Por BETO ALMEIDA*
Neste domingo, 19 de abril, é o natalício de Getúlio Vargas, oportunidade para refletir sobre sua estimuladora e questionadora presença na vida política do Brasil de hoje, com enorme significação para os desafios atuais da democracia e da soberania nacional.
Aliás, quem assistiu pela TV o largo encontro do Presidente Lula com as Centrais Sindicais, no dia 15 de abril, verificou que a todo momento havia a presença do ex-presidente Getúlio Vargas e de suas realizações, seja no debate sobre a importante função da CLT e da regulamentação do trabalho. – grande obra da Era Vargas – seja nos alertas feitos pelo atual presidente sobre os retrocessos que foram impostos duas vezes a Vargas, golpe em 1945 e levado ao extremo sacrifício em 1954, quando o gaúcho, com um tiro no coração derrotou a sanha golpista dos inimigos do mundo do trabalho, as tragicamente famosas aves de rapina. Que seguem à espreita ameaçando a nação brasileira, como destacou, insistentemente, o próprio Lula, também citando o golpe que derrubou o governo trabalhista de Jango, quando este propôs as Reformas de Base, lideradas pela indispensável Reforma Agrária, para o que Jango encarregou as Forças Armadas da distribuição de terras do latifúndio improdutivo, seguida pela Encampação das Refinarias da Petrobras pelo Estado, além da Reforma Bancária, Reforma Urbana, Reforma Educacional, incluindo a erradicação do analfabetismo, liderada pelo magnífico brasileiro Paulo Freire. Seis décadas depois, o Brasil ainda não possui sequer meta para erradicar o analfabetismo, o que já foi feito em Cuba, Nicarágua, Venezuela, Bolívia e Equador, países muito mais pobres que o nosso.
Durante o Encontro, com o objetivo de apoiar o Fim da Escala 6 por 1, sem redução de salários, Lula relatou aos sindicalistas as inúmeras iniciativas para destruir a CLT total ou parcialmente, desfigurando-a de seu conteúdo protetor e regulador dos direitos. Obviamente, o neoliberalismo quer a selvageria de um mundo do trabalho sem regulação, como, tragicamente , se busca implantar na Argentina, com jornada de trabalho sem limites, com eliminação do direito de férias. Lula e vários sindicalistas, mencionaram que sempre que se buscou regulamentar civilizadamente o mundo do trabalho, houve a reação dos porões do escravagismo, que não escondem seu ódio aos direitos dos trabalhadores, especialmente aos trabalhadores negros. O Brasil assistiu incrédulo, pela TV, quando uma mulher loira, moradora de São Conrado, tentou chicotear um entregador de encomendas negro, com uma coleira de cachorro. Esta cena traduz o sentimento autêntico da direita bolsonarista contra a regulamentação de direitos.
A implantação da CLT foi revestida de várias barreiras, os empresários , contrários ao direito de férias remuneradas, propostas por Getúlio Vargas, disseram pelos jornais que os trabalhadores , com horário livre, iriam embebedar-se, a matarem-se uns aos outros. As classes ricas medem os outros pelos seus próprios baixos instintos. E Lula, defendendo a CLT a todo momento, desta vez nem mencionou, como o faz com frequência, como começou sua carreira política criticando a CLT e Vargas, razão pela qual recebia grandes espaços midiáticos dos magnatas da mídia, onde se refugiam, ainda hoje, modernizadas, as velhas aves de rapina.
Associação de CLT com Carta del Lavoro é mentirosa, diz Lula em prefácio
Recentemente, foi lançado o livro “Trabalhadores do Brasil – Discursos à Nação”, reunindo pronunciamentos de Getúlio Vargas, que traz um prefácio de Lula onde, uma vez mais, corrige seus antigos e errôneos ataques à CLT, chegando mesmo a dizer, com razão, que o mantra de que a CLT era cópia da Carta Del Lavoro, de Mussolini, não passa de uma fake news. Trata-se de uma falsificação histórica implantada pela patronal e repetida maliciosamente por alas comunistas, ainda hoje equivocados opositores da revolução de 30, com o que confundiam os trabalhadores e facilitaram o trabalho de desregulamentação dos direitos laborais erguidos pelo documento celetista. Hoje, após a destrutiva reforma trabalhista de Temer/Bolsonaro, a ameaça está configurada na Pejotização, cuja decisão dependerá de um STF que, quase sempre, vota contra os trabalhadores e a favor da privatização.
