Santos gigantes e praças da Bíblia se multiplicam pelo Brasil com dinheiro público

Última edição em abril 14, 2026, 02:59

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Se um autor de realismo mágico inventasse que estátuas gigantes de santos católicos brotam pelo interior do Brasil, enquanto bíblias de concreto e batistérios públicos se multiplicam em praças de periferia, seria um bom enredo. O problema é que isso não é ficção. E que o financiamento desses monumentos, muitas vezes, é o dinheiro público.

Ao longo das últimas duas décadas, estátuas colossais de santos surgiram, sobretudo, em cidades do interior do Nordeste. Em Santa Cruz, no Rio Grande do Norte, os pouco mais de 35 mil habitantes convivem com uma das maiores estátuas religiosas do mundo, uma Santa Rita de Cássia de 56 metros de altura. Inaugurada em 2010, a construção custou 6 milhões de reais, a maior parte financiada com verbas públicas.

O caso não é isolado. No Crato, no Ceará, uma Nossa Senhora de Fátima de 54 metros foi inaugurada no ano passado com financiamento público. Em Elói Mendes, Minas Gerais, um Cristo de quase 40 metros supera o Redentor carioca numa cidade de 20 mil habitantes. Em Barbalha, também no Ceará, um Santo Antônio de quase 30 metros. Em Jucás, no mesmo estado, uma Nossa Senhora do Carmo de 40 metros. Em levantamento do meu grupo de pesquisa, o Passagens, da UFRJ, já são mais de 20 estátuas desse tipo pelo país.

A justificativa oficial para essas construções é quase sempre a mesma, turismo. As estátuas atrairiam visitantes e gerariam renda para os municípios. O argumento é frágil. Por mais que possa haver turismo religioso na região, nessas cidades a infraestrutura hoteleira é tímida, não há aeroportos, o acesso rodoviário é precário, o transporte público, inexistente. O investimento público encontraria destino mais republicano se fosse direcionado para isso e não para a construção do santo. 

A explicação que apela ao turismo esconde outra camada da disputa que organiza esse fenômeno, a competição entre católicos e evangélicos pela ocupação religiosa do espaço público.

Há mais de uma década pesquisadores como Emerson Giumbelli têm chamado atenção para a disputa do espaço público brasileiro por meio de monumentos religiosos. Se no universo católico os temas dos monumentos são os santos, no campo evangélico são as bíblias. Desde 2000, dezenas de municípios instalaram bíblias no centro de suas praças. De Brasília, passando pela Baixada Fluminense até o Amapá, em todas as regiões do país há Praças da Bíblia. 

Mais recentemente, uma nova modalidade ganhou forma, os batistérios públicos. Em Macapá, no ano passado, a prefeitura inaugurou o Primeiro Batistério Público Evangélico do Rio Amazonas. Trata-se de um espaço às margens do rio, construído para facilitar os batismos. No Rio de Janeiro, também em 2025, na mesma praça em que Edir Macedo começou a pregar, dando origem à Igreja Universal do Reino de Deus, a prefeitura inaugurou o primeiro batistério público do município. 

Em um país cujo número de católicos declarados cai ano após ano, a construção de estátuas gigantes de santos é também uma tentativa de afirmar, em ferro e bronze, literalmente, que este ainda é um país católico. Quanto menos católico o país se declara, maior a estátua do santo.

Do outro lado, as praças da Bíblia são muitas vezes resultado de projetos de vereadores e deputados que se apresentam como representantes dos evangélicos. Ao chegarem aos mandatos, oficializam nos municípios marcos simbólicos, o dia da Bíblia, o reconhecimento da Marcha para Jesus, e os monumentos. Se as estátuas católicas afirmam permanência, as praças evangélicas reivindicam legitimidade.

Estátuas e monumentos são uma das principais formas dos Estados nacionais construírem seu panteão simbólico. Na independência, Dom Pedro I. Na república, os heróis militares. No Estado Novo, Getúlio. No século XXI, santos e bíblias.

Foto de capa: Peregrinos visitam o Caminho dos Devotos, entre Presidente Prudente e Regente Feijó, no interior paulista | Agesner Monteiro/Arquivo pessoal

Sobre o autor

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Rodrigo Toniol
Professor de antropologia da UFRJ, é membro da Academia Brasileira de Ciências.

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