TEXTO 6 · SÉRIE SOBRE O FASCISMO
Termino a série pela distinção mais maltratada do debate público: fascismo e neofascismo. Uns usam as palavras como sinônimos; outros as tratam como parentes distantes. Erram os dois — e o acerto começa por algo quase banal, o sentido do prefixo neo. Ele diz que uma coisa é parecida o bastante com o que já aconteceu para merecer o nome antigo, e diferente o bastante para não ser a mesma coisa. O neo é uma acomodação pedagógica: poupa-nos de reinventar a roda cada vez que a história dá um passo.
Acontece que o neo também tem historicidade. Ele não nomeia uma diferença qualquer: nomeia diferenças determinadas, datadas, nascidas do modo como o mundo mudou entre o fascismo clássico e as suas versões atuais. No caso do fascismo, concentram-se em três grandes pontos. Percorrê-los é entender por que o fenômeno é, ao mesmo tempo, reconhecível e novo.
O primeiro é a relação com a política. Mussolini e Hitler — Mussolini sobretudo — diziam com todas as letras que faziam política, e que o fascismo era uma ferramenta política das massas. Havia orgulho nisso: o fascismo se anunciava projeto total, doutrina, visão de mundo. O neofascismo se vende como o contrário: apolítico. Suas lideranças posam de gente comum farta “dos políticos”, outsiders que vêm de fora consertar o que a política estragou. A mutação tem endereço histórico: a Guerra Fria, quando a própria noção de política foi criminalizada — e quando a fórmula projetada por Hannah Arendt em torno do conceito de totalitarismo, equiparando num só tipo o regime nazista e o soviético, forneceu, na leitura que aqui defendo, a estrutura argumentativa com que se desqualificou, por décadas, qualquer projeto político de esquerda. O resultado é o paradoxo diante dos nossos olhos: um fenômeno inteiramente político — no movimento, nas lideranças, nos fins — apresentando-se como a negação da política.
Registro, para não cometer injustiça: o problema não está na grandeza da obra de Arendt, de que esta própria série se serviu, e sim no uso que a Guerra Fria fez de uma de suas fórmulas. Convertida em arma de propaganda, a equiparação entre os totalitarismos deixou de ser hipótese de trabalho e virou reflexo condicionado: toda política transformadora passou a caber, por atacado, no mesmo saco. É esse reflexo — não a autora — que o neofascismo herda e explora quando se traveste de antipolítica.
E o disfarce nada tem de ingênuo: é estratégia. Quem recusa o rótulo de político reivindica os poderes do político sem os deveres dele — não presta contas, não responde por promessas, não se submete às regras do jogo que jura ter vindo corrigir. Pintando de suja toda a política institucional, desqualifica de antemão a oposição: criticá-lo vira coisa da velha política, manobra do sistema. A negação da política é, ela mesma, um lance político. Dos mais astutos.
O segundo ponto é o da racionalidade. O nazismo foi indissociável de certa racionalidade germânica de controle: a obsessão do registro, a contabilidade dos corpos, a mensuração administrativa de ganhos e perdas, a burocracia meticulosa até na morte. Essa racionalidade seria depois glamourizada pelo próprio capitalismo liberal, com as suas contabilidades econômicas e políticas — e não é por acaso que a lógica de atribuir a cada cidadão um número de identificação guarda parentesco genealógico com o controle administrativo de populações que a Alemanha nazista levou ao extremo, história em que a mecanização do recenseamento por máquinas de cartão perfurado teve papel documentado. O neofascismo herda a pulsão e troca o instrumento: sai o fichário, entra o algoritmo. As plataformas digitais exercem hoje, sobre o tecido social, um poder de vigilância, segmentação e direcionamento que Hitler e Mussolini não puderam sequer sonhar. Arrisco a hipótese: tivessem eles um vislumbre desse nível de controle, dariam as próprias ideias por realizadas.
E a diferença não é só de grau. O controle nazista era visível, pesado: exigia funcionários, arquivos, carimbos — uma máquina que se sabia olhada. O controle algorítmico é invisível e íntimo. Não bate à porta; sussurra na tela, sob medida para cada medo e cada frustração. Onde o fascismo clássico precisava juntar a massa na praça, o neofascismo a mobiliza um a um, no isolamento de cada aparelho, com mensagem calibrada por perfil. A vigilância deixou de ser o olho que observa de fora e virou o espelho que devolve a cada um o que ele já queria ver — e que, por isso mesmo, o prende.
