Policiais não são heróis, são trabalhadores e merecem viver! | Por Bruno Giovannini de Paulo

Transformados em símbolos permanentes de guerra e heroísmo, muitos policiais acabam abandonados por um sistema que glorifica sua imagem pública, mas negligencia sua saúde mental, sua vulnerabilidade humana e as consequências psicológicas da violência cotidiana.
Última edição em maio 28, 2026, 08:29

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Existe uma diferença profunda entre estar empregado e ser policial.

Se você é contratado por uma empresa privada, sua carteira é assinada, você recebe treinamento para exercer determinada função e passa a trabalhar dentro de um horário definido. Você está empregado. Sua profissão ocupa parte da sua vida, mas não pretende ocupar sua identidade inteira.

Com o concursado comum acontece algo parecido. Aprovado em um concurso público, ele assume um cargo, passa a ter estabilidade relativa, treinamento específico e uma rotina funcional delimitada. Ele está concursado.

Mas no universo policial a lógica muda completamente.

A academia de polícia não pretende apenas ensinar técnicas de trabalho. Ela busca transformar o indivíduo. O ex-concurseiro deixa de apenas exercer uma profissão e passa a aprender que ele é polícia.

Pode parecer detalhe semântico, mas não é.

O novo policial aprende rapidamente que não existe separação clara entre vida profissional e vida privada. Ensina-se que policial é policial vinte e quatro horas por dia. Que deve desconfiar de todos, observar tudo, estar sempre pronto para reagir. O treinamento não gira apenas em torno de procedimentos técnicos; gira em torno da construção de uma identidade.

Você não é mais um trabalhador comum. Você é o combatente do bem. O guerreiro que enfrenta o mal. O homem ou mulher que protege a sociedade contra seus inimigos.

E essa construção simbólica produz consequências profundas.

Até atividades banais passam a ser reinterpretadas pela lógica do policiamento permanente. Ir a um restaurante deixa de ser apenas jantar. O policial aprende onde deve sentar para visualizar entradas e saídas em caso de assalto. Caminhar na rua deixa de ser lazer; passa a exigir vigilância constante. Novas amizades tornam-se suspeitas. O perigo estaria em todos os lugares.

Existe ainda um elemento silencioso e perverso nesse processo: a ideia de que buscar ajuda psicológica demonstra fraqueza.

Aos poucos, muitos incorporam completamente esse discurso. Não são mais trabalhadores investidos de função pública. Passam a acreditar que são diferentes dos demais cidadãos. Que ocupam um lugar moralmente superior porque enfrentam o risco, lidam com armas e convivem diariamente com a violência.

O problema é que a realidade concreta do trabalho policial raramente corresponde à fantasia heroica ensinada durante a formação.

O policial é preparado psicologicamente para a guerra, mas seu cotidiano costuma ser composto por conflitos familiares, pequenos furtos, brigas de vizinhos, usuários de drogas, pobreza e miséria social.

Seu corpo e sua mente são treinados para o enfrentamento constante, enquanto sua remuneração continua vinculada apenas às horas formais de trabalho. A instituição lhe ensina que ele é diferente dos demais cidadãos, mas a sociedade frequentemente só o deseja por perto em momentos de crise.

Na festa, o policial fica na porta fazendo segurança. Só é chamado para entrar quando surge problema — e convidado a sair logo depois que tudo se resolve.

Existe também uma contradição ainda mais dura.

Durante toda a formação, o policial aprende que existe uma guerra permanente e que seus inimigos querem sua eliminação. Mas quando extrapola limites legais em nome dessa lógica de combate — seja por violência excessiva, agressões ou tortura — descobre rapidamente que está sozinho.

A guerra institucional desaparece e sobra apenas a corregedoria.

O policial passa então a responder criminalmente com seus próprios recursos, pagando advogados particulares e convivendo com o risco de perder o cargo. E há um detalhe cruel nisso tudo: muitos dedicaram tanto tempo exclusivamente à identidade policial que já não conseguem se imaginar fazendo qualquer outra coisa fora da corporação.

Quando todas essas pressões entram em ebulição — vigilância constante, medo, sensação de abandono, desgaste psicológico, agressividade acumulada e isolamento emocional — o resultado costuma aparecer dentro da própria casa.

