Crescimento sem distribuição: a desigualdade como estrutura do país

Última edição em abril 19, 2026, 06:29

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Desigualdade social no Brasil - Foto de Wilson Dias/Agência Brasil

Mesmo com melhora recente da renda e redução da pobreza, o Brasil segue entre os países mais desiguais do mundo — e essa estrutura condiciona a economia, a percepção social, o comportamento político e o voto.

Este é o terceiro artigo da série – Brasil 2026: entre dados, percepções e narrativas — como se decide o voto em um país sob tensão.

O limite invisível do crescimento

O custo de vida elevado, o crédito caro e o endividamento das famílias — analisados no artigo anterior — não são fenômenos isolados. Eles se inserem em uma característica mais profunda da sociedade brasileira: sua estrutura altamente desigual.

É ela que explica por que avanços relevantes — como a queda do desemprego e a elevação da renda — não se traduzem, de forma proporcional, em bem-estar generalizado. O crescimento econômico ocorre, mas seus efeitos se distribuem de maneira assimétrica, preservando a estrutura social que organiza o país.

Segundo dados do Banco Mundial, o Brasil mantém um índice de Gini em torno de 0,518 situando-se mais recentemente entre aproximadamente 0,49 e 0,52 (sendo 0 igualdade perfeita e 1 desigualdade máxima), permanecendo entre as sociedades mais desiguais do mundo. Estimativas baseadas em dados tributários indicam que o 1% mais rico concentra cerca de 25% a 30% da renda nacional.

Esses números não expressam apenas uma desigualdade elevada, mas uma forma específica de organização social, que se reproduz de maneira persistente ao longo do tempo.

Mudança sem transformação estrutural

A manutenção histórica da desigualdade no país não significa imobilidade absoluta. É importante reconhecer que houve avanços e que ocorreu melhora recente em indicadores sociais importantes.

Estudos recentes do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada/IPEA indicam melhora em indicadores de renda e redução da pobreza nos últimos anos, especialmente em 2024. Desde o Plano Real, a renda per capita cresceu 70% e políticas sociais contribuíram para reduzir em 18% os níveis mais extremos de privação. Ainda assim, essa trajetória não foi contínua e sofreu interrupções importantes.

No entanto, esses avanços operam dentro de limites estreitos. Eles alteram margens, mas não reconfiguram a estrutura. O Brasil melhora, mas não transforma sua desigualdade estrutural.

Essa diferença é decisiva. Em termos sociais, significa que a maioria da população pode experimentar alguma melhora relativa sem que isso implique mobilidade efetiva. Em termos econômicos, significa que o crescimento não se traduz em expansão ampla e equilibrada do consumo. Em termos políticos, significa que os indicadores positivos não são suficientes para produzir sensação de progresso coletivo.

Um país entre os mais desiguais do mundo e mais desigual que seus vizinhos

A comparação internacional torna a desigualdade estrutral ainda mais evidente. Mesmo sendo a maior economia da América Latina, o Brasil segue mais desigual do que países latino-americanos comparáveis.

Esse descompasso indica que o problema não reside apenas no nível de desenvolvimento, mas na forma como a renda é apropriada e distribuída. O país produz riqueza, mas a mantém de maneira altamente concentrada.

O tamanho da economia brasileira não se traduz em melhor distribuição de renda.

A desigualdade como experiência social

desigualdade não é apenas um dado estatístico. Ela se manifesta de forma concreta no cotidiano.

Dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada/IPEA indicam que cerca de 5,5% da população vivem em extrema pobreza, enquanto aproximadamente 11,5% se encontram abaixo da linha ampliada de pobreza. Além deles, cerca de 30% dos brasileiros vivem com renda muito baixa, ou seja, com menos de R$ 21,25 por dia.

Além disso, há desigualdades marcantes na população pobre.

