativa nas áreas de inteligência artificial, transformação digital, fintechs, agritechs, cibersegurança e inovação aplicada à indústria e aos serviços.
O país possui um dos maiores mercados digitais do mundo, um ecossistema de startups muito ativo e empresas tecnológicas com capacidade de internacionalização. A digitalização do sistema financeiro brasileiro, por exemplo, com soluções como o Pix, tornou-se referência internacional em inovação e inclusão financeira.
Na área de inteligência artificial, há crescente interesse de empresas brasileiras em desenvolver soluções aplicadas à gestão pública, ao setor industrial, à saúde, à agricultura, à educação e à tomada de decisões corporativas. Empresas como TexanGroup, ABRIA, Dadosfera, BRASSCOM, Brasoftware e Tecsoft demonstram que o Brasil possui capacidade de desenvolver soluções sofisticadas e competitivas.
A cooperação com a Romênia pode acelerar esse processo, aproximando talentos, empresas e instituições de pesquisa dos dois países.
11. A Romênia pode servir como porta de entrada para o Leste Europeu? Como isso se traduz na prática para empresas brasileiras?
Sim, a Romênia pode funcionar como uma excelente porta de entrada para o Leste Europeu. O país é membro da União Europeia, possui localização estratégica, acesso ao Mar Negro e conta com o Porto de Constanța, que é uma infraestrutura importante para o comércio regional.
O Porto de Constanța tem a vantagem de não ser tão congestionado quanto outros grandes portos europeus, o que pode representar uma oportunidade logística para empresas brasileiras interessadas em acessar não apenas a Romênia, mas também mercados vizinhos no Leste Europeu, nos Bálcãs e na região do Mar Negro.
Além disso, a futura implementação do Acordo Mercosul–União Europeia poderá ampliar ainda mais o papel da Romênia como plataforma de acesso para produtos e serviços brasileiros no mercado europeu.
Na prática, isso significa que empresas brasileiras podem utilizar a Romênia como base comercial, logística, tecnológica ou institucional para expandir sua presença regional.
12. Que mensagem o senhor deixaria para empresários brasileiros que ainda não consideram a Romênia como destino estratégico?
A mensagem principal é: olhem para a Romênia com atenção. Trata-se de um mercado dinâmico, aberto, em crescimento e ainda com muito espaço para novos atores internacionais.
Os romenos são pessoas abertas, receptivas e culturalmente próximas dos brasileiros em muitos aspectos. A língua romena, por ser uma língua latina, não é tão distante para os brasileiros, e isso facilita a adaptação cultural e a comunicação.
Além disso, já existem exemplos concretos de empresas brasileiras que encontraram espaço no mercado romeno, como Stefanini e VTEX. Isso demonstra que há oportunidades reais e que o Brasil pode competir de forma bem-sucedida nesse ambiente.
A Romênia oferece acesso ao mercado europeu, talento qualificado, boa infraestrutura digital e uma posição geográfica estratégica. Para empresários brasileiros que buscam diversificar mercados e internacionalizar suas operações, a Romênia merece estar no radar.
13. Após o Fórum, quais são os próximos passos para consolidar essa agenda bilateral?
Após o Fórum, o principal objetivo será dar continuidade aos contatos estabelecidos, acompanhar as reuniões B2B e transformar o diálogo em projetos concretos.
Acredito que, em 2027, poderemos realizar a terceira edição do Fórum de Negócios Brasil–Romênia, com foco em setores estratégicos como agricultura, indústria farmacêutica, autopeças, equipamentos elétricos e tecnologia da informação.
Também pretendemos continuar promovendo a aproximação entre empresas, universidades, centros de pesquisa e instituições públicas dos dois países. A consolidação dessa agenda bilateral dependerá de continuidade, acompanhamento e articulação institucional.
O Fórum de Economia Criativa, Inovação e Tecnologia é apenas mais um passo dentro de uma estratégia maior: ampliar a presença do Brasil na Romênia e fortalecer a Romênia como parceira estratégica do Brasil no Leste Europeu.
*Vanessa Africani é especialista em comunicação e marketing com experiência profissional em promoção de negócios. Atua na promoção com ênfase no continente africano e na promoção de relações bilaterais e comerciais com diversos países do Mercosul, Américas e África.
Foto de capa: Agência Senado




