TEXTO 4 · SÉRIE SOBRE O FASCISMO
O que significa ser representado? A pergunta parece de manual, mas é nela que se decide boa parte do nosso problema. Democracia liberal e fascismo respondem-na de modos opostos — e é por não entendermos essa oposição que o fascismo consegue vender-se, com desfaçatez, como democracia superior. Para desfazer a mistificação, é preciso passar por um autor incômodo e incontornável: Carl Schmitt, o jurista que pensou como ninguém o avesso da democracia liberal.
Schmitt gastou páginas afiadas contra o parlamentarismo. A democracia de modelo inglês — representativa, deliberativa, feita de debate e maioria — seria, dizia ele, estruturalmente incapaz de representar de verdade uma sociedade. O parlamento produzia uma espécie de ditadura da representação: um teatro em que profissionais da política falavam em nome de um povo que não estava ali. Entre representante e representado abria-se sempre um abismo, e por esse abismo escoava a promessa democrática inteira. Dessa crítica nasce, por contraste, o que Mussolini se comprazia em apresentar como uma democracia superior à liberal — a sua “super-democracia”: o regime que dispensaria as mediações e faria líder e povo enfim coincidirem.
Vale lembrar de onde Schmitt falava. Sua demolição do parlamento é dos anos 1920, escrita numa Alemanha de Weimar que via a democracia representativa fraquejar de crise em crise, e mirava o coração do regime: a fé de que da discussão pública entre representantes nasceria a verdade política. Fachada, respondia Schmitt — a discussão virara rito vazio, e as decisões reais se tomavam nos bastidores, entre partidos e interesses. O diagnóstico tinha lá sua dose de acerto, e é isso que o torna perigoso. As melhores armas do fascismo sempre foram forjadas com as frustrações reais da democracia.
Havia em Schmitt, ainda, uma intuição que o fascismo exploraria até o fim. Para ele, a essência da democracia não estava na discussão, e sim na identidade entre governantes e governados. E a forma política dessa identidade não é o debate — lento, dividido, fastidioso —, mas a aclamação: o povo reunido que grita sim ou não, aplaude ou apupa, sem intermediário nenhum. Troque-se o parlamento pela praça, o voto secreto pelo clamor coletivo, e o espetáculo fascista está montado. A aclamação é a representação por similaridade em estado puro: a massa não delega a um diferente — reconhece-se no líder e, através dele, ratifica a si mesma.
A aclamação, de resto, não ficou em teoria. Os regimes fascistas adoraram plebiscitos: consultas em que o povo era chamado, de tempos em tempos, a dizer sim — e dizia, por margens esmagadoras. Hitler plebiscitou a saída da Liga das Nações, a fusão dos cargos de chanceler e presidente, a anexação da Áustria; Mussolini submeteu aos italianos listas fechadas de deputados que só cabia aprovar em bloco. Nada disso media opinião. Encenava unidade — o ritual da massa que se reconhece no chefe e assina, periodicamente, o próprio atestado de coincidência.
Para medir o tamanho da inversão, vejamos primeiro como funciona a representação liberal. Ela funciona, sustento, por alteridade — pela escolha do diferente. Os que trabalham, e não têm tempo de conhecer e operar a política, escolhem os que não trabalham e têm. Os que se julgam leigos em leis e economia elegem os que parecem entendidos. Os pobres escolhem os ricos; os trabalhadores, os que não trabalham. Delego meu poder a alguém distinto de mim precisamente porque suponho nele o que me falta: o tempo, o saber, o traquejo. A alteridade é a marca registrada da representação liberal.
O arranjo tem defeitos evidentes, que Schmitt explorou com talento. Mas repousa sobre uma virtude que só notamos quando a perdemos: a distância. Porque o representante não sou eu, posso cobrá-lo. Posso avaliá-lo, contestá-lo, trocá-lo. O elo é imperfeito, mas liga dois polos distintos — e é nessa fresta, exatamente nela, que moram as instituições de controle da democracia liberal.
O fascismo percorre o caminho inverso. Empurra a aparência como se fosse essência e vende a representação por similaridade como garantia de unidade social e certeza de cumprimento do pacto. A promessa seduz pela simplicidade: você não será representado por um distante que fala difícil, mas por alguém igual a você — que fala como você, sente o que você sente, odeia o que você odeia. Se o líder é como eu, fará o que eu faria; a distância some, e com ela, aparentemente, o risco de traição. Assim é que ideias visivelmente débeis e ignorantes podem tornar-se, no fascismo, força representativa: a rudeza não envergonha — atesta autenticidade. Quanto mais tosco o representante, mais parecido com o ressentimento que promete encarnar.
De passagem, essa lógica devasta o valor público do conhecimento. Na representação por alteridade supõe-se que o eleito saiba mais do que eu sobre aquilo que decide — suposição mil vezes frustrada, mas que mantém de pé uma ideia: governar exige competência. Na representação por similaridade, o saber vira defeito. O especialista é suspeito, “não é do povo”. O antiintelectualismo dos líderes fascistas nada tem de acidente de temperamento; é exigência lógica do seu modo de representar. Rebaixar o conhecimento é o método de elevar a semelhança.
E repare no que o representado recebe, afinal, nesse arranjo: satisfação simbólica. O representante-espelho entrega gestos, palavras, inimigos — entrega identidade, não interesses. Vota-se contra os próprios direitos com a sensação inédita de estar, pela primeira vez, mandando. Essa é a esperteza maior do sistema: a similaridade sacia a fome de reconhecimento enquanto o poder real serve a quem sempre serviu. O eleitor sai do processo representado como nunca e atendido como sempre.
O mecanismo explica, sobretudo, a reprodução dos círculos decisórios intermediários do fascismo — a legião de vereadores, deputados, influenciadores e quadros médios que sustenta o movimento. Todos operam a mesma moeda: cada um se legitima por parecer-se com sua base, devolvendo-lhe a própria imagem em tamanho ampliado. Moeda barata, diga-se. Dispensa competência; exige espelho.
No topo, porém, joga-se outro jogo — e aqui se revela a fratura do sistema. Enquanto os círculos intermediários vivem de entregar aparência, a elite decisória faz o percurso contrário: larga a aparência e concentra poder de verdade, matando ou afastando os que disputam. A similaridade é para a base; a força nua, para o topo. A ilustração inaugural tem data e nome: na Noite das Longas Facas, em 1934, Hitler mandou executar aliados que tinham sido decisivos na sua ascensão e agora estorvavam a concentração do comando. A lição atravessou o século. No fascismo, o pacto de similaridade organiza a massa; o poder real se resolve eliminando rivais.
Nem se veja nisso simples hipocrisia — trata-se de divisão de funções. A similaridade embaixo mobiliza e mantém coesa a base; a violência concentradora em cima garante que ninguém dispute o leme. Uma paga a outra: quanto mais a base se sente representada por espelhamento, menos fiscaliza o que o topo faz com o poder. A aparência entregue embaixo compra a licença da concentração lá em cima.
O padrão chega intacto aos nossos dias. Guardadas as escalas, é o que se reconhece quando Trump volta as armas contra antigos auxiliares — o caso do ex-conselheiro de segurança nacional John Bolton é um entre muitos — tão logo deixam de servir à concentração do poder; e é o que se reconhece na trajetória do bolsonarismo, que foi deixando aliados pela estrada à medida que consolidava o núcleo. Muda a paisagem; a gramática, não. Para baixo, a entrega da aparência como fórmula de representatividade. Para cima, a remoção de quem disputa.
Entender isso é vacina contra a mistificação central do fascismo — a de que ele seria a democracia mais verdadeira, mais direta, mais fiel ao povo. A representação por similaridade não aproxima o poder do cidadão; dissolve a distância que permitia ao cidadão controlar o poder. Abolida a alteridade, a elite não desaparece: desaparece a mediação que a vigiava. A tal super-democracia é, no rigor dos termos, a supressão dos instrumentos que faziam da democracia algo mais que a aclamação do semelhante. Defender a representação por alteridade, com todos os seus defeitos, virou por isso uma trincheira antifascista.
Leia o terceiro texto da série.
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Foto de capa: IA



Uma resposta
Excelente e esclarecedor texto!