Da Redação*
Os dados do mercado de trabalho no primeiro trimestre de 2026 expõem a persistência de disparidades históricas na divisão por raça e gênero. Conforme os indicadores oficiais, o índice de desemprego entre cidadãos pretos superou a média nacional e registrou uma distância expressiva de 55% em relação aos trabalhadores brancos. O movimento reflete uma tendência de alargamento da desigualdade na comparação com os períodos imediatamente anteriores, consolidando desvantagens que afetam também a população parda tanto no acesso a postos de trabalho quanto na qualidade dos vínculos empregatícios.
Disparidades raciais e o caráter estrutural do mercado
O levantamento estatístico detalhado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) por meio da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua Trimestral, publicado nesta quinta-feira (14), acende um alerta sobre as barreiras de inserção profissional no país. Enquanto a taxa de desemprego geral da economia se posicionou em 6,1%, o segmento da população que se autodeclara preta enfrentou um índice de desocupação de 7,6%. No extremo oposto, a taxa apurada para os trabalhadores brancos permaneceu abaixo da linha dos cinco pontos percentuais, fixando-se em 4,9%.
A distância de 55% observada entre os dois grupos representa um agravamento do cenário de exclusão. No fechamento de 2025, a desocupação de pretos era 52,5% maior que a de brancos, ao passo que, no primeiro trimestre daquele mesmo ano, a margem de diferença era de 50%. Analistas do IBGE apontam que essa assimetria possui raízes estruturais profundas e permanentes. Embora a série histórica — iniciada em 2012 com uma diferença de 44,8% — demonstre flutuações, o teto da disparidade racial ocorreu no ápice da crise sanitária de covid-19, em meados de 2020, quando o desemprego dos pretos chegou a ser quase 70% superior.
O contingente de cidadãos pardos também enfrenta um panorama desfavorável face aos indicadores dos trabalhadores brancos. A desocupação nesta parcela ficou em 6,8% no início deste ano, patamar 38,8% mais elevado do que o verificado para o grupo de pele clara. Apesar de expressivo, o resultado demonstra um recuo frente ao patamar do último trimestre de 2025, quando a desvantagem dos pardos atingia 47,5%. De acordo com a coordenação técnica da pesquisa, o fenômeno demanda investigações complexas e transversais, uma vez que as distâncias salariais e de empregabilidade envolvem variáveis combinadas, tais como assimetrias regionais e níveis de escolaridade média de cada grupo.
Prevalência da informalidade e radiografia demográfica
A vulnerabilidade das populações negra e parda manifesta-se com igual intensidade na taxa de informalidade, que mensura a proporção de trabalhadores sem carteira assinada, profissionais autônomos ou empregadores desprovidos de registro no CNPJ. Na média de todo o território nacional, 37,3% da força de trabalho ocupada exerce atividades sem o amparo de redes de proteção social e garantias legais básicas, como o décimo terceiro salário, férias remuneradas e o acesso ao seguro-desemprego.
A segmentação por cor evidencia o privilégio dos trabalhadores brancos no mercado formal. Nesse grupo, o índice de informalidade limita-se a 32,2%. Em contrapartida, as taxas saltam para 40,8% entre os pretos e alcançam 41,6% no caso dos pardos. Os dados ganham relevância sociológica quando confrontados com o perfil de autoidentificação da base demográfica do país, no qual os cidadãos com 14 anos ou mais de idade têm a seguinte composição:
- Pardos: 45,4% da população em idade ativa;
- Brancos: 42,5% do montante apurado;
- Pretos: 11,1% do total de residentes elegíveis.
Dinâmicas de gênero e o impacto da idade na busca por emprego
As clivagens do mercado de trabalho brasileiro também se estruturam de forma nítida a partir do gênero e das faixas etárias. No quesito desocupação, as mulheres continuam penalizadas em comparação aos homens. O desemprego feminino situou-se em 7,3% no primeiro trimestre do ano corrente, representando uma taxa 43,1% superior à masculina, que fechou o período em 5,1% — abaixo, portanto, da média geral do país. Historicamente, contudo, a distância já foi mais acentuada: na abertura da pesquisa, em 2012, o desemprego delas superava o deles em quase 70%. Curiosamente, a relação inverte-se quando analisada a qualidade do vínculo: os homens registram maior exposição ao mercado informal (38,9%) do que as mulheres (35,3%).
Por fim, o recorte etário do IBGE expõe os extremos da pirâmide de produtividade nacional. O topo do desemprego concentra-se de forma alarmante na juventude, especificamente na faixa que compreende adolescentes de 14 a 17 anos, cuja taxa de desocupação atinge 25,1%. Especialistas em mercado de trabalho ponderam que essa oscilação decorre da busca pelo primeiro emprego e da alta rotatividade de vagas temporárias de menor estabilidade, frequentemente aceitas por essa parcela da população para a composição curricular inicial. No extremo oposto, a população com 60 anos ou mais registra a menor taxa de desocupação do sistema (2,5%), refletindo o momento de transição em que a maior parte dos indivíduos inicia o processo de retirada definitiva do mercado de trabalho.
* Redator: Solon Saldanha
Foto: Desemprego atinge mais os negras e negros. Crédito: Brasil de Fato




