Da REDAÇÃO*
A decisão do governo de Donald Trump de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas estrangeiras abriu uma nova crise diplomática entre Brasil e Estados Unidos e acendeu alertas em Brasília sobre possíveis impactos econômicos, financeiros e políticos da medida.
Embora o enquadramento tenha sido celebrado por setores da oposição e pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que se reuniu recentemente com Trump e integrantes de seu governo na Casa Branca, autoridades brasileiras, especialistas em comércio internacional e representantes do sistema financeiro avaliam que as consequências podem ir muito além do combate ao crime organizado.
O principal temor é que a classificação seja utilizada futuramente para justificar sanções unilaterais contra instituições financeiras, empresas e até mecanismos de pagamento brasileiros, como o Pix.
Governo vê risco para bancos, fintechs e Pix
Em entrevista concedida ao jornal O Globo e à GloboNews, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que há preocupação concreta de que a designação norte-americana produza efeitos secundários sobre a economia brasileira.
Segundo ele, instituições financeiras temem que autoridades dos Estados Unidos passem a considerar que determinadas contas, operações bancárias ou até mesmo infraestruturas de pagamento possam ser utilizadas por organizações classificadas como terroristas, tornando-se alvo de sanções ou restrições.
A preocupação ganhou relevância porque o Pix já se encontra no centro de disputas comerciais entre Brasil e Estados Unidos. O sistema brasileiro de pagamentos instantâneos é alvo de críticas de setores financeiros norte-americanos e integra uma investigação comercial aberta por Washington contra o Brasil.
O governo brasileiro sustenta que não existe qualquer fundamento para associar o Pix às atividades das facções criminosas, mas reconhece que a simples criação dessa narrativa pode gerar insegurança e afetar a confiança de investidores e instituições internacionais.
Por essa razão, o Ministério da Fazenda e o Banco Central iniciaram contatos com bancos, fintechs e agências internacionais de classificação de risco para tentar evitar efeitos negativos sobre o sistema financeiro nacional.
O impacto econômico pode ser maior que o do tarifaço
A preocupação não se limita ao setor financeiro.
O ex-secretário de Comércio Exterior Welber Barral, entrevistado pelo Estadão, avalia que os efeitos econômicos da classificação podem ser mais amplos e duradouros do que os provocados pelo chamado “tarifaço” adotado anteriormente por Trump.
Segundo Barral, a inclusão do PCC e do CV na lista de organizações terroristas estrangeiras amplia significativamente as exigências de compliance para empresas que operam nos Estados Unidos ou mantêm relações com investidores americanos.
Na prática, empresas que investem no Brasil poderão ser obrigadas a realizar auditorias mais profundas sobre fornecedores, parceiros comerciais e cadeias produtivas inteiras para demonstrar que não mantêm qualquer relação, direta ou indireta, com organizações classificadas como terroristas.
O especialista lembra que, sob a legislação norte-americana, o chamado “apoio material” a organizações terroristas pode resultar em severas punições, inclusive criminais.
Isso tende a elevar custos operacionais, aumentar a burocracia e reduzir o interesse de investidores estrangeiros em novos projetos no país.
Estudos citados por Barral indicam que países submetidos a medidas semelhantes registraram redução de aproximadamente 10% nos fluxos de investimento estrangeiro direto.
México e Colômbia aparecem como exemplos de alerta
Integrantes do governo brasileiro têm recorrido aos exemplos do México e da Colômbia para ilustrar os riscos envolvidos.
Segundo Durigan, em alguns casos o Departamento de Justiça dos Estados Unidos chegou a intervir em instituições financeiras acusadas de facilitar movimentações associadas a grupos classificados como terroristas ou organizações criminosas transnacionais.
Embora o Brasil possua um sistema financeiro mais robusto e menos dependente dos Estados Unidos do que o mexicano, especialistas alertam que o simples aumento da percepção de risco pode elevar o custo do crédito, reduzir investimentos e afetar setores estratégicos da economia.
Entre os segmentos potencialmente mais expostos estão bancos, fintechs, empresas de logística, comércio exterior, turismo e companhias que dependem de operações internacionais em dólar.
Terrorismo ou crime organizado?
A controvérsia também envolve uma divergência conceitual.
O governo brasileiro, especialistas em segurança pública e parte da comunidade acadêmica argumentam que PCC e CV são organizações criminosas voltadas principalmente ao tráfico de drogas, lavagem de dinheiro e controle territorial, mas não possuem a motivação política, religiosa ou ideológica tradicionalmente associada ao terrorismo.
Essa posição contrasta com a interpretação adotada pela administração Trump, que tem ampliado o uso da legislação antiterrorismo para enquadrar cartéis e organizações criminosas latino-americanas.
Críticos da medida afirmam que essa ampliação do conceito de terrorismo cria zonas cinzentas jurídicas e pode abrir espaço para intervenções econômicas e diplomáticas mais agressivas.
Soberania nacional entra no centro do debate
A reação do governo Lula tem sido construída em torno da defesa da soberania nacional.
