O acordo de delação pretendido por Daniel Vorcaro tem, grosso modo, dois objetivos centrais: [1] preservar grande parte das dezenas de bilhões de reais roubados, e [2] proteger o braço político bolsonarista, de direita e ultradireita implicado com o esquema mafioso e/ou dele beneficiário.
Nas duas tentativas de acordo, o banqueiro ocultou praticamente tudo, e só entregou à PF e ao Ministério Público Federal/MPF as informações já publicadas pela imprensa, ou aquelas situações descobertas pela Operação Compliance Zero.
Ele só forneceu dados sobre sua “amizade de vida” com Ciro Nogueira, o presidente corrupto do PP, para quem pagava propina mensal de R$ 500 mil, depois que a 5ª fase da Compliance foi realizada; e ele somente assumiu o repasse de pelo menos R$ 61 milhões para o clã Bolsonaro após a repercussão da reportagem do site Intercept Brasil.
A PF apreendeu muitos equipamentos eletrônicos de Daniel Vorcaro –telefones celulares e computadores– que armazenam uma enormidade de provas sobre o esquema mafioso e seus tentáculos na mídia, no judiciário, no Congresso, na Faria Lima, no crime organizado, no Banco Central, na polícia e nos governos estaduais e municipais comandados por partidos de direita e extrema-direita.
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Segundo divulgado, foi apurada apenas uma minúscula parte desse enorme acervo de provas dos crimes do Vorcaro.
Por isso, não faz absolutamente nenhum sentido a PF e o MPF aceitarem discutir qualquer acordo de delação sem antes examinarem a fundo e de modo exaustivo a totalidade do conteúdo apreendido.
E só então, à luz do que for encontrado após a análise dos dados, se deveria avaliar a eventual pertinência em se assinar um acordo, e desde que necessário para preencher lacunas essenciais para a investigação.
Caso contrário, não faz sentido orientar toda investigação criminal a partir do emolduramento que o próprio Vorcaro pretende dar na delação que tem como objetivo blindar comparsas e aliados políticos e recuperar o controle da fortuna entesourada secretamente em fundos financeiros mundo afora.
É escandaloso o mafioso ainda poder dispor de milhões de dinheiro roubado para pagar a peso de ouro as mais renomadas bancas de advogados do país para fazerem lobby pela delação e tentarem influenciar os tribunais.
Todas as fontes de bens e de dinheiro que continuam sendo usadas para financiar Vorcaro já deveriam ter sido sequestradas pela justiça, até o último centavo, para se recuperar o máximo possível do roubo bilionário de fundos de previdência de funcionários públicos municipais e estaduais e dos desfalques no BRB e no Fundo Garantidor de Crédito.
Sem nenhum prejuízo ao pleno direito de defesa, Vorcaro dispõe da assistência jurídica da Defensoria Pública para defendê-lo durante a investigação e para representá-lo em caso de eventual acordo de delação. Nesse teatro de absurdos que é a tentativa do mafioso bolsonarista de delimitar o quê e quem deve ser investigado, aceitar um acordo de delação com ele seria o absurdo dos absurdos.
Foto de capa: Aroeira





