O coordenador da campanha de Bill Clinton, James Carville, cunhou, em 1992, a frase “É a economia, estúpido”, máxima que sintetizava a convicção de que o eleitor, diante da urna, julgaria sobretudo o estado do próprio bolso. A sentença ganhou fama, atravessou décadas e converteu-se em uma espécie de dogma para analistas, jornalistas e dirigentes políticos. No Brasil, transformou-se quase em um mantra automático de parte dos economistas e comentaristas políticos, repetido como chave explicativa universal, mesmo diante de uma realidade política cada vez menos compatível com essa simplificação.
Mesmo em sua origem, porém, a fórmula já simplificava em excesso uma realidade mais complexa. A derrota de George H. W. Bush não pode ser compreendida apenas pela recessão que sucedeu à Guerra do Golfo. Pesavam também o desgaste político, a fadiga social e o custo humano de um conflito que, aos olhos de muitos cidadãos, havia deixado de corresponder às promessas iniciais. A economia importava, sem dúvida, mas já não bastava.
Mais de três décadas depois, a insuficiência desse raciocínio tornou-se ainda mais evidente. A máxima, embora politicamente poderosa, envelheceu mal. Se o desempenho econômico fosse, isoladamente, o critério decisivo do julgamento político, o Partido Democrata teria triunfado em 2024, após a recuperação de indicadores que haviam se deteriorado de maneira acentuada nos anos finais da presidência de Donald Trump, em meio aos efeitos da pandemia. O resultado foi outro. Trump voltou à Casa Branca, demonstrando que a avaliação do eleitor já não se move em correspondência automática com gráficos, taxas e relatórios técnicos.
Na vizinha Argentina, observou-se o mesmo fenômeno. O partido La Libertad Avanza, liderado por Javier Milei, consolidou vitória eleitoral ao mesmo tempo em que a pobreza se aprofundava e parcelas crescentes da população eram empurradas para condições severas de privação. Se a lógica econômica bastasse para explicar a política, tal desfecho seria improvável. No entanto, foi exatamente o que ocorreu.
Esses episódios sugerem uma mudança profunda. A economia permanece decisiva para a vida concreta das pessoas, mas deixou de determinar, de forma automática, o vínculo afetivo e simbólico entre governo e sociedade. Um governo pode ampliar o emprego, elevar a renda e reduzir a inflação sem converter, necessariamente, esses resultados em reconhecimento político. A experiência recente demonstra que os acontecimentos verificáveis e sua assimilação coletiva obedecem a lógicas distintas.
Essa distinção é particularmente evidente no terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva. Em diversos aspectos, a economia brasileira apresentou desempenho superior ao previsto por analistas. O crescimento foi consistente, o desemprego recuou, programas sociais foram fortalecidos e a renda das famílias mostrou recuperação. Nada disso, contudo, produziu reconhecimento político proporcional aos resultados alcançados.
Não há nisso qualquer paradoxo. Em sociedades democráticas, as demandas sociais jamais cessam. Cada melhora concreta convive com carências persistentes, frustrações acumuladas e expectativas continuamente renovadas. Governos operam sob limites temporais rígidos, enquanto as necessidades da população se reproduzem de forma permanente. O fato de um problema ter sido reduzido não significa que ele tenha deixado de ser sentido no cotidiano. A experiência social é sempre mais complexa e abrangente do que os indicadores conseguem captar.
O equívoco surge quando se presume que números favoráveis possuem, por conta própria, capacidade persuasiva. Indicadores econômicos não falam automaticamente à consciência coletiva. Eles precisam ser percebidos, interpretados e incorporados socialmente. Entre os dados empíricos e sua assimilação pública existe um vasto território atravessado por linguagem, símbolos, disputas narrativas, afetos e subjetividades.
Em momentos de crise estrutural do capitalismo — como o atual, marcado pela disputa explícita de hegemonia entre Estados Unidos e China — essa dissociação torna-se ainda mais aguda, sobretudo nas economias periféricas, como a brasileira. Em cenários de instabilidade prolongada, a dimensão coletiva do desempenho econômico perde força diante das inseguranças existenciais imediatas, vividas no plano individual da sobrevivência, do medo, da precariedade cotidiana e da crescente incerteza em relação ao futuro.
É nesse terreno instável que se localiza o centro da política contemporânea.
Pesquisas qualitativas realizadas em diferentes países têm demonstrado que a percepção social passou a possuir peso equivalente e, muitas vezes, superior ao dos próprios acontecimentos verificáveis. A população reage menos aos fatos do que à imagem pública construída em torno deles. O julgamento político decorre menos da simples soma dos acontecimentos do que do significado social e emocional que lhes é atribuído.
A reflexão do filósofo sul-coreano radicado na Alemanha, Byung-Chul Han, oferece instrumentos valiosos para compreender esse processo. Han descreve uma sociedade na qual experiências, opiniões e decisões são continuamente convertidas em dados, classificados e redistribuídos por sistemas digitais. Nesse ambiente, a verdade deixa de depender apenas da observação direta e passa a ser condicionada pela lógica de circulação, repetição e visibilidade da informação.
Os algoritmos atuam como filtros invisíveis. Selecionam o que será mostrado, determinam a intensidade da exposição, repetem conteúdos semelhantes e reforçam predisposições emocionais. Não apenas organizam informações. Organizam percepções.
Ao repetir incessantemente determinados estímulos, essas estruturas tecnológicas reduzem a complexidade do mundo e oferecem versões simplificadas, altamente emocionais e facilmente compartilháveis da experiência social. A consequência é profunda. O que alcança grande visibilidade tende a adquirir aparência de verdade, ainda que seja falso. O que permanece invisível, por mais sólido que seja, perde eficácia política.