A inteligência artificial promete levar esse mecanismo a um andar que ainda mal divisamos: a produção industrial de realidade sob medida — textos, vozes, rostos, acontecimentos inteiros fabricados com verossimilhança crescente e custo declinante. O fascismo clássico precisava de um ministério para mentir; o neofascismo terá fábricas automáticas de mentira personalizada. Fatalidade? Tendência — e tendências se combatem. Mas seria tolice subestimar o que significa, para um projeto político fundado na ressignificação da realidade, a posse de uma máquina de ressignificar em escala.
O terceiro ponto é o mais contraintuitivo: a dispensa do partido. No fascismo original, construir o partido era imperativo — nas tecnologias políticas da época, o partido-movimento era a vanguarda por excelência, o instrumento que enquadrava massas, formava quadros, tomava o Estado. O neofascismo raramente trava essa batalha. Em vez de fundar a própria legenda, parasita as alheias: instala-se em partidos de centro-direita e de direita já existentes e os coloniza por dentro, com suas lideranças e suas ideias. Trump tomou de assalto o Partido Republicano, a ponto de republicanos históricos denunciarem o sequestro e cogitarem, alguns, fundar outra casa. No Brasil, o bolsonarismo fez o mesmo com um conjunto inteiro de partidos de centro — que seguem se vendendo como centrão pragmático e abrigam hoje posições e agendas claramente fascistas. Nem legendas de tradição trabalhista escaparam: em correntes de juventude nascidas nesses quadros, o mesmo processo se deixa reconhecer. A parasitagem é isto. O fascismo já não precisa de casa própria — hospeda-se.
O partido, aliás, foi substituído por algo — não ficou um vazio no seu lugar. Onde estava o partido-movimento, opera hoje a rede: comunidades digitais, canais, grupos de mensagens, um enxame de células que se coordenam sem hierarquia formal e sem sede que se possa fechar. Para um projeto que se quer invisível, a vantagem é dupla: a rede mobiliza como o partido mobilizava, e não oferece o flanco que o partido oferecia. Não há diretório a cassar, nem registro a caçar. Dissolvida a forma, sobrou a função.
Os três pontos, repare-se, têm data de fabricação. O apoliticismo é filho da Guerra Fria; o algoritmo, do capitalismo de plataforma consolidado neste século; a parasitagem, da longa crise dos partidos que se arrasta desde o fim do mundo bipolar. O neofascismo não escolheu suas diferenças num cardápio — foi-as recebendo da história, como todo fenômeno vivo. E é essa historicidade do neo que o separa de um simples apelido: ele registra, no próprio nome, o trabalho do tempo sobre uma mesma matéria.
Um fio costura as três mutações: em todas, o neofascismo ganha eficácia tornando-se menos visível. Apolítico em vez de assumidamente político; algorítmico em vez de burocrático; hóspede em vez de fundador. O fascismo clássico se exibia. O neofascismo se camufla — nisso está a sua vantagem adaptativa, e nisso está a nossa dificuldade.
Repare-se, por fim, que nenhuma das três diferenças toca o núcleo. A defesa sacralizada da propriedade e da hierarquia, a partilha da violência, a representação por similaridade — tudo o que percorremos nesta série segue de pé. Mudam a embalagem, a tecnologia, a tática. O neo é real; mas é neo de fascismo. A raiz é a mesma. Mudaram os galhos.
Insistir na distinção, portanto, nada tem de preciosismo: é condição de reconhecimento. Quem sai à procura do neofascismo com o retrato falado do original — a suástica, o partido uniformizado, o tribuno que se proclama revolucionário — não o encontrará em parte alguma, e concluirá, aliviado, que ele não existe. O disfarce é precisamente esse: não se parecer, à primeira vista, com aquilo que é. Nomear com rigor as diferenças é arrancar-lhe o disfarce. E é honrar o que abriu esta série: não precisamos de uma palavra nova a cada temporada. Precisamos de uma palavra antiga, bem definida — e de um prefixo honesto, que diga sem esconder nem exagerar o que a história, de fato, mudou.
Leia o terceiro texto da série.
Leia o segundo texto da série.
Leia o primeiro texto da série.
Foto de capa: IA


