Vanguarda que guarda | Por Henrique Morrone

Última edição em maio 6, 2026, 02:48

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Dizem que é preciso avançar.

Desde que o avanço desorganize os outros.

Há quem se coloque como intérprete do futuro. Falam com convicção, gráficos bem domesticados e uma familiaridade perniciosa com o amanhã. Antecipam movimentos, calibram expectativas, traduzem o mundo em curvas suaves.

Tudo limpo.

Técnico.

Inexorável.

Mas há algo que não perece.

Por trás da linguagem de fronteira, repousa um vocabulário antigo.

Trocam-se os termos, preservam-se os limites.

Atualiza-se a forma, mantém-se o conteúdo.

A vanguarda, nesse caso, não inaugura.

Administra.

Otávio, economista da Faria Lima, explica com serenidade:

— A gente precisa ter parcimônia, né. Crescer, sim, mas sem descontrole. O mercado olha isso.

Fala arrastado.

Enquadra tudo no seu tom.

— Não dá pra forçar muito. Tem que ir calibrando.

— É o que dá pra fazer.

Otávio não grita.

Pondera.

E, ao ponderar, delimita.

Recomendam prudência quando o crescimento ameaça escapar.

Invocam responsabilidade quando a renda ensaia espraiar.

Sugerem moderação quando o presente insinua o futuro.

Nada contra a cautela.

O problema é quando deixa de ser escolha.

A economia passa a ser vigiada.

Avança-se, desde que para dentro.

Expande-se, sem alterar o desenho.

Por fora, tudo é moderno.

Relatórios sofisticados, modelos refinados, projeções em alta definição.

Por dentro, a engrenagem repete.

Não é erro.

É escolha.

Há uma arquitetura incolor que se impõe.

É nela que a vanguarda se acomoda — para que tudo siga funcionando.

A dissonância não aparece como conflito.

Surge como consenso técnico.

E o consenso, como sempre, não precisa se explicar.

No fim, não falta mudança.

Ela é contida.

A novidade chega disciplinada.

O impulso, filtrado.

O possível já nasce enquadrado.

E assim seguimos.

Assistindo à encenação de um futuro que não rompe, apenas troca de roupa.

Porque, no fundo, o que se chama de vanguarda cumpre bem a sua função:

guardar o passado, a sete chaves, e calibrar o futuro até que ele caiba num nada organizado.


Foto de capa: IA

Sobre o autor

Homem de barba sorrindo ao ar livre
Henrique Morrone
Professor UFRGS.

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