Bets podem ter retirado até R$ 141 bilhões da atividade econômica brasileira em 2025

Estudo estima que apostas on-line provocaram impacto de até 1,1% do PIB em 2025, enquanto famílias teriam perdido R$ 62,5 bilhões e a arrecadação do setor não compensaria os prejuízos causados à economia.
Publicado em 28 de agosto de 2026 às 15:00
Editado em 28 de agosto de 2026 às 15:17
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Da REDAÇÃO*

As apostas on-line podem ter retirado entre R$ 120 bilhões e R$ 141 bilhões da atividade econômica brasileira em 2025, segundo estudo do economista Guilherme Klein, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pesquisador do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades da Universidade de São Paulo (Made-USP).

O impacto estimado equivale a 0,9% a 1,1% do Produto Interno Bruto (PIB). No limite superior, é cerca de cinco vezes o impacto de 0,2 ponto percentual atribuído pelo Ministério da Fazenda ao tarifaço imposto pelo governo Donald Trump às exportações brasileiras.

A RED vem acompanhando sistematicamente a expansão das bets e seus impactos econômicos, sociais e sanitários, defendendo medidas mais rigorosas e colocando em debate, inclusive, a possibilidade de proibição das apostas on-line de quota fixa — modalidade na qual o apostador conhece, ao fazer a aposta, quanto poderá receber caso acerte.

A campanha Tributar os Super-Ricos, ligada ao Instituto Justiça Fiscal (IJF), acrescenta agora novos argumentos a essa discussão ao chamar atenção para as estimativas sobre o prejuízo provocado pelas apostas à economia brasileira. A RED conferiu os principais números divulgados pela campanha e constatou que eles encontram respaldo em estudos, pesquisas e dados oficiais recentes.

R$ 62,5 bilhões saíram do orçamento das famílias

É preciso distinguir dois números. Os R$ 120 bilhões a R$ 141 bilhões não correspondem ao dinheiro diretamente perdido pelos apostadores, mas à estimativa do impacto mais amplo sobre a atividade econômica.

O ponto de partida do cálculo é uma estimativa de R$ 62,5 bilhões em perdas líquidas das famílias com as bets em 2025, apresentada no Boletim Fiscal dos Estados Brasileiros, elaborado pelo Comitê Nacional de Secretários de Fazenda dos Estados e do Distrito Federal (Comsefaz) em parceria com o Centro Internacional Celso Furtado de Políticas para o Desenvolvimento (Cicef), com base em estatísticas de pagamentos do Banco Central.

No período, as plataformas movimentaram quase R$ 351 bilhões em transferências via Pix. O valor líquido considera a diferença entre o dinheiro destinado às apostas e aquilo que retorna aos jogadores.

A partir dos R$ 62,5 bilhões, Klein estimou o efeito provocado quando esses recursos deixam de financiar outras atividades. Dinheiro destinado às bets deixa de ser usado na compra de alimentos, roupas, medicamentos e serviços ou em outras formas de consumo e poupança, reduzindo vendas, produção e arrecadação.

Impacto pode equivaler a até metade do crescimento do PIB

O PIB brasileiro cresceu 2,3% em 2025. Pelos cálculos de Klein, o impacto das bets, estimado entre 0,9% e 1,1% do PIB, teria magnitude equivalente a algo entre 40% e 50% de todo o crescimento econômico registrado no ano.

Isso não significa que, sem as apostas, o PIB necessariamente teria crescido 0,9 ou 1,1 ponto percentual a mais. Trata-se de um cálculo contrafactual, que estima o que poderia ter ocorrido caso aqueles recursos permanecessem circulando em outras atividades.

A comparação com o tarifaço estadunidense também exige cautela. A Secretaria de Política Econômica estimou impacto negativo de aproximadamente 0,2 ponto percentual no PIB entre agosto de 2025 e dezembro de 2026. São fenômenos e períodos diferentes, mas a comparação oferece uma medida de grandeza: o efeito estimado das bets é várias vezes superior ao impacto projetado para as tarifas de Trump.

Arrecadação pode não compensar as perdas

A Receita Federal informou à Câmara dos Deputados que o governo arrecadou aproximadamente R$ 9 bilhões em impostos sobre apostas esportivas em 2025.

