Dizem que é preciso avançar.
Desde que o avanço desorganize os outros.
Há quem se coloque como intérprete do futuro. Falam com convicção, gráficos bem domesticados e uma familiaridade perniciosa com o amanhã. Antecipam movimentos, calibram expectativas, traduzem o mundo em curvas suaves.
Tudo limpo.
Técnico.
Inexorável.
Mas há algo que não perece.
Por trás da linguagem de fronteira, repousa um vocabulário antigo.
Trocam-se os termos, preservam-se os limites.
Atualiza-se a forma, mantém-se o conteúdo.
A vanguarda, nesse caso, não inaugura.
Administra.
Otávio, economista da Faria Lima, explica com serenidade:
— A gente precisa ter parcimônia, né. Crescer, sim, mas sem descontrole. O mercado olha isso.
Fala arrastado.
Enquadra tudo no seu tom.
— Não dá pra forçar muito. Tem que ir calibrando.
— É o que dá pra fazer.
Otávio não grita.
Pondera.
E, ao ponderar, delimita.
Recomendam prudência quando o crescimento ameaça escapar.
Invocam responsabilidade quando a renda ensaia espraiar.
Sugerem moderação quando o presente insinua o futuro.
Nada contra a cautela.
O problema é quando deixa de ser escolha.
A economia passa a ser vigiada.
Avança-se, desde que para dentro.
Expande-se, sem alterar o desenho.
Por fora, tudo é moderno.
Relatórios sofisticados, modelos refinados, projeções em alta definição.
Por dentro, a engrenagem repete.
Não é erro.
É escolha.
Há uma arquitetura incolor que se impõe.
É nela que a vanguarda se acomoda — para que tudo siga funcionando.
A dissonância não aparece como conflito.
Surge como consenso técnico.
E o consenso, como sempre, não precisa se explicar.
No fim, não falta mudança.
Ela é contida.
A novidade chega disciplinada.
O impulso, filtrado.
O possível já nasce enquadrado.
E assim seguimos.
Assistindo à encenação de um futuro que não rompe, apenas troca de roupa.
Porque, no fundo, o que se chama de vanguarda cumpre bem a sua função:
guardar o passado, a sete chaves, e calibrar o futuro até que ele caiba num nada organizado.
Foto de capa: IA





