Por Solon Saldanha *
A captura do ex-diretor da Abin e deputado cassado, pelo serviço de imigração norte-americano, encerra uma caçada transnacional iniciada em 2025. E o coloca a um passo de cumprir a sentença imposta pelo STF contra um dos principais artífices da intentona golpista.
O ex-deputado e delegado da Polícia Federal, Alexandre Ramagem, foi preso na manhã desta segunda-feira em Orlando, na Flórida, em uma operação coordenada pelo Immigration and Customs Enforcement (ICE), o serviço de imigração dos Estados Unidos. Ramagem, que figurava na lista vermelha da Interpol por determinação do Supremo Tribunal Federal (STF), estava foragido da justiça brasileira desde setembro de 2025, após ter sua prisão decretada no âmbito das investigações sobre a tentativa de golpe de Estado no Brasil.
A detenção ocorreu por volta das 11h (horário local) e marca o ponto culminante de uma fuga cinematográfica que expôs as vulnerabilidades das fronteiras terrestres no extremo norte do país. Segundo os relatórios de inteligência da PF, Ramagem utilizou seu conhecimento tático como ex-delegado em Roraima para orquestrar uma saída clandestina, atravessando a fronteira brasileira com a Guiana de automóvel. Após chegar a Georgetown, a capital guianense, ele utilizou rotas aéreas comerciais para ingressar em território norte-americano, onde tentava se estabelecer discretamente.
Condenação e o rastro da ilegalidade
O histórico judicial de Ramagem é denso e fundamentado em provas colhidas ao longo de anos de investigação. O ex-parlamentar foi condenado pelo STF a uma pena superior a 16 anos de reclusão. O acórdão da Suprema Corte detalha sua participação em crimes de organização criminosa, abolição violenta do Estado Democrático de Direito e tentativa de golpe de Estado. As acusações estão diretamente ligadas à articulação dos atos de 8 de janeiro e à instrumentalização do aparato de inteligência estatal para fins políticos e antidemocráticos.
A inclusão de seu nome na Difusão Vermelha da Interpol pelo ministro Alexandre de Moraes foi o gatilho necessário para que autoridades estrangeiras pudessem agir. Embora a extradição tenha sido formalmente solicitada pelo Ministério da Justiça em janeiro de 2026, a prisão efetuada pelo ICE baseou-se, inicialmente, em irregularidades migratórias, uma estratégia comum utilizada por autoridades dos EUA para processar fugitivos internacionais enquanto o rito de extradição é analisado pelo Departamento de Estado.
A rede de apoio e as conexões no garimpo
A investigação federal aponta que Ramagem não agiu sozinho. A logística de sua fuga contou com o suporte financeiro e operacional de figuras influentes de Roraima. Celso Rodrigo de Mello, de 27 anos, foi preso em Manaus por ordem de Moraes, sob a acusação de ser o principal financiador da evasão do ex-deputado. Celso é filho de Rodrigo Martins de Mello, o “Rodrigo Cataratas”, empresário e liderança ligada ao setor de garimpo com quem Ramagem mantinha laços estreitos de amizade.
A defesa do empresário Celso Mello nega qualquer envolvimento ilícito, classificando as acusações como prematuras. No entanto, o rastreio financeiro da PF indica que a estrutura de Cataratas teria sido fundamental para garantir o transporte e a manutenção de Ramagem fora do país durante esses meses.
Os próximos passos: asilo ou extradição?
Nos bastidores políticos, aliados de Ramagem afirmavam que ele planejava protocolar um pedido de asilo político, sob a narrativa de perseguição judicial no Brasil. Contudo, a gravidade dos crimes de natureza constitucional e o alinhamento de cooperação jurídica entre Brasília e Washington tornam essa via jurídica improvável.
Recolhido em um centro de detenção na Flórida, Ramagem aguarda os trâmites que definirão seu retorno ao Brasil. O Itamaraty e o Ministério da Justiça acompanham o caso de perto para garantir que o processo de repatriação ocorra o mais breve possível, para que o condenado inicie o cumprimento da pena em solo nacional.
* Solon Saldanha, jornalista e escritor
Foto: Alexandre Ramagem. Crédito: reprodução Metrópoles