A pobreza entre pessoas negras é mais que o dobro da observada entre brancos, mais concentrada nas regiões Norte e Nordeste e com forte presença nas periferias urbanas. Trata-se de uma desigualdade que combina dimensões econômicas, raciais e territoriais.

Essa condição não apenas limita o acesso a bens e serviços, mas define o horizonte de expectativas.

Um limite ao próprio crescimento econômico

A desigualdade atua, ao mesmo tempo, como resultado e como limite do próprio funcionamento econômico. A concentração de renda restringe o consumo, reduz o dinamismo do mercado interno e dificulta trajetórias sustentadas de crescimento.

A Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL) tem reiterado que essa região apresenta níveis de concentração elevados: os 10% mais ricos ficam com cerca de um terço da renda (em torno de 34%), enquanto os 10% mais pobres concentram apenas entre 1% e 2%.

O Brasil não foge a esse padrão — é um de seus exemplos mais expressivos.

Nesse contexto, o crescimento tende a ocorrer de forma desigual, com efeitos limitados sobre a base da sociedade.

Forma-se, assim, um padrão recorrente: a economia avança, mas seus benefícios não se difundem plenamente.

A base social comprimida

A estrutura da renda brasileira revela um padrão recorrente, com uma base ampla de baixa renda, um estrato intermediário reduzido e um topo altamente concentrado.

Essa configuração explica por que o emprego cresce, mas não garante segurança, a renda aumenta, mas não altera a posição social e o crescimento econômico não se traduz em mobilidade significativa.

Por que redistribuir é tão difícil

A persistência da desigualdade está diretamente ligada à dificuldade de implementar políticas redistributivas.

A história brasileira mostra que iniciativas nesse sentido encontraram resistência recorrente. O governo de João Goulart (1961–1964), que propunha reformas estruturais, foi interrompido por um golpe de Estado. Décadas depois, o segundo governo de Dilma Rousseff (2015–2016) foi encerrado por impeachment em um contexto de forte conflito político e distributivo.

O governo de Luiz Inácio Lula da Silva conseguiu implementar políticas redistributivas relevantes, como a valorização do salário mínimo e programas de transferência de renda, em períodos favoráveis da economia brasileira, mas sempre dentro de limites bem definidos, como ocorre de forma mais clara em seu terceiro mandato.

Há que se destacar, além disso, que ocorreram avanços importantes na legislação tributária que passarão a vigorar em 2027 e que deverão acelerar as melhorias na redistribuição da riqueza.

Instituições, elites e bloqueio distributivo

A persistência desse quadro não pode ser explicada apenas por fatores econômicos. Ela está associada a uma configuração institucional e política que limita a capacidade de redistribuição.

O Congresso Nacional, com predominância de forças de centro-direita, direita e extrema-direita, tende a resistir a mudanças mais profundas na estrutura distributiva. Medidas como tributação progressiva, taxação de lucros e dividendos e ampliação consistente do gasto social enfrentam resistências recorrentes deste campo político.

A atuação de setores empresariais e financeiros junto aos três poderes da República, somada à influência da mídia corporativa na definição da agenda econômica e política, reforça o quadro de resistência às políticas de redistribuição de renda.

A desigualdade, nesse sentido, não é apenas herdada — ela é continuamente reproduzida.

Entre melhora, memória e frustração

O ponto decisivo não está apenas na estrutura, mas na forma como ela é percebida ao longo do tempo.

Entre 2003 e 2014, durante os governos de Luiz Inácio Lula da Silva e o primeiro governo de Dilma Rousseff, houve uma ampliação significativa do acesso ao consumo e melhora consistente das condições de vida.

Milhões de brasileiros passaram a acessar bens, serviços e oportunidades antes inacessíveis. Disparou a compra de fogões e geladeiras, de televisores de telas grandes, de automóveis populares. Pela primeira vez, milhares de famílias viram seus filhos alcançarem a universidade e os colégios técnicos. Mais do que indicadores, esse período produziu uma experiência concreta de mobilidade social. Essa experiência redefiniu e ampliou expectativas.

