Depois do acordo com a União Europeia, o Senado ainda tem dois acordos comerciais do Mercosul para analisar, com Singapura e com a Associação Europeia de Livre Comércio (Efta), outro bloco europeu que une Suíça, Noruega, Islândia e Liechtenstein. Como no caso da União Europeia, são acordos de livre comércio, que eliminam tarifas e alavancam mercados. No fundo, o governo brasileiro sabe que esse é que é o problema do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Ele reage fortemente ao cada vez maior amadurecimento de um processo que, no início, os EUA ajudaram a gestar após a Segunda Guerra Mundial: o multilateralismo. O problema é que esse processo reduziu a dependência dos EUA.
O gigante do Norte reage
O gigante do Norte perde relevância. E reage. No caso específico do Brasil, desde 2009 perdeu o posto de principal parceiro comercial para a China. E, no final, toda essa pressão tarifária, dificultando negócios, acaba podendo ser um tiro pela culatra. Empurra o Brasil a intensificar a relação com a China. Isso agora acontece com a carne. Na terça-feira, a China reconheceu o Brasil como país livre de febre aftosa.
Carne avança na China

Nesta quarta-feira (3), o Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora) assinou com a Tianjin Meet Association carta que dá início a parceria para alcançar o certificado Beef on Track (BoT), uma certificação internacional de carne sem desmatamento, respeitando normas socioambientais. A cidade portuária de Tianjin é a principal porta de entrada da carne bovina brasileira na China, e será a protagonista do projeto piloto para o selo BoT, criado pela Imaflora. É um exemplo do avanço que o Brasil teve nos últimos anos.
Vice na ponta da negociação
Essa busca por alternativas é bem anterior ao tarifaço de Trump. Mas intensificou-se em ações do vice-presidente Geraldo Alckmin quando era ministro da Indústria e Comércio e de Jorge Viana na presidência da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasi). O que não elimina a negociação com os EUA. E Alckmin volta a esse jogo.
Protagonista
Na negociação do primeiro tarifaço de Trump, Geraldo Alckmin foi um dos principais protagonistas. E agora está a postos para exercer o papel novamente, mesmo tendo entregue o Ministério da Indústria e Comércio para Márcio Elias Rosa. Márcio era o secretário-executivo de Alckmin.
Ferramentas
O governo avalia que a experiência do primeiro tarifaço aprimorou as suas ferramentas. E será com elas que Alckmin irá lidar. Inclusive com a possibilidade de reciprocidade, a partir da lei que foi aprovada no Congresso, com relatório da senadora de oposição, Tereza Cristina (PP-MS).
Empresários
Não apenas o agro, mas os segmentos empresariais como um todo. Um dos principais papéis exercidos por Alckmin decorre da sua boa relação com o setor produtivo. No primeiro tarifaço, um dos ganhos, avalia o governo, veio da forma como Alckmin aproveitou soluções surgidas do próprio meio empresarial.
Exceções
Mesmo no pior momento do tarifaço 1, já havia uma lista com mais de 700 exceções que os Estados Unidos não sobretaxariam. Estão aí os principais itens de exportação brasileira para o país, caso do café. Tais exceções vão permanecer. A taxação muitas vezes é uma arma contra os próprios EUA, encarecendo produtos que o país consome.
Defesa
Uma coisa que também avançou após a experiência do primeiro tarifaço foi a criação de instrumentos de defesa privados para evitar a ação de Trump. As empresas não tinham muitas vezes escritórios de advocacia atuando no país na defesa dos seus interesses. Agora têm. E muito disso decorreu de Alckmin.
Ajuda
“Vocês têm também que se organizar”, era o mantra repetido por Geraldo Alckmin nessas reuniões. Um mantra que surtiu efeito. Muitas vezes o açodamento de Trump ao ameaçar suas retaliações esbarra na própria legislação dos Estados Unidos, um país cioso por honrar contratos e segurança jurídica.
Publicado originalmente no Correio da Manhã.
Foto de capa: Alckmin volta a ter papel de destaque na negociação | Marcelo Camargo/Agência Brasil





