Para salvar candidatura, Flávio rifa a soberania brasileira | Por Edelberto Behs

Viagem aos Estados Unidos, aproximação com Donald Trump e discursos sobre segurança pública reacendem o debate sobre soberania nacional, influência externa e os limites da atuação política em busca de viabilidade eleitoral.
Última edição em junho 4, 2026, 02:14

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– Papai, a conta do Master pesou. Deu ruim! O que é que eu vou fazer para diminuir o dano e o povo continuar acreditando em mim?

– Filho, não é a primeira vez que estamos imprensados pelos fatos. Tu admitiste o dinheiro do Vorcaro para financiamento do Dark Horse. Talvez era o momento de ficar quieto. Mas falaste. Agora, vamos tratar de virar o jogo. Alegar que o Master é do Lula e o Pix é meu, como dizia uma camiseta tua, não se sustenta mais. O Escritório de Representação Comercial dos Estados Unidos está questionando o pix, alegando que seria uma concorrência desleal aos cartões de crédito de bandeira americana. A única saída que vejo é tu te encostares no tio Trump.

– No Donald Trump, nos Estados Unidos?

– Sim, uma foto com ele, uma mensagem dele…

– Então vou ter que viajar aos States?

– Não tem outra, meu filho. Pegue o Eduardo pelo braço e leva ele junto. Afinal, estou bancando a estada dele nos Estados Unidos e ele pode abrir caminhos por lá. O Trump é nosso amigo e tu já disseste pra ele que, se eleito, vais abrir o Brasil para que os americanos possam explorar terras raras que temos.

E deu no que deu. O secretário de Estado, Marco Rubio, designou o PCC e o CV como organizações terroristas, assim que os Estados Unidos, sob o pretexto de caçar “terroristas”, pode interferir na vida, na segurança, nos investimentos na República do Brasil. Até parece que os Estados Unidos não têm problemas com gangues, com comércio de drogas, com atiradores, tanto que o próprio Trump foi alvejado na orelha. Que tratem de combater seus bandidos primeiro.

A pergunta que cabe a gente gritar: mas quem dá aos Estados Unidos esse poder de interferência, como o fez, militarmente, na Venezuela, tirando um presidente do cargo e prendendo-o? Qual é o foro internacional que dá esse poder aos Estados Unidos? Essa ingerência da maior potência militar do mundo está vinculada a uma ideologia e amparada na força, nas armas, nos tanques e nos porta-aviões. Essa de entendê-los como o guardião das Américas não se sustenta em nenhum cabide legal! O que vale é a autodeterminação dos povos!

Mas os Estados Unidos recorrem à Seção 301 da Lei do Comércio, de 1974, criada pelo Congresso dos Estados Unidos. Não foi a ONU, a Organização Mundial do Comércio. Foram eles para eles, sob a justificativa estariam trocando a lógica do livre comércio, que eles seguidamente defendem, pelo comércio justo! E uma negociação “injusta” para as bandeiras de cartões de crédito estadunidenses é o pix brasileiro, na análise do Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos, sobre o qual Trump tomará a decisão se a valida ou não.

Mas para “salvar” sua candidatura, Flavinho vai aos Estados Unidos, lamber as botas dos estadunidenses e, com o reconhecimento deles de que PCC e CV são “terroristas”, e que, pior isso, eles precisam capar toda a ameaça que porventura venha a pairar sobre os States, o Brasil se fragiliza como República independente. Flávio, ligado à milícia, promete, como pré-candidato, mais um pedaço, além das terras raras, da soberania brasileira a um poder estrangeiro. Isso se chama, no mínimo, de traição.

Em análise sobre a medida autoritária de Marco Rubio, o diretor executivo do Instituto Cidade Segura, Alberto Kopittke, assinala, em matéria de Marcelo Menna Barreto, publicada no portal Extra Classe, que os Estados Unidos poderiam colaborar de maneira mais efetiva, combatendo a lavagem de dinheiro internacional, o que enfraqueceria financeiramente as organizações criminosas. A classificação das facções como terroristas cria um simbolismo político forte, mas não enfrenta os mecanismos econômicos que sustentam essas organizações. Kopittke menciona, ainda, que parte significativa dos fuzis apreendidos no Rio de Janeiro tem origem em território estadunidense. Antes de meter o bedelho em território alheiro, que tratem de segurar seus próprios “terroristas”.

A iniciativa do secretário de Estado Rubio é uma interferência na corrida presidencial brasileira e um desgaste ao governo Lula, que queria negociar com os Estados Unidos essa questão da luta contra o crime organizado. E agora tem outra brecha aberta: o governo Trump ameaça com nova sobretaxa de 25% a certos produtos brasileiros. Embora Flávio et caterva tenham festejado a medida que entende o CV e o PCC como organizações terroristas, também entra na conta da famiglia essa sobretaxa, se for aprovada por lá. Agora cabe aos eleitores e eleitoras brasileiros/as fazerem a leitura da ingerência de uma nação estrangeira nas bananeiras do Brasil.

Outra dedução é que Trump age como todo representante da extrema direita: o que se diz não se escreve, ou se se escreve uma decisão hoje amanhã ela pode ser o contrário. O secretário de Estado não tomaria uma medida dessas sem a anuência de Trump!

Para brasileiros e brasileiras fica claro, porém, quem defende a soberania nacional e quem a entrega de mão beijada a uma foça estrangeira! A gente já viu Jair Messias bater continência para a bandeira dos Estados Unidos.


Foto de capa: Lula Marques/Agência Brasil

Sobre o autor

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Edelberto Behs
Jornalista, Coordenador do Curso de Jornalismo da Unisinos durante o período de 2003 a 2020. Foi editor assistente de Geral no Diário do Sul, de Porto Alegre, assessor de imprensa da IECLB, assessor de imprensa do Consulado Geral da República Federal da Alemanha, em Porto Alegre, e editor do serviço em português da Agência Latino-Americana e Caribenha de Comunicação (ALC).

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