A lógica da Infocracia: por que a economia melhora, mas o brasileiro não sente

Última edição em abril 19, 2026, 11:12

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A leitura dos dados da mais recente pesquisa Genial/Quaest, divulgada em 15 de abril de 2026, exige um grau de atenção que ultrapassa a interpretação imediata difundida pelos circuitos midiáticos. A assimilação apressada dos números, frequentemente acompanhada pela presença ostensiva do CEO da Quaest em programas que conjugam aparência analítica com dinâmica de espetáculo, tende a cristalizar conclusões frágeis e prematuras, quase convertidas em juízos definitivos. Esse movimento, se não for cuidadosamente examinado, pode induzir, no curto prazo, a equívocos estratégicos de efeitos duradouros, sobretudo em um contexto político marcado pela proximidade do calendário eleitoral.

O próprio levantamento, contudo, oferece um ponto de partida consistente. Os indicadores econômicos apresentam evolução, mas a percepção da população não os acompanha. Estabelece-se, assim, um descompasso persistente entre a realidade estatística e a experiência subjetiva. O diagnóstico é direto: o voto se orienta pela percepção, não pelo indicador; sem a sensação concreta de melhora, os avanços econômicos não se convertem em capital político.

Essa formulação se apoia em evidências expressivas. Metade dos brasileiros afirma que a economia piorou no último ano; mais de dois terços relatam aumento recente no preço dos alimentos; a percepção de perda de poder de compra, somada ao elevado nível de endividamento, compõe um quadro de inquietação cotidiana. A interpretação corrente deriva daí uma conclusão aparentemente lógica: o governo falharia ao comunicar seus resultados, incapaz de transformar dados positivos em sensação de bem-estar.

A imagem que sustenta essa leitura é intuitiva. Enquanto o governo celebra o crescimento do PIB ou a estabilidade da inflação média medida pelo IPCA, o eleitor organiza sua percepção a partir da experiência imediata. Se arroz, feijão e diesel encarecem, a sensação de crise se impõe, ainda que outros itens tenham recuado. A economia vivida parece, assim, desautorizar a economia medida.

No entanto, essa explicação, embora coerente em sua aparência, permanece incompleta. Ela descreve o fenômeno, mas não alcança sua estrutura. Ao atribuir o descompasso a uma deficiência comunicacional, desloca a análise para um plano superficial e, em certa medida, enganoso. A constatação apresentada pela pesquisa não deve ser tomada como explicação suficiente, mas como indício de um processo mais profundo, cuja compreensão exige ultrapassar tanto a superfície dos dados quanto o modo como são apresentados.

A experiência brasileira, observada ao longo do tempo, recomenda cautela diante de interpretações estritamente econômicas. A vida social não se esgota na variação de preços ou na evolução de indicadores agregados. O cotidiano é atravessado por múltiplas dimensões — igreja, saúde, educação, segurança, condições de mobilidade, lazer — que compõem, de maneira indissociável, a percepção de bem-estar. Para uma parcela expressiva da população, a existência se organiza, antes de tudo, em torno da necessidade de sustentar a própria sobrevivência em condições frequentemente adversas.

Nesse horizonte, seria razoável supor que melhorias em áreas não estritamente econômicas pudessem produzir efeitos perceptivos favoráveis à avaliação do governo. No entanto, tais avanços não se converteram, ao menos de forma significativa, em reconhecimento social capaz de influenciar o comportamento eleitoral. Essa ausência não invalida os progressos eventualmente alcançados, mas indica que a formação da percepção coletiva obedece a uma lógica mais complexa, que não se deixa apreender pela simples soma de resultados setoriais.

É nesse ponto que se revela um elemento menos visível, porém decisivo, na formação do juízo coletivo.

Neste ponto reside o “pulo do gato de Schroeder”.

Há, no intervalo entre realização e reconhecimento, um fator adicional — discreto, mas determinante — que escapa à observação imediata. Trata-se do ambiente em que a percepção é hoje produzida e estabilizada. É justamente aí que a análise precisa avançar, deslocando o foco da superfície dos números para as condições contemporâneas de formação da experiência social.

O que segue não constitui novidade para analistas atentos, ainda que raramente ocupe o centro do debate público.

Durante muito tempo, a leitura da realidade econômica apoiou-se em indicadores relativamente estáveis e em instituições capazes de lhes atribuir sentido. Com todas as limitações, havia alguma correspondência entre os dados produzidos e sua compreensão social.

Esse quadro se altera quando a experiência econômica passa a ser atravessada por interpretações concorrentes. A realidade deixa de ser apenas vivida ou medida e passa a ser continuamente filtrada por um fluxo intenso de informações e opiniões. O que muda, portanto, não é apenas a economia em si, mas a forma como ela se torna inteligível.

