A economia mundial atravessa, de fato, um período de elevada complexidade sistêmica, cuja compreensão exige ir além da descrição conjuntural e alcançar suas raízes estruturais. A crise iniciada em 2008 não foi um evento isolado, mas a manifestação de desequilíbrios acumulados ao longo de décadas, associados à financeirização da economia, à desregulamentação dos mercados e à reconfiguração das relações entre Estado, mercado e sociedade. Desde então, a economia mundial não se recuperou. O crescimento econômico vem sendo baixo há 17 anos, caracterizado por insuficiência de demanda agregada, baixos investimentos produtivos e desaceleração do progresso tecnológico em termos de impacto sobre a produtividade, em um período que pode ser batizado como “a grande recessão”.
No passado, o capitalismo foi reformado. No século XIX, aprovou-se a legislação antitruste e proibiram-se doações empresariais em campanhas eleitorais. Durante a década de 1930, foram implementadas medidas estruturais que incluíram a regulação do sistema financeiro, o fortalecimento do setor agrícola e a criação do Estado de bem-estar social, estabelecendo, assim, as bases institucionais que possibilitaram o longo ciclo de prosperidade observado no período pós-Segunda Guerra Mundial (1948–1972). Em outras palavras, a evolução histórica do capitalismo revela sua capacidade de adaptação, materializada na implementação de reformas institucionais profundas. Exemplos disso incluem as transformações promovidas no âmbito do New Deal e, posteriormente, as mudanças estruturais consolidadas no período pós-Segunda Guerra Mundial, com a afirmação do Estado de bem-estar social (EBS). Todavia, da “crise” do EBS germinou o cenário atual.
Criado como resposta às falhas de mercado e às profundas desigualdades geradas pelo capitalismo industrial, o Estado de bem-estar social (EBS) enfrenta desafios significativos. Entre eles, destacam-se as limitações fiscais dos Estados e as crescentes pressões ideológicas, frequentemente ancoradas em orientações neoliberais de caráter dogmático e, em muitos casos, anacrônico, que questionam a sua legitimidade e restringem a sua capacidade de atuação. No entanto, a retração do Estado de bem-estar social (EBS) ocorre em um contexto paradoxal, no qual suas funções centrais — como a proteção social, a redução das desigualdades e a estabilização socioeconômica — não apenas permanecem necessárias, mas, de fato, tornaram-se ainda mais demandadas diante das transformações e crises contemporâneas. Se a nova etapa do capitalismo coloca dificuldades aos países para financiarem o EBS, é também muito difícil viver sem ele, o que evidencia uma crise de legitimidade do modelo econômico neoliberal. O problema central reside no facto de, no contexto atual, não se vislumbrar uma configuração de economia política capaz de viabilizar reformas consistentes e de instituir novos mecanismos eficazes de regulação. As dificuldades tornam-se ainda mais complexas pelo facto de não se limitarem à esfera económica, estendendo-se igualmente aos domínios político e institucional, onde se entrelaçam e se reforçam mutuamente. O desafio atual reside na ausência de coalizões políticas capazes de promover reformas equivalentes. O enfraquecimento dos sindicatos, dos partidos de massa e de determinados segmentos da administração pública comprometeu significativamente a capacidade de atuação das forças sociais e institucionais que poderiam promover a sua reforma e contribuir para um maior equilíbrio do sistema. Ou seja, reduziu a capacidade de articulação de interesses coletivos, dificultando a construção de consensos às mudanças estruturais.
No núcleo da atual dinâmica está a transformação das bases clássicas do capitalismo — trabalho, terra e dinheiro. Em relação ao trabalho, sua mercantilização atinge níveis elevados. O trabalhador perde o poder de barganha diante da globalização, do enfraquecimento proposital dos sindicatos e da automação. Os salários permanecem abaixo do nível de produtividade, a participação do trabalho na renda nacional diminuiu consideravelmente em diversos países e o desemprego atinge patamares elevados. A flexibilização das relações trabalhistas, frequentemente justificada pelos liberais como “necessária à competitividade”, resulta em insegurança econômica, no aumento da informalidade e da precariedade laboral.
Ao mesmo tempo, há excessivo endividamento, tanto do setor público quanto das empresas e das famílias, acompanhado por um forte aumento da desigualdade de renda, com os mais ricos aumentando expressivamente sua participação na renda nacional. A concentração de renda reduz o consumo das camadas médias e baixas (que têm maior propensão marginal a consumir), enfraquecendo a demanda e retroalimentando o ciclo de baixo crescimento. Essa característica não é apenas um efeito colateral, mas um elemento central desse modelo. A crescente concentração de capital nas mãos de uma pequena e seleta parcela da população tem direcionado esses recursos predominantemente ao sistema financeiro, em busca de maior rentabilidade. Esse movimento contribui para a formação de bolhas especulativas e acentua a instabilidade económica, ampliando os riscos sistêmicos e a vulnerabilidade do conjunto da economia
Entretanto, a regulação do sistema financeiro permanece insuficiente para acompanhar a crescente complexidade dos mercados contemporâneos. Observa-se a proliferação de mecanismos cada vez mais sofisticados de valorização do capital no circuito financeiro, ao mesmo tempo em que se intensificam os canais de interação — e, por vezes, de captura — entre o Estado e os grandes grupos financeiros. Esse cenário tem contribuído para o aumento de práticas questionáveis, incluindo casos de corrupção e o uso recorrente de paraísos fiscais como estratégia de evasão e otimização tributária. Há bilhões em incentivos fiscais e isenções e o lobby empresarial é muito grande. Além disso, amplia consideravelmente a simbiose entre grandes corporações e o sistema político.
