O Banco Mundial agora apoia as políticas industriais? | Por Jackson De Toni

A reabilitação da política industrial expõe os limites do mercado como solução automática para o desenvolvimento periférico.
Última edição em maio 26, 2026, 07:00

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Por décadas, a política industrial foi tratada como um tabu em grande parte das instituições financeiras internacionais. A receita para o crescimento era simples: focar nos fundamentos macroeconômicos e deixar o mercado agir. No entanto, o recém-lançado relatório do Banco Mundial, Industrial Policy for Development: Approaches in the 21st Century (2026), marca uma mudança pragmática e reconhece que a política industrial “voltou com força total” e é ainda mais utilizada nos países em desenvolvimento do que nas economias avançadas.

Embora a publicação represente um avanço ao fornecer um guia prático de 15 ferramentas de política industrial baseadas na capacidade do Estado (“largura de banda”), no tamanho do mercado e no espaço fiscal, a abordagem da instituição mantém um DNA estritamente neoclássico. O foco exclusivo na “correção de falhas de mercado” e no respeito às vantagens comparativas revela distanciamentos profundos em relação às escolas estruturalistas, schumpeterianas e desenvolvimentistas.

Abaixo, detalhamos os limites, as fragilidades e os pontos de atenção da nova visão do Banco Mundial em contraste com essas três tradições.

1. O Contraste com o Estruturalismo: a rejeição da substituição de importações

A escola estruturalista (fortemente associada à CEPAL) defende a intervenção estatal para superar a heterogeneidade estrutural e a dependência tecnológica da periferia em relação ao centro, frequentemente utilizando o protecionismo para forjar novas indústrias.

  • A “Falácia” da Substituição de Importações: o Banco Mundial é categórico ao afirmar que o modelo de substituição de importações falhou e foi amplamente abandonado nos anos 1980. Para o Banco, proteger a indústria nascente através de tarifas de importação e Requisitos de Conteúdo Local (LCRs) impõe custos enormes aos consumidores e a outras partes da cadeia produtiva, classificando essas medidas como ferramentas indiretas de “segunda escolha”.
  • O Limite das Vantagens Comparativas: o relatório orienta os governos a focarem no que chama de “risco equilibrado”, priorizando o desenvolvimento de indústrias onde já existe vantagem comparativa revelada ou que utilizem tecnologias adjacentes (vantagem latente). Ponto de atenção: Para os estruturalistas, prender-se às vantagens comparativas atuais ou adjacentes condena os países em desenvolvimento a permanecerem atrelados à exportação de commodities ou manufaturas de baixo valor agregado, dificultando saltos estruturais genuínos.

2. O Contraste com o Neo-Schumpeterianismo: aversão aos “Moonshots” e ao Estado Empreendedor

As abordagens schumpeterianas e neo-schumpeterianas (como as defendidas por Mariana Mazzucato) focam na inovação, na destruição criativa e no papel do Estado como um criador de mercados e direcionador de “missões” tecnológicas arrojadas.

  • Adoção vs. Invenção: O relatório do Banco Mundial argumenta que as economias em desenvolvimento se beneficiam mais da adoção de tecnologias existentes do que da invenção de novas. As subvenções para inovação focadas em invenções radicais (os chamados moonshots) são vistas com ressalvas para esses países.
  • Ceticismo quanto às “Missões” Top-Down: embora o Banco Mundial cite a abordagem orientada por missões de Mazzucato como uma forma de lidar com problemas sociais, ele alerta que dar muita ênfase a estratégias top-down (de cima para baixo), onde o Estado atua como empreendedor e escolhe os setores, corre o risco de ignorar as informações que os empresários possuem na ponta. O Banco prefere uma experimentação de portfólio bottom-up (de baixo para cima), onde o governo foca em prover insumos públicos e deixa o mercado decidir os vencedores.

3. O Contraste com o Desenvolvimentismo Clásico: a crítica das ferramentas macro e do “Picking Winners”

O Estado Desenvolvimentista (especialmente no Leste Asiático) utilizou ativamente a taxa de câmbio, o controle de capitais e subsídios agressivos condicionados à exportação para forçar a industrialização.

  • Intervenções Macroeconômicas como Tabu: O Banco Mundial classifica a desvalorização cambial competitiva – um pilar da macroeconomia desenvolvimentista – como uma intervenção de “segunda escolha”, alertando que ela traz riscos graves de inflação, retaliação internacional e pune os produtores que dependem de insumos importados.
  • O Fim dos Subsídios à Exportação: O Banco destaca que o modelo antigo do Leste Asiático de oferecer subsídios condicionados à exportação não é mais viável hoje, pois viola as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC).
  • Sunset Clauses e o “Deixar os Perdedores Irem”: desenvolvimentistas argumentam que certas indústrias estratégicas precisam de décadas de maturação. O Banco Mundial, por sua vez, exige disciplina rigorosa: propõe regras de encerramento automático (sunset clauses) de cerca de 10 anos e afirma que os governos não devem tentar “escolher vencedores”, mas sim ter a capacidade institucional de “deixar os perdedores irem embora” caso a produtividade não comprove competividade internacional.

Conclusão

O novo posicionamento do Banco Mundial representa um passo bem-vindo ao retirar a política industrial da “clandestinidade” e dos porões do debate acadêmico e institucional e oferecer um roteiro realista baseado na capacidade estatal. Ele prescreve com razão a importância do diálogo público-privado, da responsabilidade (accountability) e dos insumos públicos direcionados (como parques industriais e treinamento de novas habilidades laborais).

Contudo, ao enquadrar a política industrial unicamente como uma cura para falhas de mercado e exigir o respeito quase dogmático às vantagens comparativas, a abordagem do Banco Mundial é excessivamente tímida, sobretudo em países como o Brasil, de desenvolvimento tardio, periférico e subordinado. Onde o estruturalismo e o desenvolvimentismo veem a necessidade de “dirigir” os preços relativos e forçar transformações estruturais profundas com ferramentas macroeconômicas e protecionismo estratégico, o Banco Mundial recomenda cautela, fomento neutro e intervenções diretas de baixo risco. Esse tipo de abordagem, sem dúvida, continuaria a condenar países como Brasil a uma posição coadjuvante no cenário global.

Referências

FERNANDES, Ana Margarida; REED, Tristan. Industrial Policy for Development: Approaches in the 21st Century. Washington, DC: World Bank, 2026. Disponível em: https://hdl.handle.net/10986/44244


Foto de capa: Agência Brasil

Sobre o autor

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Jackson De Toni
Economista, Doutor em Ciência Política, Analista na ABDI/MDIC e Professor FGV-DF e ENAP.

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