Diferenças de percepções sobre desigualdade

Última edição em abril 28, 2026, 01:49

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A comparação entre Raio X do Investidor, pesquisa amostral realizada pela Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais), em parceria com o Datafolha, PNAD Contínua (PNADC) do IBGE e declarações do IRPF exige separar três coisas: unidade de observação, conceito de renda/riqueza e cobertura do topo. Cada fonte enxerga “um Brasil” diferente — e nenhuma, isoladamente, é suficiente.

Pesquisas por amostra de pessoas, por exemplo, o Raio X do Investidor, usa como unidade o indivíduo e coloca o foco no seu comportamento financeiro, tipo quem investe, em quê, quanto. A renda é autodeclarada e enquadrada em faixas.

É comum se misturar renda corrente do trabalho com a baixa percepção do fluxo de rendimentos com juros, aluguéis ou dividendos de lucros. O estoque de riqueza é declarado de forma parcial e defasada. Normalmente, a pessoa só se lembra dos ativos financeiros e, muitas vezes, de forma simplificada.

Quanto à cobertura, ela é representativa da população adulta, mas com pouca precisão no topo porque os muito ricos são raros na amostra. A pesquisa é útil para hábitos e inclusão financeira da maioria da população, mas fraca para medir desigualdade de riqueza.

Já as pesquisas com amostras domiciliares contínuas, por exemplo, a do IBGE (PNADC) tem como unidade a renda domiciliar possível de desagregação por pessoa, isto é, per capita. Seu foco está no mercado de trabalho e rendimentos correntes de toda a população.

A renda é detalhada em salários, transferências etc., mas tende a subcaptar rendas altas, seja por não obter resposta, seja por subdeclaração. Logo, capta pouco rendimentos de capital com lucros/dividendos, ganhos financeiros e com imóveis. Quanto à riqueza, ela não mede patrimônio.

Sua cobertura é excelente para a base e o meio da distribuição. É a melhor fotografia do padrão de vida e da renda do trabalho da maioria, mas pouco tem a dizer sobre os ricos.

Para tanto, é necessário recorrer ao universo de declarantes do IRPF, divulgado pela Receita Federal do Brasil), cuja unidade é o indivíduo contribuinte. Para o Imposto de Renda 2026 (ano-base 2025), o valor mínimo de rendimentos tributáveis para obrigatoriedade é de R$ 35.584,00 no ano (menos de R$ 3 mil mensais). Outras obrigações incluem rendimentos isentos acima de R$ 200 mil ou possuir bens superiores a R$ 800 mil.

O foco das DIRPF está na renda tributável e no patrimônio declarados. A renda inclui rendimentos de capital (juros, lucros, dividendos), mas há isenções e planejamento tributário. Pode haver subdeclaração ou elisão fiscal (planejamento tributário lícito) em alguns casos.

A riqueza é capturada pela declaração de bens e direitos: imóveis, aplicações, participações. No entanto, pela obrigatoriedade de declaração dos imóveis em valores históricos de suas aquisições – e tributar o GCAP (Ganho sobre Capital) sobre a valorização nominal inflacionária dos ativos imobiliários –, não há “marcação a mercado”. Esta é, no caso do valor de ativos financeiros, a atualização diária baseada no preço pelo qual seriam vendidos hoje.

Quanto à cobertura, é muito superior diante das demais pesquisas no topo da pirâmide da renda e da riqueza, mas não cobre grande parte da população porque os mais pobres não declaram. É a melhor lente para os mais ricos e para patrimônio, com ressalvas devidas.

Por tudo isso, os resultados diferem muito. Há sub-representação do topo nas pesquisas por amostra. Os muito ricos são poucos e difíceis de captar, em consequência, a desigualdade social aparece menor.

Há subdeclaração ou não há resposta. Por isso, em PNADC e surveys, rendas altas são subestimadas.

O conceito de renda em cada qual é distinto. Na PNADC, refere-se mais à renda corrente do trabalho/transferências. No IRPF, inclui renda do capital, essencial para o topo. Os surveys financeiros oferecem uma mera percepção com categorias quantitativas simplificadas.

Quanto à diferenciação entre estoque de riqueza e fluxo de renda, só o IRPF traz estoque patrimonial, embora imperfeito. A PNADC praticamente não capta a riqueza.

Qual à questão de qual é “mais representativa”, para a sociedade como um todo (base e classe média), é a PNADC do IBGE. Para o topo da distribuição (ricos e muito ricos), os dados da Receita Federal do Brasil são indispensáveis. Para avaliação do comportamento financeiro, pesquisas como o Raio X do Investidor são úteis, mas não servem para medir desigualdade estrutural.

O ponto-chave é nenhuma fonte isolada resolve em termos de um retrato completo da sociedade brasileira. A melhor prática para os analistas é combinar bases: PNADC quanto à base e meio da distribuição, IRPF quanto ao topo e referenciar-se às Contas Nacionais, para verificar a consistência macro, e lembrar-se: o estoque bruto do patrimônio financeiro no Brasil representa cerca de sete vezes o PIB…

Essa abordagem mostra a desigualdade de renda e riqueza ser significativamente maior do sugerido apenas pesquisas domiciliares. É praticamente insuperável.

Se a PNADC é o melhor retrato da sociedade média, o IRPF é o melhor retrato da elite econômica e os surveys financeiros apresentam o melhor retrato do comportamento. A sociedade brasileira só aparece com nitidez quando essas três lentes são combinadas — caso contrário, há sempre uma distorção relevante, sobretudo na medição da concentração de riqueza no topo.

Segundo o Relatório sobre Distribuição de Renda2025, divulgado pela SPE-MINFAZ, a PNADC revela os 10% mais ricos absorveram 43,8% da renda total em 2023. Em contrapartida, segundo os dados das DIRPF, para o mesmo ano, essa proporção é de 52%.

Conforme se avança nos centésimos de renda no sentido dos estratos mais ricos, a diferença entre as duas bases de dados se torna mais evidente. Por exemplo, enquanto a PNADC indica que o estrato dos 0,1% mais rico recebeu 2,9% da renda total, os dados do IRPF apontam uma proporção significativamente maior, de 12,5%. Na PNADC, metade da população de menor renda deteve 13,6% da renda total, enquanto no IRPF a proporção é de 14,1%.

A diferença é explicada, principalmente, pela metodologia, característica e padrão de cada base de dados. Enquanto a PNADC abarca os rendimentos provenientes de maneira declarada, as informações da DIRPF englobam toda a renda auferida pelo contribuinte no ano-calendário, sujeitas a controles legais mais rígidos.

Além disso, pesquisas amostrais subestimam o topo da distribuição por uma série de fatores, seja por razões de limitação da amostra, pela estrutura dos questionários, por omissão de respostas ou desconhecimento por parte dos respondentes dos valores exatos dos seus rendimentos.

Os dados administrativos do IRPF, por sua vez, são menos acurados em captar a base da distribuição, dada a grande proporção de indivíduos não declarantes nos estratos mais baixos de renda.

O ponto relevante dessa comparação, no entanto, é as informações da DIRPF revelarem a distribuição de renda no Brasil ser ainda mais concentrada diante daquela rotineiramente aferida com base nos dados das pesquisas domiciliares, como a PNADC.


Foto de capa: Johnny Miller/Reprodução

Sobre o autor

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Fernando Nogueira da Costa
Professor Titular do IE-UNICAMP. Baixe seus livros digitais em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: fernandonogueiracosta@gmail.com.

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