Por Solon Saldanha *
Em um movimento estratégico para a economia verde, o país expande operações no Vale do Jequitinhonha e atrai investimentos bilionários de montadoras globais, transformando o cenário industrial nacional. Mas a questão da soberania preocupa muito.
O setor mineral brasileiro atingiu um marco histórico nesta com a inauguração do novo complexo de extração e beneficiamento de lítio em Minas Gerais. O projeto, que recebeu aportes superiores a R$ 5 bilhões, coloca o Brasil na vanguarda do suprimento global para veículos elétricos (VEs), distanciando o país da simples exportação de matéria-prima e focando na verticalização da produção.
O “Vale do Lítio” e a reindustrialização
A região nordeste de Minas Gerais, agora consolidada internacionalmente como Lithium Valley, passou por uma transformação estrutural. Diferente do modelo extrativista tradicional, as novas plantas operam sob o conceito de “mineração verde”, utilizando circuitos fechados de água e rejeitos secos, o que minimiza o impacto ambiental e eleva o valor do produto no mercado europeu e norte-americano.
O governo federal e a iniciativa privada projetam que, até o final de 2026, a capacidade de refino doméstico permitirá que o Brasil não apenas atenda à demanda externa, mas sustente as primeiras fábricas de células de baterias instaladas no território nacional.
Soberania e o debate sobre o controle mineral
Apesar do avanço tecnológico, o crescimento acelerado do setor acendeu um alerta vermelho nos bastidores de Brasília. Analistas políticos e especialistas em segurança nacional expressam crescente preocupação com o risco de o Brasil perder o controle efetivo sobre a posse, exploração e comercialização de seus minerais críticos.
Esse cenário ganhou novos contornos a partir de 2022, quando o ex-presidente Jair Bolsonaro assinou o Decreto nº 11.120, que eliminou totalmente as restrições à exportação de lítio. Até então, o mineral era tratado como recurso estratégico sob rígido controle, exigindo anuência prévia da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) para ser comercializado externamente — uma medida que visava proteger a indústria nacional e o setor nuclear.
O temor central de críticos atuais é que a atividade se concentre exclusivamente em mãos de conglomerados privados estrangeiros, sem que haja uma contrapartida de governança estatal robusta. Parlamentares defendem a urgência de uma atualização na legislação minerária. O argumento é que, sem mecanismos de controle e uma participação estratégica do Estado na gestão dessas reservas, o país pode se tornar um mero coadjuvante na cadeia de valor, comprometendo a soberania nacional sobre recursos que são vitais para a geopolítica global do século XXI.
Impacto econômico e geopolítico
A ascensão brasileira ocorre em um momento de reconfiguração das cadeias de suprimento globais. Com a necessidade de reduzir a dependência da Ásia, grandes potências veem no Brasil um parceiro estável e ambientalmente responsável.
- Geração de empregos: Estimativas indicam a criação de 15 mil postos de trabalho diretos e indiretos na região até o próximo semestre.
- Balança comercial: A expectativa é que o lítio se torne um dos cinco principais itens da pauta de exportação mineral brasileira ainda este ano.
- Atração de capital: Três gigantes do setor automotivo já confirmaram a instalação de centros de montagem de baterias em solo brasileiro, visando abastecer todo o mercado da América Latina.
Desafios e sustentabilidade
Apesar do otimismo, especialistas alertam para a necessidade de manter o rigor fiscal e ambiental. O desafio reside em garantir que a riqueza gerada pela mineração se traduza em desenvolvimento social para as comunidades locais, evitando os erros históricos de ciclos econômicos anteriores. O Ministério de Minas e Energia reforçou que o plano nacional inclui contrapartidas obrigatórias em infraestrutura urbana e educação técnica para as cidades vizinhas aos projetos.
* Por Solon Saldanha, jornalista e escritor.
Foto: Mineração no Vale do Jequitinhonha. Crédito: divulgação Sigma Lithium