A partir de 2012–2013, esse ciclo foi interrompido. O crescimento econômico desacelerou, o mercado de trabalho perdeu dinamismo e os ganhos passaram a ser mais limitados. O que era trajetória ascendente passou a ser vivido como estagnação.

É nesse contexto que emergiram as Jornadas de Junho de 2013. As manifestações expressaram uma insatisfação difusa, marcada não apenas por carências materiais, mas sobretudo pela frustração com a interrupção de um processo de avanço.

A frustração decorreu menos da ausência de progresso e mais da quebra de expectativas.

Nos anos seguintes, esse processo se articulou com a crise econômica e o conflito político, culminando no impeachment de Dilma Rousseff e abrindo caminho para a eleição de Jair Bolsonaro.

O que se observa é uma sequência de experiências sociais de acesso à renda: ascensão, interrupção e frustração.

O indivíduo pode ter mais oportunidades de emprego, ganhar um pouco mais, consumir um pouco mais — mas continua distante dos padrões de estabilidade e segurança que definem as camadas mais altas da sociedade. A mobilidade existe, mas é estreita. O avanço é real, mas insuficiente.

Essa experiência gera uma frustração difusa, que não aparece de forma imediata nos indicadores, mas se expressa na percepção social.

Quando a desigualdade não gera a demanda de uma política redistributiva

Um dos aspectos mais relevantes desse quadro é que a desigualdade não se traduz automaticamente em comportamento político de demanda à redistribuição. Isso ocorre porque a decisão eleitoral é mediada por outros fatores — especialmente a percepção de insegurança, os valores culturais e as narrativas políticas.

A desigualdade é, ao mesmo tempo, visível e invisível. Visível em seus efeitos concretos; invisível em sua inserção na pauta política.

A desigualdade explica por que o crescimento não se converte em bem-estar generalizado, por que o trabalho não garante segurança e por que a economia, mesmo quando melhora, não organiza sozinha o comportamento eleitoral.

A desigualdade permanece como condição de fundo, mas não condiciona diretamente o voto.

O eixo silencioso da política brasileira

O Brasil chegou a 2026 com uma combinação particular: melhora parcial dos indicadores econômicos, persistência da desigualdade estrutural e memória recente de um ciclo de mobilidade interrompido.

Essa memória é decisiva.

Não se trata apenas da posição social atual, mas da distância entre expectativas formadas e possibilidades reais.

É nesse intervalo — entre dados, experiência e memória — que se forma a interpretação do país feita pelo eleitor. E é essa interpretação, mais do que os indicadores em si, que orienta o comportamento eleitoral.

Colaborou: Maria da Graça Pinto Bulhões

Foto da capa: Desigualdade social no Brasil – Foto de Wilson Dias/Agência Brasil


Nota editorial e fontes

As análises foram elaboradas com base em dados oficiais e estudos comparativos, com apoio de ferramentas de inteligência artificial e revisão da equipe da RED.

Fontes:
Banco Mundial; Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada; Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL); Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e FMI.


Leia também:

Artigo 1 da Série Brasil 2026: entre dados, percepções e narrativas – como se decide o voto em um país sob tensão — Trabalho e percepção: pleno emprego sem bem-estar no Brasil

Artigo 2 — Renda, custo de vida e dívida: quando o dinheiro não chega ao final do mês

Sobre o autor

Benedito Tadeu César - ChatGPT Image 14_02_2026, 18_08_34
Benedito Tadeu César
Benedito Tadeu César é mestre em antropologia social e doutor em ciências sociais, ambos pela UNICAMP, cientista político e professor aposentado da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Foi docente da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), jornalista e direitor dos jornais Posição (ES) e Sul 21 (RS). Especialista em democracia, partidos políticos e análise eleitoral, poder e soberania, integra a Coordenação do Comitê em Defesa da Democracia e do Estado Democrático de Direito e é diretor da RED - Rede Estação Democracia.

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