As grandes corporações contribuem amplamente para as campanhas políticas em países como os EUA, com forte influência no processo eleitoral. Por sua vez, os mais ricos não estão dispostos a pagar um preço para viabilizar uma sociedade mais justa e concentram-se em maximizar a renda às custas dos não ricos. As empresas recorrem às suas redes de influência não apenas para se protegerem da concorrência, mas também para obter acesso privilegiado a contratos públicos e a recursos financeiros, consolidando vantagens estratégicas que reforçam seu poder econômico e reduzem a equidade no mercado. Tudo isso afeta a produtividade e a competitividade da economia ao refletir no funcionamento da democracia, que se enfraquece, com reflexo na descrença da sociedade na participação política, em específico entre os mais pobres. Enquanto isso, os bancos permanecem grandes demais para falir. Quando estes entram em crise, as perdas são socializadas, ao passo que os lucros continuam apropriados de forma privada. Passada a crise, lucros, bônus e dividendos no setor financeiro voltaram aos níveis anteriores, alimentados por injeções de dinheiro. Desse modo, um sistema que coloca o lucro como objetivo absoluto, sem considerar limites ou finalidades sociais, acaba corroendo as bases éticas e morais sobre as quais se estruturou o capitalismo do período pós-guerra. Isso alimenta a crise da democracia liberal
Dito de outro modo, a influência do poder econômico sobre decisões públicas distorce a alocação de recursos, reduz a concorrência e compromete a legitimidade democrática. Esse processo, frequentemente caracterizado como “captura do Estado” por interesses privados — sobretudo os de natureza rentista —, reforça a percepção de que as instituições deixam de atender à maioria da população e passam a servir a uma elite reduzida. Nesse cenário, a redução da participação política, aliada à ascensão de lideranças populistas de caráter extremista, evidencia um crescente descontentamento com o status quo. No entanto, tais movimentos, sustentados por um falso nacionalismo, pela exclusão e por práticas autoritárias — características diretamente associadas à extrema direita —, apresentam respostas simplistas a problemas complexos, promovendo intencionalmente o aumento da instabilidade institucional, fortalecendo a xenofobia, o racismo e a polarização social, dentre outras práticas.
A integração entre os países cresceu significativamente nas últimas décadas, assim como as questões supranacionais que afetam os países conjuntamente. Questões como migração, crime, epidemias são bons exemplos. A isso se soma a escalada recente de conflitos bélicos, que traz incerteza à economia internacional. No entanto, em vez de se observar um esforço consistente para fortalecer as instituições e aprimorar os mecanismos capazes de enfrentar desafios complexos, vemos a reeleição de um presidente de uma das nações mais ricas e influentes do mundo que demonstra desprezo pelos princípios democráticos, pela cooperação internacional e pelos processos de negociação global. Essa atitude não apenas compromete a capacidade daquele país de atuar de forma responsável no contexto internacional, mas também sinaliza uma erosão das normas políticas internas, incentivando a polarização, a desconfiança social e a fragilização das estruturas institucionais que deveriam garantir estabilidade e governança eficaz. O sistema político exerce uma função central tanto para a resiliência, como para a ineficiência do modelo.
Em síntese, superar esse cenário demandará mais do que meros ajustes econômicos: será necessário promover uma reconfiguração profunda das instituições, redefinir as relações de poder e reconsiderar as prioridades sociais, de modo a assegurar maior equidade, estabilidade e resiliência diante dos desafios contemporâneos. Esse processo requer uma reflexão profunda sobre a maneira como os recursos são alocados, sobre os mecanismos que orientam a tomada de decisões políticas e sobre como essas decisões podem ser efetivamente alinhadas aos interesses coletivos, de modo a promover o bem-estar geral, reduzir desigualdades e fortalecer a coesão social. Além disso, envolve o repensar das estruturas de governança e a participação cidadã para garantir que as políticas públicas respondam de forma justa e eficiente aos desafios contemporâneos. Sem isso, o risco não é apenas de novas crises, e sim de um processo prolongado de instabilidade econômica, política e social. É um contexto de gravidade e pessimismo, capaz de agravar muitos dos problemas do capitalismo, conduzir a novas crises e, eventualmente, a uma derrocada do sistema econômico e social, causando instabilidade e sofrimento a grandes parcelas da população.
Foto de capa: IA





