O encontro de líderes latino-americanos da “mini” onda rosa em abril de 2026 é uma afirmação da autonomia regional na antiga metrópole colonial que agora tem um governo progressista.
1. O encontro no labirinto da história
Entre 17 e 19 de abril de 2026, a cidade de Barcelona sediou a IV Reunião em Defesa da Democracia, reunindo líderes latino-americanos – entre eles Luiz Inácio Lula da Silva (Brasil), Claudia Sheinbaum (México), Gustavo Petro (Colômbia) e Yamandú Orsi (Uruguai) – sob anfitrionia do presidente do governo espanhol, Pedro Sánchez. O evento, de caráter explícito de contraposição ao avanço da extrema direita global e ao unilateralismo de potências como os EUA, apresentou desde sua localização um paradoxo geopolítico e simbólico de primeira grandeza. Como afirmar a autonomia latino-americana, aspiração histórica das esquerdas do continente, precisamente na casa do antigo colonizador?
Tal paradoxo permite um exercício de “maturidade política pós-colonial” para se refletir sobre uma possível matriz de uma nova práxis para a esquerda latino-americana no século XXI. A capacidade de reivindicar a memória histórica das injustiças (incluindo a conquista e o colonialismo), extrair concessões concretas do antigo império e, simultaneamente, firmar acordos pragmáticos de cooperação geoeconômica e de reconstrução do multilateralismo demonstra percepção crítica sobre o realismo das grandes potências, uma autocrítica ao neoliberalismo praticado por governos progressistas e, por fim, fundamenta a luta contra a desigualdade e o ódio como redefinição da própria democracia. Trata-se do dilema de construir um projeto próprio em um mundo ainda estruturado por hierarquias herdadas do colonialismo. A sede do antigo império colonial é um território carregado de memórias e feridas históricas abertas. As relações entre México e Espanha, por exemplo, estavam particularmente tensas desde 2019. O governo mexicano, sob a liderança de Andrés Manuel López Obrador e mantido por Claudia Sheinbaum, vinha exigindo que a Espanha e o Vaticano fizessem um pedido formal de desculpas pelos abusos cometidos durante a conquista e colonização. A tensão chegou a um ponto crítico em 2024, quando Sheinbaum não convidou o rei Felipe VI para a sua posse. Em resposta, a Espanha boicotou a cerimônia, quebrando a tradição diplomática. Assim, realizar uma cúpula para afirmar a autonomia da região justamente na casa do colonizador transformava cada discurso e cada aperto de mão em um ato carregado de significado e contradição.
O ponto alto da cúpula foi a resolução da crise diplomática entre México e Espanha. Claudia Sheinbaum declarou ao chegar ao evento: “Não há crise diplomática, nunca houve”. Essa declaração foi um gesto decisivo para normalizar as relações. A reconciliação, no entanto, só foi possível porque o Rei Felipe VI cedeu às demandas mexicanas ao reconhecer publicamente, em março de 2026, que a conquista resultou em “abuso” contra os povos originários. Ao fazer isso, a monarquia espanhola adotou uma retórica mais alinhada à visão latino-americana da história. A própria presidenta mexicana, ao anunciar o fim da crise, fez questão de reafirmar a importância de “reconhecer a força dos povos originários para a nossa pátria”. Ou seja, a mão foi estendida, mas a condição para o aperto foi o reconhecimento da injustiça histórica.
2. Um multilateralismo reformado
A cúpula não se limitou à retórica. Foram tomadas medidas práticas que demonstram uma América Latina mais proativa no cenário global, ainda que em coordenação com a Espanha. Brasil, Espanha e México divulgaram uma declaração conjunta manifestando “profunda preocupação” com a crise humanitária em Cuba, que atribuíram ao bloqueio econômico dos EUA. Os três governos se comprometeram a coordenar o envio de ajuda humanitária. E Claudia Sheinbaum convidou Pedro Sánchez para sediar a próxima edição da cúpula em defesa da democracia no México em 2027. O convite foi aceito, institucionalizando o diálogo e criando um espaço de concertação política que não depende de Bruxelas ou Washington.
O discurso de Lula ecoado na “Declaração de Barcelona” representou uma crítica feroz ao realismo político que paralisou a governança global, aliada a uma defesa do institucionalismo, pelo prisma do Sul Global. O brasileiro foi incisivo ao classificar os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU como “senhores da guerra”, acusando-os de utilizar seus poderes de veto para proteger interesses unilaterais em detrimento da paz e do direito internacional. Citou a invasão do Iraque, a intervenção na Líbia e as sanções ao Irã como evidências de que “as regras são para os outros, nunca para os poderosos”.
Lula conectou a geopolítica internacional à vida cotidiana do trabalhador brasileiro. “O Trump invade o Irã e aumenta o feijão no Brasil”. O Sul Global “paga a conta de guerras que não provocou, enquanto os senhores da guerra lucram com a indústria armamentista”.
Mas, ao contrário de declarações meramente críticas, a cúpula avançou em propostas institucionais. Lula defendeu a criação de uma “Mesa Redonda sobre Democracia Digital” para regular plataformas e combater a desinformação de extrema direita, bem como o apoio explícito à taxação global de super-ricos (Coalizão de Sevilha). Trata-se de uma tentativa deliberada de construir instituições paralelas ou complementares que escapem ao controle das potências tradicionais, na melhor tradição da “diplomacia das ideias” que marcou o ciclo de governos progressistas do início do século XXI.
