Por Solon Saldanha *
Entidades ambientais pressionam o governo de Friedrich Merz para triplicar o aporte inicial de 1 bilhão de euros no TFFF, mecanismo idealizado pelo Brasil para a preservação de biomas globais.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva desembarca em Hannover neste domingo (19) com uma agenda que une diplomacia comercial e urgência climática. O ponto central das discussões com o primeiro-ministro alemão, Friedrich Merz, será a ampliação dos recursos destinados ao Fundo de Florestas Tropicais para Sempre (TFFF, na sigla em inglês). O projeto, apresentado pelo Brasil durante a COP30, busca agora alcançar o suporte financeiro necessário para sua plena operação ainda em 2026.
Pressão ambientalista sobre o governo Merz
Às vésperas da visita oficial, uma coalizão de organizações internacionais, incluindo a WWF Alemanha e a Germanwatch, publicou uma carta aberta dirigida a Friedrich Merz. O documento solicita que Berlim eleve sua contribuição de 1 bilhão para 3 bilhões de euros (cerca de 17,6 bilhões de reais). Segundo as entidades, o montante atual não corresponde à responsabilidade histórica da Alemanha nem à sua ambição de liderar a agenda de conservação das florestas tropicais.
A expectativa de observadores internacionais, baseada em reuniões recentes ocorridas em Washington durante os encontros de primavera do FMI, é que Lula utilize a visita de três dias para reforçar pessoalmente esse pedido. A capitalização adicional seria estratégica para o Brasil, pois uma nova rodada de investimentos alemães aproximaria o fundo da meta de 10 bilhões de dólares em capital público, valor estipulado pelo ministério da fazenda como o mínimo para o início das operações do sistema.
Funcionamento e metas do TFFF
Idealizado como um modelo financeiro inovador, o TFFF diferencia-se de fundos de doação tradicionais. Ele opera como um mecanismo de investimento que remunera seus acionistas e, simultaneamente, paga 4 dólares por hectare de floresta preservada. Os principais pilares do fundo incluem:
- Remuneração por preservação: países que mantêm seus biomas e reduzem taxas de desmatamento recebem rendimentos excedentes.
- Inclusão social: 20% dos recursos devem ser destinados diretamente a comunidades tradicionais.
- Alavancagem de recursos: o objetivo final é alcançar 125 bilhões de dólares, utilizando o capital público inicial para dar segurança e atrair grandes investidores privados.
Até o momento, o fundo acumula 6,7 bilhões de dólares, com aportes da Noruega, Alemanha, França, Brasil e Indonésia, além de contribuições menores de Portugal e Holanda. O sistema será abrigado pelo Banco Mundial.
Relações bilaterais e o acordo UE-Mercosul
A visita ocorre em um momento de estreitamento das relações entre Brasília e Berlim. O Brasil é o país homenageado na Feira Industrial de Hannover, a maior do mundo no setor, e ambos os governos celebram a entrada em vigor do acordo entre a União Europeia e o Mercosul, prevista para maio. O tratado cria uma zona de livre comércio que abrange um mercado de 720 milhões de pessoas.
Apesar do otimismo comercial, o encontro entre os líderes também carrega um peso diplomático após declarações passadas de Merz sobre a cidade de Belém, que viralizaram negativamente no Brasil. Lula chega à Alemanha vindo de Barcelona, onde assinou acordos de cooperação e participou de um fórum de estados progressistas. Após os compromissos em Hannover, o presidente brasileiro seguirá para Lisboa na terça-feira (21).
* Solon Saldanha, jornalista e escritor
Foto: Lula e Merz, em foto de 2025. Crédito: reprodução Agência Brasil