O Palácio do Planalto sustenta que o combate ao crime organizado exige cooperação internacional, compartilhamento de inteligência, rastreamento financeiro e atuação conjunta das forças de segurança, mas rejeita medidas unilaterais que possam atingir a economia brasileira ou abrir precedentes para interferências externas.
A posição foi reforçada pelo próprio presidente Lula, que afirmou que PCC e CV são “terroristas para os brasileiros e não como Trump quer”, destacando que cabe ao Estado brasileiro definir os instrumentos jurídicos adequados para enfrentar as facções.
O assessor especial da Presidência para assuntos internacionais, Celso Amorim, foi ainda mais explícito ao afirmar que qualquer tentativa de utilizar a classificação como justificativa para formas de intervenção externa seria inaceitável.
Flávio Bolsonaro e a dimensão eleitoral da crise
O episódio também ganhou forte dimensão política interna.
A decisão americana foi anunciada poucos dias após a visita de Flávio Bolsonaro aos Estados Unidos, onde o senador se reuniu com Donald Trump, Marco Rubio e outras lideranças republicanas.
Aliados do governo Lula acusam o parlamentar de atuar contra interesses nacionais ao estimular medidas que podem produzir impactos econômicos negativos para o Brasil.
O ministro Dario Durigan sugeriu que a iniciativa repete o padrão observado durante o tarifaço promovido por Trump, quando setores ligados ao bolsonarismo também celebraram medidas que afetavam diretamente empresas brasileiras.
Flávio Bolsonaro, por sua vez, comemorou a classificação das facções e tenta transformar o episódio em ativo eleitoral para a disputa presidencial de 2026, reforçando o discurso de que o governo Lula seria leniente com o crime organizado.
O Palácio do Planalto busca inverter essa narrativa, argumentando que o verdadeiro debate não é a defesa das facções, mas a defesa da soberania brasileira diante de medidas externas potencialmente prejudiciais ao país.
Consequências eleitorais ainda são imprevisíveis
Embora a decisão norte-americana já tenha provocado forte repercussão política, ainda é cedo para prever quais serão seus efeitos eleitorais concretos na disputa presidencial de 2026.
A tendência mais provável é que a medida passe a ser explorada pelos dois principais polos da disputa política brasileira, cada qual enfatizando aspectos distintos da crise.
De um lado, Flávio Bolsonaro e seus aliados deverão utilizar a decisão para reforçar o discurso de que o avanço do PCC e do Comando Vermelho evidencia uma crise de segurança pública que exigiria respostas mais duras do Estado. Trata-se de uma agenda com forte potencial eleitoral, uma vez que a violência e a sensação de insegurança figuram de forma recorrente entre as principais preocupações da população nas pesquisas de opinião.
De outro lado, Lula e sua campanha tendem a concentrar a narrativa na defesa da soberania nacional, argumentando que o combate ao crime organizado não pode servir de pretexto para medidas unilaterais capazes de afetar a economia brasileira, o sistema financeiro nacional ou abrir espaço para formas de interferência externa nos assuntos internos do país.
Essa não é uma estratégia inédita. Durante a crise provocada pelo chamado “tarifaço” decretado por Donald Trump contra produtos brasileiros — medida que o governo atribuiu à atuação de Eduardo Bolsonaro junto à Casa Branca — o Palácio do Planalto conseguiu deslocar o debate público da polarização ideológica para a defesa dos interesses nacionais. Pesquisas divulgadas à época indicaram que a maioria dos brasileiros rejeitou a utilização de pressões externas contra o país e responsabilizou mais os articuladores da medida do que o governo federal pelos prejuízos decorrentes da crise.
Por essa razão, a classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas poderá fortalecer simultaneamente duas agendas políticas distintas: a agenda da segurança pública, explorada pelo bolsonarismo, e a agenda da soberania nacional, que tende a ser mobilizada pelo governo Lula. Qual delas prevalecerá junto ao eleitorado dependerá não apenas da evolução do tema nos próximos meses, mas também dos eventuais impactos concretos que a decisão venha a produzir sobre a economia brasileira e sobre a percepção pública acerca das relações entre Brasil e Estados Unidos.
Uma crise que está apenas começando
A classificação do PCC e do CV passa a produzir efeitos formais a partir de 5 de junho.
Até lá, o governo brasileiro pretende intensificar o diálogo diplomático com Washington, mobilizar o setor financeiro e buscar esclarecimentos junto a investidores e agências internacionais.
O desfecho ainda é incerto.
O que já parece claro, entretanto, é que a decisão ultrapassa em muito o terreno da segurança pública. Ela envolve disputas geopolíticas, interesses econômicos, soberania nacional e, inevitavelmente, a corrida presidencial brasileira de 2026.
Mais do que uma medida contra facções criminosas, o gesto da Casa Branca transformou-se em um novo capítulo das tensões entre o governo Trump e o Brasil.
Ilustração da capa: Donald Trump X PCC e CV – Imagem gerada por IA ChatGPT




