O medo que a arte impõe na extrema direita | Por Luiza Farinello

Ação da Associação Escola Sem Partido contra a lista de leituras obrigatórias da UFRGS foi rejeitada pela Justiça Federal, mas reacende o debate sobre censura, educação e o papel da literatura na formação do pensamento crítico e da cidadania.
Última edição em junho 7, 2026, 10:37

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Ameaça à literatura e ataque ao pensamento - Imagem gerada por IA ChatGPT

Parece piada, mas é ameaça mesmo. A Associação Escola Sem Partido — aquela que se fortaleceu em fake news como o “kit gay” nas escolas — entrou com ação judicial pedindo o fim da lista de leituras literárias obrigatórias no vestibular da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Entre os autores das obras, estão Machado de Assis, José de Alencar, Virginia Woolf, Ana Cristina César, além de autores contemporâneos como Jeferson Tenório, José Falero, Ailton Krenak. A 2ª Vara Federal de Porto Alegre julgou a ação improcedente, mas há possibilidade de recurso à segunda instância.

Entre os argumentos que embasam o pedido judicial, que nos lembra a Inquisição, temos que “a leitura de um livro de ficção pode afetar consideravelmente o psiquismo do leitor” e que “o efeito de uma leitura pode ser transformador, levando o leitor a questionar ideias, refletir sobre valores ou até mesmo confrontar e abandonar suas próprias crenças”.

As afirmações estão corretíssimas — e que bom que assim seja. No célebre texto “O direito à literatura”— originalmente uma palestra em 1988, que está na obra “Vários escritos”—, é justamente isso que o crítico literário Antônio Cândido defende ao nos ensinar que a literatura é um direito. Cândido explica a função humanizadora da literatura que “desenvolve em nós a quota de humanidade na medida em que nos torna mais compreensivos e abertos para a natureza, a sociedade, o semelhante”.

Pois, ao entrarmos em contato coma obra de arte, nos ensinou György Lukács, o indivíduo experimenta um momento catártico da vida cotidiana, para retornar a ela com novas percepções sobre a realidade. Depois de ler um livro, de se permitir viverem outra pele e noutro contexto, ninguém volta igual ou indiferente para sua vida cotidiana, pois a literatura retira o sujeito leitor da condição passiva de mero observador. E, porque a experiência estética da leitura nos permite pensar outros mundos possíveis, olhar a realidade por outras perspectivas, é que ela é libertadora. A poesia nos permite pensar o tempo de outra maneira e fugir à lógica capitalista de produtividade em tempo integral, quer dizer, criar novos sentidos para a vida que temos de enfrentar.

O argumento usado pela Associação para atacar a literatura é, portanto, o mesmo que deve ser usado para defendê-la. Temos obviamente uma excrescência jurídica, mas, muito além disso, a ação foi uma confissão clara do medo que a arte sempre impôs na extrema direita, que busca na censura e na violência, jamais no diálogo, uma forma de evitar o inevitável: que as pessoas pensem.

A literatura gera questionamentos e reflexão, por isso tem sido cada vez mais minada — basta observarmos quanto foi negligenciada na Base Nacional Comum Curricular, onde aparece em apenas quatro das quase 600 páginas. É preciso que nos perguntemos em prol de quem, de que classe social, se rebaixa a literatura no documento mais importante a nortear a educação brasileira.

Imagino que, para conseguir tal feito de impedir o pensamento crítico, a entidade— que visa a combater suposta doutrinação ideológica e política nas escolas — deve, além das artes, tentar em breve a proibição do ensino de História, filosofia e sociologia, perigosas disciplinas, bem como a leitura de jornais pelos estudantes, hábito que será considerado indecente. Entre as obras do vestibular da UFRGS, há uma seleta de canções do grande Lupicínio Rodrigues — cantemos com ele, pois, que há pessoas com nervos de aço.


Publicado originalmente em O Globo.

Ilustração da capa: Ameaça à literatura e ataque ao pensamento – Imagem gerada por IA ChatGPT

Sobre o autor

Luiza Fariello
Luiza Fariello
Luiza Fariello é professora da Secretaria de Educação do Distrito Federal, doutoranda em literatura na Universidade de Brasília (UnB) e autora dos livros de contos “Essa palavra eu não falo”, “Hoje, deserto” e do romance “Um corpo para Jaime”.

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