Brasília faz 66 anos

Última edição em abril 21, 2026, 11:53

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Brasília completa 66 anos desde a sua inauguração oficial em 21 de abril de 2026. Nascida do gesto primário de quem assinala um lugar com uma cruz no mapa, a capital federal foi erguida sob a promessa frenética de “cinquenta anos em cinco” do presidente Juscelino Kubitschek. Projetada pela mente do urbanista Lucio Costa e moldada pela genialidade arquitetônica de Oscar Niemeyer e pelos cálculos audaciosos do engenheiro Joaquim Cardozo, a cidade tornou-se o primeiro conjunto urbano do século XX a ser reconhecido como Patrimônio Cultural da Humanidade pela Unesco.

Contudo, a beleza de seus palácios de concreto armado, que parecem pousar levemente sobre o solo do Planalto Central, esconde as profundas contradições que alicerçam a sua história. A utopia modernista de uma cidade sem “estratificação” social indesejável rapidamente chocou-se com uma realidade brutal e excludente. A história oficial, muitas vezes ufanista, tentou apagar o suor, o sangue e a identidade dos “candangos” — os milhares de migrantes nordestinos, goianos e mineiros que levantaram a capital. Registros policiais da época da construção revelam a dura repressão imposta a esses trabalhadores e documentam mortes trágicas por acidentes de trabalho nas trincheiras das obras. Mais grave do que isso: aqueles que ergueram os palácios foram logo proibidos de habitá-los, sendo empurrados para as margens do Plano Piloto, para as chamadas “cidades-satélites”, consolidando um verdadeiro e silencioso apartheid geográfico.

Brasília, concebida sob a égide do modernismo e do planejamento estatal rigoroso de meados do século XX, manifesta uma das mais nítidas contradições entre a utopia urbanística e a segregação socioespacial contemporânea. Embora o Plano Piloto tenha sido desenhado para promover uma integração funcional e social, o desenvolvimento da região metropolitana consolidou um cenário de profunda dualidade: de um lado, o Distrito Federal detém o maior Produto Interno Bruto (PIB) per capita do país; de outro, abriga periferias e regiões administrativas com índices de vulnerabilidade que contrastam drasticamente com a opulência do centro político. Essa disparidade econômica reflete-se na configuração geográfica, onde a “cidade idealizada” por Lucio Costa e Oscar Niemeyer é cercada por assentamentos informais e cidades-satélites que enfrentam gargalos em infraestrutura e serviços públicos, evidenciando que o crescimento demográfico e a especulação imobiliária transbordaram os limites do planejamento original, convertendo Brasília em um epicentro de desigualdade estrutural.

Hoje, a contradição de Brasília caminha a passos largos por suas amplas esplanadas. De um lado, a magnitude fria do Eixo Monumental; de outro, a vida de pessoas como o artesão Agnaldo Noleto, que acorda às 3h da manhã na periferia de Santo Antônio do Descoberto para esculpir miniaturas dos mesmos monumentos que a sua família de nordestinos ajudou a erguer. A capital imensa cabe nas mãos calejadas desses trabalhadores informais, que garantem o sustento em frente à Catedral, ressignificando a cidade-monumento através da resistência diária e de sua própria cultura.

Neste 66º aniversário, a própria celebração oficial reflete um novo momento de contrastes. Rompendo com o padrão das megafestas dos anos anteriores, que custaram milhões aos cofres públicos, o governo local cancelou a estrutura monumental orçada em até R$ 25 milhões na Esplanada dos Ministérios para priorizar a contratação de médicos e o ajuste fiscal. Sem os grandes palcos, o pulso da cidade se manifesta na simplicidade de maratonas esportivas, ocupações culturais e eventos familiares em espaços como o Centro Cultural Banco do Brasil, o Zoológico e o tradicional Cine Brasília.

Mas talvez a maior, mais bela e poética contradição de Brasília seja exatamente a sua capacidade de ser subvertida pelo povo. Anos após desenhar a cidade “requintada e cosmopolita” em sua prancheta, o próprio Lucio Costa caminhou pela Rodoviária e percebeu que os “brasileiros verdadeiros” haviam tomado conta do coração da capital, transformando-a em um espaço fervilhante que não havia sido concebido para eles. “Foi uma bastilha”, afirmou o urbanista, reconhecendo sua própria derrota perante a força do povo e admitindo que a realidade viva, imperfeita e popular “foi maior, mais bela” do que o seu sonho inicial.

Brasília é, portanto, o grande ícone de um Brasil monumental e também desigual. Uma cidade feita de eixos perfeitos e sonhos fraturados, que, a cada novo aniversário, continua a desafiar a rigidez de seu próprio concreto para abraçar a complexidade pulsante de quem a construiu e de quem, todos os dias, insiste em reinventá-la.


Foto de capa: © Marcello Casal jr/Agência Brasil

Sobre o autor

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Jackson De Toni
Economista, Doutor em Ciência Política, Analista na ABDI/MDIC e Professor FGV-DF e ENAP.

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