O estudo de Klein, porém, estima que a redução do consumo e da atividade econômica provocada pelas bets tenha causado perda de arrecadação entre R$ 31,1 bilhões e R$ 54,8 bilhões. Descontados os impostos pagos diretamente pelas plataformas, o saldo negativo para os cofres públicos ficaria entre R$ 22 bilhões e R$ 46 bilhões.

A estimativa coloca em xeque um dos principais argumentos em defesa das bets: o de que sua tributação representaria necessariamente ganho líquido para o Estado.

E essa conta não inclui os custos decorrentes do endividamento, dos conflitos familiares e dos problemas de saúde associados à dependência em jogos.

Quase três em cada dez brasileiros dizem apostar

Levantamento Genial/Quaest realizado em abril de 2026 com 2.004 brasileiros de 16 anos ou mais constatou que 29% afirmam ter o costume de apostar dinheiro pela internet. A margem de erro é de dois pontos percentuais.

O dado não significa que 29% dos brasileiros sejam dependentes ou que 29% dos jovens estejam viciados. A pesquisa mede o hábito de apostar, não a ludopatia.

Ainda assim, praticamente três em cada dez brasileiros declararem apostar pela internet mostra a dimensão alcançada por uma atividade que há poucos anos tinha presença muito menor no cotidiano da população.

Os problemas relacionados às apostas também já são tratados pelo governo como questão de saúde pública. O Ministério da Saúde oferece atendimento específico a pessoas com problemas relacionados a jogos e apostas e seus familiares.

O serviço de teleatendimento começou em março com capacidade para 600 atendimentos mensais. Em agosto, o SUS ampliou a estrutura para oferecer até 100 mil teleatendimentos por mês, pelo Meu SUS Digital. O Ministério relaciona o uso problemático das apostas a ansiedade, irritabilidade, alterações de sono e humor, dificuldades familiares e profissionais e comprometimento do orçamento.

Setor contesta as estimativas

Entidades representativas das empresas de apostas contestam o estudo. A Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL) questiona as hipóteses adotadas, o multiplicador econômico utilizado e a estimativa de R$ 62,5 bilhões tomada como ponto de partida.

O Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR) argumenta ainda que o cálculo não contabiliza com metodologia equivalente efeitos positivos do setor, como empregos, fornecedores, tecnologia, publicidade, patrocínios, investimentos e arrecadação.

Há, portanto, controvérsia sobre a dimensão exata do impacto econômico, embora isso não elimine os dados sobre o enorme volume de recursos destinado às apostas, sua disseminação entre a população e os problemas sociais e sanitários associados à atividade.

Uma discussão para a campanha eleitoral

Há ainda uma dimensão distributiva. Segundo Klein, as apostas podem aumentar a concentração de renda, pois a perda de recursos tem peso proporcionalmente maior nos orçamentos das famílias de menor renda. Em dois cenários analisados, o pesquisador estima possível aumento da concentração de renda no topo da pirâmide entre 0,5% e 2,1%.

A RED vem insistindo nesse debate porque as bets ultrapassaram há muito os limites de uma discussão sobre entretenimento ou liberdade individual.

A regulamentação estabeleceu controles, tributação e fiscalização. Os dados acumulados desde então permitem perguntar se isso basta.

A campanha Tributar os Super-Ricos, que motivou esta reportagem, defende a proibição das bets. A RED também já colocou essa alternativa em discussão em artigos e reportagens anteriores.

A aposta de quota fixa foi legalizada no Brasil em 2018, durante o governo Michel Temer, e regulamentada posteriormente. Sua eventual proibição dependeria de nova decisão legislativa, e já existem projetos sobre o tema no Congresso Nacional.

Em plena campanha eleitoral, a questão deveria ser apresentada aos candidatos à Presidência, à Câmara e ao Senado: são favoráveis à manutenção das bets, à imposição de restrições muito mais severas ou à sua proibição?

Quando dezenas de bilhões de reais deixam o orçamento das famílias, o impacto sobre a atividade econômica pode superar R$ 100 bilhões e o SUS precisa ampliar sua estrutura para atender pessoas atingidas pela dependência, a resposta não pode se resumir à quantidade de impostos que as plataformas pagam.

A conta das bets precisa incluir também aquilo que elas retiram da economia e da sociedade.

*Pela Redação: BTC

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Ilustração da capa: Apostas on-line retiram recursos do consumo das famílias e podem ter provocado impacto de até R$ 141 bilhões sobre a atividade econômica brasileira em 2025. Crédito: Ilustração produzida pela RED com auxílio de inteligência artificial.

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