Jogador gaúcho expõe vício em apostas e denuncia: “Gera valor em cima do sofrimento”

Publicado em 24 de agosto de 2026 às 15:00
Editado em 24 de agosto de 2026 às 14:45
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Da REDAÇÃO

O depoimento do jogador Michel Henrique, de 37 anos, transforma em experiência concreta aquilo que as estatísticas sobre o avanço das apostas on-line no Brasil nem sempre conseguem mostrar: por trás dos bilhões movimentados pelas plataformas, há pessoas que perdem dinheiro, relações familiares, confiança e controle sobre a própria vida.

Em entrevista ao Estadão, em reportagem de Leonardo Catto, publicada nesta segunda-feira, 24 de agosto, o atacante, atualmente no Bagé, que disputa a Série A2 do Campeonato Gaúcho, revelou sua luta contra a ludopatia e fez uma crítica direta ao modelo de negócios das plataformas e à presença massiva das bets no futebol e nos meios de comunicação.

“Gera um bom valor para os clubes, gera um bom valor para a imprensa, mas gera um bom valor em cima do sofrimento de outras pessoas.”

A reportagem é do Estadão. O material fornecido à RED não identifica o nome do jornalista responsável pela matéria; por isso, o crédito de autoria não deve ser inventado. A fonte original é Estadão, em reportagem publicada em 24 de agosto de 2026.

Do jogo esportivo aos cassinos on-line

Michel Henrique foi artilheiro do Campeonato Gaúcho em duas oportunidades. Segundo seu relato, começou a apostar ainda em esportes. Depois das restrições impostas às apostas de atletas profissionais, migrou para os cassinos on-line.

Foi quando o problema se agravou.

“A partir de 2022 e 2023, eu já estava bem descontrolado, mentalmente falando. Estava totalmente viciado.”

O jogador chama atenção para uma característica central dessas plataformas: elas não dependem apenas da vontade espontânea de apostar. São construídas para manter o usuário permanentemente estimulado por jogos, imagens, sons, recompensas e sucessivas possibilidades de uma nova aposta.

“Tem jogo para tudo que é gosto, tem jogo para tudo que é luzinha que atrai”, afirmou. Para Michel, esse ambiente “prende a pessoa” até que chega um momento em que o jogador perde o controle.

Seu relato ajuda a desmontar uma das simplificações mais frequentes no debate sobre as bets: a ideia de que apostar é exclusivamente uma decisão individual e de que basta ao jogador exercer autocontrole.

A ludopatia é um transtorno reconhecido internacionalmente e pode produzir perda progressiva do controle sobre o comportamento de apostar. Segundo os dados mencionados pelo Estadão, estimativa divulgada em 2024 apontava que o problema atingia cerca de 1,2% da população mundial.

Quando o prejuízo deixa de ser apenas financeiro

O caso de Michel é especialmente revelador porque o vício não encerrou sua carreira profissional. Ele continuou jogando futebol e afirma que seu rendimento esportivo foi relativamente pouco afetado.

As consequências apareceram de outra maneira.

As dívidas passaram a interferir nas decisões profissionais. Em alguns momentos, contou, mudou rapidamente de clube porque precisava receber dinheiro imediatamente para cobrir consequências financeiras das apostas.

“Acabei ficando muito distante da minha família.”

Para o jogador, porém, o dinheiro talvez seja justamente a parte mais fácil de recuperar.

“Financeiramente, eu vou recuperar tudo. Eu tenho ciência, mas as coisas que eu perdi foram muito piores.”

Michel enumera perdas que não aparecem nos balanços das plataformas: “dignidade, caráter, poder de fala, credibilidade”. E acrescenta que perdeu pessoas e familiares.

“A conquista da confiança é muito mais difícil do que tu reconquistares a área financeira”, afirmou.

É precisamente nesse ponto que seu depoimento ultrapassa a história individual.

Futebol cercado pelas bets

A expansão das apostas no Brasil encontrou no futebol uma de suas principais portas de entrada para a vida cotidiana. As marcas passaram a ocupar camisas, placas de publicidade, transmissões, programas esportivos e os próprios nomes de competições.