No estágio atual, essa inflexão se aprofunda. A percepção econômica torna-se objeto de construção deliberada. Diferentes atores — econômicos, políticos e midiáticos — difundem narrativas que moldam expectativas e influenciam julgamentos. A economia deixa de se restringir aos seus fundamentos materiais e passa a incluir, de modo decisivo, a disputa por sua interpretação.

Esse processo encontra, no ambiente digital, sua forma mais intensa de operação.

As plataformas organizam a circulação da informação segundo critérios de engajamento, não de precisão. Conteúdos que provocam reações emocionais intensas tendem a alcançar maior visibilidade, enquanto informações técnicas, mais complexas, encontram menor difusão. Forma-se, assim, um desequilíbrio: narrativas simples e carregadas de emoção se propagam com rapidez, ao passo que análises baseadas em dados exigem um tempo e uma atenção que raramente se sustentam nesse fluxo contínuo.

A consequência é a formação de um campo informacional profundamente assimétrico. Narrativas simplificadas, muitas vezes condensadas em memes e hashtags, alcançam ampla difusão e passam a operar como molduras interpretativas da realidade. Não se limitam a expressar percepções já existentes; contribuem ativamente para produzi-las e estabilizá-las. Pela repetição contínua, instauram um ambiente em que a sensação de crise persiste, mesmo quando os dados objetivos apontam em direção distinta.

Essa dinâmica encontra respaldo empírico. Estudos de instituições como a FGV-DAPP e a Avaaz indicam que, em períodos de maior intensidade política, uma parcela relevante das interações digitais envolve conteúdos distorcidos ou desinformativos. Mais do que isso, observa-se uma notável sincronia: anúncios de resultados positivos ou de medidas econômicas favoráveis costumam ser seguidos por ondas de contra-informação que reduzem ou neutralizam seu alcance. Levantamentos mostram que as hashtags #TudoCaro e #EconomiaNãoMelhora, amplamente difundidas desde janeiro de 2025, inundam o debate justamente nos momentos em que boas notícias econômicas são divulgadas.

Diante disso, a divergência entre indicadores e percepção, registrada pela pesquisa, deixa de parecer enigmática. Ela se apresenta como efeito previsível de um sistema em que a circulação da informação obedece a critérios distintos daqueles que orientam a produção dos dados. A chamada psicologia inflacionária é intensificada por esse ambiente, que reforça de modo contínuo a expectativa de deterioração, independentemente da trajetória efetiva dos indicadores.

Esse fenômeno foi descrito com precisão por Byung-Chul Han ao formular o conceito de Infocracia. Trata-se de uma inflexão na forma como o poder se exerce nas sociedades contemporâneas. Não se trata de substituição da coerção direta ou da autoridade institucional, mas de sua reconfiguração em um regime no qual o poder passa a operar predominantemente por meio da informação e de sua circulação. Nesse contexto, a informação deixa de ser apenas registro do mundo para tornar-se elemento ativo na sua configuração, alterando não só os fluxos informacionais, mas também a produção da verdade e a formação da opinião pública, agora mediadas por dados, algoritmos e dinâmicas digitais.

Em um ambiente saturado, a distinção entre verdade e falsidade perde nitidez, não pela imposição de uma narrativa única, mas pelo excesso, pela fragmentação e pela velocidade. Esse cenário compromete a capacidade de julgamento crítico e enfraquece a construção de um espaço comum compartilhado. A informação, frequentemente imbricada com a desinformação, não apenas interpreta a experiência vivida, mas molda percepções e afetos, muitas vezes desvinculados de bases estáveis. Nesse cenário, informação, desinformação e contra-informação operam como gêmeas xipófagas, indissociáveis em sua circulação, embaralhando continuamente os critérios de verdade e intensificando a instabilidade perceptiva que sustenta a própria lógica da Infocracia.

Nesse regime, o que prevalece não é a consistência do conteúdo, mas sua capacidade de circulação. A viralidade tende a ocupar o lugar da verificação. Um dado econômico não se impõe por sua solidez, mas por sua aptidão para se difundir e mobilizar reações. A percepção coletiva passa, assim, a derivar menos de processos orientados por evidências e mais de dinâmicas de propagação.

A Infocracia não elimina a realidade material, mas transforma o acesso a ela. Entre os fatos e sua compreensão interpõe-se uma mediação digital intensa, estruturada por algoritmos que favorecem certos formatos de conteúdo. Nesse ambiente, o discurso técnico perde alcance relativo, enquanto análises qualificadas encontram maior dificuldade para circular amplamente.

