Dark Horse: o roteiro que transforma Bolsonaro em super-herói e o Brasil em paródia política | Do Facebook da Toca do Lobo

Texto satírico desmonta o roteiro do filme financiado por Daniel Vorcaro e ironiza a tentativa de transformar Jair Bolsonaro em mito cinematográfico messiânico entre traficantes caricatos, facadas conspiratórias e delírios patrióticos.
Última edição em maio 21, 2026, 09:27
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Cena do teaser oficial do filme "Dark Horse" - Divulgação

Em mais uma madrugada de insônia, resolvi então cometer um erro gravíssimo contra mim mesmo: ler o roteiro de “Dark Horse”, o polêmico filme sobre Jair Bolsonaro.

Independentemente de política, ideologia ou torcida organizada, vou analisar isso como cinéfilo, ok? Então não venha pentelhar com mi-mi-mi. Se tens político como seu mestre supremo, já pare de ler aqui, pois como cinéfilo, digo sem medo: aquilo não é um roteiro. É um delírio febril escrito por alguém que assistiu muito “Teletubbies”, “Rambo”, novela das sete, um culto de domingo e um compilado de discursos de WhatsApp ao mesmo tempo.

O filme apresenta Bolsonaro não apenas como um homem. Não, pois isto seria pouco. Ele é alto, bonito, engraçado, incorruptível, imbrochável, estrategista militar, justiceiro da floresta e provavelmente também o responsável secreto pela invenção do fogo.

Logo no começo, ele enfrenta traficantes numa mata aleatória que parece ter sido imaginada por alguém que nunca entrou numa floresta, mas viu duas temporadas do “Largados & Pelados”. E então surge o vilão.

“Cicatriz.”

Só que sem Cicatriz, porque ele foi para Cuba e lá fez uma cirurgia plástica. E eu não estou inventando. Está no roteiro, afinal o “gênio” que escreveu deve ter pensado:

“E se Scarface tivesse um primo brasileiro criado por inteligência artificial depois de beber energético vencido?”

O sujeito é um mega traficante mafioso, quase um supervilão da Marvel, preso por Bolsonaro. Sim, deve ser uma cena extra roubada de “Todo Mundo em Pânico 6”, só que anos depois, Cicatriz (sem cicatriz) tenta corromper o incorruptível soldado, que evidentemente recusa, porque nesse universo cinematográfico ele é basicamente uma mistura de Batman, São Jorge e Capitão América com cupom patriótico para gastar no free shop.

Mas calma, piora.

O responsável pela facada não se chama Adélio. No filme ele atende pelo nome de “Aurélio Barba”.

Sim. “Barba.”

E tenho certeza absoluta de que qualquer semelhança com outro famoso Barba da política brasileira é apenas uma coincidência cósmica, dessas que acontecem o tempo todo no cinema nacional. Um acidente narrativo completamente involuntário, evidentemente.

Segundo o roteiro, Aurélio Barba teria sido contratado justamente pelo Cicatriz, porque nesse universo paralelo o Brasil não é mais uma democracia problemática. É Gotham City dirigida por roteiristas de grupos do Telegram.

Mas nada, absolutamente nada, me preparou para a senhora misteriosa do restaurante.

A personagem Dolores, uma velha sorridente (sim, é descrita exatamente assim) encontra Bolsonaro num restaurante e entrega uma caixa de comprimidos feitos em casa.

E ele toma.

Porque claro. Você está jantando tranquilamente com sua família e uma desconhecida surge dizendo:

“Fiz esses remédios na cozinha de casa. Tome. Vai salvar sua vida.”

E a reação normal de qualquer ser humano seria: “Perfeito. Me vê dois.”

Mais tarde, após a facada, um médico conclui que Bolsonaro só sobreviveu graças ao misterioso comprimido artesanal da senhora Dolores, que qualquer semelhança com a muié da goiabeira, a inimiga de desenhos Disney, também não deve ser coincidência, afinal, da mente de um roteirista novato que teve atuação em Malhação e Mutantes (não o de Rita Lee, mas o da Record) não dá pra se esperar uma nova versão de “Casablanca”.

Os diálogos são uma experiência antropológica fascinante. Ninguém conversa como ser humano. Todos falam como comentários de internet transformados em monólogo épico.

E aí chega o final. Pulei todo o meio da trama porque não quero estragar o dia de pessoas com QI acima de 80 e nem arrumar inimigos com um nível bem abaixo disto.

O melhor vem de uma cena quase pós-crédito. Porque aparentemente alguém assistiu todos os filmes da Marvel e pensou: “Precisamos preparar a continuação.”

Então surge um novo vilão misterioso.

A descrição do roteiro é maravilhosa. Um homem magro, careca, de aparência severa. A rubrica no roteiro: “É alguém que poderia ter sido juiz de uma suprema corte.”

Juro. Está escrito isto.

Nesse momento eu já não sabia mais se estava lendo um roteiro, um delírio místico ou uma esquete perdida de “Hermes & Renato”.

O filme inteiro parece incapaz de entender a diferença entre mito e fanfic. Tudo ali é exagerado, messiânico e involuntariamente engraçado. E talvez esse seja o maior problema… ou o grande mote para o sucesso.

O filme não parece interessado em criar um personagem humano, mas fabricar um semideus patriótico. Só que no processo cria algo tão artificial, tão caricato e tão absurdamente mal escrito que às vezes parece uma paródia do próprio bolsonarismo feita pelo pessoal do “Casseta & Planeta” depois de três garrafas de vinho barato.

E talvez o aspecto mais fascinante de tudo seja imaginar por qual motivo um banqueiro envolvido em um escândalo financeiro bilionário olharia para esse roteiro e pensaria:

“Sim. É nisso que vou investir meu dinheiro.”

Porque não estamos falando de “O Poderoso Chefão”, nem de “Cidadão Kane” e sequer de um filme ruim com alguma dignidade artística.

Estamos falando de um roteiro que parece ter sido escrito por alguém trancado 48 horas num grupo de WhatsApp patriótico alimentado exclusivamente por energético e teorias conspiratórias de Alan dos Santos.

Talvez exista aí uma ambição secreta. Talvez o objetivo fosse criar uma obra definitiva do cinema político brasileiro, mas o resultado lembra menos uma epopeia histórica e mais um encontro sobrenatural entre Ed Wood, “Cinderela Baiana” e um surto coletivo de uma controversa produção do Brasil Paralelo.

Existe uma frase famosa que diz que o cinema exige suspensão de descrença. “Dark Horse” exige muito mais, exige um traumatismo craniano para ser compreendido.

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Foto da capa: Cena do teaser oficial do filme “Dark Horse” – Divulgação

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