A violência transborda para a família, para os amigos e para o próprio policial.

Talvez o dado mais chocante sobre isso seja justamente o menos debatido. Em 2024, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 170 policiais civis e militares morreram em confronto no Brasil. No mesmo período, 126 policiais cometeram suicídio.

Ou seja: os policiais brasileiros estão quase se matando na mesma proporção em que são mortos em serviço.

Isso deveria nos assustar muito mais do que assusta.

Porque talvez exista algo profundamente errado em uma estrutura que ensina homens e mulheres a viverem permanentemente em estado de guerra, mas oferece pouquíssimo suporte emocional quando essa guerra passa a acontecer dentro da própria cabeça.

E talvez parte da solução passe justamente por destruir essa ideia de que o policial “é” polícia o tempo inteiro.

Policial é trabalhador.

Ele está policial, assim como alguém está médico, professor, motorista ou servidor público durante sua jornada profissional. A profissão não pode devorar completamente a identidade da pessoa.

Quando o policial passa a acreditar que ele é apenas polícia, tudo o mais começa a desaparecer: o pai, o marido, a esposa, o amigo, o filho, o sujeito comum que deveria existir para além da farda.

E isso interessa muito às instituições. Um policial que vive exclusivamente para a corporação trabalha mais, questiona menos, aceita mais sacrifícios e naturaliza com mais facilidade o próprio sofrimento.

Mas nenhum ser humano consegue viver permanentemente em estado de alerta sem adoecer.

O policial precisa voltar a se enxergar como trabalhador porque trabalhador descansa, trabalhador adoece, trabalhador tem direitos, trabalhador pode procurar ajuda psicológica sem vergonha, trabalhador pode desconectar do serviço e voltar para casa sem carregar o peso simbólico de uma guerra eterna.

Talvez esse seja o primeiro passo para reduzir o adoecimento dentro das corporações: abandonar a fantasia do herói e recuperar a humanidade do trabalhador.

E o mais curioso é perceber como, paralelamente a esse adoecimento, cresceu no Brasil uma verdadeira idolatria política da figura do policial.

Nos últimos anos, consolidou-se no Congresso Nacional uma poderosa bancada armamentista e policial, que construiu enorme capital político explorando simbolicamente a imagem das forças de segurança. O policial virou slogan, virou palanque, virou fantasia eleitoral.

A retórica é sempre grandiosa: “heróis”, “guerreiros”, “linha de frente do combate ao crime”, “homens de bem armados protegendo a sociedade”.

Mas, na prática, o que efetivamente foi construído para proteger o policial enquanto trabalhador?

Pouco ou quase nada.

Não se vê mobilização proporcional por melhores condições psicológicas, acompanhamento psiquiátrico permanente, redução do adoecimento mental, proteção jurídica institucional ou programas robustos de reinserção profissional para policiais afastados.

Grande parte dessa direita armamentista parece gostar muito mais da imagem do policial do que do policial real.

A imagem rende votos. O homem real adoece, se mata, responde processo disciplinar sozinho, destrói a própria família e enfrenta depressão em silêncio.

O policial interessa enquanto símbolo político de força, autoridade e combate. Enquanto produz engajamento, medo e capital eleitoral.

Porque defender o policial de verdade exigiria enfrentar temas muito menos glamourosos: saúde mental, alcoolismo, suicídio, jornadas exaustivas, assédio institucional, abandono jurídico e precarização emocional.

Mas isso não produz vídeo viral segurando fuzil.

No fundo, talvez exista uma grande ironia nisso tudo: setores políticos que mais estimulam a ideia do policial-herói são justamente os que menos permitem que o policial seja visto como aquilo que ele realmente é — um trabalhador vulnerável, limitado, emocionalmente exposto e profundamente descartável para o próprio sistema que o glorifica em público.


Foto de capa: © Tânia Regô/Agência Brasil

Sobre o autor

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Bruno Giovannini de Paulo
Delegado de Polícia. Doutor em Sociologia pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Membro do Grupo de Estudos Sobre Violência e Gestão de Conflitos (GEVAC - UFSCar). Mestre em Teoria do Direito e do Estado pela UNIVEM (2016-2017). Especialista em Direito Penal pela Universidade Paulista.

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