Por Solon Saldanha *
Em uma tentativa de retomar o protagonismo político e blindar o legado da operação, ex-juiz e ex-procurador utilizam tese de comentarista da Globo para ligar o crescimento do Banco Master ao suposto “vácuo” de fiscalização no país.
A recente onda de notícias envolvendo o empresário Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, tornou-se o novo combustível para a retórica de Sérgio Moro (PL) e Deltan Dallagnol (Novo). Os antigos expoentes da Operação Lava Jato estão propagando uma tese que começou a circular em setores da mídia corporativa — especificamente em comentários de Gerson Camarotti, da GloboNews — de que Vorcaro teria prosperado graças ao “vácuo” institucional deixado pelo desmonte da força-tarefa de Curitiba.
A narrativa, classificada por críticos e juristas como “oportunista e absurda”, tenta estabelecer uma relação de causa e efeito direta entre o encerramento dos métodos da Lava Jato e a expansão de negócios financeiros sob investigação. Para Moro e Dallagnol, o caso Vorcaro seria a prova viva de que, sem o “freio” que eles representavam, o sistema financeiro voltou a ser um terreno fértil para movimentações atípicas.
A Tese do “Vácuo” e a Realidade dos Fatos
A tese sustenta que a saída de cena da Lava Jato teria gerado um ambiente de “liberou geral”, permitindo que figuras como Vorcaro construíssem impérios em tempo recorde. No entanto, fontes ligadas ao setor jurídico apontam que essa é uma simplificação perigosa. O crescimento do Banco Master, antigo Banco Máxima, ocorreu sob a vigilância — ou, como questionam setores da esquerda e da mídia independente, sob a leniência — de órgãos reguladores como o Banco Central, inclusive durante períodos em que a própria Lava Jato ainda estava ativa ou exercia grande influência política. Quando Moro era um “superministro” de Bolsonaro, por exemplo.
A Revista Fórum e outros veículos independentes têm destacado que o uso dessa narrativa por Moro e Dallagnol serve a dois propósitos:
- Autoatribuição de valor: Reforçar a ideia de que apenas eles eram capazes de conter a corrupção sistêmica.
- Ataque aos adversários: Direcionar críticas ao atual governo e ao STF, acusando-os de terem “matado” a operação e, consequentemente, permitido a ascensão de novos “esquemas”.
A “Conexão Globo”
O fato de a tese ter sido cunhada ou amplificada por um comentarista da Rede Globo não é visto como coincidência por analistas políticos. Historicamente, houve uma simbiose entre a grande mídia e os operadores de Curitiba. Ao ecoar essa análise, Moro e Dallagnol tentam restabelecer o antigo pacto de opinião pública que lhes garantia altos índices de aprovação, ignorando as anulações de processos e as críticas sobre a parcialidade de suas conduções.
Enquanto isso, as investigações sobre o Banco Master e Daniel Vorcaro seguem em outras instâncias, longe do espetáculo midiático que marcou os anos dourados da Lava Jato. O que está em jogo agora não é apenas a apuração de possíveis irregularidades financeiras, mas a disputa narrativa sobre quem são os culpados e os heróis na história recente do Brasil.
* Solon Saldanha, jornalista e escritor
Foto: Deltan Dallagnol e Sérgio Moro. Crédito: reprodução Carta Capital




