TEXTO 1 · SÉRIE SOBRE O FASCISMO
Antes de emitir juízos apressados ou reduzir o fascismo a um simples rótulo do debate político contemporâneo, é preciso compreender suas origens, suas características e as condições que favorecem seu surgimento e reaparecimento. Longe de pertencer apenas aos livros de história, o tema voltou a ocupar espaço central nas disputas políticas e intelectuais do século XXI, impulsionado pela ascensão de movimentos autoritários em diferentes partes do mundo. É nesse contexto que o historiador Fernando Horta apresenta uma série especial de seis artigos, publicados semanalmente, que buscarão examinar o fascismo para além dos clichês, abordando seus fundamentos históricos, suas manifestações contemporâneas e os desafios que impõe às democracias atuais. A série também marca o lançamento de seu novo livro, Fascismo e Neofascismo: séculos XX e XXI. De Hitler e Mussolini a Trump e Bolsonaro, publicado pela Editora Alameda. A seguir, o autor apresenta os objetivos e o percurso dessa reflexão.
Peço desculpas, de saída, por uma definição negativa. Dizer o que uma coisa não é costuma ser um mau serviço à ciência. Mas há horas políticas em que dizer o que o fascismo não é presta ao presente o serviço mais urgente de todos.
Devo começar pedindo desculpas. Definir uma coisa pelo que ela não é — qualquer cientista sabe — é expediente pobre. A boa definição agarra o objeto por dentro, pelo que ele tem de próprio; a negativa apenas desenha a silhueta e vai embora. Pois ainda assim é dela que vou me servir aqui, de caso pensado. Talvez não funcione para a ciência; funciona para o momento político que atravessamos. O conceito de fascismo chegou às nossas mãos gasto, puído, quase sem fio de corte. Antes de usá-lo, é preciso afiá-lo de novo.
A esse desgaste dou o nome de esgarçamento — minha tradução para o que a ciência política de língua inglesa chama de concept stretching, o estiramento dos conceitos. Um conceito se esgarça como se esgarça um tecido: de tanto ser puxado para cobrir o que não cobre, vai afinando, afinando, até que a trama cede e ele já não veste coisa nenhuma. Chamamos de fascista o chefe truculento, o síndico implacável, o motorista que fecha a gente no trânsito — e cada um desses usos saca alguma coisa da conta simbólica da palavra. Ora, essa palavra nomeia uma das experiências mais brutais da história humana. Esgarçá-la é anestesiar, gota a gota, a memória do horror que ela guarda.
O resultado está à vista. Nunca se falou tanto em fascismo; raramente se soube tão pouco o que ele foi. Quem hoje escuta o termo já não pensa na Marcha sobre Roma nem nos campos de extermínio — pensa num sujeito antipático investido de alguma autoridade. A palavra circula muito e morde pouco. E palavra que serve para tudo acaba não acusando mais nada.
Não custa lembrar de onde a palavra veio. Fascio, em italiano, é o feixe — as varas atadas em torno do machado que os litores carregavam diante dos magistrados romanos, símbolo de autoridade e de união pela força. Os movimentos italianos do início do século XX chamavam-se fasci porque se queriam feixes: varas fracas sozinhas, inquebráveis juntas. Ali está, condensada, uma promessa e uma ameaça — a união que protege e o machado que corta. Guardar a origem ajuda a medir a distância entre o que a palavra nomeava e o uso mole que hoje se faz dela. Quem chama o síndico de fascista não está pensando em feixes, machados e milícias; está apenas xingando — e o xingamento, ao contrário do conceito, não ajuda a ver.
Cabe perguntar a quem serve esse nevoeiro, porque ele tem beneficiário. Quando tudo é fascismo, nada é; e na névoa em que o conceito se dissolve, quem melhor circula é o próprio fascista, incógnito no meio da multidão de caricaturas. O rótulo gasto vira até argumento de defesa: chamam todo mundo de fascista, logo não sou eu. A imprecisão da denúncia trabalha para o denunciado. Afiar o conceito, portanto, está longe de ser luxo de professor — é desarmar a defesa mais barata de que o fenômeno dispõe.
Daí o primeiro serviço da definição negativa: erguer um cordão sanitário em volta do termo. O fascismo não é sinônimo de autoritarismo. Não é toda violência de Estado, nem qualquer governo que nos desagrade, nem metáfora para a arrogância dos poderosos. Estamos diante de um fenômeno histórico de contornos precisos, e tratá-lo como insulto de ocasião é o caminho mais curto para perdê-lo de vista — justamente na hora em que mais precisamos enxergá-lo.