Do imposto sindical à Rádio Mauá
Mas, Lula também lembrou que a sanha das aves de rapina conseguiu destruir o imposto sindical, instrumento também criado pela Era Vargas para dotar os sindicatos de recursos econômicos e financeiros para a própria educação sobre legislação trabalhista, inclusive para estruturar com competência a defensa jurídica dos trabalhadores, para o que também foi criada a Justiça do Trabalho. Vale lembrar que Vargas criou até a Rádio Mauá, a emissora dos trabalhadores, para elevar o nível informativo e cultural dos trabalhadores. Lula não mencionou, mas a própria CUT fez sistemática campanha contra a vigência do Imposto Sindical, e hoje, após sua demolição, o presidente nordestino lamentou a fraqueza financeira dos sindicatos e defende uma nova forma de financiamento das entidades de classe, na forma de Contribuição. De todo modo, ficou patente , a todo momento, que as conquistas da Era Vargas não podem, não devem, ser esquecidas e é muito significativo que um presidente como Lula, reconhecer neste encontro, que quando ele era sindicalista, a situação econômica dos sindicatos era muito mais tranquila do que hoje é, devido à extinção do imposto sindical. Mais significativo ainda é que todos podem constatar a revisão pública e corajosa de um presidente da república, no exercício do cargo, sobre críticas equivocadas que fizera a um ex-presidente, um reconhecimento de que foi a Era Vargas o período de maior edificação e regulamentação dos direitos trabalhistas.
Trabalhadores na Política, exorta Lula!!
Além disso, Lula defendeu a participação da classe trabalhadora no Parlamento, lembrando que isso o teria estimulado a fundar o PT, o que nos permite a reflexão de que Getúlio Vargas já havia estimulado a criação de um Partido de Trabalhadores Baseado nos Sindicatos, o PTB, nos moldes do que fora proposto por Leon Trotsky ao chegar ao México, quando reconheceu a importância do cardenismo, movimento liderado pelo Presidente Lázaro Cárdenas, e pelo getulismo, liderado pelo presidente brasileiro. Para Trotsky, tanto Cárdenas como Vargas eram “uma espécie de bonapartismo sui generis com potencial revolucionário porque defendem grande parte do programa histórico da classe trabalhadora”.
Evidentemente, o PTB foi extinto pela brutalidade do golpe cívico militar de 1964, pilotado pelos EUA. Mais tarde, quando no governo Geisel se revoga o AI2 , permitindo a reorganização partidária, uma manobra suja do imperialismo, liderada por Golbery, retira de Leonel Brizola a sigla PTB , que lhe pertencia por direito histórico, um ataque mortal aos trabalhadores, que nem mesmo aquela bela poesia de Carlos Drummond de Andrade conseguiu traduzir em profundidade o sentido histórico das lágrimas brizolistas.
Assim, nada mais pedagógico do que neste 19 de abril de 2026 comemorar o natalício de ex-presidente Getúlio Vargas, embora não fosse a intenção, com um encontro do presidente Lula com os trabalhadores, no qual a CLT , o imposto sindical, o varguismo, o janguismo e o trabalhismo revolucionário estivessem presentes naquela celebração, servindo como ferramenta histórica contra as ameaças das Aves de Rapina, hoje com nova roupagem, mas com os mesmos sinistros objetivos de seguir sua tarefa suja de matar novamente a presença viva de Vargas e continuar destruindo as conquistas inapagáveis e ainda vigentes da Era Vargas. Lula tem na Era Vargas os ensinamentos, a régua e o compasso para enfrentar o golpismo eleitoral que irá se apresentar truculentamente em outubro. Veremos se passa da revisão histórica sobre o varguismo, à sua aplicação.
Beto Almeida é Jornalista, Conselheiro da ABI e Diretor da Telesur.
Foto de capa: CSB | Reprodução




