​Os caminhos do ensino superior no Brasil: entre a expansão do censo e o gargalo do financiamento público | Por Jairo Bolter

Apesar do avanço no acesso ao ensino superior revelado pelo Censo, cortes orçamentários, desigualdades regionais e perda de competitividade científica expõem os desafios para consolidar a educação como motor do desenvolvimento nacional.
Última edição em junho 4, 2026, 01:48

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​A educação superior e a produção científica são os principais motores de transformação estrutural de uma nação, e os dados mais recentes do Censo Demográfico mostram que o Brasil conseguiu avançar no acesso ao conhecimento. A parcela da população brasileira com nível superior completo atingiu o patamar de 16,75% — considerando o recorte de pessoas com 18 anos ou mais. Em termos absolutos, o país contabiliza cerca de 15,4 milhões de mulheres e 10,5 milhões de homens graduados, evidenciando o protagonismo feminino no ambiente universitário. No entanto, esses indicadores do IBGE vão muito além da mera estatística e funcionam como uma ferramenta essencial de diagnóstico social ao expor profundas disparidades socioeconômicas regionais: enquanto o Distrito Federal destaca-se isolado na liderança, com 33,16% de graduados, e São Paulo aparece com 21,54%, o Maranhão apresenta o menor percentual do país, com apenas 9,86%.

​Essa desigualdade territorial está diretamente atrelada à montanha-russa orçamentária que a educação brasileira enfrentou ao longo das últimas décadas. O início do século atual, entre os anos de 2003 e 2015, foi marcado por uma expressiva evolução nos valores investidos no setor, impulsionando a expansão de campus, a criação de novas universidades federais e o fomento à pesquisa de ponta. Esse ciclo de crescimento, no entanto, foi brutalmente interrompido por um recuo gigantesco nos investimentos verificado entre os anos de 2016 e 2022, período de severos cortes e de imposição de um teto de gastos que asfixiou as instituições públicas. Embora os últimos três anos tenham registrado uma tímida recuperação nos repasses orçamentários, ela ainda se mostra completamente insuficiente para reverter o profundo retrocesso acumulado no período anterior, deixando laboratórios e salas de aula em situação de extrema vulnerabilidade.

​O reflexo prático desse sufocamento financeiro prolongado foi sentido diretamente na competitividade internacional da nossa ciência. A edição de 2026 do prestigiado ranking global de universidades publicado pelo Center for World University Rankings (CWUR) acendeu um sinal de alerta ao mostrar que 45 das 52 universidades brasileiras listadas caíram de posição, um recuo que atingiu 87% das instituições avaliadas no país. A Universidade de São Paulo (USP) segue na liderança nacional ocupando o 119º lugar no mundo, seguida pela UFRJ (346ª) e pela Unicamp (379ª) — todas registrando perdas de postos globais devido, principalmente, à perda de fôlego no indicador de pesquisa. A organização do ranking atribui esse declínio diretamente aos anos de subfinanciamento, um panorama que contrasta fortemente com o cenário de países como a China, onde investimentos massivos e contínuos permitiram que 98% de suas universidades subissem de posição, superando os Estados Unidos em volume de instituições na lista.

​Para consolidar a virada de chave e expandir os avanços recentes, torna-se crucial a defesa da reeleição do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, garantindo a continuidade e o fortalecimento do projeto de valorização da educação pública. Contudo, a superação definitiva desses retrocessos exige também uma profunda mudança na correlação de forças no Congresso Nacional. A construção de uma nova maioria no Legislativo é o caminho indispensável para que o governo federal consiga superar amarras macroeconômicas severas, a exemplo do atual arcabouço fiscal, além de promover uma revisão profunda nas altas taxas de juros e no modelo de pagamento da dívida pública — um mecanismo financeiro impagável que drena recursos fundamentais que deveriam irrigar as salas de aula e os laboratórios, atrasando o desenvolvimento nacional.

​Apenas com essa mudança política será possível garantir um fluxo robusto, estável e prioritário de investimentos públicos e privados capazes de melhorar os índices atuais e alavancar a soberania do país. Os potenciais do Brasil são gigantescos e reúnem todas as condições para consolidar a nação como um território desenvolvido, desde que haja uma efetiva inclusão social, econômica e cultural que diminua as desigualdades existentes. Para que esse projeto de país se concretize e a ciência volte a florescer, a premissa deve ser inegociável: a educação precisa servir ao povo e ao país, e não pode ser tratada como uma mercadoria.


Foto de capa:  Gibran Mendes | Fotos Públicas

Sobre o autor

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Jairo Bolter
Professor universitário e sindicalista.

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