Há um segundo serviço, e esse toca o coração do livro que ora chega ao público. Diante do esgarçamento, boa parte da inteligência contemporânea reagiu multiplicando rótulos. A cada estação, um novo: pós-fascismo, fascismo eterno, populismo autoritário, iliberalismo. Entendo o impulso — se a palavra gastou, troca-se a palavra. Só que o problema nunca esteve na palavra; esteve no uso. Trocar o nome não conserta o conceito, e a inflação de neologismos termina alimentando a mesma confusão que prometia curar: cada rótulo ilumina uma face do fenômeno, nenhum o abarca inteiro, e as meias-explicações vão se acumulando sem conversar entre si.
A tese que defendo caminha na direção contrária, e é deliberadamente econômica: dispensamos essa enxurrada de conceitos novos. O instrumental herdado, se levado a sério, dá conta do fascismo — inclusive do de agora. Três contribuições, nascidas de tradições que mal se cumprimentariam num corredor de universidade, oferecem o essencial: a de Clara Zetkin, a de Hannah Arendt e a da dupla Gilles Deleuze e Félix Guattari.
Zetkin acertou primeiro, e acertou cedo. Em 1923, diante da Internacional Comunista, quando muita gente ainda tratava o fascismo como episódio da crônica policial italiana, ela o descreveu como resposta de um capitalismo em crise: um movimento capaz de arregimentar massas desesperadas, vindas de várias classes, e de lançá-las contra o movimento operário. Nada de raio em céu azul — a tempestade que se arma quando a ordem econômica range e encontra quem a defenda no porrete. Zetkin viu, antes de quase todos, que o fascismo tem base social larga e função de classe exata.
Arendt acrescentou o que faltava: o sujeito. Nas suas páginas sobre as origens do totalitarismo, o material humano do fascismo aparece de corpo inteiro — o homem desenraizado, sem lugar e sem laço, para quem o mundo comum deixou de fazer sentido. É a ele que a massa organizada recolhe, oferecendo pertença total e identidade pronta, entregue de fora. Com Arendt aprendemos a olhar para dentro da adesão, e não somente para o topo do poder. Ao longo desta série ficará claro o quanto essa mudança de olhar altera tudo.
Deleuze e Guattari fecham a tríade com a pergunta mais incômoda de todas: por que as massas desejaram o fascismo? Não por que foram enganadas — por que o quiseram. Ao mostrar um fascismo que mora não apenas no Estado, mas circula pelos corpos, pelas relações, pelos gestos miúdos do dia — o microfascismo —, os dois deslocaram a análise das instituições para o desejo. Nessa chave, o fascismo não desce apenas de cima: germina embaixo, na intimidade da vida social. Era a peça que faltava para entender por que ele volta, mesmo depois de os regimes históricos terem sido militarmente derrotados.
A economia, a massa, o desejo. Somadas, as três contribuições cobrem o fenômeno nas dimensões que importam — e cobrem-no articuladamente, sem sobras nem remendos. Quase tudo o que os rótulos novos carregam de verdadeiro já cabia aí, e cabia melhor, porque dentro de um quadro que se sustenta inteiro. É esse fio que o livro puxa do começo ao fim: a suposta novidade radical do presente repete, em larga medida, uma estrutura que o século XX pensou, e pensou bem.
Volto, então, à definição negativa, para lhe dar o crédito devido. Ela desarma, de um só golpe, os dois vícios que hoje dividem o debate. De um lado, a pressa que chama tudo de fascismo e gasta a palavra. De outro, o negacionismo de ocasião, que exige do presente uma fotocópia dos anos 1930 — os uniformes, os campos, a guerra declarada — para admitir que o termo se aplique; como a fotocópia nunca vem, nada nunca é fascismo, e o conceito morre por desuso enquanto o fenômeno cresce por discrição. Saber o que o fascismo não é corta as duas ervas pela raiz: nem tudo é. Algumas coisas, porém, são — e é preciso poder dizê-lo.
Sei da objeção: definição negativa não constrói, apenas interdita. Verdade — e há horas em que interditar é o gesto mais construtivo ao alcance. Quando o solo conceitual está contaminado, a primeira obra chama-se limpeza do terreno. Recuperadas as fronteiras da palavra, pode-se voltar a preenchê-la com segurança. A definição negativa é essa faxina que torna a construção possível.
Fico com ela, portanto, assumindo-a como etapa, nunca como destino. Dizer o que o fascismo não é devolve contorno à palavra; devolvido o contorno, abre-se o caminho para dizer com rigor — no livro — o que ele é. Por ora, uma advertência só: desconfie de quem chama tudo de fascismo, e desconfie na mesma medida de quem, para explicá-lo, precisa reinventar a roda a cada temporada. O fascismo é antigo, é preciso, é reconhecível. Perdê-lo de vista, pelo excesso ou pela moda, é o primeiro passo para não vê-lo chegar.
Foto de capa: IA