Esse enquadramento ajuda a compreender a repercussão limitada dos chamados “bons números” do governo. A questão não se restringe à forma de comunicação, mas ao ambiente em que ela se insere. Em um sistema orientado pelo engajamento, conteúdos críticos e alarmistas dispõem de vantagem estrutural. A percepção que se consolida não é, necessariamente, a mais fiel aos dados, mas a que melhor se ajusta às lógicas de difusão.

A tese de que o governo enfrenta apenas um problema de comunicação revela-se, portanto, insuficiente e, em certa medida, enganosa. Ela sugere que bastaria ajustar a linguagem ou intensificar a divulgação para aproximar percepção e realidade. No entanto, desconsidera que essa disputa se dá em um terreno profundamente assimétrico, no qual os critérios de visibilidade são definidos por mecanismos que escapam ao controle institucional.

Isso não implica minimizar a importância da comunicação governamental, que pode e deve ser aprimorada. Significa, antes, reconhecer que o desafio a ultrapassa. A formação da percepção econômica tornou-se um processo distribuído, no qual interações cotidianas, redes de confiança e formas diretas de comunicação ganham relevo justamente por não dependerem integralmente da mediação algorítmica.

A leitura dos dados da Quaest, quando situada nesse horizonte mais amplo, adquire outra espessura. O descompasso entre indicadores e percepção não decorre prioritariamente de falhas de tradução, mas da existência de um regime informacional que reorganiza continuamente o modo como a realidade é apresentada e interpretada. O eleitor não decide apenas com base no que vive, mas a partir do que lhe é oferecido como narrativa plausível.

Compreender essa transformação é condição para uma análise rigorosa do cenário atual. Ela não elimina a materialidade da economia, mas redefine os caminhos pelos quais ela se torna inteligível para a sociedade. Entre o dado e o julgamento político, interpõe-se uma mediação intensa, na qual a informação não apenas circula, mas molda e orienta, em larga medida, a percepção coletiva.


Foto decapa: Fila de clientes em supermercado | Cristiane Gercina/Folha de S.Paulo

Sobre o autor

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Edward Magro
Ensaísta político e colaborador da RED.

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Respostas de 2

  1. Deu um pouco de vergonha alheia esse artigo. A questao obvia é que os indicadores economicos de sucesso de um país medem única e exclusivamente os indicadores de sucesso dos grandes conglomerados financeirizados do país e frequentemente transferem melhorias reais do trabalhador e pequeno empresário para o mercado especulador que não produz nada. A infocracia não é os jornais, é o mercado financeiro que manipula as notícias e que há 70 anos se infiltrou nas universidades de economia pra ensinar ideologia pseudo-religiosa como se fosse ciência material sobre o desenvolvimento economico

  2. Brilhante artigo!

    Foi extremamente feliz e inspirador lançar mão do conceito de infocracia, de Byung-Chul Han, para iluminar a fluidez dos afetos do cidadão informacional — aquele que se imagina livre, mas que, na verdade, se move sob condicionamentos invisíveis, como o próprio autor sugere.
    Raros são os ensaios políticos que alcançam tal grau de clareza e lucidez ao enfrentar uma questão incômoda: por que o brasileiro médio se deixa capturar por narrativas que, em muitos casos, contrariam sua própria experiência concreta de vida? Trata-se daquele que atravessou a fome durante o governo Bolsonaro, que viu a degradação material chegar ao ponto de reaparecer o consumo de ossos, como hoje se observa também na Argentina sob Milei; daquele que perdeu familiares na pandemia ou direitos trabalhistas duramente conquistados. Ainda assim, há um deslocamento perceptivo que merece ser compreendido.
    O texto acerta ao identificar o núcleo desse fenômeno: a circulação vertiginosa de conteúdos, cuidadosamente calibrados pelos algoritmos das big techs, que amplificam e sofisticam a máquina de comunicação política — em especial a produção oriunda do chamado gabinete do ódio. Esse fluxo contínuo não apenas informa, mas molda afetos, produzindo uma adesão que prescinde da verificação empírica da realidade.
    Nesse ambiente, já não importa tanto a experiência material — comer ou não comer, melhorar ou piorar de vida —, mas a sensação induzida de pertencimento, de identidade e de ressentimento. A percepção passa a ser mediada por um ecossistema que combina mídias tradicionais (UOL, Globo, Estadão, Record, Bandeirantes) e plataformas digitais, gerando uma espécie de realidade paralela, desconectada dos fatos, mas altamente eficaz do ponto de vista mobilizador.
    É esse núcleo duro — a convergência entre mídia e plataformas tecnológicas — que o governo enfrenta cotidianamente e que continuará a representar um desafio central para Lula no processo eleitoral.

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