Os 91 anos de idade não impedem que Serafim Jardim cuide, com absoluto esmero, diariamente da memória do ex-presidente Juscelino Kubitschek. Presidente da Casa JK, em Diamantina, quando perguntam a Serafim qual é a sua especialização, ele responde: “Sou formado em Kubitschek”. Tal proximidade é que fez com que Serafim Jardim duvidasse desde o início da versão oficial para a morte de JK. Foi ele o responsável por reabrir, em 1996 a investigação sobre a morte de Juscelino e de seu motorista, Geraldo Ribeiro. O ponto que levou agora a historiadora Maria Cecília Adão a elaborar relatório para a Comissão sobre Mortos e Desaparecidos Políticos pedindo nova investigação é o mesmo levantado por Serafim.
Ônibus não teria batido no automóvel

Segundo o relatório de Maria Cecília a partir de estudos do perito Sergio Erberg, não há indícios de que o carro de JK desgovernou-se após sofrer uma batida de um ônibus na sua traseira. É exatamente o mesmo que dizia Serafim Jardim quando pediu, a partir do Ministério Público de Resende, onde aconteceu o acidente, a reabertura do caso. “Fico extremamente feliz de ver que agora, quem sabe, a verdade ser finalmente revelada”, disse Serafim.
“Laudo pericial é inaceitável”
Pela versão oficial, um ônibus da Viação Cometa bateu na traseira do Opala de cor marfim conduzido por Geraldo com JK como passageiro. Essa batida teria desgovernado o carro, que atravessou o canteiro e colidiu de frente com um caminhão. O laudo técnico da época, no entanto, não traz fotos claras da traseira do carro. Não há exame de tintas para verificar se havia marcas na traseira do Opala ou do Opala no ônibus. Não foram acrescentadas fotos dos cadáveres nem de Geraldo nem de Juscelino. “O laudo pericial é inaceitável”, conclui Serafim.
Notícia da morte antes
JK morreu no dia 22 de agosto de 1976. No dia 7 de agosto, o jornalista Wilson Frade telefonou para Serafim Jardim procurando confirmar a notícia de que Juscelino morrera num acidente de automóvel. Essa notícia chegou a diversos jornais naquele dia. JK estava na sua fazenda, em Luziânia. Lá localizado, o ex-presidente respondeu: “Estão querendo me matar”.
Ônibus
O próprio comportamento do motorista do ônibus não parece levar à conclusão de que ele teria batido no Opala. Ele parou após o acidente. Ajudou a tentar retirar das ferragens o motorista do caminhão. Depois, seguiu viagem e parou no posto da Polícia Rodoviária. Foi ele quem comunicou o acidente.
Viagem
Juscelino estava em São Paulo e decidira viajar de carro de volta para o Rio. Em São Paulo, discutira a possibilidade de participação em uma construtora. Há, porém, um estranho detalhe no trajeto. Às 16h30, na divisa entre os dois estados, o Opala entrou no Hotel Fazenda Villa-Forte. Ficou por 90 minutos.
Parada
O que Juscelino foi fazer nesse hotel? O hotel fora fundado pelo brigadeiro Milton Junqueira Villa-Forte, um dos responsáveis pela criação do Centro de Informações de Aeronáutica (Cisa). JK deixou o hotel um pouco antes das 18h. Alguns quilômetros mais adiante, logo depois, aconteceu o acidente.
Sabotagem?
As razões dessa estranha parada do carro de Juscelino nunca foram investigadas a fundo. Ele teria sido atraído para alguma reunião nesse hotel? Ali, durante o tempo em que ficou estacionado, teria sido feita alguma sabotagem no automóvel? Ou teria havido algum atentado no km 165 da Via Dutra, onde houve o acidente?
Prego
Em 1996, quando o caso foi reaberto, Serafim pediu a exumação do cadáver de Geraldo Ribeiro, que estava enterrado em Belo Horizonte. O exame feito revelou a existência de um fragmento de metal na cabeça do motorista de JK. Na época, a conclusão do exame é de queria um prego do próprio caixão.
Sarah
Em 1986, a viúva de JK, Sarah Kubitschek, deu uma entrevista na qual dizia achar “suspeita” a morte de JK. Sarah, porém, não teria avançado nas suspeitas para não atrapalhar a reabertura política. “Esperei Dona Sarah morrer para reabrir o caso”, diz Serafim. Quase 50 anos depois, tudo volta a ser investigado.
Publicado originalmente no Correio da Manhã.
Foto de capa: Morte de JK teria sido um acidente? | Crédito: Instituto de Criminalística RJ





