CORRESPONDENTE POLÍTICO | 96 milhões sem ação

Última edição em abril 20, 2026, 11:04

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Na Copa de 1970, quando ainda era bem menor a população brasileira, a música que embalou o tri começava dizendo: “90 milhões em ação”. Curiosamente, é um número bem próximo daqueles que, na pesquisa espontânea da Quaest, se declaram ainda indecisos: 62%, o que, transformado em números dá 96 milhões de eleitores. O voto espontâneo é aquele no qual não se apresenta uma lista de candidatos. É verdade que esse percentual se reduz bastante quando se apresenta uma lista de candidatos: os indecisos ficam apenas em 5%. Mas o dado é importante porque mostra um percentual muito alto de pessoas que ainda não fixaram de fato uma preferência eleitoral.

Eleitor entra e digita o número

E, no fundo, é assim que atualmente se vota com a urna eletrônica. O antigo voto impresso era mais próximo da experiência na qual se mostra uma lista de candidatos. Os nomes estavam na cédula e o eleitor escolhia um. Com a urna eletrônica, não há mais uma lista apresentada ao eleitor, ele entra e digita o número do seu candidato. Na avaliação dos cientistas políticos André Cesar e Alvaro Maimoni, da Hold Assessoria, o dado importa.

Só depois da Copa do Mundo

Entre hoje e as eleições, haverá uma Copa do Mundo | Foto: Divulgação

Em um artigo intitulado “Governo em Xeque?”, Cesar e Maimoni apontam que as eleições de outubro ainda estariam em aberto, embora muito desafiadoras para a reeleição do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. “Somente depois das convenções em junho ou julho é que os partidos oficialmente definirão seus candidatos”, observa André Cesar. “É só a partir daí que o eleitor de fato começará a considerar mais”, continua. E, aí, retornamos ao ponto inicial desta coluna: “Hoje, o número de pessoas preocupada com a Copa do Mundo é maior”, diz André.

Governo mantém vitórias

Ou seja, será comente depois que os 96 milhões entrarão “em ação”. Se serão capazes ou não de virar a tendência eleitoral, só o tempo dirá. Mas, para André e Maimoni, há hoje uma série de fatores que indicam cautela quanto ao que acontecerá daqui a seis meses. Para os dois cientistas políticos, o governo Lula teve e tem vitórias pontuais que não podem ser desprezadas.

CPIs

Vitórias que mostram que, pelo menos, respira quanto à sua articulação política. Na semana passada, por exemplo, aprovou o nome do deputado Odair Cunha (PT-MG) para o Tribunal de Contas da União. Caminha para aprovar o advogado-geral da União para o STF. Derrubou relatórios de duas CPIs.

Economia

Na avaliação de André Cesar, há um descolamento hoje do sentimento das pessoas com relação aos dados reais da economia. Os dados de inflação, desemprego, valorização da moeda não deveriam refletir o sentimento da população quando mais da metade aponta na pesquisa que a economia piorou.

Comunicação

“E aí, isso será muito tarefa da comunicação”, observa o cientista político. Para André Cesar, as críticas que são feitas de que a equipe de Sidônio Palmeira hoje não consegue fazer levar à população esses ganhos não seriam injustas. Entre pacas e escolas de samba, tudo isso se dilui.

Novidades

Para André Cesar, ainda que as pesquisas mostrem a polarização entre Lula e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), será preciso avaliar as novidades. Como a possível entrada de Ciro Gomes como candidato pelo PSDB. “Não parece provável, e não duvidaria se ele viesse a ter desempenho pior que em 2022, mas será preciso observar”.

Troca

Ou mesmo a troca de Lula. Ventilada pelo próprio presidente, a ideia, até por isso, não deve ser descartada. Na sexta-feira (17), em entrevista ao jornal alemão Der Spiegel, novamente Lula sobre sua candidatura disse que “depende”, embora tenha dito que sua disposição é de “100%” e que irá “ganhar”.

Haddad

Algumas pesquisas não oficiais já estariam testando a hipótese de Haddad no lugar de Lula. Ele entrou no jogo pelo governo de São Paulo com índices que surpreenderam. “A atuação no Ministério da Fazenda o credenciou na Faria Lima”, observa André. O jogo, assim, ainda não está jogado.


Publicado originalmente no Correio da Manhã.

Foto de capa: Há problemas, mas governo tem vitórias no Congresso | Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil

Sobre o autor

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Rudolfo Lago
Ex-diretor do Congresso em Foco Análise, é chefe da sucursal do Correio da Manhã em Brasília. Formado pela UnB, passou pelas principais redações do país. Responsável por furos como o dos anões do orçamento e o que levou à cassação de Luiz Estevão. Ganhador do Prêmio Esso.

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