A política, portanto, já não se desenvolve apenas no plano das decisões governamentais, mas na arquitetura informacional que determina o que cada cidadão verá, repetirá e acreditará.
O episódio envolvendo a Ypê ilustra com nitidez esse mecanismo. Após inspeção nas instalações da Ypê, em Amparo (SP), realizada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária, pelo Centro de Vigilância Sanitária de São Paulo e pela Vigilância Sanitária Municipal de Amparo, foram identificadas falhas relevantes no processo produtivo da empresa, com risco de contaminação microbiológica em lotes específicos. Tratava-se de um procedimento estritamente técnico, conduzido em conformidade com protocolos sanitários regulares e orientado por critérios de proteção à saúde pública.
Nas redes digitais, porém, o episódio foi rapidamente deslocado para o campo da militância política. Espalhou-se a narrativa, sem fundamento técnico, de que a empresa estaria sendo perseguida em razão de seu declarado apoio financeiro ao bolsonarismo. Em poucas horas, o debate sanitário foi substituído por uma mobilização emocional. Frascos de detergente passaram a ser exibidos como símbolos de fidelidade ideológica. Um procedimento administrativo rotineiro foi convertido em espetáculo partidário.
Esse processo corresponde ao que a literatura especializada denomina “firehosing”, estratégia baseada na difusão massiva, simultânea e repetitiva de mensagens, sem compromisso com a coerência ou com a verdade. O objetivo já não é convencer pela argumentação racional, mas saturar o ambiente informacional até que a repetição adquira mais força do que a demonstração dos fatos.
O episódio ganhou grande repercussão logo após a viagem de Luiz Inácio Lula da Silva aos Estados Unidos. Em poucas horas, o foco da atenção pública foi deslocado da agenda diplomática para uma controvérsia amplificada nas redes digitais, em um ambiente no qual a factualidade cede espaço à mobilização emocional. Como efeito adicional, o episódio reativou setores de uma militância que, desde as manifestações em torno das chamadas orações aos pneus, encontravam-se politicamente menos visíveis.
Quando isso ocorre, a política passa a ser disputada em um terreno no qual a verdade factual enfrenta enorme desvantagem. O dado técnico exige atenção e contexto. A desinformação oferece indignação imediata, identidade grupal e recompensa emocional instantânea. Em plataformas desenhadas para maximizar engajamento, a desinformação tende a prevalecer.
É nesse ponto que se torna indispensável reconhecer a natureza das grandes empresas de tecnologia. Google, Meta, X e TikTok não constituem espaços neutros de circulação de ideias. São corporações orientadas por interesses econômicos próprios, cujo modelo de negócios depende da captura contínua da atenção e da extração intensiva de dados.
Nesse modelo, o cidadão é tratado como fonte de informação, objeto de previsão comportamental e alvo de estímulos cuidadosamente calibrados. Quanto mais previsível for seu comportamento, maior o valor econômico produzido. Quanto mais intensas forem as reações emocionais, maior o tempo de permanência nas plataformas e, consequentemente, a rentabilidade.
Projetos políticos comprometidos com a distribuição de renda, a redução da desigualdade e a ampliação da autonomia social frequentemente entram em tensão com essa lógica. A emancipação humana pressupõe cidadãos críticos, capazes de refletir com calma, distinguir fatos de manipulações e resistir a impulsos fabricados. O capitalismo de vigilância, ao contrário, beneficia-se de sujeitos permanentemente excitados, divididos e condicionados.
Por essa razão, a disputa política do presente não pode ser compreendida apenas pela ótica da produção, do emprego ou da renda. Ela envolve também o controle dos circuitos pelos quais a realidade se torna inteligível.
Persistir na máxima de Carville como se nada tivesse mudado significa conservar um instrumento analítico de utilidade cada vez menor. A insistência nesse automatismo retarda diagnósticos, produz estratégias inadequadas e permite que adversários mais atentos à dinâmica da comunicação ocupem, com facilidade, o imaginário social.
Nenhum governo deve desprezar a economia. Sem crescimento, emprego e proteção social, não há base material para a dignidade. Mas também não se deve supor que resultados econômicos sejam capazes, isoladamente, de consolidar legitimidade política. Entre os fatos e a adesão existe a mediação da percepção. E, entre a percepção e a consciência coletiva, operam sistemas algorítmicos orientados por interesses privados.
A questão decisiva de nosso tempo talvez seja esta: quem organiza a experiência social do real?
Enquanto essa tarefa permanecer concentrada em estruturas tecnológicas subordinadas à lógica da acumulação, o interesse público continuará em desvantagem. Governos poderão produzir resultados concretos e, ainda assim, ver esses resultados dissolvidos em correntes de desinformação cuidadosamente amplificadas. A prosperidade, sem mediação simbólica eficaz, pode tornar-se politicamente invisível.
A política contemporânea exige, portanto, uma compreensão mais exigente e mais lúcida. A economia continua a sustentar a vida material das sociedades, mas a percepção molda o modo como essa vida é interpretada. E, no mundo digital, a percepção tornou-se um campo de disputa tão decisivo quanto o orçamento, o emprego ou a renda.
Quem não compreender essa transformação insistirá em responder às perguntas do presente com fórmulas do passado. E, ao fazê-lo, correrá o risco de entregar o destino coletivo àqueles que aprenderam a manipular, com notável eficiência, a delicada matéria da consciência pública.
Foto de capa :Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil





