TEXTO 3 · SÉRIE SOBRE O FASCISMO
Comecemos pelo que este texto não diz, para que ninguém o leia errado. Sustentar que não existe fascismo de esquerda não é atestar inocência à esquerda. Houve e há regimes de esquerda autoritários, ditatoriais, venais — tão capazes de esmagar liberdades e acumular crimes quanto os da direita e da extrema direita, e quanto alguns que se apresentam ao mundo como liberais. Autoritarismo não tem dono. O que sustento é outra coisa, mais estreita e mais exata: o fascismo, como fenômeno específico, não cabe na esquerda, porque depende de um núcleo que a esquerda, por definição, recusa.
Antes do núcleo, a história da expressão — que é, ela sozinha, uma pequena aula. Fascismo de esquerda, Linksfaschismus no original, foi lançada em 1967 por Jürgen Habermas, num embate acalorado com a ala mais radical do movimento estudantil alemão. Habermas denunciava ali o que via como voluntarismo: um ativismo disposto a atropelar as mediações democráticas em nome da urgência revolucionária. O rótulo nasceu polêmico, e o próprio autor o modularia depois. Mas a expressão ganhou vida própria e foi reciclada ao longo dos anos seguintes — inclusive contra jovens alemães que, já nos anos 1970, denunciavam os crimes do Estado de Israel e saíam às ruas contra eles, e que por isso se viam acusados de reeditar, pela esquerda, o pior da Alemanha. A cena, convenhamos, guarda um ar de família com o presente: quem denuncia crimes de Estado segue sendo presenteado com o rótulo.
Que a paternidade da expressão pertença a um pensador da esquerda democrática torna o episódio ainda mais instrutivo. Ela nasceu advertência interna, alerta contra a tentação autoritária dentro do próprio campo — e só depois virou bordão de ataque. Cobrar coerência democrática de quem marcha ao nosso lado é uma coisa; insinuar que todo projeto de transformação social é um nazismo em germe é outra, bem diferente. A segunda operação não descreve nada. Apenas contrabandeia, para a disputa política corrente, o peso simbólico do maior crime do século XX.
Vamos, então, à estrutura. O fascismo depende totalmente da defesa da propriedade privada — não como preferência econômica entre outras, mas como princípio organizador de tudo o mais. O fascismo histórico se ergueu como força de contenção, brutal quando preciso, contra o que ameaçasse a ordem da propriedade; foi essa a função social que Clara Zetkin identificou já nos anos 1920, quando o fenômeno mal saíra do berço. Por aí passa a linha vermelha: onde a esquerda questiona a propriedade como centro da organização material da vida, o fascismo a consagra.
E não ficou na doutrina. No poder, os dois regimes fizeram da promessa programa: sindicatos esmagados ou domesticados, greves proibidas, direitos do trabalho podados — e uma convivência cada vez mais cordial com a grande indústria, que aprendeu depressa a lucrar com a nova ordem. A retórica anticapitalista das origens, que existiu sobretudo no primeiro fascismo italiano, foi sendo aparada a cada acordo com os de cima, até sobrar o essencial: a ordem da propriedade atravessou os anos fascistas não abalada, mas blindada. O anticapitalismo fascista morreu jovem. A proteção à propriedade, nunca.
Há um segundo elemento, menos lembrado e mais revelador. O fascismo não se limita a defender a propriedade: enxerga no capitalismo um sistema natural de seleção social entre fortes e fracos. Mussolini e Hitler chegaram a glamourizar essa capacidade do capitalismo de separar os homens — de destacar os empreendedores, os audazes, os aptos —, como se o mercado repetisse, dentro da sociedade, o trabalho da seleção natural descrita por Charles Darwin. Retórica de palanque? Nada disso: visão de mundo. A concorrência como peneira da natureza; a riqueza como veredicto.
Nem nasceu com os dois, essa ideia. O darwinismo social foi uma das grandes correntes do fim do século XIX e do início do XX, e emprestou verniz de ciência ao que era, no fundo, uma teologia da força. O raciocínio migrou da economia para a biologia e da biologia de volta para a política sem encontrar atrito: se a natureza seleciona, e se o mercado imita a natureza, a desigualdade deixa de ser injustiça a corrigir e vira sentença a respeitar. O fascismo recebeu esse raciocínio pronto, de uma cultura que já naturalizara a hierarquia entre os homens — e apenas o levou a sério até o fim. Até as últimas consequências, que foram exterminadoras.
Aqui aparece a semente mais perigosa. Naturalizada a desigualdade, a passagem da leitura econômica para a leitura genética é um passo curto: se há fortes e fracos por natureza, uns teriam nascido para vencer, outros para servir. O racismo do fascismo não constitui capítulo à parte de sua economia — é o prolongamento dela. E o alerta mais urgente é este: mesmo as versões recentes do fenômeno, que não desfilam suásticas nem falam abertamente em raça, guardam essa semente. A leitura genética venal da diferença entre os homens parece diminuída, dissimulada; segue operando, porém, como ideia-força. É o motor silencioso que dá sentido ao resto.
Nem morreu com os regimes dos anos 1940. Sobrevive em trajes respeitáveis: o pobre que seria pobre por falta de mérito, o rico que seria rico por virtude, a fortuna como prova de superioridade e a miséria como atestado de incompetência. O darwinismo social de hoje não mede crânios; fala em empreendedorismo e meritocracia. A semente é a mesma — e é por reconhecê-la debaixo do disfarce que insisto tanto neste ponto.
A consequência prática não é pequena. Diagnóstico errado, remédio errado: quem gasta munição denunciando um fascismo imaginário à esquerda desguarnece a trincheira onde o fascismo real se acumula. O contrário também vale — a esquerda que saca a palavra como coringa retórico contra qualquer adversário ensina o público a não levá-la a sério. Precisão conceitual, aqui, é economia de guerra: saber onde o inimigo está para não gastar pólvora em fantasma.
Há, de resto, um teste simples. Procure-se, em qualquer experiência dita de fascismo de esquerda, o núcleo que descrevi: a sacralização da propriedade privada e a desigualdade lida como veredicto da natureza. Não se encontrará — por definição, não por acaso. Encontrar-se-ão outras coisas, graves: o partido único, a polícia política, o culto ao chefe, o campo de trabalho. São traços comuns a muitos autoritarismos, e é deles que a confusão se alimenta. Mas traço comum não faz identidade: febre não transforma gripe em malária. O que define o fascismo não é o que ele divide com os demais autoritarismos — é o que só ele tem.
Ponha-se agora esse núcleo diante do núcleo da esquerda, e a incompatibilidade fica nua. A esquerda, em qualquer de suas variantes, define-se por contestar a propriedade como princípio último e por recusar a naturalização da desigualdade. Pode ser autoritária — a história provou que pode; pode reprimir, censurar, matar. Quando o faz, porém, contradiz os próprios princípios: trai-se. O fascismo, quando reprime e hierarquiza, realiza os seus: cumpre-se. Um autoritarismo de esquerda é uma esquerda que se corrompeu. Um fascismo é um projeto que se realizou. Chamar o primeiro pelo nome do segundo é apagar exatamente aquilo que faz do segundo o que ele é.
Daí a minha resistência à expressão — e não se trate isso como purismo, nem como blindagem de campo. A imprecisão, aqui, cobra caro. Virando sinônimo de qualquer autoritarismo, a palavra fascismo perde o que tem de próprio: a sacralização da propriedade e da desigualdade natural. E quem perde isso de vista perde, no mesmo movimento, a capacidade de reconhecer o fascismo onde ele de fato se instala — à direita, vestido de defesa da ordem, da meritocracia, da liberdade econômica. O esgarçamento de que tratei no primeiro texto encontra aqui sua forma mais eficiente: dilui-se o conceito em autoritarismo genérico e, no mesmo gesto, cega-se para a sua sede real.
Fique claro, então, o que afirmo e o que não afirmo. Não afirmo que a esquerda seja incapaz de crimes — a história dispensa ingenuidades. Afirmo que o fascismo tem endereço: a defesa armada da propriedade e a hierarquia naturalizada entre os homens. Esse endereço não é o da esquerda. Reconhecê-lo não absolve ninguém de nada. É apenas recusar-se a embaralhar as coisas na hora exata em que distingui-las mais importa.
Leia o segundo texto da série.
Leia o primeiro texto da série.
Foto de capa: IA



Uma resposta
Parabenizo o autor por discutir o conceito de fascismo, hoje tão perigosamente banalizado. Fez várias observações importantes.
Mas achei interessante que o autor não mencione que Benito Mussolini, expoente do fascismo histórico, foi originalmente um líder de esquerda – e até hoje é reconhecido como tal pela esquerda italiana.
Observo ainda que o PT, líder da esquerda brasileira, sempre se utilizou de símbolos para distinguir seus adeptos e da segregação e até o ostracismo de seus divergentes – um traço consagrado pelo fascismo. Dividir para reinar, como fizeram os ingleses e a difamação dos infiéis, como fizeram as guerras santas ao longo da história.
Por outro lado, a meritocracia, em seu conceito original, refere-se a talento e não à oportunidade sócio-econômica, como pretende. E o melhor passaporte para a emancipaçãos de toda a população é uma educação pùblica de qualidade, o que não tem sido priorizado no Brasil.
Já a defesa da propriedade privada e do direito de ser diferente é uma máxima do pensamento liberal – expressão que, ao contrário do que se usa no Brasil, não pertence à direita nem à esquerda.