Existem dois tipos de bolsonaristas | Everton Gimenis

Da falsa imagem de outsider ao uso político do ressentimento, o bolsonarismo consolidou uma extrema-direita que transformou privilégios, ódio social e interesses econômicos em identidade política.
Última edição em maio 13, 2026, 08:41

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Existe o bolsonarista iludido.

E existe o bolsonarista que sabe exatamente o que está defendendo.

O primeiro é aquele sujeito enganado pela fantasia do “mito antissistema”. É o cidadão que realmente acredita que Jair Bolsonaro e sua família representam uma ruptura com a velha política, quando na realidade são a própria caricatura do sistema político brasileiro que dizem combater.

Vamos aos fatos.

Bolsonaro não nasceu milionário, não veio de família tradicionalmente rica, não construiu fortuna no empreendedorismo, nem revolucionou absolutamente nada. Sua trajetória foi inteiramente construída dentro da máquina pública. Tentou carreira militar, acumulou episódios de indisciplina e acabou indo para a reserva ainda jovem aos 33 anos. Depois disso, entrou na política em 1988 e nunca mais saiu.

Foram quase três décadas como deputado federal. Vinte e oito anos vivendo do sistema político. Auxílio-moradia, verba de gabinete, privilégios parlamentares, aposentadorias especiais, cargos para aliados e familiares. Tudo aquilo que o bolsonarismo diz odiar sempre foi o habitat natural da família Bolsonaro.

O sujeito que posa de outsider passou praticamente a vida inteira dentro do Congresso Nacional.

E não apenas dentro dele: usufruindo de tudo que havia de mais fisiológico na política brasileira.

Enquanto o brasileiro comum pegava ônibus lotado e trabalhava até adoecer, Bolsonaro colecionava imóveis, privilégios e cargos distribuídos entre familiares e aliados. O mesmo político que depois aprovou reforma da Previdência para endurecer a aposentadoria do povo já estava aposentado cedo pelo Estado que fingia combater.

O “antissistema” sempre mamou no sistema.

E mamou muito.

A hipocrisia fica ainda mais grotesca quando analisamos o discurso moralista dessa família.

Os mesmos que vivem falando em “família tradicional” passaram décadas envolvidos em escândalos de rachadinha, uso político de gabinetes e nomeações suspeitas. Ex-esposas, parentes, assessores fantasmas, aliados pessoais: tudo orbitando ao redor da estrutura pública bancada pelo contribuinte.

O caso da “Wal do Açaí” virou símbolo disso tudo: uma funcionária do gabinete de Bolsonaro em Brasília que, segundo reportagens amplamente divulgadas, trabalhava no litoral cuidando de interesses privados da família enquanto recebia salário público.

Até os cachorros da família pareciam ter sido beneficiados pela máquina pública.

Mas o bolsonarista iludido ignora tudo isso porque não segue Bolsonaro por coerência. Segue por idolatria.

É o sujeito que passa pano para qualquer absurdo: rachadinha vira perseguição; corrupção vira narrativa da esquerda; ataque às instituições vira patriotismo; golpismo vira “liberdade”.

São os mesmos que rezavam para pneu em frente a quartel.
Os que pediam intervenção alienígena.

Os que se penduravam em caminhão.

Os que agora tomam detergente nas redes sociais para defender empresário bolsonarista investigado.

Não é política.

É seita.

Mas existe o segundo tipo.

Esse é pior.

É o bolsonarista que sabe exatamente quem Bolsonaro é — e mesmo assim apoia.

Esse entende perfeitamente o esquema de poder montado ao redor da extrema-direita brasileira. Sabe das ligações obscuras, do uso político do ódio, do autoritarismo, da máquina de fake news, do aparelhamento ideológico e dos escândalos sucessivos. E ainda assim permanece fiel porque o projeto atende seus interesses materiais, econômicos ou ideológicos.

São os empresários que lucram com precarização do trabalho.

Os políticos fisiológicos travestidos de patriotas.

Os racistas que encontraram licença social para destilar preconceito.

Os machistas saudosos de um país hierárquico.

Os oportunistas que descobriram que o extremismo rende voto, engajamento e dinheiro.

E é justamente aí que entram os escândalos recentes envolvendo figuras da extrema-direita e setores do mercado financeiro.

O caso do Banco Master, já apelidado nas redes de “Bolsomaster”, escancarou novamente como parte da elite econômica que se vende como liberal e moralista mantém relações profundas com o bolsonarismo político. Campanhas irrigadas por milionários, proximidade com governadores bolsonaristas, trânsito privilegiado em Brasília, relações promíscuas entre mercado financeiro e poder político.

Nada disso lembra outsider.

Nada disso lembra revolução.

Tudo isso lembra exatamente aquilo que Bolsonaro dizia combater.

O bolsonarismo nunca foi contra o sistema.

Apenas queria controlar o sistema.

Porque o verdadeiro ódio dessa extrema-direita nunca foi contra corrupção, privilégios ou mamata. O ódio sempre foi contra pobre tendo direitos, trabalhador tendo proteção, universidade pública formando pensamento crítico, mulher ocupando espaços, negros ascendendo socialmente, população LGBTQIA+ conquistando dignidade e movimentos sociais disputando poder.

Por isso, o discurso “anticorrupção” sempre foi seletivo. Corrupção só incomoda quando vem do adversário.

Quando envolve aliados, vira perseguição política, complô da imprensa ou invenção do STF.

No fundo, Bolsonaro nunca vendeu honestidade.

Vendeu autorização social para o ressentimento.

E, talvez, seja justamente por isso que tantos ainda o seguem: porque ele transformou preconceitos, frustrações e ódio social em identidade política.

O bolsonarismo não surgiu para combater o sistema brasileiro.

Surgiu para radicalizar o que existe de mais atrasado nele.


Foto de capa:  Fábio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Sobre o autor

Everton Gimenis
Everton Gimenis
Vice-presidente da CUT RS, militante do PT e bancário.

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