Benedita e o direito de decidir

Última edição em abril 26, 2026, 07:53

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Ao longo desta última semana a discussão acerca da chapa que concorrerá ao Senado Federal pelo Partido dos Trabalhadores no Rio de Janeiro rompeu as quatro paredes das instâncias partidárias e tomou relevância na mídia nacional.

Ao que tudo indica a legítima e legal (!) manifestação de vontade da Deputada Federal Benedita da Silva, pré-candidata ao Senado, em fazer a indicação de seu suplente não agradou em nada ao prefeito de Maricá, Washington Quaquá.

Quaquá não poupou artilharia contra a decisão que, desde já se diga, a lei confere à Benedita, trazendo à tona que o escolhido de Bené não seria adequado “para que nossa chapa majoritária não seja obrigada a se explicar sobre escândalos”, como disse ele em matéria da CNN e de diversos outros órgãos de imprensa.

Primeiro aviso aos incautos e às incautas: disputas intrapartidárias são naturais, salutares e que fazem parte do cotidiano de organizações que prezam pela democracia interna, como é o PT.  Contudo, Quaquá mexeu com quem e com o quê jamais deveria.

O dissenso trazido a público pelo prefeito de Maricá, cá aos “meus olhos de ver e meus ouvidos de ouvir”, é bem mais complexo do que ele faz parecer ser uma louvável tentativa de preservação da imagem da instituição partidária durante o pleito de outubro.

Em verdade, o dito “escândalo” a que ele se refere para contraditar o nome indicado por Benedita é nada menos do que o batizado pela grande mídia de o “Escândalo do Mensalão”, que resultou na fatídica Ação Penal 347 perante o Supremo Tribunal Federal.

Segundo aviso aos incautos e às incautas: não, não se está aqui a defender a corrupção de qualquer espécie. Jamais.

Entretanto, apontar publicamente que Manuel Severino, militante histórico do PT e o escolhido de Benedita como seu suplente “foi envolvido em escândalos” vai, no mínimo, ao âmago onde repousam os princípios da disciplina e da lealdade política que alguns e algumas – como eu, com quase 40 anos de vida partidária, 28 deles no Partido dos Trabalhadores – aprendemos no jardim de infância da formação política.

Ainda que disciplina e lealdade não orientem a quem entende qualquer disputa pelo poder como um “vale tudo”; ainda que essas regras básicas da estrutura ética da esquerda nada valham; basta ter olhos para ver, ouvidos para ouvir e uma pequena porção de capacidade crítica para entender que o mensalão foi o balão de ensaio da criminalização da política que fez retroceder anos na construção de um projeto democrático e popular no Brasil.

O mensalão retirou da cena nacional lideranças históricas da luta democrática, retraiu uma geração inteira de novos quadros, deu sentido ao choro dos perdedores de Aécio Neves na tribuna do Senado Federal em 2014 e, enfim, pariu o lavajatismo e golpeou uma Presidenta legitimamente eleita.  

Como ex-presidente da Casa da Moeda, Manuel Severino, como tantos outros, amargou o enxovalhamento público de sua honra a partir de 2005. Mas, por mais que tenham tentado, a direita e a mídia não conseguiu nada, absolutamente nada para condená-lo. Nem criminalmente, nem no TCU. Por sinal, suas contas foram aprovadas.

O respeito às instâncias e à construção política coletiva tem de ser, ao menos a meu ver, o balizador fundamental de toda e qualquer decisão interna. E, Benedita, do alto de sua história e sabedoria, obviamente, não está só na escolha que fez.

Benedita tem o direito de decidir!

E ninguém tem o direito de se arvorar o poder de colocar o PT nas cordas usando o espúrio processo de criminalização da política que foi o mensalão como bandeira.

Quaquá mexeu com quem e com o quê jamais deveria.

Alguns links sobre o assunto:

PT do Rio anuncia apoio a Paes como governador e Benedita ao Senado

Benedita rebate dirigente do PT e afirma ter ‘direito de decidir’ composição de chapa ao Senado


Foto de capa: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Sobre o autor

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Soraia Mendes
Jurista, advogada, professora, pós-doutora em Teorias Jurídicas Contemporâneas (UFRJ), doutora em Direito, Estado e Constituição (UnB), mestra em Ciência Política (UFRGS), com atuação e obras reconhecidos no Supremo Tribunal Federal e na Corte Interamericana de Direitos Humanos. Siga @soraiamendesjurista no Instagram.

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Uma resposta

  1. Esse Quaquá defensor de chacina é a vergonha nacional do PT! Não tem autoridade moral nenhuma para criticar o que quer que seja depois de avalizar o massacre perpetrado pelo delinquente ex-governador do Rio, que renunciou para não ser cassado. A chacina tirou o foco das operações bem-sucedidas da PF contra a cúpula do crime organizado, ainda serviu de palanque ao delinquente para atacar mentirosamente o Governo Federal e voltou a focar nos bandidos pás-de-chinelo facilmente substituíveis pelas cúpulas deixadas em paz. O que esse sujeito ainda faz no PT?

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