Por ABEP – Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa e ABRAPEL – Associação Brasileira de Pesquisadores Eleitorais
A ABEP e a ABRAPEL vêm a público repudiar, de forma veemente, a metodologia e as conclusões de um relatório recente, divulgado por uma instituição financeira, que tenta criar um “ranking” de institutos de pesquisa no Brasil.
O documento presta um desserviço ao debate público ao desinformar a população sobre o verdadeiro papel e o funcionamento científico das pesquisas de opinião. A roupagem matemática do estudo não esconde seu profundo desconhecimento sobre a ciência dos dados sociológicos.
A ABEP e a ABRAPEL têm o dever de esclarecer à sociedade e à imprensa sobre pontos fundamentais que balizam as pesquisas de opinião.
1. Pesquisa não é bola de cristal (intenção x comportamento)
O erro mais grave do relatório é avaliar institutos pelo suposto “poder preditivo”. Pesquisas medem a intenção de voto do eleitorado em um dado momento. Não são prognósticos do comportamento de quem efetivamente sairá de casa para votar. Comparar a pesquisa da véspera com o resultado final da urna é comparar grandezas distintas. O eleitor tem o direito de mudar de ideia até o último minuto, o que é comum no Brasil devido ao voto útil e às decisões tardias.
·A miragem dos “votos válidos” e a abstenção real
O ranking avalia os institutos pela projeção de “votos válidos”. Trata-se de um erro técnico. As pesquisas captam uma parcela de indecisos (2% a 4%) que, no dia da eleição, se transforma em uma abstenção superior a 20%. Essa abstenção não atinge os candidatos de forma igual: quem mais deixa de votar no Brasil são os mais jovens, os mais pobres e os menos escolarizados. Projetar votos válidos sem considerar esse viés de ausência nas urnas gera conclusões enganosas.
·Omissão da margem de erro
O relatório decreta “vencedores e perdedores” com base em frações decimais irrelevantes e ignora completamente a margem de erro. Dois institutos que apresentam resultados com 1% de diferença entre si estão, do ponto de vista científico, em empate técnico. Transformar isso em um “ranking” de quem é melhor ou pior contraria a estatística básica ensinada em qualquer universidade.
·Omissões e distorções injustificáveis
O documento mistura, em um mesmo ranking, institutos com mais de 20 anos de histórico e empresas que realizaram pesquisas em apenas uma eleição. Além disso, exclui arbitrariamente institutos tradicionais de seus “painéis de robustez”, sem justificativa técnica, e omite os resultados da empresa que presta serviços à própria instituição financeira responsável pelo relatório.
Foto de capa: IA




