Da Redação*
Novos desdobramentos de arquivos contratuais e registros de diálogos obtidos pelo veículo Intercept Brasil — cujo jornalismo investigativo foi o responsável por trazer o caso a público — revelam que o deputado federal cassado Eduardo Bolsonaro exerceu funções de coordenação executiva com amplas prerrogativas sobre a engenharia financeira do longa-metragem “Dark Horse”. Os dados colhidos confrontam diretamente as alegações públicas manifestadas pelo político em canais digitais, nas quais sustentava possuir apenas vínculo de cedente de imagem, sem qualquer interferência gerencial na cinebiografia de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Atuação executiva e engenharia logística de divisas
A documentação que integra o arcabouço do furo jornalístico aponta para um contrato formalizado originalmente no final de 2023 e chancelado por meio de assinatura digital de Eduardo Bolsonaro em janeiro de 2024. No arranjo corporativo estipulado, a produtora norte-americana GoUp Entertainment figura como a realizadora principal, tendo na linha de frente da produção-executiva o próprio congressista cassado e o deputado federal Mario Frias. Tecnicamente, essa atribuição confere aos envolvidos o controle direto sobre o direcionamento orçamentário, a prospecção de investidores, a captação de patrocínios privados e o manejo de incentivos de natureza fiscal. À época, o roteiro operava sob a denominação provisória de “O Capitão do Povo”.
Além do escopo original, minutas acessórias de contratos trazidas à luz pelo rigor do trabalho do Intercept passavam a qualificar o parlamentar paulista não apenas como gestor, mas também na condição jurídica de financiador direto, com autorização expressa para a aplicação de aportes de seu patrimônio pessoal na infraestrutura audiovisual. A triangulação de capitais ganha contornos mais nítidos em comunicações datadas de março de 2025, intermediadas pelo empresário Thiago Miranda. Em capturas de tela repassadas ao controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro, Eduardo detalha estratégias de evasão burocrática para a internalização de verbas em solo americano, sugerindo a aceleração de remessas pelo sistema vigente para evitar trâmites fiscais que poderiam reter os montantes por até um semestre. O período coincide cronologicamente com o anúncio de licença de suas atividades legislativas para fixação de residência nos Estados Unidos.
A defesa do deputado Mario Frias sustentou em nota que o colega de partido jamais ocupou cargos diretivos ou auferiu rendimentos oriundos de fundos ligados ao projeto. A representação do banqueiro Daniel Vorcaro optou por não emitir posicionamento institucional, enquanto o corpo jurídico do ex-presidente Jair Bolsonaro justificou a impossibilidade de manifestação em virtude das restrições de visitas decorrentes de sua detenção. Em contrapartida, Thiago Miranda ratificou textualmente que sua participação limitou-se ao papel acessório de aproximação entre potenciais investidores e o núcleo político interessado.
Conexões empresariais, emendas e o cerco do Judiciário
A estrutura da produtora GoUp Entertainment, sediada no estado da Flórida, traz como principais sócios os empresários Michael Brian Davis e Karina Ferreira da Gama. Esta última também responde pelo controle do Instituto Conhecer Brasil, entidade que se tornou alvo de auditorias e investigações conduzidas pelo Ministério Público devido a contratos de vulto firmados com a administração municipal de São Paulo para a prestação de serviços de conectividade pública em regime de Wi-Fi, cujas entregas técnicas estão sob suspeição.
Diante do potencial desvio de finalidades e do impacto das revelações da imprensa, o cenário institucional evoluiu para o âmbito do Supremo Tribunal Federal. O ministro Flávio Dino determinou o início de um procedimento preliminar de verificação para mapear se emendas parlamentares foram canalizadas de forma irregular para subsidiar a referida associação e, por extensão, a infraestrutura do filme. Paralelamente, o tribunal enfrenta obstáculos logísticos para intimar o deputado Mario Frias, que teria direcionado R$ 2 milhões em verbas de sua cota parlamentar à organização não governamental parceira, a fim de que preste esclarecimentos formais sobre a execução financeira dos recursos públicos.
Rastreamento de fundos no exterior e blindagem jurídica
O aprofundamento das apurações conecta as operações de Eduardo à rede de contatos operada por seu irmão, o senador Flávio Bolsonaro, que teria articulado junto ao Banco Master um plano de aportes na ordem de 24 milhões de dólares para viabilizar a obra cinematográfica. Desse montante global acordado, planilhas indicam a liquidação efetiva de pelo menos 10,6 milhões de dólares — equivalentes a cerca de R$ 61 milhões — pulverizados em seis transferências bancárias efetuadas no primeiro semestre de 2025.
A Polícia Federal concentra esforços na linha de investigação que busca identificar se os repasses feitos pela instituição bancária ao projeto cultural serviram de anteparo para o custeio de despesas pessoais e de manutenção de Eduardo Bolsonaro durante seu período de permanência no exterior. Relatórios de inteligência financeira indicam que frações significativas dos valores transitados foram direcionadas a contas de um fundo de investimentos gerido por operadores políticos de sua estrita confiança, incluindo Paulo Calixto, profissional do direito que responde pela condução de seus processos de regularização imigratória nos Estados Unidos. O parlamentar cassado usou canais de comunicação digitais para refutar qualquer recebimento de vantagens financeiras indevidas. Mas, há muita fumaça indicando a existência de fogo.
* Redator: Solon Saldanha
Foto: Eduardo Bolsonaro. Crédito: reprodução BBC




