Por Solon Saldanha *
A marreta que golpeia o gesso na pequena aldeia cristã de Debl, no sul do Líbano, não estilhaça apenas uma imagem sagrada: ela fragmenta o que resta de um consenso ético sobre o respeito à fé alheia em tempos de guerra.
O registro de um militar das Forças Armadas de Israel utilizando uma marreta para decapitar uma imagem de Jesus Cristo expõe mais uma camada do esgotamento moral que acompanha os conflitos contemporâneos. O episódio, ocorrido no último domingo, 19 de abril, em solo libanês, transcende o vandalismo religioso para se tornar o sintoma de uma desumanização que avança sobre símbolos e dignidades.
As imagens, que circularam amplamente pelas redes sociais, mostram o soldado desferindo golpes repetidos contra o ícone. A aldeia de Debl, uma comunidade cristã, tornou-se o cenário de um gesto que ignora a convenção do respeito ao sagrado e à cultura do próximo. Aquele território permanece ocupado, assim como dezenas de outros nas proximidades, sem perspectivas de libertação.
Reações oficiais e o debate sobre a barbárie
Em resposta, o comando militar israelense confirmou a autenticidade do vídeo, classificando a conduta como um ato isolado e prometendo punições. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu também se manifestou, tentando distanciar a imagem do Estado da ação individual do combatente. Tal justificativa, contudo, é recebida com ceticismo por parte da comunidade cristã, que observa o histórico tanto do líder israelense quanto das forças de ocupação.
Para além das notas oficiais de repúdio, o fato levanta o debate sobre a “barbárie como rotina”. Quando a destruição de símbolos de fé é registrada por seus próprios autores e compartilhada como conteúdo de entretenimento ou vitória, percebe-se que a ética humana está se dissolvendo em favor do culto à força bruta.
O incidente ocorre em um momento de fragilidade absoluta na região, onde o cessar-fogo recém-estabelecido parece incapaz de estancar o ódio entranhado nas instituições e nos indivíduos. O martelo que golpeia a imagem é o mesmo que, simbolicamente, atinge a possibilidade de uma convivência baseada na dignidade e no respeito mútuo entre judeus, muçulmanos e cristãos.
* Solon Saldanha, jornalista e escritor
Foto: Soldado israelense bolpeia imagem de Jesus. Crédito: reprodução Virtualidades