Em 2025, segundo o levantamento apresentado pelo Estadão, todos os clubes da Série A do Campeonato Brasileiro mantinham algum tipo de patrocínio de empresas de apostas. Dezoito dos 20 estampavam bets no espaço principal das camisas.

Em 2026, esse número caiu para 13.

Athletico-PR, Bahia, Coritiba, Grêmio e Internacional romperam contratos ou deixaram de manter bets como patrocinadoras máster na virada da temporada.

A redução, entretanto, está muito longe de significar o desaparecimento das apostas do futebol brasileiro. As empresas continuam fortemente associadas ao esporte e dispõem de enorme capacidade financeira para comprar exposição pública.

O resultado é uma contradição difícil de ignorar: o mesmo futebol que fornece às plataformas sua audiência, sua credibilidade social e sua capacidade de chegar aos jovens também convive com jogadores e torcedores atingidos pelo vício.

Michel alerta particularmente para atletas das categorias de base.

“Tu vês hoje adolescentes, meninos de base com 17, 18, 19 anos, já tão viciados.”

E pergunta o que acontecerá com esses jovens quando chegarem aos 30 anos caso não consigam interromper o comportamento compulsivo e receber tratamento.

A publicidade também precisa entrar no debate

A crítica do jogador toca em uma questão que não pode ser reduzida à regulamentação das empresas.

É preciso discutir a própria normalização social da aposta.

Quando propagandas aparecem incessantemente durante partidas, transmissões esportivas, programas de televisão e conteúdos digitais, apostar deixa de ser apresentado como uma atividade excepcional e passa a integrar simbolicamente a experiência de assistir ao futebol.

É justamente essa presença maciça que torna insuficiente responsabilizar exclusivamente quem desenvolve dependência.

Existem projetos em discussão no Congresso para restringir mais fortemente a publicidade das casas de apostas. Uma das propostas mencionadas pelo Estadão prevê proibir anúncios nos meios de comunicação, patrocínios a clubes e eventos esportivos e formas indiretas de exposição das marcas.

A experiência internacional também começa a impor limites. Na Inglaterra, os clubes da Premier League decidiram retirar voluntariamente as casas de apostas da parte frontal das camisas a partir da temporada 2026/2027, embora outras modalidades de publicidade continuem permitidas.

No Brasil, o debate precisa avançar justamente sobre aquilo que o depoimento de Michel Henrique evidencia: quanto da receita proporcionada pelas bets é produzido por consumidores que já perderam a capacidade de controlar o próprio comportamento?

O custo social dos bilhões

A questão ganha outra dimensão quando colocada ao lado do volume de recursos movimentado pelo setor.

Segundo reportagem anterior do próprio Estadão, as bets retiraram R$ 62,5 bilhões das famílias brasileiras em 2025. Trata-se de dinheiro que deixa de financiar consumo, alimentação, moradia, lazer, poupança e outras necessidades familiares.

Michel Henrique resume o paradoxo de maneira particularmente contundente: as apostas geram receitas para empresas, clubes e meios de comunicação, mas uma parcela desse dinheiro é produzida pelo sofrimento de pessoas dependentes.

Seu depoimento também mostra por que a vergonha pode tornar o problema ainda mais grave. O próprio jogador demorou a pedir ajuda e inicialmente procurou sozinho informações, artigos e vídeos sobre ludopatia.

Depois de tornar público seu problema, no final de julho, começou a receber mensagens de outras pessoas que enfrentavam situação semelhante.

Ao conceder a entrevista, aproximava-se de dois meses sem recaídas.

Sua mensagem final é simples:

“Peça ajuda.”

Para um país inundado pela publicidade das apostas, entretanto, talvez seja necessário acrescentar outra pergunta: quanto sofrimento ainda será considerado aceitável para sustentar um negócio tão lucrativo?


Fonte e crédito: reportagem de Leonardo Catto, publicada pelo Estadão em 24 de agosto de 2026, sob o título “Jogador revela vício em apostas e critica excesso de propagandas: ‘Gera valor em cima do sofrimento’”.

Nota de transparência editorial: Esta análise foi produzida com auxílio de ferramentas de inteligência artificial para pesquisa, organização de informações e apoio à redação. O texto final é de responsabilidade da equipe da RED.

Foto da capa: Michel Henrique – Artilheiro do Gauchão – Foto: Instagram.

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