Eleições 2026 aos olhos da pesquisa AtlasIntel/Bloomberg | Por Antonio C. Alkmim

Religião, renda, território e identidade consolidam blocos eleitorais estáveis e indicam que a disputa de 2026 será decidida no eleitorado intermediário.
Última edição em maio 26, 2026, 05:15

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Texto do seu parágrafo (2)

Os institutos de opinião atuais são herdeiros da metodologia que até então se faz pesquisas de opinião no Brasil. Esta pesquisa, e raramente outras de outros institutos disponibilizam seus relatórios ao público.

Entretanto problemas conceituais ainda se colocam. Um exemplo é a religião.

A pesquisa refinia classificação, distinguindo o sem religião com alguma crença dos ateus e agnóstico.

Uma boa ideia  seria aferir a frequência ao culto, pois a hipótese é de que tenha abaixado nos últimos anos, inclusive entre evangélidos. À ver.

Importante notar que  autodenominação racial está ausente  clássico branco, pardo, negro, outros. O negro encotra-se invisível em muitas pesquisas.

O gráfico ao final do texto mostra a síntese da segmentação social entre os dois principais concorrentes atuais  e abaixo, pontos considerados relevantes.

  • Pólo Flávio consolidado: Evangélicos, Centro-Oeste, Sul e Norte formam o núcleo duro da direita — base coesa e pouco permeável a Lula. O antilulismo é um fato estrutural. Da mesma forma que o antibolsonarismo: trata-se de uma polarização com raízes mais profundas, e não apenas conjunturais.
  • Pólo Lula restrito: Agnósticos e ateus, embora em número menor, concentram mais de 80% de intenção de voto petista. A base fiel de Lula é mais ampla e vem de um estrato social mais empobrecido — dimensão que a pesquisa, centrada em segmentos declarados, não captura plenamente.
  • A religião como principal linha de clivagem: Entre todas as variáveis, a religião é a que mais se aproxima de uma polarização estruturada: de um lado, evangélicos (majoritariamente pró-Flávio); de outro, agnósticos e ateus (maciçamente pró-Lula). Os católicos situam-se distantes desses dois polos religiosos, ligeiramente mais próximos a Lula. Isso não é coincidência: a maioria dos nordestinos é católica, e o Nordeste é o reduto petista por excelência. As diferenças entre cristãos refletem, portanto, outras condições sociais e regionais que transcendem a fé em si.
  • Renda divide o voto de forma não linear: Pobres e ricos tendem a Lula; a classe média intermediária (R$ 3 mil a R$ 10 mil) é o segmento mais volátil do eleitorado. A relação entre renda e voto não é linear — o gráfico evidencia uma curva que desafia leituras simplistas de “quanto mais pobre, mais petista”.
  • Zona intermediária decide a eleição: Jovens de 16 a 24 anos, eleitores com rendas de até R$ 3 mil e portadores de ensino médio e superior, segundo a pesquisa,  estão em disputa aberta entre os dois candidatos e eventuais terceiras vias. É nessa zona que a eleição de 2026 será decidida.
  • O escândalo Vorcaro interrompeu a ascensão de Flávio e recolocou Lula em primeiro lugar: O áudio vazado entre Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro interrompeu a trajetória de crescimento do senador, que vinha subindo consistentemente desde o lançamento de sua pré-candidatura, em dezembro de 2025. A isso se somam os benefícios sociais anunciados pelo governo federal neste mesmo mês de maio, que reforçaram a agenda distributiva do campo petista.
  • O núcleo bolsonarista é imune: Cerca de 28% dos eleitores de Jair Bolsonaro em 2022 — o que representa aproximadamente 16,5% do eleitorado total, de acordo com os dados da pesquisa — avaliam que o escândalo Vorcaro até fortaleceu Flávio politicamente. A denúncia funciona, para esse grupo, como confirmação de perseguição e não como evidência de irregularidade.
  • Gênero: o peso do volume, não apenas da distância: Homens e mulheres aparecem próximos na zona intermediária do gráfico, sem polarização expressiva entre si. O que torna o gênero uma variável fundamental, contudo, é o volume: as mulheres representam 52% do eleitorado. Além disso, a categoria merece desagregação social mais refinada. Uma mulher que cria filhos sozinha tem perfil eleitoral radicalmente diferente do de uma mulher que mora sozinha e tem alta renda. Estado civil, arranjo familiar e situação econômica são cruzamentos que os institutos poderiam — e deveriam — incorporar, inclusive combinando autodeclaração de gênero com composição domiciliar. Não fazem. Ainda.
  • Lula como principal beneficiado do escândalo: Para 55% dos eleitores, o presidente Lula é o maior favorecido pelo desgaste gerado pelo vazamento do áudio. O benefício, porém, é passivo: depende do enfraquecimento do adversário, não do fortalecimento próprio.
  • O eleitorado de centro ainda está à espera: O quadrante inferior esquerdo do gráfico — o chamado “Pólo de outros candidatos” — indica que uma fatia relevante do eleitorado rejeita simultaneamente os dois polos. O espaço para uma terceira via existe, mas nenhum nome conseguiu até agora ocupá-lo de forma consistente.
  • A estrutura é mais estável do que os eventos sugerem: Apesar da turbulência recente — escândalo Vorcaro, benefícios sociais, oscilações nas pesquisas —, a geometria do gráfico revela que os blocos eleitorais têm forte ancoragem identitária. A eleição será decidida nos centímetros, não nos metros: na zona intermediária, entre eleitores que ainda não escolheram lado.

Nota metodológica: PCA + Análise de Cluster

  • Análise de Componentes Principais (PCA): A PCA transforma variáveis correlacionadas — renda, religião, região, escolaridade, idade — em eixos ortogonais que maximizam a variância explicada. Os dois eixos do gráfico (% Lula e % Flávio) funcionam como os dois primeiros componentes principais, permitindo projetar perfis multidimensionais num plano bidimensional legível.
  • Análise de Cluster: Sobre essa projeção, aplica-se agrupamento estatístico — tipicamente k-means ou hierárquico — para identificar ssegmentos de densidade onde perfis sociodemográficos se comportam de forma semelhante. Os quatro agrupamentos visíveis no gráfico (elipses) minimizam a distância intragrupo e maximizam a distância intergrupo no espaço projetado.
  • Por que combinar as duas técnicas? A PCA resolve o problema da dimensionalidade; o cluster resolve o problema da interpretação. Juntas, identificam quem são os grupos relevantes e onde estão no espaço eleitoral. A estrutura resultante é inequívoca: a eleição de 2026 será decidida na zona intermediária.

Fonte: Pesquisa AtlasIntel/Bloomberg, 19 de maio de 2026. Foram utilizados o Claude e o ChatGPT para pesquisa, processamento e análise das informações.


Foto de capa: AtlasIntel/Bloomberg

Sobre o autor

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Antonio C. Alkmim
Cientista Político. Pesquisador senior aposentado do IBGE, ex-professor da Puc-Rio, FGV e UERJ.

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