Essa análise econômica, unindo uma severa autocrítica teórica a ações práticas de geoeconomia, dialoga diretamente com o mal-estar contemporâneo que alimenta a extrema direita. “A desigualdade não é um fato, é uma escolha política. Os bilionários chutam a escada para que outros não subam e vendem isso como meritocracia”. Surge a sensação de que o sistema é injusto e que a esquerda institucional se tornou sua gerente, não sua antagonista. Governos de esquerda praticaram austeridade fiscal, ajustes que penalizaram os pobres e abriram espaço para a direita se apresentar como “antissistema”.
A especificidade do encontro de Barcelona foi transformar essa autocrítica em um pacto de coerência. A promessa de que os governos da “mini” onda rosa priorizarão políticas distributivas e a desconcentração de renda ancora-se, na era pós-Trump, na geoeconomia estratégica voltada para a transição energética e na redução de dependências assimétricas. Por exemplo, Lula e Sánchez assinaram 15 acordos bilaterais de cooperação econômica, que incluem minerais críticos, e o brasileiro agradeceu explicitamente o apoio espanhol ao acordo UE-Mercosul que entra em vigor em 1º de maio de 2026, interpretado como uma ferramenta para ampliar o comércio e o investimento em condições menos assimétricas do que as ofertadas pelos EUA ou pela China.
3. A luta contra o ódio e a democracia substantiva
A “casa do colonizador” foi porta de entrada para responder ao fenômeno do “ódio como política” e à desconexão entre a esquerda institucional e a sociedade civil. O paradoxo do encontro na Espanha trata de um grupo de países que, mesmo reivindicando autonomia, permanecem inseridos, ainda que de forma crítica e negociada, no circuito político e institucional do mundo ocidental. Em outras palavras, esses governos expressam uma forma de “pós-autonomia pragmática”, na qual a busca por margem de manobra internacional convive com a aceitação das limitações estruturais impostas pela ordem global. Dessa forma, o evento revela uma condição histórica de uma América Latina que já não é plenamente subordinada, mas tampouco conseguiu consolidar um projeto autônomo de integração e desenvolvimento. O que emerge, assim, é um espaço intermediário, simultaneamente periférico e estratégico, no qual diferentes projetos de inserção internacional disputam hegemonia em um contexto de transição para uma ordem multipolar ainda incompleta.
A chamada “comunidade ibero-americana” permanece mediada por estruturas de poder assimétricas, nas quais a Espanha atua como ponte entre Europa e América Latina, inclusive no âmbito econômico e financeiro. Isso sugere que o espaço do encontro não é neutro, mas carregado de historicidade. A novidade é que a reunião em solo espanhol simboliza líderes latino-americanos, agora em posição de maior autonomia, que se reúnem não como subordinados, mas como atores políticos que articulam agendas globais. Os objetivos explícitos de defender a democracia, o multilateralismo e enfrentar o avanço da extrema direita global constituem uma tentativa de reconstruir a internacional progressista e de conter os ataques.
Um mecanismo central da política de extrema direita é a invenção de bodes expiatórios para canalizar a frustração popular. “Inventam-se bodes expiatórios: as mulheres, os negros, a população LGBTQIA+, os migrantes. Enquanto se odeia o outro, não se percebe que o verdadeiro inimigo é o sistema que concentra renda e poder”, afirmou Lula. Ao vincular a qualidade democrática à realização de direitos sociais e materiais, o presidente brasileiro recolocou no centro do debate a exigência de uma democracia substantiva.
Entretanto, ao admitir que governos progressistas por vezes “se esquecem de quem os elegeu” e praticam políticas de austeridade, ele tocou no ponto nevrálgico da desconexão entre representantes e representados. A especificidade do encontro foi transformar essa admissão de fracasso em um pacto de retorno às bases sociais, reafirmando a “coerência” como o primeiro mandamento da política de esquerda.
A chave é que o próprio Sánchez, sitiado pela extrema direita europeia e em conflito com setores conservadores da UE, apresentou-se como aliado útil na defesa do multilateralismo e na contenção do trumpismo global. A aliança, portanto, ganha contornos de articulação tática entre periferias internas e externas do sistema-mundo capitalista. Lula, ao apertar a mão do rei Felipe VI – após o monarca reconhecer publicamente os “abusos” da conquista –, demonstrou que a memória histórica pode ser mobilizada como capital político para extrair concessões. E, ao assinar acordos econômicos com Sánchez, demonstrou que o desenvolvimento do Sul Global não está isento de alianças contraditórias.
O encontro testemunhou a esquerda admitir publicamente seus erros sem diagnóstico de autocomplacência, tampouco vitimismo ou capitulação. Na verdade, transformou essa admissão em plataforma de renovação. Firmaram-se acordos econômicos concretos com a antiga metrópole, mas condicionados a ganhos para o Sul Global (tecnologia, beneficiamento de minerais, apoio ao Mercosul). É possível, e por vezes necessário, reivindicar o direito de construir o próprio futuro enquanto se senta à mesa do passado, para redefinir a própria ideia de democracia.
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Foto de capa: O presidente Lula e o presidente do Governo da Espanha, Pedro Sánchez, fizeram uma defesa contundente da democracia e da necessidade de as nações de todo o mundo se unirem no combate às desigualdades no planeta.| Ricardo Stuckert / PR





